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HOUEI-NENG
LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985
- Hui-neng é reconhecido como o primeiro grande mestre da doutrina súbita pelo fato de ter alcançado o Despertar de forma espontânea e repentina, sem ter recebido ensino formal, sendo descrito como um bárbaro iletrado cuja iluminação dispensou qualquer preparação gradual.
- O Sutra do Palco narra a história de Hui-neng em seu primeiro capítulo
- A expressão doutrina súbita designa a via do despertar imediato, sem etapas progressivas de purificação ou aprendizado
- Ainda jovem, Hui-neng perdeu o pai, demitido de suas funções e exilado, e foi forçado junto com a mãe a refugiar-se em Cantão, onde ambos sobreviviam vendendo lenha no mercado.
- A situação de pobreza extrema marcou a origem social humilde de Hui-neng
- Cantão foi o cenário do início de sua trajetória espiritual
- Ao sair do estabelecimento de um cliente após uma entrega de lenha, o jovem Hui-neng ouviu alguém recitar o Sutra do Couperet de Diamante e seu espírito foi imediatamente despertado ao sentido das palavras pronunciadas.
- O Sutra do Couperet de Diamante é conhecido em sânscrito como Vajracchédika-sutra
- O despertar se deu sem meditação, sem instrução prévia e sem esforço deliberado — apenas pelo contato auditivo com o texto sagrado
- Com um donativo recebido de um benfeitor para prover a mãe, Hui-neng pôde dirigir-se ao mosteiro de Hong-jen, o quinto Patriarca, de onde vinha o recitante do sutra, mas sua origem humilde o relegou às cozinhas, onde pilava arroz, tendo tido apenas uma entrevista com o mestre.
- Hong-jen era o quinto Patriarca da linhagem Chan
- A posição subalterna de Hui-neng no mosteiro contrastava com sua capacidade espiritual
- No episódio das estâncias, solicitadas por Hong-jen para designar seu sucessor, Hui-neng, autor da estância de inspiração súbita, foi convocado em segredo pelo Patriarca, que lhe transmitiu o Dharma à noite para não despertar suspeitas e ciúmes do Ancião, instrutor dos monges e autor da estância gradualista.
- O episódio das estâncias é referido por P. Demiéville em artigo citado no texto original
- Hong-jen expôs a Hui-neng o mesmo Sutra do Couperet de Diamante durante esse encontro noturno
- Ao chegar à frase “É preciso fazer nascer o pensamento que não permanece em lugar algum”, Hui-neng declarou ter sido subitamente e completamente iluminado, tomando consciência de que nada existe fora da natureza foncial.
- A citação pertence ao Sutra do Couperet de Diamante e constitui o gatilho da iluminação de Hui-neng
- A natureza foncial designa a natureza originária e absoluta do ser, equivalente à Natureza de Buda
- Por conselho de Hong-jen, Hui-neng fugiu e permaneceu oculto por longos anos antes de aparecer em público e exercer seu papel de mestre.
- A ocultação prolongada precedeu o início do magistério público do sexto Patriarca
- O ensinamento propriamente dito do sexto Patriarca começa no capítulo II, cuja grande Porta do Dharma é a Grande Perfeição de Sabedoria, e o texto se apresenta não como exposição doutrinária mas como alocução do Patriarca à assembleia de monges e leigos.
- Hui-neng é o sexto Patriarca da linhagem Chan
- A Grande Perfeição de Sabedoria corresponde ao termo sânscrito Mahaprájnaparamita
- O texto guarda semelhança, na abertura sobre o método supremo, com as obras de Bodhidharma e Tao-sin
- A alocução conduz os ouvintes capazes em direção ao passo decisivo — o salto no vazio e o alcance do objetivo
- Dirigindo-se aos seus amigos que busca despertar, Hui-neng mantém um discurso extremamente simples mas no fundo habilidoso, com tanta benevolência quanto autoridade persuasiva.
- O termo amigos indica a forma de tratamento com que o Patriarca se dirige à assembleia
- Desde o início, Hui-neng retoma o artigo essencial estabelecido por seus predecessores acerca da Natureza de Buda de todos os seres, fazendo o auditório repetir a palavra Mahaprájnaparamita para em seguida recusar a palavra dos lábios e apelar ao coração.
- O tradutor optou por renderizar o termo sino pelo equivalente coração, considerado mais adequado ao contexto
- O coração, no sentido profundo, designa uma consciência sutil e íntima pronta a despertar
- O mestre lança então a palavra maha, grande, aplicando-a ao coração, e utiliza o vazio como alavanca de uma metamorfose extraordinária: o coração é primeiro imensificado e identificado ao vazio, esvaziado de apegos, pares de opostos e diferenciações, e em seguida, no seio desse vazio, surgem as coisas em sua ainsidade, tal como são verdadeiramente, sendo o mundo inteiro o Domínio absoluto.
- A ainsidade designa a natureza das coisas tal como são em si mesmas, despojadas de projeções conceituais
- O Domínio absoluto corresponde ao termo sânscrito dharmadhatu
- As duas etapas — esvaziamento e surgimento — podem, na experiência vivida, coincidir em um único movimento
- O coração, espírito ou consciência, núcleo do ser que recuperou sua natureza real, infinita e perfeita, conhece tudo sem encontrar obstáculos, e esse alto cumprimento no instante, tornado possível pelo vazio vivido, é o que Hui-neng denomina Sabedoria — a própria eficiência da Natureza foncial ou Natureza de Buda.
- A Sabedoria corresponde ao termo sânscrito Prajna
- A Natureza foncial é equivalente à Natureza de Buda na terminologia de Hui-neng
- Desperto instantâneo para alguns, breve clarão para outros, simples aproximação para outros ainda, o processo exige vigilância perpétua e constitui toda uma prática — a da Grande Perfeição de Sabedoria — pela qual se reapreende a intuição de instante em instante.
- A prática é descrita como simultaneamente impulso do coração, retorno do espírito, tomada de consciência aguda, desapego e realização positiva
- Essa prática é denominada gesto místico — eminentemente simples e profundo, eminentemente difícil
- Fruto de uma vigilância de todos os instantes, a Grande Sabedoria torna-se espontânea e não se perde mais, e o desperto frui então do samadhi-de-Sabedoria, encontra-se fundamentalmente libertado e vive na não-pensée e no instante.
- O samadhi-de-Sabedoria designa um estado de absorção unida à intuição imediata
- A não-pensée corresponde ao termo chinês wou nien
- Se o que é eliminado é o coração ordinário e o que surge é o coração original, compreende-se a importância capital do coração como lugar em que se cumpre tal transmutação, e a escola indiana do Vidjanávada evoca, a propósito dessa transformação radical, o reviramento do suporte — a expulsão brusca da massa de impurezas que sustentava a consciência.
- O Vidjanávada é uma escola filosófica budista indiana centrada na análise da consciência
- O reviramento do suporte designa a ruptura radical pela qual a consciência ordinária cede lugar à consciência foncial
- A consciência discursiva ordinária desaparece enquanto se revela a consciência foncial, não-dual e sem limite, e a mesma escola indiana emprega a expressão citta-acitta — consciência-sem-consciência empírica — ao passo que Hui-neng fala de wou nien, a não-pensamento, que implica, no momento em que se pensa, a ausência de pensamento dualizante.
- A expressão citta-acitta pertence ao vocabulário sânscrito do Vidjanávada
- O wou nien, traduzido literalmente como não-pensamento, tem como sentido profundo a não-dualidade
- O termo não-dualidade é considerado excessivamente conceitual e por isso o texto prefere a expressão simplesmente desconcertante
- A iluminação não se tornou súbita com Hui-neng — ela sempre irrompeu no instante de uma ruptura abrupta e radical — mas o Patriarca demonstrava com sua própria trajetória que era possível alcançá-la sem os preliminares exigidos por tantas escolas, sem as lentas eliminações de obstáculos um a um, e sem a obstinação nos estados de quietude e impassibilidade que arriscam converter-se em inconsciência estéril.
- A vida de Hui-neng servia de prova viva de que o despertar dispensava as práticas graduais
- Para Hui-neng não há gradualismo nem subitismo em oposição — há apenas pessoas dotadas, prontas, de raiz superior, e outras de faculdades lentas, sendo importante não fazer os ardentes perderem-se nos meandros.
- A expressão raiz superior designa aqueles com capacidade espiritual aguçada e pronta para o despertar imediato
- Os de faculdades lentas, sob o efeito do ensinamento súbito, assemelham-se a plantas mal enraizadas que a chuva torrencial arranca
- A Sabedoria sendo a chave da doutrina e da prática de Hui-neng, o Patriarca resolve a questão da relação entre dhyana e prajna da forma mais simples: os dois não se equilibram nem são apenas simultâneos — constituem um mesmo corpo.
- O dhyana designa a meditação de absorção, estado de interioridade profunda
- O prajna designa a sabedoria intuitiva e imediata
- O dhyana só é digno desse nome se comporta vigilância e intuição, intensidade e acuidade sobre fundo de paz e desapego
- Não há Sabedoria sem o estado específico de interioridade que é preciso saber conservar em todas as circunstâncias
- A aliança do dhyana e do prajna tem necessidade e eficácia por uma razão capital: a absorção mais profunda no seio da paz e a sabedoria instantânea em todos os níveis — coração, palavra, pensamento, ato — são a própria natureza foncial.
- Os quatro níveis — coração, palavra, pensamento, ato — indicam a integralidade da experiência abarcada pela natureza foncial
- A prática da Grande Perfeição de Sabedoria, da intuição no instante, é o único método que Hui-neng propõe e ao qual incessantemente reconduz seus discípulos, deixando os exercícios laboriosos a outras escolas.
- A especificidade da escola de Hui-neng reside precisamente nessa centralidade exclusiva da intuição imediata
- Seria justo considerar também como método a entrevista abrupta e a observação provocante, que prefiguram a técnica de eliminação que a palavra e o gesto do mestre se tornarão posteriormente.
- Esses procedimentos aparecem em capítulos não citados no texto original
- A palavra e o gesto abruptos do mestre antecipam o desenvolvimento ulterior da pedagogia Chan
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