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budismo:hui-hai:pensamento

PENSAMENTO

LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985

Q. — Onde o pensamento deveria permanecer?

R. — Ele deveria estabelecer-se no lugar da não-permanência e ali fixar-se.

Q. — Que se deve entender por não-permanência?

R. — Isso significa que o pensamento não deveria estabelecer-se em lugar algum.

Q. — Qual é o significado de tudo isso?

R. — Não permanecer no bem, no mal, na existência, na não-existência, no mundo interior ou no mundo exterior, nem em lugares situados entre ambos; no vazio ou no não-vazio, na concentração ou na dispersão. Não se apegar a nada é o estado no qual ele deveria permanecer. Aqueles que alcançam esse estado são chamados “espíritos sem morada” — em outras palavras, são idênticos ao espírito de Buda.

Q. — A que tudo isso se assemelha?

R. — O espírito não tem cor, como verde ou amarelo, vermelho ou branco; não é nem longo nem curto; não desaparece nem aparece; está tão desligado da pureza quanto da impureza e permanece na eternidade. É completa tranquilização. Tal é a forma de nosso espírito originário, que é igualmente a forma do corpo do Buda.

Q. — De que maneira esse corpo ou espírito do Buda pode ser percebido? Pode-se percebê-lo com os olhos, os ouvidos, o nariz, o tato e a consciência?

R. — Podem ser percebidos, mas não por esses meios de percepção.

Q. — Visto que esses meios são inoperantes, de que maneira podem ser percebidos?

R. — Unicamente por uma percepção da natureza real. Por quê? Porque a natureza profunda é essencialmente pura, completamente vazia e tranquila. Sua “substância” imaterial e imóvel é a única capaz dessa percepção.

Q. — Mas se essa “substância” pura não pode ser descoberta, de onde tal percepção pode surgir?

R. — Pode-se compará-la a um espelho luminoso, no qual toda forma é visível, embora nenhuma nele esteja contida. Por quê? Porque o espelho é desprovido de atividade mental. Se os discípulos engajados no caminho estiverem sem impureza, nenhum erro surgirá em seu espírito e não se apegarão nem ao ego nem aos objetos exteriores que desaparecerão; então a pureza se elevará por si mesma e os tornará capazes de chegar a essa percepção. O Dharmapada Sutra diz: “Em um relâmpago penetrar no vazio último, eis a sabedoria!”

Q. — Segundo o Nirvana Sutra, a natureza de diamante dos seres não pode ser percebida e, no entanto, ela percebe claramente. Essa visão última não contém nada a incluir e nada a excluir. Como isso é possível?

R. — A natureza real é uma “substância” sem forma, intangível. Por isso, está além de toda percepção. Contudo, embora seja intangível, permanece profundamente calma; não vai nem vem; não é distinta do mundo, mas também não se move nele. Existindo por si mesma e soberana, repousa na paz de seu próprio ser. Eis a razão pela qual não pode ser claramente percebida. Por sua natureza própria, é ao mesmo tempo sem forma e fundamentalmente indiferenciada. Compreendendo todas as coisas em si, permite o todo indivisível das miríades de transformações, tão inumeráveis quanto os grãos de areia do Ganges. Se fosse possível distingui-las todas simultaneamente, o saber seria sem limite. Um gâthâ diz:

Prajna, embora não conhecimento, apreende tudo; Prajna, embora privada de visão, vê tudo.

Q. — Um Sutra diz: “Não perceber as coisas como existentes ou não existentes é obter a libertação.” Que significa isso?

R. — Quando o pensamento atinge o estado de perfeita pureza, pode-se dizer que algo existe. Quando isso ocorre, liberta-se de todo pensamento e pode-se então dizer que não se percebe a existência. Alcançar o estado em que os pensamentos já não se elevam nem persistem, sem contudo haver consciência de sua ausência, eis o que é não perceber a não-existência. Por isso está escrito: “Nada perceber em termos de existência e de não-existência”, etc. E o Sutra acrescenta: “As percepções utilizadas para construir conceitos positivos são a origem da ignorância (Avidya). A percepção de que não há nada a perceber, eis o nirvana, também chamado libertação.”

Q. — Que significa: nada a perceber?

R. — Considerar pessoas do sexo oposto e, de modo geral, tudo o que cai sob os sentidos, sem experimentar desejo nem repulsa, como se não se visse, equivale a uma ausência de percepção.

Q. — Quando se está em presença dos fenômenos, isso se chama percepção. Pode-se ainda falar de percepção quando já não se está em presença de nenhum fenômeno?

R. — Sim.

Q. — Quando algo se apresenta, pode-se dizer que há percepção. Mas como pode haver percepção sem essa confrontação?

R. — Fala-se, na verdade, de uma percepção que é independente de todo objeto. Como isso é possível? Sendo a natureza da percepção eterna, continua-se a perceber, quer os objetos estejam presentes, quer não. Em consequência, são os próprios objetos que vão e vêm; não é a faculdade de perceber que aparece e desaparece. O mesmo se dá com os outros sentidos.

Q. — Quando se olha algo, ele existe objetivamente ou não na esfera da percepção?

R. — Não.

Q. — Quando se olha ao redor e não se vê nenhum objeto, essa ausência tem existência objetiva na esfera da percepção?

R. — Não.

Q. — Quando um som é emitido, há audição desse som. Quando não há som emitido, há também audição?

R. — Sim.

Q. — Quando há emissão de som, ouve-se algo. Como pode haver audição na ausência de todo som?

R. — Fala-se aqui de uma audição que é independente, quer um som seja emitido, quer não. Como isso é possível? A faculdade de ouvir é eterna. Assim, há audição, quer um som seja emitido, quer não.

Q. — Se assim é, quem ou o que ouve?

R. — É a natureza própria, isto é, o conhecedor interior que conhece.

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