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esoterismo:bonardel:histeria-faustiana

"OBRA DAS MULHERES" CONTRA A HISTERIA FAUSTIANA

BONARDEL, Françoise. Philosophie de l’alchimie: grand œuvre et modernité. 1. éd ed. Paris: PUF, 1993.

  • Helena vive a tendência feminina do drama faustiano na duplicidade da alma e na perseguição de um infinito tentalizante, pois os homens não se unem nela senão a um ídolo cujo drama íntimo é o de saber-se como tal.
    • Uma chance de redenção lhe é oferecida por Mefisto disfarçado de Fórciade (velha intendente e Parca), que lhe propõe uma prova iniciática comparável à descida de Fausto às Mães: uma grande mulher velada anuncia que a sua morte ritual e sacrificial foi pedida por Menelau.
    • Helena, pressentindo a armadilha, subscreve mesmo assim à fuga: não desejo senão o fim desse labirinto, não desejo senão o repouso.
    • É Hermes que conduz o cortejo ao castelo de Fausto, mas como guia dos mortos, daqueles que, tendo eludido a morte iniciática, permanecerão a presa de Mefisto.
  • A atitude faustiana, diz Jung, deve cessar para que se realize a unidade do indivíduo, e essa unificação (individuação) é aos olhos de Jung o equivalente da busca da Pedra.
    • A atitude faustiana interdita a realização da Obra, subordinada à cessação do conflito entre o eu, que é estrutura e limitação, e o instinto proteiforme e sem limites.
    • Desse conflito irresolvido resultam traços sintomáticos que definem a patologia faustiana: a frieza camuflada em ativismo e a incapacidade de ser verdadeiramente tocado pelo problema moral que encarna.
    • Fausto não chega a suportar como uma verdadeira ferida capaz de desencadear uma transmutação do seu ser a fissura interior vivida na sua discordância estéril; o personagem não adquire nunca os caracteres do real e permanece um esquema: a ideia alemã do homem, oscilando entre a unilateralidade vaidosa e a dualidade dilacerada.
  • Um dos paradoxos engendrados pelo espírito faustiano é que lhe seja atribuída a histeria, qualificativo geralmente utilizado para designar uma doença tida como tipicamente feminina.
    • Esse mal consiste numa dissociação interior que ora exacerba as potencialidades por tensão entre os contrários, ora as aniquila pelas distorções que suscita; a ruptura de Fausto com o Espírito da terra prepara uma brilhante carreira à histeria faustiana.
    • A alquimia, pela reintegração dos contrários que supõe, é o antídoto da disposição histérica faustiana, mas não é por isso menos Obra de mulheres; restaurando uma unidade polarizada, o feminino da Obra reverteria a relação perversa ativismo masculino/histeria em verdadeiro trabalho, mas ao feminino.
    • A repercussão do entusiasmo faustiano ou o seu esgotamento predatório no infinito dos possíveis resultaria de uma deterioração da relação fundamental a um Lugar de que a Natureza foi, para os alquimistas e Naturphilosoph, o arquétipo, o antiformal criador de todas as formas.
    • Essa deterioração, oficializada pelo recuo das filosofias da Natureza no Ocidente, teve como consequência uma supervalorização da atitude faustiana, levando certos criadores, como Baudelaire, que se quis parfait chimiste, a abandonar a sua vida às finalidades de uma criação que deveria realizar o desejo de Obrar.
    • Essas vias convergirão no século XX na obra de Th. Mann, e mais precisamente no seu Doutor Fausto, que tornará legível a convergência entre a ruptura com a Natureza, a contaminação pela mulher tal como vivida por um faustiano e o papel criador da doença.
  • Ao inverso, Anaïs Nin, simultaneamente consciente da sua disposição histérica e preocupada com a questão da transmutação criadora, procurou preservar a especificidade de uma alquimia feminina de que o seu Diário se tornará o cadinho.
    • O Diário de Nin é um espelho de uma luta de sobrevivência entre os grandes espaços impessoais das imagens arquetipais percebidas como solares e masculinas e as periferias sem núcleo duro das diversas alquimias artísticas.
    • Nin considerou que a alquimia feminina era antes de tudo destruição da destruição operada pelo realismo e cinismo faustiano do homem; a sua intuição mais profunda foi ter pressentido que a posição da mulher era a de habitar o espaço intermediário sem ceder às solicitações de uma transmutação realizada: quero permanecer no plano do não transmutado, não transformado.
    • Groddeck veio também a pensar que só a mulher é suficientemente bárbara para transformar a cultura carcomida; essa barbárie manifesta-se em Nin como transmutação da histeria inicial numa alquimia que, renunciando a atacar os centros vitais como o faz o homem, protegeria a sua sobrevivência operando continuamente nas periferias.
    • A dimensão feminina da alquimia assumida por certos criadores poderia assim revelar-se o antídoto de um desgaste faustiano cuja origem a tradição cristã faz remontar ao primeiro incumprimento, feminino, do Espírito de Vida.
  • A situação arquetípica faustiana pode ser lida como reformulação da Queda adâmica agravada pela inflação de uma intelectualidade sem corpo.
    • No Prólogo no Céu, o Senhor da Criação confirma a liberdade do Homo viator e a possibilidade de uma alquimia cristã, enquanto Mefisto se alegra de que o pequeno deus do mundo seja ainda dividido de si, vulnerável e portanto recuperável.
    • A originalidade dos dois Fausto seria a de ter feito convergir essa situação muito arcaica com a corrente histórica que levava o homem do Ocidente a reviver de forma exacerbada uma dualidade inerente à sua decadência original.
    • Jung viu em Fausto o último momento e o turning point histórico da alquimia ocidental; ao falar de Fausto como um chevalier d'industrie, retoma consciente ou inconscientemente a expressão pela qual F. von Baader designava o homem decaído: uma espécie de sol apagado que cessa de iluminar e aquecer a terra, segundo E. Susini.
    • O Lobo das Estepes de H. Hesse é separado do mundo por uma espécie de vidro, e a sua esquizoidia parece a Hesse a neurose de toda uma geração que se ataca não aos indivíduos fracos, mas precisamente aos mais fortes e dotados, àqueles que possuem a maior intelectualidade.
    • Heidegger confirma que a auto-sedução tranquilizante constitui o ponto culminante da dinâmica faustiana do homem teórico ocidental: o tranquilização no ser inautêntico não conduz à inércia mas empurra para o frenesi do agitação, e o Dasein precipita-se a si mesmo na ausência de solo e na nulidade da quotidianidade inautêntica, explicitada como progresso e como vida concreta.
  • Fora de uma resposta especificamente cristã face a tal queda em forma de auto-alienação sedutora, a única outra procedimento de desengajamento é o alquímico, por esgotamento do esgotamento faustiano.
    • Não se pode reduzir Fausto a um percurso alquímico mais ou menos conseguido, nem contentar-se em recensear os símbolos da Obra dispersos no tecido dissociado da cultura faustiana ocidental, sem pôr de forma mais essencial a questão da transmutação do espaço mesmo dessa cultura, dilacerada entre o seu Oriente e o seu Ocidente.
    • Edgar Quinet formulou esse dilaceramento: o ceticismo do Oriente e o do Ocidente se confrontam na dupla blasfêmia de Fausto e de Mefistófeles; dois gênios, duas filosofias, dois mundos se entrechocam nesse diálogo maldito.
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