User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
esoterismo:canseliet:cyrano-de-bergerac-philosophe-hermetique

CYRANO DE BERGERAC, FILÓSOFO HERMÉTICO

Les Cahiers d'Hermès I. Rolland de Renéville (dir.). La Colombe, 1947.

TEXTO ORIGINAL

  • A literatura transformou a figura histórica de Cyrano de Bergerac em personagem de reputação quase universal, impondo verdades ao grande público pelos meios mais diversos.
    • Edmond Rostand foi o responsável pela peça que consagrou Cyrano no imaginário popular.
    • A Verdade pode ser imposta mesmo pelo espetáculo ruidoso das multidões.
  • A comédia de Rostand estreou em 28 de dezembro de 1897 no teatro da Porte-Saint-Martin e obteve sucesso delirante por sintetizar qualidades da alma francesa, como fantasia, graça e ideal cavalheiresco.
    • A imprensa foi unanimemente conquistada pela peça.
    • O talento poético de Rostand, com rimas cintilantes e cadência alerta, está na origem do triunfo.
    • O primeiro ato transborda de imaginação e saillies constantes, com Cyrano divertindo-se com a alegria que provoca.
    • A tirada do nariz desencadeia mais hilaridade do que o próprio gesto que acompanha as palavras.
  • A intuição de Rostand ao dar a Cyrano a linguagem dos deuses para cantar o nariz gigantesco aproxima, sem que o poeta o saiba, o Cyrano real do cura truculento Rabelais, cujo pseudônimo Alcofribas Nasier é anagrama de François Rabelais e contém referências herméticas e alquímicas.
    • Nasier remete ao nariz, enquanto Alcof deriva de alcofol, registrado por dom Pernety no Dictionnaire Mytho-Hermétique.
    • Ribas remete a ribau, na acepção antiga de galante e amante galhofeiro.
  • É necessário diferenciar o homem de gênio cujo nome se esfuma na bruma da história do espadachim grandiloquente que Rostand transformou em Alceste militar tingido de belas-letras e amante tímido.
    • O terceiro ato violenta a verdade histórica ao fazer Cyrano, de repente resignado, contentar-se com o papel de intermediário amoroso.
  • Do fato de possuir um nariz monumental, símbolo fisiológico de suas faculdades, Cyrano tirava deduções vantajosas sobre o olfato como sede do faro precioso na busca das verdades naturais.
    • Em Vautre monde, o tempo é fator capital e quem não tiver nariz suficientemente longo para defini-lo será impiedosamente castigado.
    • Os Selenianos declaram que um grande nariz é sinal de homem espiritual, cortês, afável, generoso e liberal.
  • O Cabinet des Estampes da Bibliothèque Nationale possui quatro retratos de Cyrano que o mostram como belo jovem de olhos inteligentes e doces, com boca pequena, sensual e levemente desdenhosa, sem que o nariz desfigure o oval do rosto.
    • A gravura mais autêntica é uma água-forte executada a partir de quadro pintado na casa dos nobres Le Bret e de Prade, amigos íntimos de Savinien de Cyrano de Bergerac.
    • O pintor identificado pelas iniciais Z. H. é Zacharie Heince, nascido em 1611 em Paris, morto em 22 de junho de 1669.
    • Uma das gravuras anônimas traz um quarteto laudatório ao microcosmo dos sábios, no qual gravitam o Sol e a Lua herméticos.
  • O quarteto da gravura, apesar do tom de calma sabedoria, evoca a invocação febril de Blaise Pascal na sua revelação total, cuja enigma manuscrita do escapulário foi explicada por Fulcanelli em Les demeures philosophales.
    • Na carta contra um pedante, Cyrano afirma seu acesso ao conhecimento supremo ao declarar conhecer Deus.
    • Cyrano usava o círculo com ponto central, símbolo alquímico do ouro ou sol filosófico, para exercitar seu trocadilho, hábito particular de todos os irmãos em Hermes.
    • Segundo d'Assoucy, antigo amigo de Cyrano, o nome Cyrano decomposto como rébus dá Cir an O, ou seja, o Mago-Rei posicionado no centro de um círculo.
  • Cyrano de Bergerac fechou sobre sua estranha personalidade o círculo impenetrável do mistério, e a obscuridade sobre esse homem persiste enquanto biógrafos se debatem entre datas raras e fatos imprecisos.
    • A cidade de Bergerac, no Périgord, reivindicou até o fim do século XIX o nascimento do escritor, autorizada pelos antigos editores de Cyrano.
    • Savinien de Cyrano Bergerac nasceu em Paris, na paróquia de Saint-Sauveur, em 6 de março de 1619, conforme ele mesmo faz dizer a Thomas Campanella no país do sol.
    • O arquivista A. Jal, ao longo de vinte anos de pesquisa nos registros destruídos pelo incêndio da Comuna, revelou a ascendência materna de Cyrano.
    • Seu pai, Abel I, casou-se em 3 de setembro de 1612 com Espérance Bellanger, filha do rico burguês parisiense Antoine Bellanger.
  • A família Bellanger explica a filiação secreta de Cyrano à tradição hermética, pois o homem não pode atingir por esforços próprios a via real e universal sem iniciação transmitida por mestre ou tradição cabalística.
    • Nicolas Flamel afirma que os princípios da filosofia não se encontram em livro algum, pois Deus os revela a quem lhe apraz ou faz ensiná-los de viva voz por mestre, por tradição cabalística, o que ocorre muito raramente.
    • Os Bellanger manifestavam o orgulho da ciência de Hermes em seus brasões parlantes, conforme o manuscrito 8217 da coleção Clairambaut, conservado na Bibliothèque Nationale.
    • A epítáfia dos avós maternos de Cyrano estava no quadragésimo quinto pilar da igreja Saint-Eustache, em Paris.
  • O escudo de guelhas com estrela de ouro formada por dois triângulos e carregada de outra estrela de cinco raios constitui o selo de Salomão, sinal da Pedra Filosofal ao vermelho, na qual os quatro elementos se uniram de forma indissolúvel.
    • A harmonia suprema da matéria sintetizada só pode ser realizada pelo mercúrio dos filósofos, aqui notado pelo símbolo antigo do pentáculo pitagórico.
    • O brasão da avó Fleurance traz azul evocando o elemento úmido e uma espiga de cevada figurando a grande fecundidade, com a cabala fonética reforçando o sentido pelo grego orgas, fértil, madura.
    • Dois rosários de prata circunscrevem duas rosas de prata em chefe, sublinhando a importância da oração conforme a segunda prancha do Mutus Liber.
  • Passagens inteiras da obra filosófica de Cyrano poderiam ser intercaladas nos textos dos alquimistas mais reputados, ilustradas pela Parole délaissée de Bernard le Trévisan, que estudou a ciência hermética por mais de sessenta anos a partir dos quatorze anos de idade, nascido em Pádua em 1406.
    • Bernard le Trévisan cita o Songe Vert e o Texte d'Alchymie como guias práticos da Pedra vegetal.
    • O velho Elie do Songe Vert corresponde ao guia de Bergerac no Éden, descrito como ancião venerável, belo e perfeitamente proporcionado.
    • O guia do Songe Vert segura com o pé esquerdo um globo terrestre, sustenta com o dedo um globo celeste e traz na mão esquerda uma chave de diamante bruto.
    • Cyrano é cabalista de primeira ordem, e seu velho Elie é um estrangeiro que fala sua língua, a língua universal e matriz, especificamente a língua dos pássaros.
  • A língua dos pássaros retorna constantemente nas viagens extraordinárias de Cyrano, qualificada de universal e matriz, e Cyrano a entendia mais rápida e claramente do que o francês assimilado com o leite da ama.
    • O francês e o gaulês guardam o Verdadeiro científico, enquanto os idiomas que dele se afastam ficam abaixo da concepção e da inteligência fácil.
    • A prática das ciências exige o conhecimento da Língua universal e o estudo aprofundado da Filosofia natural, especialmente na alquimia.
    • A lenda de Jasão e os carvalhos de Dodona, que falam grego, tem significação alquímica clara: Jasão construiu o navio para a conquista do Velocino de Ouro.
  • A iconografia simbólica figurou frequentemente o sujeito mineral dos sábios pelo rochedo árido que sustenta uma árvore vigorosa carregada de frutos, motivo presente na obra de Cyprian Piccolpassi sob as palavras latinas sic in sterili.
    • Piccolpassi nomeia sua matéria prima de balão de terra, que em cabala fonética se lê mon sel, meu sal.
    • O rochedo de Cyrano é superbo e dotado de raízes que evocam sua virtude vegetativa, coberto de jovens árvores verdes e frondosas.
  • A dupla influência de Descartes e de Gassendi se faz sentir nas viagens imaginárias de Cyrano, e Fontenelle, nascido dois anos após a morte do filósofo, encontrou nelas material para seus Entretiens sobre o movimento dos mundos e sua pluralidade.
    • Gassendi empregou-se em combater o hermetismo junto com o padre Mersenne na obra de Robert Fludd, dito de Fluctibus.
    • Cyrano conheceu Molière entre os raros discípulos do sábio epicurista Gassendi.
    • Molière tomou ao Pédant joué de Cyrano duas cenas famosas das Fourberies de Scapin: o rapto de Léandre por um turco e o relato de Zerbinette a Géronte, incluindo a exclamação repetida que diable alloit-il faire à cette maudite galère.
  • A originalidade de Bergerac é evidente demais para que ele precisasse plagiar alguém, e segundo Le Bret, seu grande amigo que prefaciou a edição póstuma dos États et Empires de la Lune, ele só lia livros alheios para constatar seus furtos.
    • Le Bret declarou que, se Cyrano fosse juiz desses crimes, teria estabelecido penas mais rigorosas do que as aplicadas a ladrões de estradas.
  • Na esteira de Rabelais, sob a aparência de teorias audaciosas e com o estilo hérissé de traits, Cyrano conferiu às obras que consagraram sua glória o brilho e a sedução da eterna juventude.
    • Como o alquimista inglês Robert Fludd, que fez grande caso do orvalho, Cyrano, logo nas primeiras linhas, atrai a atenção para o astro das noites influenciando o elemento úmido.
    • A lua é tomada em seu ponto de exaltação extrema, e sua ação sobre o mercúrio dos sábios, chamado de lua filosófica, manifesta-se na condensação noturna recolhida pelo fogo.
    • O orvalho cozido liga estreitamente os Rosa-Cruz no seio de sua fraternidade invisível e universal.
    • Cyrano indica cabalísticamente a montanha da magnésia pelo nome do governador da Nova França, Monsieur de Montmagnie.
  • Cyrano insiste no orvalho mercurial e no artifício ígneo como duplo enigma expresso pelo aforismo latino Azoth et ignis tibi sufficiunt, o mercúrio e o fogo te bastam.
    • Cyrano concebeu para sua máquina voante a reação aplicada nos engenhos mais rápidos do século XX.
    • Cyrano provavelmente teve comunicação do manuscrito de Georges Starkey, boticário íntimo do Philaleta, em cujo laboratório o célebre adepto realizava transmutações.
    • O tratado de Starkey foi traduzido ao francês por Jean le Pelletier e impresso em Rouen em 1706 sob o título La Pyrotechnie de Starkey ou l'Art de volatiliser les Alcalis.
  • A sombra de Gerolamo Cardano, o homem mais espantoso da história do pensamento e da ciência, assombrava o gabinete de Bergerac, acompanhada dos fantasmas do rarissimo in-folio de Nuremberg, o De subtilitate rerum.
    • Cardano foi o primeiro a emitir a opinião de que o vácuo não existe no universo, antes de Descartes.
    • A aparição sobrenatural descrita por Fácio Cardano em 13 de agosto de 1491, tomada por Jerônimo nos Memórias do pai, é uma clara alegoria de essência alquímica.
    • Os sete homens aparecidos a Fácio Cardano, divididos em dois grupos liderados por dois de nobre porte, representam o ouro e a prata acompanhados dos metais imperfeitos de cada natureza.
    • Cyrano figura o casal mineral filosófico por dois grandes velhos habitantes da Lua, indicando que o ouro e a prata dos sábios nascem no microcosmo alquímico do astro úmido e noturno.
  • A descrição de Bergerac de um aparelho registrador e reprodutor da voz humana antecipa em mais de dois séculos o fonógrafo, com a anotação de que os espíritos do Sol escrevem seus livros de modo unicamente verbal e harmônico.
    • Cyrano descreve uma máquina com pequenos nervos que, quando esticados e com a agulha voltada para o capítulo desejado, emite sons distintos correspondentes à linguagem dos grandes lunares.
    • A cabala tradicional foi sempre transmitida oralmente, e o livro descrito por Cyrano é um livro em que os olhos são inúteis e só os ouvidos são necessários.
    • A invenção do fonógrafo deve-se ao ocultista francês Charles Cros, chefe do Zutismo, que depositou o processo em 1877 sob pli cacheté na Academia de Ciências antes que o físico americano Edison realizasse a aplicação prática.
    • Charles Cros é também inventor da fabricação artificial de gemas e da fotografia em cores, cujo processo apresentou em 1869, além de hipóteses sobre meios de comunicação astral.
  • A máquina construída por Cyrano no alto da torre, descrita como vaso de cristal redondo construído em forma de icosaedro, fornece indicações físico-químicas inestimáveis sobre o vaso de natureza, problema quase insolúvel no Grande Obra.
    • O icosaedro designa expressamente a função e a natureza do misterioso vitríolo dos alquimistas, também chamado de esmeralda dos filósofos.
    • Carlos I fez colocar um icosaedro gigantesco, gnomo ávido de sol, em seu palácio Holyrood de Edimburgo, cerca de vinte anos antes de Cyrano.
    • O cristal eleva o filósofo até os Estados do Sol, o Império onde os Rosa-Cruz, cidadãos cosmopolitas de Heliópolis, adquirem sua lendária invisibilidade.
  • O milagre da invisibilidade ocorre ao fim da última cozedura, descrita por Cyrano segundo técnica rara e brilhante digna dos melhores clássicos da Grande Arte, com as cores se sucedendo no ovo filosófico.
    • Cyrano sentia correr em seu sangue uma certa alegria que o retificava e chegava até a alma.
    • O vocábulo cristal, decomposto foneticamente na língua dos pássaros, dá Sal de Cristo.
    • O vaso, entre suas cinzas acumuladas, entrega seu fruto maravilhoso ao alquimista, que é tomado pela iluminação integral.
    • A ruína do vaso é expressa por Cyrano ao constatar que no lugar dele só havia o Céu ao redor.
    • A advertência Praecipitatio a diabolo alerta para o perigo de abrir o matras durante a elaboração filosófica, sob pena de perda irrecuperável do composto, do dinheiro e do tempo.
  • Cyrano, adepto sabedor da via seca, indica com precisão a duração de vinte e dois meses da via longa como coção falaciosa, ao cabo da qual se chegam às grandes planícies do Dia.
    • Para Cyrano, nada se opõe mais à Imaginação do que a Memória, atribuída às gralhas, papagaios, pegas, estorninhos, pintassilgos e pedantes.
    • O rio da Imaginação supera os rios Memória e Julgamento, rolando em seu leito ouro potável e óleo de talco, os dois agentes misteriosos do Grande Obra.
    • A Sereia representa a união perfeita do enxofre imaturo e do argento vivo, e as águas equinociais do Sol nutrem remoras, sereias e salamandras.
    • Cinco Fontes identificadas com os cinco sentidos e os metais imperfeitos, junto com os três rios, formam um Lago onde habita a Ninfa da Paz.
  • Savinien de Cyrano Bergerac fez na Província dos Filósofos seu mais belo sonho, e a alquimia pela via real atravessa sempre o maravilhoso domínio da fada encantada.
    • Cyliani, que sonhou semelhantemente ao pé de um grande carvalho, resistiu melhor ao bicloreto de mercúrio do que Bergerac à viga caída do telhado de Monsieur d'Arpajon.
    • Cyrano morreu aos trinta e cinco anos, a idade em que os espíritos mais bem dotados começam a reconhecer-se e a tomar posse de si mesmos.
    • A intenção é retornar ao tema do leite dos pássaros, gala ornithon, expressão grega da insignia raridade, para tratá-lo mais longamente sob a lâmpada das vigílias.
    • O Grande Obra dos Filósofos, composto por um dos mais fortes espíritos do Sol, prova que todas as coisas são verdadeiras e declara o modo de unir fisicamente as verdades de cada contraditório.
esoterismo/canseliet/cyrano-de-bergerac-philosophe-hermetique.txt · Last modified: by 127.0.0.1