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esoterismo:centeno:aurora

AURORA

CENTENO, Yvette. A Alquimia do Amor. Lisboa: Regra do Jogo, 1982.

  • A aurora constitui uma imagem polissêmica que evoca simultaneamente o despertar do dia, a coloração rubra, a pedra filosofal e a manifestação da luz da sabedoria divina no plano da criação.
    • O fenômeno representa a multiplicidade permanente do criador e a certeza do renascimento humano após a morte noturna.
    • A busca pela aurora equivale à procura pela vida e pela sabedoria, identificando-se com a árvore da vida descrita no tratado Aurora Consurgens, atribuído a S. Tomás de Aquino.
    • A entidade manifesta-se como a soma das imagens arquetípicas no espírito de Deus, assumindo formas como a rainha do vento Sul, a noiva, a água purificadora, o sangue de Cristo, o fermento do ouro e a virgem dotada de inteligência solar e beleza lunar.
  • A configuração da sabedoria assume morfologias variadas que abrangem elementos naturais, figuras femininas e substâncias alquímicas, aproximando-se da imagem da mãe ou da ama primordial que nutre a existência.
    • A mulher surge como a primeira forma da sabedoria, apresentando-se branca ou negra como a noiva do Cântico dos Cânticos, mas sempre dotada de beleza.
    • Os quatro elementos fundamentais cristalizam-se em torno dessa figura, cuja energia é de natureza psíquica e redentora, operando como o sangue de Cristo.
    • O relato de S. Tomás de Aquino sobre a insignificância de sua obra escrita face às visões terminais revela o encontro com a aurora como manifestação de Deus na luz e no amor.
    • A rainha aurora simboliza a união dos contrários, harmonizando Sol e Lua, esposo e esposa, em um acabamento luminoso do universo.
  • A obra de Jacob Böhme introduz uma dimensão ontológica para o mal e para o negro ao situá-los no centro da própria criação e da revelação divina.
    • A raiz espiritual do mundo é composta por uma dualidade intrínseca entre o bom e o mau, presentes tanto nos elementos quanto nas criaturas.
    • A aurora, enquanto sabedoria divina, contém em germe as polaridades do branco e do negro, integrando a imagem da nigredo como qualidade essencial da natureza divina e não apenas como matéria a ser transformada.
    • As trevas e a luz formam um todo indissociável na divindade, onde o Filho atua como o coração do Pai, substituindo a pedra e a sabedoria no papel de redentor por meio do sangue e da luz.
  • A presença do bem e do mal na essência divina estabelece uma identidade de natureza espiritual entre Deus e o homem, permitindo a mística da totalidade sem distinções.
    • Angelus Silesius projeta a essência da divindade na essência humana e vice-versa, possibilitando uma transformação indefinida entre ambas as instâncias.
    • A alma mística acolhe tanto o silêncio quanto a palavra, as trevas quanto a luz, reconhecendo as sombras como sinais do Espírito equivalentes à luminosidade.
    • Cristo representa a manifestação da afetividade e do amor sem sombra, embora a figura de Judas surja como o negro de Cristo, a imperfeição necessária para a realização da perfeição.
    • A culpa de Judas é relativizada por uma ordem superior estabelecida desde o princípio dos tempos, inserindo a mancha e o mal na raiz da própria totalidade divina.
  • O contraste entre as vias místicas de S. Tomás de Aquino e Jacob Böhme reside na função da sombra e na natureza da transformação humana.
    • A via tomista é luminosa porque a sombra, identificada com o feminino ou a anima, atua como força criadora e dispensadora de vida.
    • A via de Jacob Böhme é obscura pois o mal reside no coração da divindade, tornando a transformação do homem incerta e dependente de uma graça arbitrária.
    • A conclusão necessária é que a existência de Deus depende do homem como o lugar onde a divindade pode contemplar-se e conhecer-se.
    • Angelus Silesius proclama que a verdadeira luz interior não possui cor por conter todas as cores, sendo o ser a única realidade fundamental.
    • A aurora simboliza a alma santa inundada pela graça, onde a abolição da alteridade entre criatura e criador se torna um fato estabelecido.
  • A aurora vincula-se às transformações positivas do ser, manifestando-se como força regeneradora e libertadora em obras literárias de caráter simbólico.
    • No Conto da Serpente Verde de Johann Wolfgang von Goethe, a aurora propicia a regeneração física e a tendência universal para a luz e perfeição.
    • Em Fausto II, o herói contempla uma forma feminina nas nuvens ao Oriente que evoca a beleza da alma e a jovem Gretchen, elevando o espírito para o éter.
  • A modernidade poética introduz uma inversão do símbolo, onde a luz passa a cantar a morte e o aniquilamento em vez da vida.
    • Paul Celan apresenta uma fonte negra e uma rosa que é abismo, onde o dia é feito de cinzas e apenas a noite é clara por libertar o homem do tempo através da morte.
    • Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire expressam o horror da luz, conferindo primazia à sombra e ao outro sobre a consciência clara.
    • Para Arthur Rimbaud, a madrugada é uma mulher negra e as auroras são lancinantes, enquanto o azul do céu revela-se negro.
    • Charles Baudelaire utiliza imagens da aurora tiritante ou terrível, ligando-as ao despertar de um anjo em meio à brutalidade e ao sofrimento humano.
  • A aurora consolida-se como um símbolo essencialmente ambíguo que projeta os estados da alma entre a ascensão e a descida, a libertação e o destino trágico.
    • A cor da aurora altera-se conforme o observador, podendo atrair os contrários e conter em si todos os possíveis.
    • O esforço de Michel Leiris em Aurora demonstra a capacidade do símbolo de abarcar a totalidade das aflições humanas, incluindo o tédio, o desespero, a paralisia e a própria morte.
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