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esoterismo:faivre:amor-conhecimento

AMOR E CONHECIMENTO

FAIVRE, Antoine. Accès de l’ésotérisme occidental I. Paris: Gallimard, 1986.

  • Os erros metafísicos modernos e os das filosofias políticas decorrem da ignorância dos grandes princípios lembrados por Baader, e a tarefa do pensador consiste em reconduzir os homens a um conhecimento — uma gnose — sem o qual se está condenado a errar.
    • Saint-Martin lembrava que “a ciência não é uma ocupação ociosa, mas um combate”.
    • Baader critica Rousseau e Jacobi, que sustentam que o homem deixa de sentir quando passa a pensar ou a compreender — erro que mantém os homens numa grande incerteza sobre a religião e o amor.
    • Crer não basta; em carta a Jacobi de 1820, Baader escreve que crer é apenas “manter o conhecimento em seu nível mais inferior”.
    • Baader declara ter sempre sido contra um “espiritualismo de eunuco”, que assim como o mau naturalismo não pode fazer compreender o mistério do amor.
    • A lei ética pode pesar sobre nós como um imperativo, como o ar sobre um corpo do qual se fez o vácuo; mas quando apenas nos atravessa sem habitar em nós (durchwohnen não é inwohnen), é por falta do conhecimento graças ao qual a lei, habitando em nós, nos torna pessoal.
    • Kant se equivocou ao afirmar que o amor não pode ser ordenado — o que contraria o ensinamento do Decálogo.
  • A faculdade de conhecimento (Erkenntnisvermögen) é bissexuada, ou melhor, andrógina, comparável à união da luz e do calor.
    • Num ensaio de 1807 sobre o uso que se pode fazer da razão, Baader explica que quando conhecemos algo superior a nós, não há apenas manifestação de uma luz interior, mas também calor interior.
    • Por isso a admiração tende a tornar-se amor ou veneração; sem isso, o coração (Gemüt) fica preso e privado de liberdade.
    • Há analogia entre o instinto de reprodução ou engendramento e o instinto de conhecimento.
    • Um elemento superior se estende em direção a um elemento inferior, “imagina” nele para ser seu fundamento, assim como o sol “carrega” a terra ou o homem a mulher; fixa-o (fassen), apreende-o (erfassen) tornando-se-lhe interior, aspira a glorificar-se nele e a revesti-lo como ornamento.
    • Assim como segundo São Paulo a mulher é a glória do homem, Adão é a imagem e a glória de seu Deus.
    • O espírito é o modelo do elemento superior, a carne o do inferior: em toda parte o espírito busca fazer-se carne para encontrar-se, provar-se e desabrochar na alegria; a carne, por sua vez, é apenas nostalgia de um espírito que a animará e elevará.
    • Em alemão há um rapport etimológico entre “refeição” e “união” (Mahl e Vermählung), fundado na realidade se se considera o que representam nos diversos níveis o ato de comer e o de engendrar.
  • O espírito de toda criatura está sempre grávido (schwanger) de um corpo no qual se representa e se reflete, e a vontade age sempre de forma orgânica como “instinto formador”.
    • Há identidade entre o fervilhamento (Wallen) e o querer (Wollen) do espírito.
    • Tudo o que vive e vem habitar um corpo (lieben, leben, leiben) emana do desejo andrógino (Androgynenlust), oficina ou leito nupcial secreto, impenetrável e mágico de toda vida.
    • Toda criatura, em qualquer grau de vida, é ao mesmo tempo celeste e terrestre, sideral e elementar — o “sacramento da vida” só lhe é dado sob essa dupla forma.
    • Não convém que o inferior faça do superior sua mulher — daí o sentido da injunção “Não farás imagem ou retrato de mim”, que equivale a dizer “Deves ser tu mesmo minha imagem e meu símbolo (Gleichnis)”.
    • Tampouco convém que o superior se submeta ao inferior: não se deve servir o que se tem por tarefa dominar, nem o contrário — assim se esclarece a distinção baixeza-orgulho e nobreza-humildade.
    • Não se pode separar o fato de conhecer — ligado às noções de dominação, formação e engendramento — do fato de ser conhecido — ligado à ideia de servir, ser formado e receber.
    • Se o conhecimento sucumbe a seu objeto, ou seja, à matéria à qual deve dar consistência (Bestand) e sentido racional (Verstand), retorna às trevas, como faz o coração do homem cujo amor sucumbe ao pobre desejo sexual egoísta.
  • A inclinação livre é a que parte do conhecimento, enquanto o fato de ser movido de forma não livre, como ocorre na paixão, parte de um não-pensado, portanto de uma ignorância.
    • A vida verdadeira é liberdade; ser agitado de um lado para o outro, sem saber o que se quer e faz, corresponde à “falta de vida” que acompanha necessariamente um movimento que não parte do mais interior de si mesmo.
  • Lamennais, no Ensaio sobre a indiferença, lembrou justamente que o amor do Bem só pode provir do conhecimento ou do reconhecimento desse Bem.
    • No caso do instinto cego ou da paixão não livre, não há conhecimento nem ideia.
    • O que se conhece, em relação a isso se é livre; o amor é livre; o conhecimento libera o cognoscente do conhecido.
    • O nível animal ilustra esse princípio: são os sentidos, instrumentos de objetivação, que liberam pouco a pouco o indivíduo do mundo vegetal.
    • Jesus disse “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” — não disse “Somente sentireis a verdade”; o esclarecimento da ideia confirma o verdadeiro sentimento, fortifica-o e suprime o sentimento não verdadeiro.
    • Conhecimento e amor são afinal um só, como sugere já a palavra bíblica “conhecer” para significar “unir-se a” (cognovit eam).
    • Ao penetrar-se da ideia de que Deus o ama, o homem recebe ao mesmo tempo a faculdade de amar Deus em retorno (Anteros), de amar os outros homens e a natureza — triplo amor ao qual corresponde uma tripla faculdade de conhecimento.
    • Os sistemas de moral que negam essa triplicidade são ateus.
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