Action unknown: copypageplugin__copy
esoterismo:festugiere:rht:rht1:astrologia-helenistica

André-Jean Festugière – Hermes Livro 1 Festugiere – Introdução

FESTUGIÈRE, André Marie Jean. La Révélation d'Hermès Trismégiste I. L'astrologie et les sciences occultes. Paris: Les Belles lettres, 1989.

Amalgama de uma doutrina filosófica sedutora, de uma mitologia absurda e de métodos científicos empregados à contratempo.

Doutrina filosófica da unidade do Cosmo e da interdependência de todas as partes deste vasto conjunto. Como o Cosmo dos antigos é composto de uma série de esferas concêntricas tendo por centro a terra, a doutrina da unidade supõe uma incessante troca de ações e de reações entre a terra e as esferas planetárias e de uma esfera à outra. Ou ainda, para dizer o mesmo em termos diferentes, como de uma parte o mundo sublunar, de outra parte o céu além da luz são constituídos pelos quatro elementos — água, terra, ar, fogo — ou os cinco, se se adiciona o éter, a doutrina da unidade supõe ações e reações contínuas destes elementos entre eles. Assim é que o sol, os planetas e as constelações, todos os astros cuja matéria é um fogo que queima eternamente são se consumir jamais, se alimentam dos vapores provenientes do mundo sublunar; inversamente, os astros não cessàm de agir no mundo sublunar pelas energias que projetam, seja sobre o conjunto deste mundo, seja sobre tal parte ou mesmo tal indivíduo singular. Desde a era helenística e até o Renascimento, esta doutrina da unidade do Cosmo e da simpatia que liga todos os membros teve valor de dogma. A maior parte das escolas a reconhecem, e não menos as pessoas simplesmente cultivadas que não aderem a nenhuma escola. Não somente ela é o fundamento indispensável das pseudo-ciências — astrologia popular ou científica, medicina astrológica, alquimia — da magia, da gnose penetrada de magia, da teurgia e de toda arte divinatória quaisquer que sejam as formas, não somente tem o direito de citação na filosofia propriamente dita, mas um documento tão literário que seja como o panegírico em honra dos reis, inserido no final do Corpus hermeticum, a utiliza como metáfora, o que demonstra a que ponto ela se tornou moeda corrente até na retórica mais banal.

Se a doutrina da simpatia se limitasse a reconhecer as ligações de dependência entre todas as partes do universo, e se se considerasse estas ligações como relações puramente físicas ou mecânicas, não somente esta doutrina teria sido razoável, mas teria pressentido uma autêntica verdade, esta mesma verdade que a lei da atração universal oferece hoje em dia por uma outra metáfora. E ela teria alcançado também, antecipadamente, uma importância descoberta nos tempos modernos: é que, sob um modo ou outro, nosso corpo e nosso espírito mesmo sofrem continuamente influências de raios cósmicos. Mas, por uma subsistência das formas mas primitivas do pensamento, a astrologia confundiu tudo quando traduziu em termos psicológicos o que deveria ser considerado em termos físicos. Não se deixou o domínio dos mitos, se criou uma mitologia mais fantástica ainda e mais absurda que a lendas tradicionais. Esquecendo-se que já um pré-socrático, Anaxágoras, tinha concebido os astros como simples corpos movidos por forças mecânicas, permaneceu-se fiel às imaginações grosseiras das primeiras idades em considerando os astros como pessoas. Eram astros animados, conscientes, voluntários, tendo um sexo, um caráter, movimentos espontâneos e humores: era portanto inevitável que tivessem também uma história e que as relações que entretinham, entre eles e com a terra, tomassem o porte de relações entre pessoas humanas. A linguagem manifesta esta volta do espírito: os planetas se levantando e se deitando, se vendo, se entendendo, comandam, obedecem, têm simpatia ou antipatia, se deliciam ou entristecem, parecem hilários ou sombrios, são mestres de casa, etc — sem contar todos os epítetos que lhes afabula para denotar sua atitude a respeito dos homens. Assim se passa também com os signos do zodíaco e outras constelações, em resumo, com todos os astros em geral, e naturalmente também com os decanos, que, verdadeiramente, não dispuseram de sua natureza original de deus antropomórficos.

A astrologia sendo a arte de fazer presságios segundo a influência suposta dos astros, a doutrina da unidade do Cosmo e da simpatia fundou com razão esta influência, enquanto a mitologia celeste determinou em grandes traços o caráter. Mas estes dois elementos, unidade do Cosmo e simpatia, não foram suficientes. Qualquer predição a ser feita, seja de um empreendimento ou de uma vida, devia considerar a hora na qual começaria este empreendimento ou esta vida. Era preciso, em outros termos, fazer o horóscopo. Ora, este dependia do estado do céu nesta hora, quer dizer da maneira que os planetas estariam situados um em relação ao outro e todos a respeito dos signos zodiacais ou mesmo dos graus destes signos. Mas como perceber o sentido, favorável ou desfavorável, destas posições? A que critério se apoiar? De que regras se servir? É aqui eu interviram métodos científicos, que se tomaram emprestados às ciências matemáticas, à geometria e à aritmética. Eis o terceiro componente da astrologia, aquele que fez considerar esta arte divinatória como uma ciência, sem dúvida, onde o espírito lógico dos gregos desempenhou o maior papel.

Aí entraram as combinações geométricas elaboradas pelos astrólogos para estabelecer as relações entre signo e signo, planeta e signo ou grau de um signo, planeta e planeta, planeta e “lugar”, planeta e “sorte” astrológica. As combinações geométricas eram de duas espécies: os signos do zodíaco se ligavam entre eles seja por linhas paralelas, seja por polígonos regulares inscritos no círculo zodiacal. As associações poligonais, ou “aspectos”, se tornam os instrumentos por excelência da astrologia. O número de aspectos foi a princípio de três, depois quatro: diâmetro, trígone, tetrágono, hexágono. Esta mistura de cálculo e especulações servia um fim: prognosticar o futuro pela observação dos astros. Este era o objeto da “apotelesmática”, apotelesmatike techne, enquanto arte de “produzir” uma realização material (apotelesma), em oposição à techne theoretike, que se propunha o conhecimento puro, e a techne praktike, que se propunha uma ação. RESUMO

  • Articulação entre hermetismo e astrologia helenística como síntese de cosmologia filosófica, religião astrológica e prática divinatória, expressando a crença na unidade orgânica do cosmos e na interdependência entre o mundo celeste e o mundo sublunar.
  • Formulação da doutrina da sympatheia universal, segundo a qual todas as partes do universo se influenciam mutuamente, constituindo um sistema contínuo de emanações e reações entre as esferas planetárias e a terra, mediadas pelos quatro elementos — fogo, ar, água e terra —, articulados pela energia solar como princípio demiúrgico.
  • Descrição do cosmos como corpo animado em que o Sol, situado no centro, atua como mediador entre o inteligível e o sensível, distribuindo o influxo do Bem e assegurando a circulação vital que liga Deus, o mundo inteligível, o mundo sensível e o homem.
  • Transposição simbólica dessa doutrina na analogia entre o macrocosmo e o microcosmo, em que o universo é comparado ao corpo humano e o homem é considerado um “pequeno mundo”, reflexo e imagem do grande cosmos, relação que fundamenta a astrologia médica e mística.
  • Interpretação do universo como organismo vivo e antropomórfico, cuja correspondência com o corpo humano estabelece a base da melothesia zodiacal e planetária.
  • Identificação das partes do mundo com os membros do corpo humano nos textos herméticos e órficos, como em Corpus Hermeticum X e XVI e nos Oracula Serapidis, em que a terra é figurada como corpo deitado sob o céu, recebendo suas influências conforme a posição dos astros.
  • Concepção simbólica da terra do Egito como coração do mundo, centro espiritual e sede da inteligência divina, justificada pela posição geográfica e pelo papel do Egito como origem da sabedoria hermética.
  • Generalização da analogia antropocósmica na tradição hermética e gnóstica, tornando-se instrumento explicativo para as correspondências entre corpo, alma e cosmos, e fundamento para a astrologia terapêutica.
  • Exposição crítica da astrologia como mistura de filosofia natural, mitologia antropomórfica e raciocínios matemáticos, cujo método racional foi corrompido pela permanência de categorias míticas.
  • Observação de que, se a doutrina da unidade cósmica tivesse permanecido no plano físico e causal, teria antecipado o princípio moderno da gravitação universal; mas, ao traduzir fenômenos naturais em termos psicológicos e míticos, a astrologia converteu-se em sistema de projeções antropomórficas.
  • Análise da transformação dos astros em seres animados dotados de vontade, emoção e moralidade, o que conduziu à criação de uma mitologia celeste povoada por deuses planetários, decanos e signos personificados.
  • Identificação do erro fundamental da astrologia na confusão entre causalidade física e causalidade moral, fazendo derivar os destinos humanos de simpatias e antipatias imaginárias entre planetas e constelações.
  • Estrutura simbólica e psicológica dos planetas como herança das antigas divindades olímpicas reinterpretadas pela astrologia.
  • Conservação dos nomes e atributos de Cronos, Zeus, Ares, Afrodite e Hermes, cujas personalidades mitológicas foram associadas às características visíveis dos planetas — cor, movimento, luminosidade — e transformadas em determinantes do caráter e do destino humano.
  • Representação de Saturno como velho melancólico e frio, Marte como tirano sanguinário e impetuoso, Vênus como força voluptuosa, Júpiter como benevolente e fecundante, e Mercúrio como espírito ambíguo e mutável, mostrando a persistência da mitologia nas construções pseudo-científicas.
  • Tentativa dos astrólogos de justificar a natureza e o sexo dos planetas segundo teorias físicas baseadas na mistura dos quatro elementos aristotélicos, resultando em sistemas contraditórios e incoerentes, exemplo da confusão entre observação empírica e especulação simbólica.
  • Construção mitológica dos signos zodiacais como extensão da fantasia humana sobre o céu e a natureza.
  • Origem babilônica da divisão do zodíaco em doze partes, posteriormente reinterpretadas pelos gregos como figuras animadas e portadoras de virtudes e destinos próprios, transformando o espaço celeste em teatro simbólico da vida humana.
  • Exemplo da simbologia do signo de Áries, cuja natureza animal inspira descrições psicológicas, ocupacionais e proféticas dos indivíduos nascidos sob sua influência, revelando o método associativo e arbitrário das correspondências zodiacais.
  • Interpretação dos signos como forças atuantes e conscientes, cada qual dotado de caráter, temperamento e energia, fundamento do simbolismo astrológico que domina a cultura tardo-antiga e medieval.
  • Fundamentação matemática da astrologia e o uso da geometria como princípio interpretativo das relações entre signos e planetas.
  • Descrição das configurações geométricas — paralelos, triângulos, quadrados, sextis e oposições — como formas pelas quais os astrólogos representavam as relações de simpatia ou antipatia entre as partes do zodíaco, convertendo relações espaciais em julgamentos éticos e psicológicos.
  • Explicação do conceito de “aspecto” como expressão técnica da interação celeste: trígono e sextil como harmoniosos, quadrado e oposição como dissonantes, e conjunção como união plena, esquema que ilustra a fusão entre pensamento matemático e simbolismo mítico.
  • Compreensão da astrologia como arte de prever efeitos concretos (apotelesmatica), orientada para a prática divinatória e não para o conhecimento teórico, dividida em astrologia universal, genethlialogia e astrologia das iniciativas, com aplicações na medicina e na botânica mística.
  • Síntese final da astrologia helenística como expressão da mentalidade religiosa e científica do fim do mundo antigo.
  • Enraizamento da astrologia na doutrina da simpatia universal, na antropomorfização dos céus e na aplicação geométrica de princípios racionais a conteúdos míticos, formando uma cosmologia totalizante que unifica física, teologia e destino.
  • O hermetismo herdou da astrologia a visão do cosmos como organismo divino e animado, mas substituiu a previsão supersticiosa pela contemplação intelectual da ordem universal.
  • Compreensão da astrologia como degrau intermediário entre a filosofia natural e a revelação mística, onde o saber racional se dissolve progressivamente na imaginação simbólica, prelúdio do pensamento teúrgico e gnóstico.
esoterismo/festugiere/rht/rht1/astrologia-helenistica.txt · Last modified: by 127.0.0.1