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SOCIEDADES SECRETAS
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
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As sociedades secretas constituem fenômeno quase universal nas sociedades primitivas, emergindo no momento em que a ampliação do clã para a tribo gera a distinção entre um núcleo restrito de membros e uma massa de profanos não-iniciados, dando origem aos primeiros agrupamentos aristocráticos com funções religiosas e de poder (Pettazzoni 1922).
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A forma inicial de agregação social é a sociedade natural que abarca todos os adultos do sexo masculino, com exclusão permanente das mulheres e temporária das crianças.
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A sociedade secreta propriamente dita surge quando o núcleo primitivo, progressivamente minoritário, se distingue da maioria não-iniciada.
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Os membros que atingem os graus mais elevados das sociedades secretas constituem o embrião dos primeiros colégios sacerdotais.
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Segundo Pettazzoni, as duas formas — sociedade natural e sociedade iniciática — coexistem ao longo da história, e a história da humanidade é em grande parte a história das relações e interferências entre elas.
As sociedades secretas primitivas apresentam variações regionais significativas — da Austrália à Melanésia, à África e à América do Norte —, mas suas características fundamentais se repetem com substancial uniformidade entre povos e regiões distantes (Weber 1980).-
Os mistérios dessas sociedades conservam a religião e a moralidade da tribo e são zelosamente ocultados dos não-iniciados.
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As características comuns incluem: iniciação dos jovens pelos anciãos, segregação das mulheres e dos rapazes, submissão a ritos de modificação da natureza do noviço, transmissão das tradições tribais e inculcação do respeito e obediência aos mais velhos.
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Nas cerimônias de iniciação, atribui-se ao jovem um novo nome e uma língua esotérica, conhecida apenas pelos iniciados, que confere maior mistério aos atos rituais.
A iniciação tribal transmite aos jovens, sob vínculo religioso, os critérios que disciplinam a tradição da sociedade tribal em sua interpretação mais restrita e conservadora, servindo simultaneamente à manutenção da autoridade aristocrática e à coesão interna da comunidade.-
Os candidatos recebem instruções sobre as leis relativas às classes e divisões totêmicas que fundamentam o sistema matrimonial.
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O esoterismo funciona como instrumento pelo qual o grupo aristocrático originário evita o afastamento dos jovens das virtudes dos antepassados e previne a decadência dos costumes antigos.
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Os mistérios contribuem decisivamente para conservar as instituições primitivas e manter o caráter uniforme e permanente das sociedades primitivas.
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Segundo Webster, a iniciação confere vínculo interno mais profundo à comunidade, mas também pode conferir aos grupos aristocráticos poder de controle que chega à intimidação, à opressão e à exploração do bem-estar coletivo em benefício de poucos iniciados.
A iniciação constitui, nas sociedades sem autoridade política centralizada, o meio mais eficaz de subordinar os interesses individuais ao bem coletivo, mas à medida que o poder se centraliza, as práticas iniciáticas deslocam-se do controle político-social para o âmbito religioso e mágico.-
A centralização do poder transfere a autoridade dos anciãos para os chefes de tribo, alterando o significado das práticas de iniciação.
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Com o desenvolvimento do poder central, emergem os aspectos religiosos e dramáticos do esoterismo: as sociedades secretas evoluem de organizações político-sociais para grupos sacerdotais responsáveis por ritos religiosos comunitários.
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O número de membros se restringe, os graus de iniciação se multiplicam e as práticas semimágicas e semi-religiosas assumem papel de destaque.
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Nos graus mais elevados, cujo acesso depende do tempo nos graus inferiores e de qualidades pessoais, concentram-se os segredos mais recônditos e o culto religioso, configurando uma religião de caráter essencialmente esotérico cujos conteúdos — mitologia, tradições e magia — são reservados a uma minoria de eleição.
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As confrarias mágicas que substituem a iniciação primitiva assumem funções de cura de doentes, realização de ritos ligados à maturação das searas, à chuva e à reprodução dos animais.
O desenvolvimento da organização política pode também conduzir à decadência gradual das estruturas de iniciação e ao quase completo desaparecimento do esoterismo, mas em outros casos os detentores do poder utilizam os ritos remanescentes como sustentáculo de sua própria autoridade.-
Quando o esoterismo decai, caem o rigor e a dureza das provas e atenua-se a segregação entre iniciados e não-iniciados.
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Segundo Webster, com a centralização do poder em aristocracias restritas de chefes, as cerimônias de iniciação perdem suas características democráticas e são frequentemente reservadas à classe dominante, como ocorre em sociedades da Melanésia onde só os filhos dos chefes ou os detentores de riqueza e influência política acessam os graus superiores.
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A principal alteração verificada é a restrição progressiva do número de membros com acesso à associação secreta, à medida que os iniciados dos graus superiores limitam ciumentamente o número de candidatos.
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Multiplicam-se os graus de iniciação e forma-se um complexo sistema de normas sociais e legais em que cada ordem inferior compra sua promoção à ordem superior, e a qualificação nos graus superiores implica posse de privilégios especiais.
A amplitude do tecido social constituído pelo esoterismo nas sociedades primitivas oscila entre a inclusão de todos os homens adultos e a restrição a grupos limitados, revelando o caráter ambíguo da iniciação como vínculo comunitário simultaneamente aberto e excludente.-
O primeiro caso exclui as mulheres, mas se preocupa em abarcar todos os homens que atingem a maioridade, configurando um esoterismo de estrutura relativamente aberta.
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Com a evolução da organização política, os excluídos aumentam em número e os iniciados se separam mais radicalmente dos profanos, acrescentando-se diferenças artificiais às diferenças naturais iniciais.
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A iniciação é motivo determinante de constituição da comunidade: não existe comunidade sem vínculo sagrado de fraternidade entre os que participam do processo iniciático, com exclusão dos que ficam de fora.
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A constituição do vínculo comunitário é frequentemente considerada fato religioso, derivado de um pacto entre os membros e os deuses fundadores.
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A comunidade nasce carregando a dialética da negação e da afirmação — inclui os que estão dentro e exclui os que estão fora —, rodeada de véu de mistério, fascínio, prestígio e exclusivismo.
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À medida que a organização social se desenvolve, faz-se sentir a instância de um vínculo mais imediato, concreto e diferenciado como reação a uma sociabilidade demasiado difusa e indiferenciada, embora desígnios aristocráticos de conservação possam igualmente influir no caráter esotérico atribuído à comunidade.
A antítese esotérico/exotérico, como par conceitual etnológico, toca na raiz o problema da constituição da comunidade, de sua origem secreta e misteriosa e do caráter sagrado e exclusivo do vínculo por ela proposto, revelando que tal vínculo é condição que nem mesmo as sociedades mais desenvolvidas podem dispensar.-
O desenvolvimento da organização do poder político, com suas características técnicas e quantitativas, faz pressentir o caráter essencial da forma nativa e originária da comunidade, que se manifesta pela via do esoterismo como busca de uma realidade nova e não adquirida.
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O apelo ao segredo e ao mistério destaca o lado adquirido e expiado, apontando para um novo princípio.
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A vida das sociedades primitivas mostra que o vínculo unitário e exclusivo de onde nasce a comunidade opera também no interior dela, gerando novos núcleos mais restritos que exprimem formas de esoterismo elitista e aristocrático, mas que permitem igualmente que a comunidade renove de modos imprevistos sua tensão social originária.
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Nesses sobressaltos da tensão social encontram-se elementos e destroços da experiência associativa anterior, formas superadas de organização do poder frequentemente instrumentalizadas por uma concepção mágico-religiosa da autoridade.
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Dá-se simultaneamente a recuperação de uma ruptura radical e de um plano crítico que é condição fundamental, embora não suficiente, para a renovação.
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