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Cidade de Deus

UTOPIA

  • No início do século V, em 24 de agosto de 410, as hordas de Alarico entraram em Roma.
    • Os Godos, contidos por longo tempo nas fronteiras do Império, já haviam efetuado numerosas incursões, devastando e ameaçando a própria Constantinopla.
    • Alarico, tendo ultrapassado as Termópilas e penetrado na Grécia até o Peloponeso, foi repelido por Estilicão, e seus exércitos recuaram para a Panônia, nó vital do comércio entre o Norte e o Oriente.
    • Apesar das derrotas sofridas em Pollência e em Verona, conseguiu conquistar a Ilíria e depois Roma.
  • São Jerônimo, em seu eremitério de Belém, exclamou que a terra inteira havia sido derrotada com aquela única cidade, conforme registrado em seus comentários ao Livro I de Ezequiel, na Patrologia Latina de J.P. Migne (XXV, 15).
    • Aos contemporâneos parecia que o cristianismo havia se identificado com o mundo romano e com o Império romano, a ponto de perecer junto com eles.
    • Contudo, não eram dois mundos diferentes que se confrontavam — o bárbaro e o cristão —, pois os Godos eram cristãos, tendo recebido dos pregadores arianos a revelação da fé, ainda que se tratasse de um cristianismo que rejeitava a divindade de Cristo consubstancial ao Pai.
  • O anúncio da queda de Roma teve uma imensa e duradoura ressonância, pois ela representava, para o mundo mediterrâneo, a Urbs eterna, e o imperador Honório residia em Ravena, tornada por algum tempo uma espécie de nova capital provisória, protegida por um cinturão de pântanos, com as testemunhas do drama percebendo logo que nada havia mudado em sua vida cotidiana.
  • O grande temor que se seguiu à derrota do Império gerou uma dupla ordem de dúvidas: primeiro, uma reavaliação da nova religião, o cristianismo, que não havia conseguido proteger a Cidade Eterna da invasão bárbara; depois, a expectativa inquieta do fim dos tempos e da Parusia, pois muitos viam na ruína da Cidade Eterna a destruição de um terceiro Templo.
    • Esse clima explica as condições em que Santo Agostinho começou a redigir, trabalhando nela por quinze anos, os vinte e dois livros de A Cidade de Deus, com o objetivo de recusar o paganismo, justificar o cristianismo e fundar uma nova filosofia social.
  • Nos albores da cristandade, a Igreja elaborou sua doutrina baseando-se nos textos bíblicos, nos comentários dos apóstolos, na legislação judaica e, em seguida, no direito romano, e para o apóstolo Paulo, primeiro teórico cristão do direito estatal, o poder do Estado legítimo se inscreve em um desígnio providencial querido por Deus.
    • Esse poder não se identifica com o reino dos filósofos tal como Platão o concebera na República: é um serviço, um ministério, um instrumento da divina Providência.
  • A cidade cristã não representa mais o esquema de uma certa concepção do mundo, um navio que conduz os homens, queiram ou não, à reintegração pela ação insubstituível da iniciação e do rito.
    • A Cidade de Deus, como a chama Santo Agostinho, é formada por indivíduos perfeitos resgatados por Cristo, e reivindica esse resgate.
    • Não se trata mais de uma vontade humana de compreender o invisível, mas de uma tomada de consciência por parte dos homens da vontade divina de acolhê-los.
  • A Cidade de Deus é habitada por dois grupos complementares — os anjos e os homens —, e os anjos buscam de todos os modos atrair os homens a si, fornecendo ao homem um valioso auxílio na luta que o dilacera.
    • As duas cidades, terrena e celeste, coexistem ao mesmo tempo na vida mundana e no coração do homem, distintas e, contudo, inextricavelmente sobrepostas.
    • Dois amores construíram duas cidades: o amor de Deus, tão grande a ponto de chegar ao desprezo de si, ergueu a cidade celeste; o amor de si, levado ao ponto de desprezar a Deus, construiu a cidade terrena, conforme A Cidade de Deus (XIV).
  • Os homens revestem os panos do homem terreno em razão da transmissão da desobediência e da morte que opera neles a geração, mas revestem os panos do homem celeste em virtude da graça do perdão e da vida eterna que lhes procura a regeneração pelo único Mediador, o homem Jesus Cristo, conforme A Cidade de Deus (XIII, xxiii, 3).
    • Portanto, não se trata mais da stasis platônica, da luta entre a alma racional e as paixões do corpo.
    • Se os panos do homem terreno estão ligados à geração, a imagem do homem celeste é independente do desenvolvimento da alma racional operado pela música, pela ginástica e pelo estudo da filosofia.
    • Todos os homens se beneficiam igualmente da graça do perdão.
  • Sobre essa base, Santo Agostinho buscou esboçar em grandes linhas uma política cristã, recorrendo não aos textos filosóficos mas ao ensinamento bíblico, e expôs a origem das duas cidades e seu desenvolvimento ao longo dos séculos, atribuindo a elas, como ancestrais fundadores, Caim e Abel.
    • Caim construiu uma cidade — e essa é sua culpa —, pensando encontrar neste mundo uma morada permanente para si e os seus, instalando-se na terra como se devesse viver nela para sempre, sem levar em conta a morte que é lei para a carne.
    • Abel, ao contrário, sente-se um estrangeiro na terra: sabe ou intui que a Cidade dos Santos está no céu, embora haja aqui em baixo cidadãos nos quais ela realiza seu peregrinar enquanto aguarda o Reino de Deus no fim dos tempos.
  • A Cidade de Deus é o povo de Israel, cuja história Santo Agostinho reconta segundo as Sagradas Escrituras, enquanto a cidade terrena é constituída pelos grandes impérios que se alternaram desde o tempo de Abraão, deixando seus vestígios — frequentemente tesouros artísticos ou técnicos —, mas nem a sombra de uma reflexão para guiar o Ocidente em seu caminho conturbado.
    • Nessa divisão reencontram-se as noções elaboradas durante o longo confronto entre a Diáspora e o Império dos Césares.
    • De fato, parece ter sido precisamente a visão da Diáspora, dispersa e contudo unida do Irã e da Ásia Central até as Colunas de Hércules, que forneceu a Santo Agostinho a noção de Cidade de Deus, cuja unidade se opõe ao fracionamento dos impérios deste mundo, a suas fronteiras, a suas guerras.
  • As duas cidades usam ambas os bens temporais e sofrem os males desta vida, sem ter, contudo, a mesma fé, a mesma esperança nem o mesmo amor, e sua separação começou no céu, com a revolta dos Anjos, e só encontrará sentido na consumação dos tempos, quando, divididas pelo Juízo Universal, se estabelecerão para a eternidade.
    • Até então, enquanto durar o mundo, a Cidade de Deus está no exílio sobre esta terra.
    • Na epístola aos Efésios (VI, 5-9), Paulo recomenda aos escravos que permaneçam submissos a seus senhores: se não puderem se resgatar, saberão transformar sua servidão em liberdade, obedecendo com amor fiel, até que tenha fim a iniquidade assim como passam domínios e impérios.
  • Os habitantes da cidade terrena podem dominar e comandar os habitantes da Cidade de Deus, pois a Cidade de Deus está prisioneira na cidade terrena, onde transcorre o tempo de seu exílio, mas, embora obedeça às leis da cidade terrena no que concerne a seu sustento no parêntese mundano, já é rica da promessa da redenção.
    • As duas cidades compartilham parcialmente a condição humana, pois ambas estão votadas à morte terrena.
    • Por toda a duração do exílio neste mundo, a Cidade de Deus recruta cidadãos em todas as nações, sem se preocupar com a diversidade de línguas e costumes, ou das leis que mantêm a paz terrena, desde que tais regras não obstem a adoração do único e verdadeiro Deus.
  • A cidade celeste precisa, em sua jornada, da paz terrena: busca e persegue o acordo entre as vontades humanas, projeta a paz terrena e a relaciona com a paz celeste.
    • A Cidade de Deus é apresentada sem contornos precisos, sem regras fixas, sem divisão em classes.
    • Ela se contrapõe nitidamente, precisamente em virtude dessa indefinição que deixa ampla margem às virtudes individuais, tanto às civilizações tradicionais quanto às cidades antigas descritas por Platão e Aristóteles.
    • O gênero de vida escolhido pelos homens tem pouca importância para a harmonia da cidade celeste, desde que se conformem aos preceitos divinos.
  • Santo Agostinho não faz distinções entre classes sociais, mas entre atitudes intelectuais: a contemplação, a ação e um caminho intermediário entre as duas.
    • A ação não deve prejudicar a dignidade de ninguém, mas, ao contrário, a obra realizada no exercício de determinadas funções ou as honras obtidas devem contribuir para melhorar as condições daqueles que dependem de cada um.
    • O tempo livre não é ócio e inoperosidade, mas busca da verdade, progresso moral e vontade de partilhar com os outros o fruto das próprias vigílias consagradas ao estudo: o amor da verdade preside ao santo tempo livre, e essa função legítima deve ser aceita por dever de caridade.
  • As duas cidades estão confundidas entre si na terra e os habitantes da Cidade de Deus vivem na paz de Babilônia, mas cada uma tem sua própria ordem e tende a sua meta específica.
    • O justo, o cidadão da cidade celeste, alegra-se se a cidade terrena em que vive realiza seu fim natural oprimindo-o e perseguindo-o, pois é próprio da natureza da cidade terrena ser aniquilada, quando tenha cumprido sua parábola, para dar lugar à Cidade de Deus.
  • Em uma primeira parte de sua reflexão sociológica, Santo Agostinho lançou os fundamentos de uma concepção cristã do significado da história, partindo de fatos observáveis ou conhecidos para elevar-se até o princípio único que deve guiar a vida social segundo uma política cristã.
    • A vida do sábio, pensa Santo Agostinho, deve ser uma existência social: o homem não se realiza senão entre os outros homens.
    • Mas a vida familiar está cheia de preocupações e de uma certa desordem, marcada inevitavelmente pelas coisas deste mundo.
  • Diante dessa incerteza e dessa precariedade, o homem busca a paz que é equilíbrio, ordem, acordo com Deus, e indiscutivelmente a paz neste mundo reflete a beatitude celeste, mas quando comparada a esta última revela-se bem mísera e mesquinha.
    • A paz, com a vida eterna, representa o objetivo supremo do homem, é-lhe natural, espontânea e congênita.
    • Mesmo os bandidos precisam de uma ordem, de uma paz interna à sua quadrilha, para poder atentar à dos outros; até a fera mais feroz vela pela paz familiar: a tigre ronrona ternamente ao lado de seus filhotes; até a matéria bruta manifesta em sua pesada gravidade uma certa tendência à paz.
  • Assim, até os homens mais malvados aceitam uma ordem natural fundada na obediência e tendem para essa ordem, e o marido comanda a mulher, os pais aos filhos pequenos, os senhores aos servos.
    • Mas na casa do justo que vive na fé, ainda que se encontre longe da Cidade Celeste, aqueles que comandam estão a serviço dos que parecem comandar, conforme Lucas (XXII, 26-27).
    • Não é o gosto de dominar que impele a comandar, mas o desejo de se sacrificar; não o orgulho de ser senhor, mas a preocupação de prover aos outros.
  • O homem domina os animais com a permissão de Deus, conforme Gênesis (I, 26), sendo um senhor justo investido por Deus dessa responsabilidade e não um tirano ou um carrasco, mas nada justifica o domínio do homem sobre o homem: os primeiros justos eram pastores de rebanhos e não príncipes que reinavam sobre outros homens.
    • Do mesmo modo, ninguém é escravo nem do homem nem do pecado.
    • Entre o século V da era cristã e os séculos que o precederam não houve nenhuma mudança relevante nas modalidades de produção dos bens: a atenuação da escravidão é um derivado da lei judaica, sem que tenha intervindo algum fator traumático além de uma gradual mudança na concepção do lugar do homem no mundo.
    • Por razão alheia aos determinismos materialistas, daí decorre imediatamente a condenação de toda escravidão, e o Ocidente compreende pela primeira vez que o homem deve dominar os animais como senhor justo, investido por Deus dessa função, e não como tirano ou carrasco.
  • Segundo Santo Agostinho existe, portanto, uma ordem social tal como já existe uma natural, e a Paz é o princípio essencial dessa ordem, objetivo primário da Cidade de Deus no exílio sobre esta terra.
    • A felicidade está na paz, diz Santo Agostinho, a paz na justiça, a justiça no amor, o amor na virtude.
    • Na terra os homens jamais conhecerão a paz, pois a paz temporária de que gozam de quando em quando não é senão uma trégua, um intervalo entre duas guerras.
  • Para o corpo, a paz perfeita consiste no harmonioso funcionamento dos órgãos; para a alma, na moderação dos apetites; para a alma racional, no acordo entre pensamento e ação; e a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem, conforme A Cidade de Deus (XIX, xxiii).
    • A alma exerce sobre o corpo um domínio indiscutível, mas se não estiver submetida a Deus não encontrará em si mesma a força para comandar o corpo.
    • Se a alma é para a carne princípio de vida, Deus é princípio de toda vida feliz para o homem, princípio superior ao qual deve tender toda a sociedade.
    • O homem deve reencontrar essa vocação que o impele para Deus para poder lançar os fundamentos de uma cidade terrena, irmã menor da Cidade de Deus, vaso de eleição capaz de acolhê-la em seu exílio terreno.
  • A cidade celeste na terra é, em primeiro lugar, justiça — o Império de Deus sobre o homem, da alma sobre o corpo, da razão sobre o vício —, e somente essa justiça pode conduzir ao bem supremo que é a paz na terra e, portanto, a posse de Deus.
  • Santo Agostinho buscou definir a cidade terrena servindo-se também do De Republica de Cícero, escrito em 57 a.C., ou antes de alguns conceitos que Cícero coloca na boca de Cipião em um diálogo do Livro V.
    • A república é, por definição, a coisa do povo, e o povo é, por sua vez, formado por uma multidão de seres racionais associados para participar em concórdia dos bens espirituais objeto de um amor comum — o que um sociólogo poderia chamar de ideal social.
    • Um povo é melhor do que outro na medida em que tende a um ideal social mais elevado.
    • Segundo Santo Agostinho, se se aceitam essas definições, corre-se o risco de não poder sequer falar de república, nem romana nem de qualquer outro tipo, na história do mundo, pois nunca um povo participou realmente da gestão de um patrimônio comum, e muito menos fixou como objetivo supremo a conquista de bens espirituais.
  • A república não pode ser governada sem justiça, e justitia designa a moral determinada pela filosofia enquanto jus designa o direito positivo, o fato do príncipe.
    • Segundo Santo Agostinho, onde não há verdadeira justiça não pode haver direito: o que é feito com base no bom direito é justo, mas jamais um ato injusto poderá se fundar no bom direito.
    • Sem verdadeira justiça, não se poderá falar de homens reunidos em uma sociedade, fosse mesmo por escolha comum: não existindo sociedade, não haverá povo, e muito menos uma coisa do povo, a res publica.
    • Em conclusão, a justiça permanece o único fundamento possível para a cidade, e Santo Agostinho funda jus, o direito positivo, em justitia, que deriva da caridade e se baseia na ordem divina.
  • Se um Estado ou uma república repousam sobre valores falsos, não haverá justiça e os cidadãos não poderão se unir.
    • A justiça de Platão era, em primeiro lugar, submissão a uma ordem lógica do espírito sobre o corpo, estendida ao reino dos filósofos sobre a totalidade da cidade.
    • Segundo Agostinho, são valores falsos as fábulas inventadas por Platão para fazer os cidadãos da República aceitarem sua condição; valores falsos os deuses de Roma que há muito tempo não recebiam senão uma aparência de culto; valores falsos as inúmeras seitas disseminadas pelo Império, os mercadores de talismãs, a busca das riquezas ou dos bens terrenos.
    • Nenhum Estado, nenhuma civilização poderia pretender durar fundando-se nas areias movediças da impotência espiritual.
  • Na obra de Santo Agostinho não se encontra o esquema detalhado da República platônica, nem as regras de higiene social definidas por Aristóteles em sua Política — sistema de governo, subdivisão dos cidadãos, regras econômicas e urbanísticas.
    • A reflexão de Agostinho se exerce na busca do grande princípio capaz de guiar a vida terrena de modo a preparar a vida futura: a paz nascida da justiça, pedra angular da Cidade de Deus no exílio sobre a terra, que prepara o advento da Jerusalém celeste.
    • A paz, segundo Agostinho, recorda a justiça de Platão — dikaiosune — que é equilíbrio, conformidade de um órgão à finalidade que lhe é própria, de um homem à sua condição social.
  • Santo Agostinho vai além de Platão, ou antes se coloca em um plano diferente, ao falar da paz do homem mortal com Deus e da obediência na fé eterna, pois o homem mortal, além dos círculos concêntricos de seus horizontes sociais, da gens à cidade, pode estabelecer um diálogo com Deus e estar em paz com seu criador.
    • Existe uma lei eterna que transcende as convenções dos homens, seus preconceitos e também as leis justas da cidade.
    • Além das preocupações do bispo Agostinho, imerso em seu tempo e que fortalecia com vigorosa polêmica a nova fé, A Cidade de Deus imprime seu selo no pensamento do Ocidente.
    • Certos trechos dessa obra encontrarão, nos séculos seguintes, singulares ressonâncias no coração dos homens.
  • O mundo passou a ser dividido em bons e maus, em Cidade de Deus e Cidade do Diabo — uma fratura sentida dolorosamente por Israel na época do cativeiro, do exílio e da Diáspora, e que os cristãos vivenciaram em sua própria carne durante as perseguições.
    • Se Santo Agostinho deixa a Deus a tarefa de fixar os limites da Jerusalém celeste, prisioneira de Babilônia, os homens devem tentar distinguir, apesar da fraqueza de seu espírito, o bem e o mal neste mundo, adequando-se à justiça de Deus na medida em que conseguem concebê-la.
  • Talvez as duas cidades simbolizem duas tendências da civilização ocidental que se contrapõem ao longo dos séculos, de uma revolução a outra: a cidade terrena, gozo dos bens materiais, triunfo da técnica e das máquinas sobre o homem; a Cidade de Deus, tenaz sonho igualitário dos homens, comunhão de bens como uma refeição partilhada por uma mesma família, fraternidade humana sob o signo do amor a Deus e ao próximo.
    • Nesse sentido, a Cidade de Deus tornar-se-á o sonho de todas as revoluções, mesmo quando creiam ter recusado todo deus.
    • No pensamento de Agostinho, a Cidade de Deus não é um refúgio das tempestades e das paixões mundanas, mas, ao contrário, um estímulo à ação para almas fortes capazes de travar uma justa luta: sua realização marcará o cumprimento da promessa do Apocalipse.
  • A Cidade de Deus se diferencia profundamente das utopias que serão elaboradas nos séculos seguintes na esteira do inelutável progresso da razão e das técnicas, pois a Cidade de Deus é conquistada apenas pelos méritos dos homens, ao término de um extenuante caminho no deserto, uma aventura que inspirará todos os milenarismos.
    • Santo Agostinho o havia compreendido, ele que havia retomado e reforçado a esperança dos humildes: a luta pela conquista de uma nova Terra Prometida.
    • Em A Cidade de Deus (XX, VII, 421), Agostinho propõe que os mil anos podem ser interpretados de duas maneiras: ou como os últimos mil anos, o sexto milênio considerado como o sexto dia cujas etapas já se desenrolam, ou como o sábado que não terá tarde, o repouso dos santos que não terá fim.
  • Sob o pesadelo das fomes, das guerras e das pestes, os homens percebiam os sinais premonitórios do fim dos tempos e criam já ouvir, no abismo de sua miséria, o galope dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
    • Os pobres, famintos de justiça, se levantariam e exigiriam ser saciados em nome do Evangelho, condenando os príncipes da terra cujo poder é a miragem sanguinária de Babilônia.
    • Profundas correntes de pensamento sacudiram a Europa e varreram os últimos vestígios do Império dos Césares, primeiras dores de parto do conturbado nascimento do Ocidente.
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