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1 Fontes da arte da memória

YATES, Frances A. The Art of Memory. London: Routledge & Kegan Paul; Chicago: University of Chicago Press, 1966.

AS TRÊS FONTES LATINAS DA ARTE CLÁSSICA DA MEMÓRIA

1. A arte da memória nasce, segundo a tradição, do episódio do banquete de Escopas na Tessália, em que o poeta Simônides de Ceos, chamado para fora por Castor e Pólux pouco antes do desabamento do teto, consegue identificar os corpos mutilados dos convivas por lembrar os lugares em que estavam sentados, descobrindo assim que a disposição ordenada é essencial à boa memória.

  • Escopas paga apenas metade do panegírico e manda o poeta cobrar o restante dos gêmeos divinos louvados no poema.
  • Os dois jovens misteriosos que chamam Simônides à porta são os próprios Castor e Pólux, que assim pagam sua parte.
  • Os parentes, incapazes de reconhecer os mortos, recorrem à lembrança do poeta sobre a posição de cada um à mesa.

2. Quem deseja treinar a memória deve escolher lugares e formar imagens mentais das coisas a lembrar, depositando-as nesses lugares, de modo que a ordem dos lugares preserve a ordem das coisas e as imagens as designem, funcionando lugares e imagens como a tabuinha de cera e as letras nela escritas.

3. A história de Simônides, narrada por Cícero no De oratore ao tratar da memória como uma das cinco partes da retórica, introduz a mnemônica de lugares e imagens (loci e imagines) usada pelos retores romanos, que conta ainda com duas outras descrições antigas: a do anônimo Ad C. Herennium libri IV e a da Institutio oratoria de Quintiliano.

4. A arte da memória pertence originalmente à retórica, como técnica que permite ao orador pronunciar longos discursos de cor com exatidão infalível, e foi como parte dessa disciplina que ela atravessou a tradição europeia até tempos relativamente modernos, sustentada pela autoridade dos antigos.

5. O princípio geral da mnemônica consiste em imprimir na memória uma série de lugares, geralmente de tipo arquitetônico, e neles depositar imagens que serão recolhidas em ordem durante o discurso, como num percurso imaginário por um edifício.

  • Recomenda-se memorizar um edifício amplo e variado, com vestíbulo, sala, quartos e salões, incluindo estátuas e ornamentos.
  • Imagens como uma âncora ou uma arma são colocadas nos lugares e, na hora de recordar, cada lugar é visitado e convidado a devolver seu depósito.
  • A sequência dos lugares no edifício garante a ordem dos pontos do discurso, podendo a âncora evocar questões navais e a arma operações militares.

6. O método funciona para quem se dispõe a esse trabalho, como mostra o caso de um professor que, sem conhecer a mnemônica clássica, divertia seus alunos repetindo na ordem certa listas de objetos ditados ao acaso, colocando-os mentalmente no parapeito da janela, na escrivaninha, no cesto de papéis e assim por diante.

  • O professor reencontrava os objetos revisitando os lugares, exatamente como aconselha Quintiliano.
  • Estendendo o procedimento a noções associadas aos objetos, ele poderia proferir aulas de memória como o orador clássico.

7. Reduzir a arte clássica à etiqueta de mnemotécnica pode ser enganoso, pois as fontes descrevem técnicas interiores baseadas em impressões visuais de intensidade quase incrível, e Cícero sublinha que a invenção de Simônides repousa também na descoberta de que a visão é o mais forte dos sentidos.

8. As imagens mais completas formam-se na mente a partir do que os sentidos nela imprimem, e, sendo a visão o mais aguçado deles, aquilo que se recebe pelo ouvido ou pela reflexão é mais facilmente retido quando também transmitido à mente pela mediação dos olhos.

9. O termo mnemotécnica mal expressa o que podia ser a memória artificial de Cícero, percorrendo os edifícios da Roma antiga e vendo, com aguda visão interior, os lugares e as imagens que lhe traziam aos lábios os pensamentos e palavras do discurso, razão pela qual se prefere a expressão arte da memória.

10. Para os modernos, desprovidos de memória treinada, a mnemotécnica é recurso ocasional e secundário, ao passo que no mundo antigo, sem imprensa nem papel para anotações, a memória treinada tinha importância vital e refletia a arte e a arquitetura da época, apoiando-se em faculdades de memorização visual intensa hoje perdidas.

11. Um professor de retórica desconhecido compõe em Roma, por volta de 86–82 a.C., um manual dedicado a Herênio, que percorre secamente as cinco partes da retórica e, ao chegar à memória, a define como tesouro das invenções e guardiã de todas as partes da retórica, distinguindo uma memória natural e outra artificial.

  • As cinco partes tratadas são inventio, dispositio, elocutio, memoria e pronuntiatio.
  • A memória natural nasce com o pensamento; a artificial é fortalecida ou confirmada pelo treino.
  • O treino aprimora uma boa memória natural e compensa as memórias mais fracas.

12. Após esse breve preâmbulo, o tratamento passa abruptamente à memória artificial propriamente dita.

13. A seção sobre a memória do Ad Herennium carrega enorme peso histórico, pois, derivando de fontes gregas perdidas e sendo o único tratado latino completo conservado sobre o tema, constitui a principal fonte da arte clássica no mundo grego e latino e seu veículo de transmissão à Idade Média e ao Renascimento.

  • As observações de Cícero e Quintiliano não são tratados completos e pressupõem familiaridade com a terminologia.
  • Na Idade Média, o texto gozava de imenso prestígio por ser atribuído a Cícero, e seus preceitos eram tidos como obra do próprio Túlio.

14. Toda tentativa de compreender a arte clássica e sua história no Ocidente deve apoiar-se principalmente nesse texto, cujo plano, matéria e muitas vezes palavras se repetem em todos os tratados de Ars memorativa, inclusive nos desenvolvimentos do século XVI.

  • As regras para lugares, regras para imagens, memória das coisas e memória das palavras permanecem como esqueleto da tradição.
  • Mesmo as especulações mais ousadas, como o De umbris idearum de Giordano Bruno, conservam esse velho esquema.

15. Compreender a seção de memória do Ad Herennium é tarefa difícil porque o mestre de retórica não se dirige a leitores leigos, mas a alunos que já sabiam do que se tratava e a quem bastava enunciar regras, o que torna estranhas várias delas para o leitor atual.

16. A exposição a seguir reproduz o conteúdo da seção com a concisão do original, entremeada de pausas para reflexão sobre o que ela ensina.

17. A memória artificial constitui-se de lugares e imagens, definição canônica repetida ao longo dos séculos, sendo o lugar algo facilmente apreendido pela memória, como uma casa, um intercolúnio, um canto ou um arco, e as imagens formas, marcas ou simulacros (formae, notae, simulacra) do que se quer lembrar.

18. A arte da memória funciona como uma escrita interior, em que os lugares equivalem às tabuinhas de cera ou ao papiro, as imagens às letras, a disposição das imagens à escrita e a recitação à leitura.

19. Para lembrar muito material é preciso dispor de muitos lugares organizados em série e memorizados em ordem, de modo que se possa partir de qualquer um deles e avançar ou recuar, tal como se nomeiam conhecidos enfileirados a partir de qualquer ponto da fila.

20. A formação dos lugares é de máxima importância porque eles podem ser reutilizados indefinidamente: as imagens depositadas se apagam quando deixam de ser usadas, mas os lugares permanecem, como tabuinhas de cera prontas para nova escrita.

21. Para não errar a ordem dos lugares, convém assinalar cada quinto lugar com uma marca distintiva, como uma mão de ouro no quinto e a figura de um conhecido chamado Décimo no décimo.

22. Os lugares devem ser formados em ambiente deserto e solitário, pois o movimento de pessoas enfraquece as impressões, razão pela qual se escolhe um edifício pouco frequentado.

23. Os lugares não devem ser semelhantes demais entre si, devem ter tamanho moderado, iluminação equilibrada e intervalos de cerca de trinta pés, porque o olho interior, como o exterior, perde força quando o objeto está próximo ou distante demais.

  • Intercolúnios em excesso confundem pela semelhança.
  • Lugares muito grandes tornam as imagens vagas; muito pequenos, apinham-nas.
  • Luz excessiva faz as imagens ofuscarem; escuridão as encobre.

24. Quem tem ampla experiência obtém facilmente lugares adequados, e mesmo quem julga não possuí-los pode construí-los à vontade no pensamento, recorrendo ao que mais tarde se chamará lugares fictícios em oposição aos lugares reais.

25. As regras para lugares revelam uma precisão visual espantosa, em que se medem intervalos e se calcula a iluminação, e evocam um hábito social esquecido: a figura do estudante de retórica que percorre lentamente um edifício vazio, detendo-se atento para formar seus lugares de memória.

26. As regras para imagens começam pela distinção entre imagens para coisas (res) e imagens para palavras (verba), cabendo à memória das coisas evocar argumentos ou noções e à memória das palavras encontrar imagens para cada palavra.

27. Para o estudante de retórica, coisas e palavras têm sentido preciso em relação às cinco partes da retórica, tal como definidas por Cícero.

28. A invenção é a descoberta de coisas verdadeiras ou verossímeis que tornem a causa plausível; a disposição, sua ordenação; a elocução, a adequação de palavras às coisas inventadas; a memória, a firme percepção na alma das coisas e das palavras; a pronunciação, o ajuste da voz e do corpo à dignidade de umas e outras.

29. As coisas constituem a matéria do discurso e as palavras a linguagem que a reveste, daí a distinção entre memoria rerum, que guarda a ordem das noções, e memoria verborum, que retém cada palavra, esta muito mais árdua, a ponto de os alunos mais fracos resistirem a ela e o próprio Cícero admitir que a memória das coisas bastava.

30. Uma das passagens mais curiosas do tratado expõe as razões psicológicas da escolha das imagens, indagando por que algumas são fortes e aptas a despertar a memória e outras tão fracas que mal a estimulam.

31. A própria natureza ensina que as coisas banais e cotidianas se esquecem, enquanto o extraordinariamente vil, desonroso, insólito, grandioso, incrível ou ridículo se retém por muito tempo, cabendo à arte imitar a natureza nesse aspecto.

  • Esquece-se o imediato e recorda-se melhor a infância, porque o comum escapa e o novo permanece.
  • O nascer e o pôr do sol não admiram ninguém, mas os eclipses solares, mais raros que os lunares, causam espanto.
  • Na invenção, a natureza nunca vem por último nem a educação em primeiro: o talento dá o começo e a disciplina, o acabamento.

32. Devem-se estabelecer imagens capazes de aderir longamente à memória, isto é, semelhanças tão marcantes quanto possível, poucas e precisas, ativas (imagines agentes), de beleza excepcional ou feiura singular, ornadas com coroas ou mantos de púrpura, ou desfiguradas com sangue, lama ou tinta vermelha, ou ainda cômicas, sendo indispensável percorrer frequentemente os lugares para renovar as imagens.

  • O que se lembra facilmente na realidade também se lembra com facilidade quando é ficção.

33. A memória é auxiliada pela excitação de afetos emocionais por meio de imagens insólitas, belas ou hediondas, cômicas ou obscenas, e trata-se sobretudo de figuras humanas em ação dramática, o que introduz num mundo estranhamente povoado, bem menos compreensível que a âncora e a arma de Quintiliano.

34. Os tratados de Ars memorativa raramente aplicam as regras a um sistema concreto de imagens, tradição iniciada pelo próprio Ad Herennium, que confia ao mestre apenas ensinar o método e dar alguns exemplos, deixando ao aluno a criação das imagens, de modo que restam somente três exemplos descritos.

  • O princípio pedagógico é comparado ao ensino dos exórdios: não se entregam mil modelos prontos, mas o método.

35. O primeiro exemplo, de memória das coisas, supõe um advogado de defesa num processo em que a acusação imputa ao réu o envenenamento de um homem para obter uma herança, com muitas testemunhas e cúmplices, e requer uma imagem inicial que recorde a acusação.

36. Imagina-se o homem envenenado doente no leito, conhecido pessoalmente ou representado por alguém de condição não ínfima, e junto a ele o réu segurando uma taça na mão direita, tabuinhas na esquerda e, no quarto dedo, os testículos de um carneiro, recordando assim o envenenado, as testemunhas e a herança.

37. A taça remete ao envenenamento, as tabuinhas ao testamento, e os testículos do carneiro, por semelhança verbal com testes, às testemunhas, devendo os lugares seguintes abrigar os demais pontos da causa.

38. Essa imagem exemplifica o modelo clássico, composto de figuras humanas ativas, dramáticas e marcantes, com acessórios que evocam toda a coisa registrada, e, embora tudo pareça explicado, permanece desconcertante, como pertencente a um mundo incompreensível ou não plenamente exposto.

39. O exemplo não visa lembrar discursos, mas registrar os fatos da causa, como se o advogado formasse na memória um arquivo de seus processos, em que a imagem composta serve de etiqueta do primeiro lugar e os seguintes guardam o restante, o que indica o uso da memória artificial para reter grande massa de material consultável à vontade.

40. Cícero, no De oratore, confirma essa interpretação ao enaltecer a utilidade da memória para o orador: reter as instruções recebidas e as opiniões formadas, manter ideias e vocabulário ordenados, gravar as palavras do cliente e do adversário, saber o que dizer, por quanto tempo e em que estilo, e lembrar argumentos de outras causas.

  • Os lugares preservam a ordem dos fatos e as imagens os designam, como tabuinha e letras.
  • Só quem possui memória poderosa sabe o que já respondeu e o que ainda resta responder.

41. Trata-se de poderes de memória espantosos, que segundo Cícero eram efetivamente auxiliados por um treinamento do tipo descrito no Ad Herennium.

42. Enquanto a primeira imagem pertence à memória das coisas, e os lugares seguintes guardariam outros fatos e argumentos da causa, os dois outros exemplos do Ad Herennium são imagens para a memória das palavras.

43. O estudante da memória das palavras começa igualmente memorizando lugares, mas precisa de muito mais deles do que para as noções, e suas imagens são do mesmo tipo, figuras humanas marcantes em situações dramáticas (imagines agentes).

44. O exemplo proposto consiste em memorizar um verso.

45. O verso diz que os reis, filhos de Atreu, já preparam seu regresso ao lar (Iam domum itionem reges Atridae parant), linha conhecida apenas por essa citação, inventada pelo autor ou extraída de obra perdida, a ser memorizada por meio de duas imagens extraordinárias.

46. O verso aparece unicamente no Ad Herennium e é fixado na memória por duas cenas insólitas.

47. A primeira imagem mostra Domício erguendo as mãos ao céu enquanto é açoitado pelos Márcios Reges, cena violenta talvez presenciada nas ruas ou num palco, que por semelhança sonora evoca domum itionem reges, exemplificando o princípio da memória das palavras.

  • Rex era o nome de uma das famílias mais distintas da gens Márcia, e a gens Domícia, de origem plebeia, também era célebre.
  • A cena é marcante em todos os sentidos, e talvez sangrenta, o que a torna apta como imagem mnemônica.

48. Todos conhecem como, ao procurar uma palavra ou nome, uma associação absurda e fortuita que ficou gravada ajuda a resgatá-lo, e a arte clássica sistematiza esse processo.

49. A segunda imagem mostra Esopo e Címber sendo vestidos para os papéis de Agamenon e Menelau numa Ifigênia, cena de bastidores que fornece Atridae não por som, mas por sentido, e sugere parant pelos atores que se preparam para o palco.

  • Esopo era célebre ator trágico e amigo de Cícero; Címber só é mencionado nesse texto, e a peça também não existe.
  • Os atores sendo maquiados evocam a regra segundo a qual pintar a imagem de vermelho a torna memorável.

50. O método não funciona isoladamente, pois é preciso repetir o verso três ou quatro vezes, decorando-o normalmente, antes de representá-lo por imagens, de modo que a arte complemente a natureza, embora a técnica seja a mais confiável das duas.

51. As imagens para palavras parecem destinar-se menos ao discurso do orador que à memorização de poemas ou peças, exigindo lugares que se estendem por milhas na memória, o que talvez se torne praticável se as imagens funcionarem como deixas dispostas em intervalos estratégicos de um texto já decorado.

52. Os gregos teriam elaborado listas de imagens prontas correspondentes a grande número de palavras, possivelmente sinais taquigráficos (notae) inscritos interiormente nos lugares, método rejeitado pelo Ad Herennium, que considera a memória das palavras sobretudo um exercício para fortalecer a memória das coisas, a de utilidade prática.

  • Mil símbolos prontos não bastariam para cobrir todas as palavras.
  • O uso das notae estava entrando em moda no mundo latino nessa época.

53. A seção conclui com uma exortação ao trabalho, pois em nenhuma disciplina a teoria vale sem exercício contínuo, sobretudo na mnemônica, que exige diligência, dedicação, esforço e cuidado, multiplicando os lugares conforme as regras e praticando diariamente a colocação das imagens.

54. As regras e exemplos do Ad Herennium deixam entrever os poderes das memórias antigas, ilustrados por façanhas como as de Sêneca, o Velho, capaz de repetir dois mil nomes em ordem e de recitar ao contrário versos ditos por duzentos alunos, e de Simplício, amigo de Agostinho, que recitava Virgílio de trás para frente.

  • A capacidade de percorrer os lugares em ambos os sentidos explicaria tais proezas.
  • Por inúteis que pareçam hoje, essas façanhas mostram o respeito antigo pelo homem de memória treinada.

55. A arte invisível da memória reflete a arquitetura antiga num espírito pouco clássico, preferindo lugares irregulares e povoando-se de figuras humanas pessoais, ativas e dramáticas, mais próximas das de uma catedral gótica que da arte clássica, aparentemente amorais e voltadas apenas a impelir emocionalmente a memória.

  • Essa impressão pode decorrer da falta de exemplos sobre como representar coisas como a justiça e a temperança, tratadas na parte sobre a invenção.
  • O caráter esquivo da arte é uma dificuldade constante para seu historiador.

56. Embora errada quanto à autoria do Ad Herennium, a tradição medieval acertava ao inferir que Túlio praticava e recomendava a arte da memória, pois no De oratore, concluído em 55 a.C., Cícero alude, em estilo elegante e discursivo, a uma mnemônica baseada nas mesmas técnicas.

57. No De oratore, Crasso declara não desgostar do método de lugares e imagens, Antônio relata a recusa de Temístocles em aprender a nova arte por preferir a ciência do esquecimento, adverte que tal frivolidade não deve levar ao descuido da memória, e em seguida narra a história de Simônides e resume as regras.

58. Deve-se empregar grande número de lugares bem iluminados, claramente ordenados e a intervalos moderados, e imagens ativas, nítidas, insólitas e capazes de atingir e penetrar rapidamente a alma.

59. As regras para lugares e imagens são reduzidas ao mínimo para não entediar o leitor com instruções de manual bem conhecidas.

60. Segue-se uma alusão obscura a tipos extremamente sofisticados de memória das palavras.

61. A capacidade de usar as imagens é dada pela prática que gera o hábito, por imagens de palavras semelhantes alteradas ou não em seu caso, ou passando da parte ao gênero, e pelo uso da imagem de uma só palavra para lembrar uma frase inteira, como um pintor consumado que distingue a posição dos objetos modificando suas formas.

62. Cícero trata em seguida da memória das palavras que busca uma imagem para cada termo, chamada grega pelo Ad Herennium, mas conclui, como este, que a memória das coisas é o ramo mais útil ao orador.

63. A memória das palavras ganha distinção por maior variedade de imagens, pois muitas palavras servem de articulações da frase e não podem ser figuradas por semelhanças, exigindo imagens de uso constante, ao passo que a memória das coisas, própria do orador, imprime-se pela hábil disposição de máscaras (singulis personis), de modo que as ideias se apreendem pelas imagens e sua ordem pelos lugares.

64. O emprego do termo persona para a imagem da memória das coisas levanta hipóteses: a imagem acentuaria seu aspecto trágico ou cômico como a máscara do ator, o palco seria fonte de imagens marcantes, ou a imagem se pareceria com uma pessoa conhecida, usando essa máscara apenas para estimular a memória.

65. Cícero oferece um pequeno tratado condensado de Ars memorativa, com todos os pontos na ordem usual, e, embora julgue suficiente a memória das coisas, revela ter passado por um exercício de memória das palavras em que imagens se movem, mudam de caso e concentram frases inteiras, como na arte de um pintor consumado.

  • A sequência inclui Simônides, lugares e imagens como escrita em cera, memória natural e artificial, regras para lugares e para imagens, coisas e palavras.

66. Não é verdade, como afirmam os inábeis (quod ab inertibus dicitur), que a memória seja esmagada pelo peso das imagens, pois homens eminentes de memória quase divina (summos homines et divina prope memoria), como Cármadas em Atenas e Metrodoro de Cépsis na Ásia, inscreviam por imagens o que queriam lembrar em lugares próprios, como letras na cera, sendo certo que a prática não cria memória onde a natureza não a deu, mas a faz emergir se estiver oculta.

67. A objeção que acompanhou toda a história da arte, de que lugares e imagens apenas soterrariam o pouco que se lembra naturalmente, já existia na Antiguidade, e diante dela Cícero se apresenta como defensor convicto, sem dúvida dotado por natureza de memória visual fantasticamente aguda.

68. A memória quase divina de Cármadas e Metrodoro suscita a questão do que significa tal expressão para um orador que era também, em filosofia, platônico, para quem a memória possui conotações muito especiais.

69. O nome do misterioso Metrodoro de Cépsis ressoará em muitas etapas posteriores da história da arte da memória.

70. O De inventione, primeira obra retórica de Cícero, escrita cerca de trinta anos antes do De oratore e contemporânea do Ad Herennium, nada acrescenta sobre a memória artificial por tratar apenas da invenção, mas foi decisivo porque suas definições das virtudes fizeram da memória artificial, na Idade Média, parte da virtude cardeal da Prudência.

71. No final do De inventione, Cícero define a virtude, à maneira estoica, como hábito da mente em harmonia com a razão e a ordem da natureza, e a divide em quatro partes, Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança, cada qual com subdivisões.

72. A Prudência é o conhecimento do que é bom, mau ou indiferente, e suas partes são a memória, pela qual a mente recorda o passado, a inteligência, pela qual verifica o que é, e a previdência, pela qual vê algo antes que aconteça (memoria, intelligentia, providentia).

73. Essas definições foram fonte importante da doutrina das virtudes cardeais e são citadas por Alberto Magno e Tomás de Aquino, para quem a pertença da memória à Prudência fundamentava a recomendação da memória artificial, num raciocínio simétrico que unia a Primeira e a Segunda Retórica de Túlio.

  • Na Primeira Retórica (De inventione), a memória é parte da Prudência; na Segunda (Ad Herennium), a memória natural é aperfeiçoada pela artificial.
  • Conclui-se que praticar a memória artificial é parte da virtude da Prudência, e é sob esse tópico que os escolásticos discutem suas regras.

74. A transferência escolástica da memória artificial da retórica para a ética levanta a dúvida sobre uma possível raiz antiga desse uso prudencial, já que os estoicos davam grande importância ao controle moral da fantasia, e permanece aberta a questão de como a Prudência e suas partes seriam figuradas, talvez como uma persona bela cercada de imagens secundárias.

75. Quintiliano, mestre dominante da retórica romana no século I d.C., escreve a Institutio oratoria mais de um século após o De oratore, num momento em que o valor da memória artificial já não é pacífico, havendo quem reduza a retórica a três partes por considerar memória e ação dons da natureza, e sua própria atitude é ambígua, embora conceda destaque ao tema.

76. Quintiliano também introduz o tema com a história de Simônides, em versão com variantes, observando que ela circulava em muitas versões gregas e que sua difusão em Roma se devia a Cícero.

77. A experiência de Simônides mostra que lugares impressos na mente auxiliam a memória, pois ao voltar a um lugar recordam-se as ações, pessoas e até pensamentos ali vividos; escolhem-se então lugares variados, como uma casa com muitos cômodos, e neles se depositam sinais em ordem, que se recuperam percorrendo-os, podendo-se usar também edifícios públicos, viagens, cidades, pinturas ou lugares imaginários, o que torna espantosos os trezentos e sessenta lugares que Metrodoro dizia ter achado nos doze signos do zodíaco, fruto da vaidade de quem se gabava de memória mais artificial que natural.

  • O sinal pode derivar de uma coisa inteira, como a navegação ou a guerra (âncora, arma), ou de uma só palavra que resgata a frase.
  • A primeira noção vai no vestíbulo, a segunda no átrio, as demais em torno do implúvio, nos quartos, salões e estátuas.
  • Os elementos ficam ligados como num coro, bastando o esforço inicial de aprendizagem.
  • Lugares servem de cera e imagens de letras, e Quintiliano cita literalmente as regras resumidas por Cícero.

78. As instruções claras de Quintiliano sobre como percorrer casas, edifícios e ruas permitem compreender as regras para lugares, oferecendo uma razão racional para sua eficácia, a associação natural entre lugares e lembranças, e descrevendo um sistema de sinais plausível, que corresponde de fato ao que hoje se chama mnemotécnica.

79. Quintiliano omite as peculiares imagines agentes, embora as conhecesse pelas regras de Cícero, e contradiz abruptamente o venerado orador ao tratar Metrodoro de Cépsis como fanfarrão e quase charlatão, revelando de passagem que seu sistema se baseava nos doze signos do zodíaco.

80. O juízo final de Quintiliano sobre a arte da memória é então formulado.

81. Os recursos mnemônicos podem servir para reproduzir nomes de coisas na ordem ouvida, como no feito atribuído a Hortênsio de recordar, após um leilão, o comprador de cada objeto, mas servem menos para reter um discurso, pois as noções não evocam imagens como os objetos materiais, certas palavras como as conjunções não se representam, e olhar para formas separadas a cada palavra impediria a fluência, de modo que Cármadas e Metrodoro podem guardar seus sistemas, preferindo-se preceitos mais simples.

  • Colocam-se, por exemplo, uma mesa no vestíbulo e uma tribuna no átrio, reencontradas ao percorrer os lugares.
  • Seria possível, como os taquígrafos, ter imagens para tudo e lugares infinitos para as palavras dos cinco livros da segunda ação contra Verres.
  • A dupla tarefa imposta à memória comprometeria o fluxo do discurso encadeado.

82. O método do leiloeiro coincide com o do professor das festas e, segundo Quintiliano, funciona para certos fins, mas sua extensão às coisas de um discurso exige inventar imagens e não compensa, nada se dizendo das imagines agentes, enquanto as imagens para palavras são entendidas como notae taquigráficas, o método grego descartado pelo Ad Herennium e supostamente admirado por Cícero em Cármadas e Metrodoro.

83. Os preceitos mais simples de Quintiliano consistem sobretudo em decorar intensamente pela via comum, admitindo adaptações modestas da mnemônica, como marcas privadas para passagens difíceis ajustadas à natureza dos pensamentos, e destacando um recurso de especial auxílio ao estudante.

84. O recurso consiste em decorar um trecho a partir das mesmas tabuinhas em que foi escrito, pois a mente segue rastros e fixa o olhar não só nas páginas, mas em cada linha, falando às vezes como se lesse, artifício semelhante ao sistema mnemônico, porém mais rápido e eficaz.

85. Esse método toma da mnemônica o hábito de visualizar a escrita em lugares, mas, em vez de imaginar notae taquigráficas num vasto sistema de lugares, visualiza a escrita comum tal como disposta na tabuinha ou na página.

86. Permanece em aberto se Quintiliano previa preparar a tabuinha ou a página com sinais, notae ou mesmo imagines agentes segundo as regras, para marcar os pontos alcançados pela memória ao longo das linhas.

87. A atitude de Quintiliano difere muito da do Ad Herennium e de Cícero, pois as imagines agentes lhe parecem tão incômodas e inúteis quanto aos modernos, o que sugere ou uma sociedade romana mais sofisticada, que perdera uma associação arcaica e quase mágica entre memória e imagens, ou uma diferença de temperamento, talvez a falta da aguda percepção visual necessária, já que ele não menciona a primazia da visão na invenção de Simônides.

88. Das três fontes, não foi o relato racional e crítico de Quintiliano nem as fórmulas elegantes e obscuras de Cícero que fundaram a tradição ocidental posterior da memória, mas os preceitos do desconhecido mestre de retórica do Ad Herennium.

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