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folktale:1001:apresentacao:epos

Epos

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

  • Os árabes não possuem em sua literatura uma epopeia comparável ao Xá-namê de Ferdusi ou à Eneida virgiliana, assim como os espanhóis também não a possuem, apesar de não lhes faltarem elementos inspiradores e base de tradição histórica.
    • A epopeia espanhola é o Romanceiro, uma série inconexa de façanhas individuais às quais falta o broche superior de uma intenção nacional.
    • A epopeia árabe anda também desperdiçada em romances isolados, de tipo heroico pessoal.
    • Esses romances cantam as lutas do beduíno, o cavaleiro do deserto, com seus rivais das tribos vizinhas.
  • Os romances heroicos árabes formaram-se sobre uma base histórica logo deformada pela lenda, como nos casos de Antara, Chúndaba e outros heróis anárquicos, faltando-lhes a unidade e superioridade de intenção da verdadeira epopeia.
    • A esses brotos esporádicos de epopeia falta a unidade e superioridade de intenção e de objeto que caracteriza a verdadeira epopeia, desde o Ramáiana e a Ilíada até A Jerusalém libertada do Tasso.
    • Assim como o povo nômade e dissociado que gerou esses heróis na época de seu paganismo, andam soltos esses romances, como andavam os da épica iraniana antes de serem unidos por Ferdusi em seu Xá-namê.
  • Os heróis beduínos são bravos que andam em coplas, não se elevando à verdadeira altura épica, pois lutam não contra uma fatalidade de ordem superior, mas simplesmente contra a fatalidade biológica, em casos de luta pela vida.
    • Os heróis beduínos não passam desse grau elementar, próprio de suas façanhas, também elementares.
    • Eles lutam simplesmente contra a fatalidade biológica, em casos da luta pela vida.
  • A luta do homem contra a fatalidade suprema do Destino constitui o fundo da literatura cavalheiresca, que não tem representação entre árabes e hebreus, embora haja neles manifestações rudimentares de individualismo anárquico e egolatria.
    • Entre árabes e hebreus se registram manifestações esporádicas e rudimentares dessa arrogância soberana do homem.
    • Essa arrogância se manifesta como individualismo desaforado e anárquico, de egolatria dissolvente e arrasadora.
    • Ela se move em um círculo delitivo, de bandidagem e morte, sobre a arena antissocial dos desertos.
  • O beduíno dos poemas pré-islâmicos representa um caso de luta biológica, alardes de jactância individual e valentia isolada, distando muito dos cavaleiros arianos que lutam por um alto ideal de amor sublimado ou redenção humana.
    • O beduíno sai de sua tenda, montado em seu cavalo ou camelo, com a lança em riste, em busca de aventuras e inimigos para vencer e despojar.
    • Ele canta seus próprios louvores em linguagem hiperbólica.
    • Os cavaleiros arianos realizam trabalhos e esforços alistados sob as bandeiras do bem.
  • Os cavaleiros arianos formam uma ordem mística com um fundo comum de doutrina esotérica, cuja chave central é a fé na origem divina do homem e na possibilidade de ele se elevar sobre sua natureza humana mediante uma vontade superior.
    • Essa doutrina esotérica está adaptada às diversas religiões dos tempos e países em que atuam.
    • A chave central é a fé na origem divina do homem.
    • A possibilidade de elevação sobre a natureza humana se dá mediante uma vontade superior que nega os egoístas fins imediatos da vontade.
    • Esse é o credo arcano da gnose antiquíssima, da tradição iniciática que madame Blavatski tem tratado de reconstruir com o nome de teosofia.
  • Os árabes não se elevam até o conceito de luta solidária por um Ideal até que surge Maomé e os alista nas milícias religiosas do Islã, que foram o modelo das ordens militares ocidentais, começando pelos Templários.
    • Antes de Maomé, apenas em Antara aponta o caráter filantrópico do cavaleiro andante, erguido em paladino do fraco e do agravado, embora conservando ainda resquícios de salteador de caminhos.
    • É nas lutas com os idólatras que surgem os cavaleiros sem medo, entre os quais descatá Ali ibn Abi Talib, o genro de Maomé, o Leão de Alá vitorioso.
    • As façanhas de Ali inspiraram todo um ciclo de lendas extraordinárias que são, por um lado, hagiografias edificantes e, por outro, verdadeiros livros de cavalaria.
  • Ali não encontrou um poeta que contasse com estro digno suas proezas, assim como Saladino, o herói principal da Anticruzada, não encontrou depois um Tasso árabe que o enaltecesse como o italiano enalteceu seu rival, Ricardo Coração de Leão.
    • Saladino (Salah ad-Din) é o herói principal da Anticruzada.
    • Ele não encontrou um Tasso árabe que o enaltecesse como o italiano enalteceu seu rival, Ricardo Coração de Leão.
  • Os árabes não chegaram a ter uma epopeia nacional, nem sequer o tentaram, como se uma falha psíquica se lhes atravessasse no caminho, fenômeno análogo ao que ocorre na literatura espanhola, cujo expoente psíquico é o Quixote.
    • A história brinda aos árabes sobrados elementos e intenções para uma epopeia.
    • Talvez seu espírito individualista, ou sua tendência a ver as coisas por seu duplo perfil e sua aguda percepção do cômico, cortem seus voos ao trágico.
    • Na História do rei Omar ibn al-Nu'mãn e de seus filhos (Noites 60 a 102), que tem ares de poema épico, a visão do picaresco se interfere e produz uma paródia.
  • Segundo Renan, os árabes não têm epopeia devido a seu monoteísmo absoluto, pois a grande epopeia brota sempre de uma mitologia e da luta de elementos divinos, o que é impossível com um Javé ou Alá solitário.
    • A grande epopeia só é possível mediante a luta dos elementos divinos e a admissão da hipótese de que o mundo é um campo imenso de batalha em que deuses e homens travam perpétuos combates.
    • O que fazer para a epopeia com esse Javé ou esse Alá solitário, que é o que é?
    • Que luta empenhar contra o Deus de Jó, que não responde ao homem senão com trovões?
    • Em regime semelhante, a criação mitológica só podia conduzir à criação de executores das ordens divinas, anjos ou mensageiros, sem distinção individual, sem iniciativa nem paixão.
  • Renan atribui também à falta de imaginação criadora dos nômades primitivos o caráter lírico e subjetivo da poesia árabe e a ausência do romance em sua literatura, mas o orientalista generaliza demais sua tese ao estendê-la aos tempos pré-islâmicos.
    • Nos tempos pré-islâmicos, os árabes, por contato com outros povos, professavam um politeísmo propício à criação de uma mitologia e ao desenvolvimento de uma literatura variada e rica, como a dos hindus ou gregos.
    • Foi Maomé quem cortou os voos a essa literatura em germe e lhe impôs a monotonia de seu intransigente monoteísmo.
    • Ao arrojar os ídolos da Caaba, o Profeta expulsou também as Musas.
  • Parece excessivo supor, como faz Renan, que os semitas foram fatalizados desde o princípio pela mecânica elementar de seu idioma para intentar outra coisa que não a parábola ou o salmo, pois o gênio semita poderia ter formado um verbo mais rico se se tivesse desenvolvido livremente.
    • Não há mais que ver o que os chineses fizeram com sua linguagem monossilábica de crianças.
  • É certo que os árabes não se elevaram à epopeia e que em As mil e uma noites não há nenhum verdadeiro epos, mas sim aproximações, novelas de corte romântico-cavalheiresco, procedentes da mesma fonte ariana, o Mahabharata.
    • As aproximações são novelas de corte romântico-cavalheiresco, pelo estilo das que enlouqueceram Dom Quixote.
    • Essas novelas procedem, sem dúvida alguma, da mesma fonte ariana, o Mahabharata.
  • Nas histórias de Kamar al-Zaman (Noites 148 a 176), de Hasan de Basra (Noites 437 a 465) e do príncipe Almas (Noites 872 a 885), encontram-se todos os elementos da novela de cavalaria, em que os heróis lutam e arrostam penalidades por chegar até a dama de seus pensamentos.
    • Os heróis lutam para chegar até a Mulher sublime por seus sonhos, divinizada com atributos de única e superior a todas as demais.
    • Às vezes, os heróis nem sequer viram nunca a dama, como também Dom Quixote não necessitou ver Dulcineia para se enamorar de seu ideal encanto.
    • Esses Kamar al-Zaman, Hasans e Almas são do mesmo temperamento romântico-idealista que os Amadises e Belianises das novelas de cavalaria ocidentais.
  • Há um matiz diferencial que marca a refração que esses argumentos ario-persas sofreram ao serem arabizados: o cavaleiro enamorado das Noites não costuma ser de saída um herói, mas algo como um Sancho Pança metido a Quixote pela força das circunstâncias.
    • O cavaleiro enamorado é um mercador, um pacífico vizinho de Bagdá, Basra ou Cairo, que de repente, por efeito de um impulso passional, se vê convertido em protagonista de um argumento de cavalaria e magia.
    • Excluindo príncipes natos como Saif al-Muluk e Farús, o irmão de Parisad, e Judadad, que são verdadeiros heróis de novela cavalheiresca ariopersa, os demais mostram essa liga de nobre e plebeu, de Quixote e Sancho.
  • Hasan, o de Basra, e Nur al-Din, o da história de Maryam, não valem grande coisa como enamorados nem como homens, sendo-lhes característico apenas a constância, a tenacidade amorosa e a obsessão erótica, que lhes confere uma espécie de vontade passiva.
    • Eles não chegariam nunca ao castelo inacessível em que a dama os aguarda, como Melisenda no ciclo de Carlomagno, se não lhes assistissem gênios bons, tutelares, feiticeiros da magia branca.
    • Esses gênios bons são inimigos dos outros gênios maus, protervos, com os quais estão sempre no mesmo estado de guerra que fagócitos e leucócitos no corpo humano.
  • Os sábios bons, nigromantes compassivos e filantrópicos, inimigos naturais de monstros e vestígios, estão assistidos também por animais, elefantes, pássaros e até monstros, sujeitos por poder de magia a seu serviço, de procedência industânica.
    • Esses sábios vão levando esses heróis apoucados e pusilânimes, mercadores, até as regiões de cartografia do mito, como as sete ilhas de Al-Uraku-l-Uak, o Castelo de Diamantes chamado Tekná, o País do Alcanfor e do Ébano, e a Montanha das Nuvens.
    • Prescindindo desse coro de seres bons, ajudam também a esses heróis forçados suas próprias amadas, mais valentes, mais amantes e mais viris que eles.
  • Quando as ajudas sobrenaturais faltam, os enamorados sucumbem, como no caso de Ali ibn Bakkar e Shams al-Nahar, a favorita de Harun, e não há mais que fazer senão enterrá-los juntos, chegando assim o amor a esse grau de sublimação nas histórias.
    • O amor chega ao grau de sublimação suprema em forma de negação do eu e sacrifício da própria personalidade.
    • Isso ocorre como nas histórias de Chamil e Antara, que se afastam de suas amadas e se retiram ao ermo para consagrar-se por inteiro ao amor e serviço de Deus.
  • Histórias de amor sublimado desse tipo místico abundam em As mil e uma noites, sendo os loucos de amor por sua dama uma legião, assim como os loucos de amor por Alá, último termo da sublimação erótica.
    • Trata-se aqui em grande parte de uma moda literária vinda da Pérsia, com os sufis, esses grandes místicos que tanto influíram na literatura de seu país e logo na de todo o mundo nos séculos médios.
    • Provavelmente são essas histórias de argumentos antigos retocados segundo o gosto novo pelo romântico idealista, introduzido pelo persa Nizami com seu famoso poema de Majnun e Leila, que todo o Oriente leu com embeleso.
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