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folktale:1001:apresentacao:galland
Antoine Galland
R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
- Antoine Galland é o descobridor do Oriente literário que as Mil e Uma Noites revelam, sendo também aquele que, com seu livro, surpreende os orientalistas de seu tempo e dá origem a um debate sobre as origens e a paternidade da obra que ainda não teve sua última palavra.
- A primeira impressão que o livro produz é de surpresa e perplexidade — o tradutor não indica como fonte de seu trabalho senão um manuscrito “que foi preciso mandar vir da Síria”, o que leva muitos a suspeitar de mixtificação e a tomá-lo pelo próprio autor árabe desconhecido que invoca.
- O manuscrito árabe que serviu a Galland permanecia envolto em obscuridade — ao que parece, ele o encontrou na Síria, aonde fora por encargo de Sua Majestade Cristianíssima recolher inscrições e moedas para os museus franceses, mas não pôde adquiri-lo no local, obtendo-o mais tarde em Paris por meio de seus agentes, conforme o próprio Galland declara em seu prólogo.
- A versão de Galland teve, contudo, um sucesso estrondoso e fulminante, devido sobretudo aos seus méritos literários.
- As Mil e Uma Noites, adaptadas ao gosto francês do século XVIII — aparadas, civilizadas, mas sem perder inteiramente seu ar exótico, bárbaro e oriental — foram desde o primeiro momento a sensação de Paris, a novidade que aquele público frívolo necessitava, tornando-se não apenas uma moda, mas a moda em si.
- O livro surpreendeu, encantou e entusiasmou os homens, enquanto indignou um pouco as mulheres — aqueles costumes polígamos e aquele modo despótico de tratar as esposas sublevavam a dignidade das damas do século da galanteria, que abraçavam a causa de Scherazade, ao passo que os cavalheiros se punham do lado do rei Schahriar, mas uns e outros estavam igualmente sob o feitiço literário da obra.
- Carlos Nodier explica o sucesso das Mil e Uma Noites de Galland com as seguintes palavras: “Produziram desde o primeiro momento esse efeito que assegura às produções do engenho o favor popular, pertencendo a uma literatura pouco conhecida na França e admitindo — ou melhor, exigindo — esse gênero de composição, detalhes de costumes, caracteres, indumentária e lugares absolutamente estranhos a todas as ideias correntes em nossos contos e romances. Todo o mundo se maravilhou com o encanto que emanava de sua leitura. E é que a verdade dos sentimentos, a novidade dos quadros, uma imaginação fecunda em prodígios, um colorido cheio de calor, o atrativo de uma sensibilidade sem pretensões e o sal de uma graça sem caricatura, o engenho e a naturalidade, numa palavra, agradam em toda parte e a todo o mundo.”
- As opiniões dos leitores dividiam-se quanto ao fundo moral do livro, mas uniam-se para aplaudir seu mérito literário — as Mil e Uma Noites suscitavam nos salões de Paris discussões e torneios de engenho e galanteria, colocando sobre o tapete a eterna questão do feminismo, latente muito antes que Miss Pankhurst e suas sufragistas lhe dessem nome, e as bas-bleu saíram em defesa de seu sexo, com escritores complacentes pondo sua erudição a serviço da causa de vindicação da mulher.
- A esse clima deve-se, sem dúvida, a publicação em Paris do livro Os Mil e Um Dias — contos persas, indianos, turcos e chineses — traduzidos por orientalistas como Cazotte, Caylus, Engel e Petit de la Croix, obra que é uma réplica e até certa medida uma paródia das Mil e Uma Noites, com o mesmo argumento invertido: uma princesa que sente pelos homens a mesma aversão que o rei Schahriar pelas mulheres.
- Sobre a origem de Os Mil e Um Dias há debate semelhante ao das Mil e Uma Noites — segundo alguns, suas histórias derivam do livro árabe Al-Farchu bádi-sch-Schiddet (A alegria após a aflição), de Al-Kaziyu-t-Tenuji, traduzido ao persa por Husein Abasad-Dehistani no século V da hégira; segundo outros, como Burton, seu autor original foi o famoso dervixe Mujis, chefe dos sufis de Isfahan.
- Contra Galland formou-se um partido de mulheres ressentidas e escritores invejosos que aproveitavam a ocasião para desacreditar as Mil e Uma Noites com o rótulo de imorais e contrárias aos bons costumes e ao bom gosto — e o escândalo literário que se seguiu apenas amplificou o sucesso da obra.
- O rumor das discussões que as Mil e Uma Noites provocavam na imprensa e nos salões de Paris foi tão fragoroso que atravessou o Canal da Mancha, e os ingleses, tão insulares e refratários a modas alheias, apressaram-se a transplantar para sua ilha aquela flor exótica.
- Em 1712, o ensaísta Addison, em seu famoso Spectator, menciona os contos árabes traduzidos ao francês por Galland.
- Em 1713, aparecem as Arabian Nights Entertainments, translated from the French, de autor anônimo, que em pouco tempo alcançam sua quarta edição, seguidas de adaptações de Foster e Bussey, hoje sem valor para a crítica.
- Na França, o sucesso da versão de Galland segue em linha ascendente — a segunda parte é publicada em Paris em 1717, após a morte do tradutor em 1715, com reedições em 1726, 1738, 1773, 1774 e 1788, chegando as Mil e Uma Noites triunfantes quase ao pé da guilhotina.
- Os acontecimentos trágicos da Revolução, do Terror e de Napoleão interrompem na França o voo dessas doces histórias vindas do plácido Oriente, que, como seus leitores aristocráticos, buscam refúgio em climas mais tranquilos.
- São os ingleses e os alemães que preenchem esse intervalo de silêncio francês — os primeiros pesquisando pelo lado da Índia, que lhes é familiar; os segundos, pelo Oriente islâmico.
- Em 1800, publica-se em Londres a obra do doutor Jonathan Scott, funcionário do governo britânico em Bengala, intitulada Tales, Anecdotes and Letters, translated from the Arabic and Persian.
- Em 1811, o mesmo doutor Scott publica The Arabian Nights Entertainments, a partir de um manuscrito descoberto por Worthley Montague.
- Em 1823, em Tubinga, inscreve-se na bibliografia a versão alemã do barão austríaco Von Hammer-Purgstall, feita sobre manuscritos árabes do Cairo e de Istambul.
- Em 1824, em Breslau, surge a versão do doutor Max Habicht sobre um manuscrito da Tunísia — ambas mais ricas e completas que a de Galland.
- Em 1838, o irlandês Torrens publica em Calcutá sua versão intitulada The Book of the Thousand Nights and One Night, ajustada a um manuscrito egípcio editado por MacNaghten.
- No mesmo ano, em Stuttgart, aparecem as Tausend und eine Nacht do doutor Gustavo Weil, arabista estimado por sua Geschichte der Chalifen (História dos Califas), com a menção de “pela primeira vez traduzidas do texto primitivo (Urtexte) íntegra e fielmente”.
- No Oriente, publicam-se várias edições árabes do livro, todas discordantes entre si — a do sheik Al-Yemeni (Calcutá, 1814), inacabada; a de Bulak (1835), muito mutilada; a de Beirute, expurgada pelos jesuítas; e a de Esbekieh, no Cairo —, enquanto nas bibliotecas europeias existem doze manuscritos árabes que tampouco concordam entre si.
- É então que começa a verdadeira crítica erudita do livro, com orientalistas de três nações tentando delimitar as origens da obra e fixar seu texto canônico — os franceses capitaneados por De Sacy, os alemães por Von Hammer-Purgstall, e os ingleses de forma autônoma.
- Entre os orientalistas há arabistas puros — De Sacy —, arabistas-persianistas — Von Hammer-Purgstall — e indianistas-sanskritistas — Jones e Langlés —, e cada um desses doutos sátrapas reivindica o livro para sua jurisdição, enxergando nele uma obra da literatura que lhe é mais familiar.
- Atravessam-se inferências passionais no debate científico, que por isso ganha emoção sem perder rigor — e por esses rodeios eruditos chega-se à mesma conclusão que qualquer leitor culto alcança intuitivamente: as Mil e Uma Noites são obra comum de três povos — hindu, persa e árabe —, sem esquecer a parte dos judeus, esses homens ubíquos, sendo em suma um livro asiático e oriental.
- Cabe examinar as três hipóteses sobre a origem do livro — como os três degraus de uma escada —, começando pelo superior, já que é mais cômodo descer do que subir.
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