Paradoxo
R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
As mil e uma noites são consideradas um paradoxo, sendo impossível aplicar-lhes um critério único
- A obra não é um livro, mas um livro de livros, de múltiplos autores com gostos e ideias muito diferentes
- Trata-se de uma criação geológica com diversos estratos de distintas épocas, onde o diamante alterna com o simples cristal carbonizado
- Nenhuma palavra definitiva pode ser dita sobre uma obra assim, sendo preciso confinar-se na alternativa e no dilema, sem generalizar ou dogmatizar
- O livro é descrito como “compensado”, sendo sempre uma coisa e a contrária, oferecendo exemplares contraditórios
Na técnica dos compiladores, observam-se primitivismos incompreensíveis ao lado de refinamentos de arquicivilizados
- Vizires fritam eles mesmos o peixe que comerão; princesas têm o cabelo cheio de piolhos, mas possuem alma esquisita
- Personagens românticos manifestam reações grosseiras próprias da natureza primitiva, cedendo a impulsos naturais
- Mercadores conduzem-se como príncipes e príncipes como mercadores, indicando raça, estado social ou acomodação ao gosto popular
- Os árabes não operaram a diálise do nobre e do plebeu, mostrando sempre uma liga de ambos os elementos
Reações espontâneas e impulsivas, reprimidas pelo homem atual, são apresentadas como naturais
- Os heróis de Homero já choravam sem vergonha, e os orientais dos contos cedem às necessidades naturais sem disfarce
- A ausência de censura do narrador humaniza os personagens, tornando-os simpáticos
- Há uma verdade psicológica e psicofisiológica que encanta, lembrando o lado zoológico no homem
- Ao lado de detalhes plebeus, existem milhares de refinamentos esquisitos, dignos das épocas mais refinadas e decadentes
A obra mostra-se carente de psicologia racional, mas acusa um saber profundo sobre psicologia anormal e psicoses
- Os plebeísmos são expressões de um realismo integral e da verdade psicofisiológica do homem
- Os enamorados que comem e atendem às necessidades fisiológicas são mais reais que os da novela ocidental moderna
- Os rapsodos se acreditam psicólogos no campo da parapsicologia, herdeiros de uma tradição de hindus, gregos e egípcios
O próprio livro é, no fundo, o processo de curação do rei Xariar pelo poder diversório do conto
- Xerazade se propõe a curar o rei monomaníaco pelo poder da palavra, acreditando-se doutora em psiquiatria
- O rei Xariar não é o único doente mental; há muitos outros submetidos a tratamento psíquico por indivíduos que possuem a ciência dos faquires
- Um vizir do rei Taju-ul-Muluque, mediante uma imagem desenhada num muro, livra a princesa Dunya de seu complexo andrico
- Um dervixe anônimo cura a hipocondria de um sultão egípcio fazendo-lhe ver quadros horríveis do que poderia ter sido sua vida
Os autores medievais de As mil e uma noites anteciparam-se aos modernos romancistas no estudo de complexos dramáticos
- A obra está em um grau de avanço parapsicológico que a literatura ocidental só começa a alcançar no século XIX
- A obra contém exemplos de endemoniados tratados pelo modo corrente na Idade Média, mas com uma compreensão mais fina do processo
- O contista explica a possessão demoníaca como uma imposição de uma vontade alheia, um desdobramento da personalidade por alta sugestão
- A magia manipula elementos psíquicos e ilusionismo natural, provocando alucinação, autoengano e catalepsia mental
Os sonhos têm grande importância como material psíquico em As mil e uma noites
- Registram-se sonhos admonitórios, proféticos e reveladores de anseios reprimidos, que funcionam como ideias-força na conduta
- Um sonho encaminha o jovem Mesrur à casa de Sinu-l-Mauazif (Noites 465 a 476) e lhe dá ânimo para conquistar seu amor
- Realidade e alucinação se confundem, criando a penumbra mental já indicada
Casos de bilocação, levitação, telepatia e sugestão a distância têm registro nas histórias
- A história do gênio que guarda sua alma numa caixinha no fundo do mar ecoa a crença na pluralidade de almas e no duplo ou corpo astral
- Esses fenômenos indicam nos autores um grande conhecimento de metapsíquica, também encontrado no Talmud
- O estudioso moderno encontra nessas páginas um eco dos progressos da ciência da alma na época dos neoplatônicos alexandrinos
O psíquico em As mil e uma noites suplanta às vezes a realidade, reduzindo-a a mera ilusão
- Na História do dorminhoco despertado (Noites 576 a 583), o problema do valor das sensações conscientes é colocado em termos angustiosos
- O subconsciente dirige a vida chamada consciente e dilata os marcos da razão, tornando tudo possível
- Um nexo proustiano conecta os processos psicológicos e as séries fenomênicas em variações infinitas
Muito antigo e muito moderno, o livro conta com ar de fábula coisas que existiram e registra instituições e costumes já esquecidos
- O matriarcado, o rapto nupcial, o exame ante a Esfinge e o dote de cabeças cortadas são registrados como coisas atuais
- A importância que o Tempo tem nessas histórias corresponde à que lhe é dada na filosofia moderna
- O Tempo em As mil e uma noites é um personagem comparável ao destino, determinando a sorte das criaturas
O sentido filosófico ou moral da obra elude toda apreciação dogmática
- Nunca se diz uma última palavra sobre as grandes questões metafísicas, como a predestinação ou o valor dos atos humanos
- O livro é um grande debate aberto, uma grande controvérsia como as da Idade Média na Sorbonne
- Bagdá, como Paris, era um centro de controvérsias filosóficas e teológicas, onde discutiam seus teses antagônicas os Abelardo e os Pico da Mirandola orientais
Opiniões contrapostas aparecem alegorizadas em histórias como a do xeique da mão pródiga (Noites 628 a 635) e a de Simbad, o marinho (Noites 317 a 335)
- Nessas histórias, tratam-se com critério oposto os temas da predestinação e do livre-arbítrio, do poder da vontade e da ação humana
- Todas as escolas filosóficas e seitas teológicas do Islã, misturadas com as correntes místicas dos sufis, podem ser registradas aqui em forma de contos
- Anedotas de catequese sufi, hebraica ou búdica exaltam o desprendimento terreno, em confronto com outras que apreciam o valor do capital
- A questão social é tratada e resolvida equitativamente na história de Simbad, o marinho, e Simbad, o carregador
Não se pode atribuir nenhuma intenção última nem direção determinada em sentido político ou de alta moral a este livro heterogêneo
- O livro é animado pelo afã discutidor da Idade Média, que transcendia até as pacíficas Cortes de Amor
- Há múltiplos brotos heterodoxos e manifestações de livre pensamento islâmico, escapes de voltairianismo e ressonâncias paródicas
- Os ulemás provavelmente olhavam o livro com desdém por ser popular, escrito em língua não inteiramente clássica e repleto de superstições
- O livro era malvisto e até malformado em sua pátria oriental, sendo o Ocidente quem realmente valorizou essa pérola amassada que ali rolava pelo chão
