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Contos de Fadas

COOPER, J. C. Fairy Tales: Allegories of the Inner Life. Wellingborough: Aquarian Press, 1983.

Introdução

1. Os contos de fadas integram algumas das mais notáveis narrativas universais e apresentam surpreendente uniformidade entre culturas, seja por sua permanência histórica, pela circulação entre países ou pelo surgimento espontâneo na mente humana, reunindo seres sobrenaturais benéficos e maléficos em tradições cujos testemunhos antigos abrangem narrativas egípcias, o Panchatantra hindu, empregado na educação de jovens aristocratas, as histórias budistas Jataka e os contos persas de seres mágicos.

2. As primeiras coletâneas europeias de contos em prosa surgiram no período posterior ao Renascimento, com as Noites agradáveis de Straparola, publicadas em Veneza em 1550 e compostas de anedotas, adivinhas e narrativas maravilhosas, seguidas pelo Pentamerão de Giambattista Basile, que reuniu histórias recolhidas em suas viagens pela Itália e as apresentou em dialeto napolitano sob o pseudônimo de Gian Alesia Abbatutis.

3. A circulação francesa das primeiras coletâneas favoreceu o aparecimento dos célebres contos de Charles Perrault, cuja popularidade consolidou os contos de fadas na Europa e antecedeu o monumental trabalho de compilação realizado pelos irmãos Grimm na Alemanha.

4. Embora as adaptações de Perrault tenham frequentemente trivializado as narrativas mediante tratamentos satíricos, gracejos e moralidades desnecessárias destinados ao entretenimento cortesão, sua divulgação despertou amplo interesse e inspirou escritoras como Madame d’Aulnoy, contribuindo para a posterior investigação folclórica e antropológica dessas histórias, exemplificada pela edição e pelo estudo de suas origens realizados por Andrew Lang.

5. Os contos de fadas constituem objeto de investigação antropológica, psicológica e metafísica, e sua importância para além do divertimento infantil manifesta-se nos tabus mágico-religiosos que tradicionalmente regulavam sua transmissão oral, restringindo-a a determinadas épocas ou, mais frequentemente, ao período noturno, junto ao fogo doméstico e com portas e janelas fechadas.

6. A difusão milenar dos contos de fadas demonstra sua capacidade de ensinar a crianças e adultos segundo diferentes níveis de compreensão, mediante um repertório relativamente restrito de temas e personagens recorrentes em sociedades diversas, cujas aventuras se desenrolam entre o mundo natural e um domínio perigoso no qual forças sobrenaturais permanecem prontas para auxiliar ou ameaçar os protagonistas.

7. Os temas mais recorrentes dos contos de fadas abrangem a descida da alma ao mundo, suas experiências, a iniciação, a busca da unidade e as provações da existência terrena, destacando-se o motivo do Paraíso Perdido e Recuperado, exemplificado por Cinderela e pela passagem de uma desgraça inicial a uma resolução feliz.

8. Os contos organizados em torno da transgressão de proibições, como formular uma pergunta ou abrir uma porta vedada, exemplificados por Barba Azul e A donzela cisne e relacionados ao mito de Amor e Psiquê, aproximam-se de narrativas sobre o poder dos nomes e das palavras, enquanto a recorrência universal de tarefas impossíveis, associadas ao motivo de Jasão e Medeia, evidencia a facilidade com que os argumentos se transformam e se combinam.

9. A ajuda de animais agradecidos ou de aves dotadas de fala e poderes mágicos constitui um motivo universal associado ao Paraíso, assumindo tanto a forma de auxílio espontâneo, como em O Gato de Botas e Cinderela, quanto a de retribuição por benefícios recebidos, como em Ândrocles e o leão, Branca de Neve e Rosa Vermelha e outras narrativas tibetanas e hindus.

10. O motivo do companheiro repugnante apresenta uma criatura de aparência desagradável, geralmente submetida a um encantamento, cuja condição original é restaurada pela coragem, generosidade, fidelidade a uma promessa ou amor, podendo a libertação envolver benefícios recíprocos, como em Riquet do Topete, no qual a superação da deformidade de um protagonista corresponde à superação de uma deficiência de caráter do outro.

11. Os voos mágicos e as transformações entre donzelas e aves, sobretudo cisnes, aparecem com frequência nas tradições narrativas, nas quais a condição animal da heroína pode decorrer de um encantamento ou estar relacionada à sua ascendência feérica.

12. No enredo arquetípico da donzela-ave, um mortal retira seu manto de penas e se casa com ela, mas a perde quando ela recupera o objeto e retorna ao reino encantado, tornando necessárias provas e tarefas extraordinárias para reconquistá-la, num ciclo associado aos tabus e ao poder das águas que também abrange histórias de irmãos transformados em aves e libertados pela irmã.

13. Os motivos transmitidos dos antigos mitos, sagas e lendas aos contos populares preservam uma herança arquetípica universal, cujas imagens e símbolos oferecem meios de compreensão de si e do mundo e exprimem um significado cósmico profundamente enraizado na natureza humana, capaz de despertar a busca por uma realidade inacessível à linguagem comum.

14. A natureza arquetípica e a expressão simbólica dos contos de fadas permitem sua compreensão em diferentes idades da vida e épocas históricas, estabelecendo aproximações entre culturas e níveis de entendimento e tornando perceptíveis tanto as dimensões luminosas e obscuras da existência quanto os conflitos mentais e emocionais do indivíduo.

15. Embora os termos mito, saga, lenda, folclore e conto de fadas sejam frequentemente empregados sem precisão e suas fronteiras possam parecer incertas, essas formas narrativas apresentam diferenças fundamentais e compartilham uma natureza arquetípica.

16. O mito integra a experiência de um povo e conserva elementos de sua história, mas se dirige sobretudo ao domínio dos deuses, criadores, seres divinos, poderes sobrenaturais e heróis culturais, possuindo uma finalidade predominantemente religiosa.

17. A saga possui raízes históricas e aristocráticas, admite o desfecho trágico e reivindica alguma credibilidade, enquanto o conto de fadas pertence ao domínio poético e fantástico, exige um final feliz e coloca em primeiro plano poderes mágicos de transformação provenientes de reinos superiores ou inferiores ao humano, diante dos quais os protagonistas recebem auxílio ou enfrentam ameaças.

18. Enquanto o mito privilegia a dimensão intelectual e a saga e a lenda se concentram na ação, o conto de fadas assume caráter romântico e emotivo, apresentando os arquétipos numa escala pessoal e acessível por meio de personagens geralmente anônimos ou designados por características típicas, com os quais qualquer indivíduo pode identificar-se.

19. A ausência de determinação histórica e de limitações temporais permite que os contos de fadas se desenvolvam num universo de metamorfoses, no qual seres humanos, animais e elementos naturais alteram sua aparência sem perder a identidade, permanecem encantados por períodos indefinidos sem envelhecer e podem recuperar a vida por meios sobrenaturais.

20. O final feliz constitui uma exigência essencial do verdadeiro conto de fadas, cujo otimismo assegura o triunfo da boa vontade e a disponibilidade de auxílio sobrenatural para aqueles que confiam nos poderes benéficos e cumprem suas condições, enquanto narrativas de desfecho infeliz ou meramente punitivo, como certas histórias moralizantes e a versão de Chapeuzinho Vermelho de Perrault, pertencem a modalidades próximas, mas distintas.

21. A união final do herói e da heroína exprime, mediante o simbolismo do Andrógino, a nostalgia do Paraíso e da Idade de Ouro, quando deuses, seres humanos e animais se comunicavam sem separação entre sagrado e profano, condição preservada na coexistência do natural e do sobrenatural e no auxílio de animais falantes que conduzem os protagonistas à felicidade.

22. A abundância paradisíaca, na qual o alimento se encontra disponível sem trabalho, reaparece em narrativas como A mesa dos desejos, cujo objeto mágico oferece espontaneamente toalha, louça, comida e vinho sempre que o herói necessita.

23. O enfrentamento de poderes adversos transporta os protagonistas da experiência pessoal ao domínio universal e espiritual, permitindo que a criança participe imaginativamente de situações arquetípicas relativas ao bem e ao mal, à coragem e à covardia e à resistência diante de forças superiores, superando sentimentos de isolamento pela identificação com uma totalidade maior cujo desfecho feliz oferece a experiência simbólica do triunfo.

24. As influências orientais transmitidas pela alquimia, difundida na Europa e na Espanha medieval pela cultura árabe, introduziram nos contos símbolos como ouro e prata, sol e lua, rei e rainha e a transmutação dos metais como expressão da busca interior da identidade e da unidade no Andrógino, enquanto as narrativas hindus acrescentaram motivos ligados ao fatalismo e ao carma, nos quais acontecimentos inevitáveis conduzem ao triunfo final do bem.

25. O fascínio dos contos de fadas em todas as idades decorre de sua capacidade de revelar a natureza interior e suas possibilidades espirituais, psíquicas e morais, convertendo a busca do sentido da vida numa trajetória em que sofrimentos e provações diante de poderes desmedidos tornam possível o desenvolvimento dos protagonistas e sua unificação final.

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