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ESOPO, AVATAR DE AKHIKAR
Vie d’Ésope: livre du philosophe Xanthos et de son esclave Ésope : du mode de vie d’Ésope. Paris: Belles lettres, 2006.
- A história de Aquicar remonta a um tempo muito recuado, pois se passa na primeira metade do século VII a.C., na época neoassíria, sob os reinados de Senaqueribe (704–681 a.C.) e de seu filho e sucessor Assaradão (681–669 a.C.).
- Não se sabe se Aquicar existiu de fato: pode tratar-se não de um personagem histórico, mas de uma figura imaginária, emblemática da classe dos escribas e eruditos.
- A versão mais antiga conservada é uma versão aramaica, encontrada num papiro do século V a.C., proveniente de Elefantina, no Egito, então sob dominação aquemênida.
- O texto compõe-se de duas seções distintas: uma biografia de Aquicar e uma série de provérbios.
- Na seção biográfica, narra-se como Aquicar — outrora conselheiro de toda a Assíria e guardião dos selos de Senaqueribe — adotou seu sobrinho Nadan na velhice e o apresentou a Assaradão como sucessor; o ingrato Nadan conspira contra o tio, fazendo o rei crer que Aquicar corrompeu o país contra ele; Assaradão encarrega então o capitão Nabusumiscun de executar o antigo vizir, mas este, a quem Aquicar salvara a vida anteriormente, poupa-o e o esconde em sua casa, sacrificando um servo em seu lugar.
- Os cem e dez preceitos que compõem o restante do texto aramaico eram originalmente independentes da história de Aquicar — compostos numa língua sensivelmente mais arcaica — e foram adjuntos à biografia de maneira bastante artificial, figurando como conselhos dados por Aquicar ao sobrinho Nadan.
- O final da história de Aquicar só é conhecido por testemunhos muito mais tardios, sendo as versões siríaca e armênia as mais antigas entre as traduções existentes, não anteriores provavelmente ao século V d.C.
- Alguns pesquisadores consideram essas versões mais fidedignas ao original do que a própria versão aramaica do século V a.C.
- Nelas se narra como Aquicar retoma o favor de Assaradão e auxilia o soberano na batalha de enigmas que o opõe ao rei do Egito — episódio em que o faraó desafia seu rival a construir um castelo no ar.
- Saído vitorioso de todas as armadilhas do egípcio, Aquicar é recompensado por Assaradão e, autorizado a punir seu filho adotivo, inflige ao jovem uma longa série de reprimendas; Nadan morre pouco tempo depois, tão chocado pela repreensão.
- A figura do sábio assírio é onipresente no Livro de Tobias, texto redigido em grego por volta de 200 a.C., provavelmente a partir de um original aramaico, e é um dos muitos testemunhos da popularidade de que a história de Aquicar gozou na Antiguidade.
- O autor de Tobias insiste nos laços de parentesco e afeição que unem Tobias ao ilustre Aquicar, apresentado como sobrinho do protagonista.
- Tobias cita as desventuras de Aquicar como exemplo para seu filho, a fim de incitá-lo a deixar Nínive: “Vê, meu filho, tudo o que Nadan fez a seu pai adotivo Aquicar: não o fez descer vivo ao coração da terra? Mas Deus restituiu a infâmia diante dos olhos da vítima: Aquicar saiu para a luz, enquanto Nadan entrou nas trevas eternas, pois havia procurado matar Aquicar. Porque praticou a esmola, Aquicar escapou da armadilha mortal que Nadan lhe havia preparado, mas Nadan caiu na rede mortal que causou sua perdição.”
- A estrutura da história de Tobias parece ter sofrido a influência das aventuras de Aquicar: Tobias também cai em desgraça após conhecer o favor real, e sua cegueira temporária remete ao simbolismo de morte aparente seguida de ressurreição, ilustrado na história de Aquicar pela reclusão do grão-vizir e seu retorno à graça.
- As duas séries de máximas endereçadas por Tobias a seu filho parecem inspirar-se diretamente nos dois discursos de Aquicar a Nadan, com a diferença de que têm sobre o jovem maior eficácia — como se o autor de Tobias quisesse sugerir a superioridade de seu próprio herói em matéria de sabedoria.
- Aquicar era conhecido não apenas no mundo judaico, mas também dos gregos e romanos, e sua reputação parece ter se difundido na Grécia já no século V a.C.
- Clemente de Alexandria atribui a Demócrito o deciframento de uma misteriosa “estela de Acícaro”, apresentada em seguida pelo filósofo como produção própria — e que pode ter contido dados biográficos ou os “ensinamentos” de Aquicar, material suscetível de atrair um filósofo de reconhecido interesse pelo mundo oriental.
- Teofrasto teria se interessado pelo sábio assírio no século seguinte: Diógenes Laércio cita, entre as obras do discípulo de Aristóteles, um texto intitulado Acícaro (5, 50).
- O nome do grão-vizir figura também, ligeiramente deformado, em Estrabão, associado ao de Moisés.
- É possível que Aquicar tenha sido representado em um mosaico de época romana descoberto em Trieste (século III d.C.): diante da Musa Polímnia figura um sábio com nome incompleto (… ICAR), que poderia ser “Acícaro”.
- A influência das aventuras de Aquicar foi identificada em diversas obras literárias gregas, notadamente nas Aves de Aristófanes — cuja intriga inteira se inspiraria na história do castelo aéreo — e no Romance de Tinufis.
- Tinufis, herói desse texto composto no Egito em época imperial, é apresentado como mago e “salvador do Rei” — à semelhança de Aquicar —, e o que subsiste de suas aventuras não é sem analogia com a história do grão-vizir: condenado à morte, Tinufis é salvo, como Aquicar, por seu carrasco, um tal Sósias.
- O que torna atrativa a hipótese de uma influência da lenda de Aquicar sobre o Romance de Tinufis é que, na época em que o romance foi composto, a história do grão-vizir circulava no Egito numa tradução demótica, da qual brevíssimos fragmentos foram encontrados em dois papiros do século I d.C.
- O autor de Tinufis pode ter tido acesso a essa redação egípcia, ou então à tradução grega — hoje desaparecida — da qual deriva, ao que parece, a versão eslava conservada das aventuras de Aquicar.
- É essa tradução grega que está na origem dos capítulos 101–123 da Vida de Esopo, onde se reencontram, em suas grandes linhas, as diversas peripécias que constituíam a história do grão-vizir, cujo papel é agora desempenhado pelo fabulista.
- Falta entre os personagens da lenda oriental a esposa de Aquicar — provavelmente porque a tradição grega não conhecia esposa para o misógino fabulista —, de modo que o jovem adotado por Esopo, em vez de ser sobrinho de Aquicar como nas versões siríaca e armênia, não tem com ele qualquer laço de parentesco: é originário de “uma boa família da Babilônia”.
- A Senaqueribe e Assaradão substituiu-se um único monarca chamado Licurgo, muito semelhante a seu protótipo apesar do nome pouco oriental.
- O faraó, anônimo na Vida de Aquicar, recebe de nosso autor o nome de Nectanebo — de forma anacrónica, pois os dois soberanos egípcios desse nome viveram em época muito posterior à de Esopo; o mais célebre deles, Nectanebo II, último monarca indígena a ter reinado sobre o Egito, de 361/360 a 343 a.C., era conhecido dos gregos por ter empregado a seu serviço o mercenário espartano Agesilau.
- No Romance de Alexandre, o Pseudo-Calístenes apresenta Nectanebo II como o verdadeiro pai do Conquistador, nascido dos amores adúlteros da rainha Olímpia com o último dos faraós, refugiado na Macedônia após a invasão persa.
- A entrada de Nectanebo na biografia de Esopo dificilmente remonta a uma data muito antiga, pois o anacronismo não teria escapado aos leitores ou ouvintes — o que constitui mais um indício a favor de situar a Vida de Esopo na época imperial.
- A intrusão de Nectanebo na biografia de uma personalidade dos tempos arcaicos revela o desinteresse do autor anônimo pela história: nenhum esforço é feito para conferir ao relato verossimilhança histórica, e o herói se move num mundo desprovido de espessura temporal, transformado em figura mítica — como o são também Creso e Nectanebo, que encarnam ambos o tipo do déspota oriental.
- A inserção na Vida de Esopo de uma série de aventuras tomadas da biografia de Aquicar colocava em risco a homogeneidade da narração, mas estudos recentes demonstraram que o texto, apesar de sua composição heterogênea, possui uma organização coerente.
- A obra sofreu por muito tempo de uma reputação literária execrável, sendo considerada uma medíocre miscelânea de fragmentos reunidos ao acaso.
- N. Holzberg e outros pesquisadores identificaram no texto um jogo sutil de oposições e retomadas que atesta, da parte do narrador, um esforço consciente de estruturação.
- A biografia fantástica de Esopo pode ser dividida em cinco sequências narrativas distintas, cada uma com função e extensão próprias.
- A primeira sequência (capítulos 1–27) serve de introdução e narra a história do fabulista antes de sua compra pelo filósofo samiano Xanto.
- A segunda sequência (capítulos 28–91), a mais extensa, é consagrada às aventuras de Esopo a serviço de Xanto e encerra-se com a alforria do fabulista.
- A terceira sequência (capítulos 92–100) mostra Esopo promovido a conselheiro político dos samianos, centrando-se no conflito com o rei Creso.
- A quarta seção (capítulos 101–123) compreende as aventuras tomadas da Vida de Aquicar.
- A quinta e última sequência (capítulos 124–142) leva o fabulista a Delfos e narra seus conflitos com os delfios e suas funestas consequências.
- A segunda seção, dedicada à estada de Esopo junto a Xanto, subdivide-se em duas subpartes que obedecem a uma gradação elaborada.
- Na primeira subparte, Esopo desempenha o papel de “perseguidor” de seu senhor, colocando Xanto em situações cada vez mais embaraçosas.
- O capítulo 67 funciona como charneira, com uma conversa filosófico-escatológica que ecoa a do capítulo 28: neste, a palavra cabia a Xanto, que expunha seus princípios de comportamento; naquele, é Esopo quem dirige a conversa e dá lições ao senhor.
- Na segunda subparte, o escravo transforma-se em salvador de seu senhor, tirando-o de situações cada vez mais críticas — nova gradação que prefigura a ascensão social do personagem.
- N. Holzberg identificou a predileção do narrador pelos esquemas ternários, que estruturam de maneira recorrente as sequências da obra.
- Esopo é injustamente acusado de roubo três vezes: roubo de figos na primeira seção (capítulo 3), roubo de um pé de porco na segunda seção (capítulo 42) e roubo de uma taça sagrada na última seção (capítulo 128).
- Esopo é encarcerado sem razão três vezes: por Xanto após a descoberta do tesouro escondido (capítulo 80), por Licurgo em razão das calúnias de seu filho adotivo (capítulo 104) e pelos samianos sob o pretexto do suposto roubo da taça sagrada (capítulo 128).
- Esopo desempenha o papel de salvador três vezes — de seu senhor Xanto, depois do povo samiano e, por fim, do rei Licurgo —, sendo que a dignidade crescente daqueles a quem auxilia cria um efeito de gradação que exprime a ascensão social do personagem.
- Esses jogos de ecos permitem que a seção inspirada nas aventuras de Aquicar não constitua dentro da narração uma peça isolada sem relação com o contexto.
- A astúcia inventada por Esopo para evitar que Xanto perca a aposta insensata de beber o mar (capítulo 71) recorda estranhamente a encontrada por Aquicar para responder às exigências insensatas do faraó, que lhe pede que construa um castelo no ar (capítulo 124): em ambos os casos, a solução consiste em deferir ao adversário a realização de uma parte da tarefa impossível.
- Na história dos conflitos com Creso, uma carta do rei serve de elemento desencadeador (capítulo 92), exatamente como na seção babilônica, onde a carta do faraó mergulha o rei da Babilônia no desânimo (capítulo 105); nos dois casos, a crise resolve-se graças a uma viagem do herói — à Lídia na seção samiana (capítulo 98) e ao Egito na seção babilônica (capítulo 111).
- As duas sequências encerram-se com a menção de honras divinas prestadas ao protagonista — pelos samianos no capítulo 100 e por Licurgo no capítulo 123 —, sendo que em ambas as passagens se trata da ereção de uma estátua de Esopo ao lado das das Musas.
- A uma oposição sabiamente construída entre o início e o fim da Vida corresponde um jogo de inversões que revela o método redacional do biógrafo anônimo.
- No início, Esopo é escravo e mudo e, apesar desses handicaps, defende-se das calúnias dos companheiros de escravidão e sai vitorioso da primeira provação — a história dos figos (capítulos 2–3) —, prelúdio de uma longa série de sucessos contra adversários cada vez mais poderosos.
- No final, porém, ainda que o herói seja rico e célebre, revela-se incapaz de contrariar as acusações dos delfios, e toda sua astúcia é impotente para protegê-lo da morte.
- As fábulas distribuídas ao longo da narração — quinze ao total, segundo uma repartição muito desigual — constituem outro elemento que estrutura de maneira importante a Vida de Esopo.
- Não há nenhuma fábula na primeira parte; cinco na segunda seção (de sessenta e quatro capítulos); três na terceira seção (de apenas nove capítulos); nenhuma na quarta seção — provavelmente porque a história de Aquicar, fonte desta parte, também não continha fábulas; e sete na quinta seção, número elevado para um desenvolvimento de apenas dezenove capítulos.
- Essa progressão — de cerca de 8% de fábulas na segunda seção para 33% na terceira e 37% na quinta — mostra como a identidade de Esopo como fabulista (logopoios) se afirma progressivamente ao longo do relato.
- No capítulo 7, Esopo recebe das Musas “a faculdade de inventar histórias, de imaginar e de compor fábulas gregas”, mas só utiliza esse talento pela primeira vez no início da seção samiana, quando explica à esposa de Xanto a origem dos sonhos mentirosos (capítulo 33).
- Das quinze fábulas inseridas no texto, cinco figuram na Collectio Augustana e cinco outras se reencontram, sob forma mais ou menos aproximada, em diversos autores antigos — Fedro, Babrio, Hesíodo, Eurípides, Diógenes Laércio, Ateneu, Estobeu —, o que prova que o autor da Vida de Esopo utilizou essencialmente material preexistente.
- O autor precisa, ao final da seção samiana, que Esopo redigiu para Creso “as histórias e as fábulas que ainda hoje se leem” e as deixou na biblioteca do rei lídio (capítulo 100).
- As fábulas inseridas na Vida de Esopo não devem ser consideradas apenas por si mesmas, mas lidas numa perspectiva biográfica: foram escolhidas de modo a contribuir para a construção do sentido geral da obra — como o demonstra o logos dos dois caminhos (capítulo 93), pelo qual Esopo convida os samianos a resistir a Creso sem se deixar tentar pela solução mais fácil, desenvolvendo assim um dos temas-chave do texto: a oposição entre aparência e realidade, tema central na biografia de um personagem cuja aparência repulsiva dissimula talentos excepcionais.
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