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Introdução
- O estudo comparado das literaturas é uma ciência jovem demais para que todas as leis que regem a formação, o desenvolvimento, as modificações, a transmissão e o desaparecimento dos temas e das formas literárias tenham sido identificadas.
- A história comparada do Romantismo em suas formas francesa, inglesa, alemã, italiana, russa, escandinava e outras ainda não foi realizada de modo abrangente.
- Existem apenas estudos de detalhe sobre o Romantismo em cada país europeu e algumas monografias sobre a influência europeia de escritores específicos.
- Rousseau é citado como exemplo de autor cuja influência europeia foi objeto de monografias pontuais.
- Os críticos do século XX teriam pela frente a tarefa de desbravar esse campo — seus caminhos principais, suas margens e suas encruzilhadas.
- Nem todas as fontes do Romantismo foram descobertas e determinadas, tanto para os temas quanto para as formas de expressão características, as nuances de sensibilidade emergentes e os procedimentos técnicos adotados.
- Existem apenas estudos especiais sobre a influência dos poemas orientais na gênese do Romantismo.
- As Canções de Gesta são apontadas como outra vertente estudada de modo fragmentário na origem do Romantismo.
- Quase ao mesmo tempo, o horizonte literário ganhou amplitude e profundidade, combinando um contato mais íntimo com o Oriente e suas literaturas a um retorno sobre si mesmo e sobre a vida literária nacional, escrita ou oral.
- Alguns se entusiasmaram com os velhos poemas — as canções de gesta na França, os Nibelungos e as Eddas em outras regiões — enquanto os finlandeses se orgulhavam de um Kalevala prematuramente restituído e a Escócia se glorificava dos falsos poemas ossiânicos.
- Lonnrot é mencionado como o responsável pela restituição prematura do Kalevala finlandês.
- Os poemas ossiânicos escoceses são caracterizados como falsos, embora celebrados como patrimônio nacional.
- Walter Scott contribuiu poderosamente para despertar o interesse das pessoas cultas da Inglaterra pela sensibilidade, pelos costumes e pela produção literária das camadas populares, urbanas ou rurais, enquanto os irmãos Grimm se dedicavam à mesma tarefa na Alemanha de modo metódico e sistemático, dando origem ao longo do século XIX à disciplina do folclore.
- Walter Scott é identificado como mediador entre a cultura letrada inglesa e as camadas populares.
- Os irmãos Grimm realizaram na Alemanha a coleta sistemática de contos, lendas, canções e costumes.
- O folclore se constituiu progressivamente em toda a Europa por meio de coleções de produções populares anônimas.
- O folclore, por definição, ocupa-se apenas da vida popular, recolhendo e estudando a produção coletiva e anônima, ao passo que a história literária no sentido corrente se interessa somente pelas obras assinadas e individualizadas.
- Essa distinção, tão clara em teoria e nos manuais, revela-se logo inexata na prática.
- A distinção tornou-se problemática à medida que a história literária passou a ser cultivada por número suficiente de pesquisadores especializados.
- Os estudiosos de Goethe foram obrigados, ao analisar o Faust e o Reineke Fuchs, a investigar a produção coletiva anônima de onde Goethe havia extraído seus temas de modo indireto.
- Goethe é mencionado como autor cujas obras mais importantes — Faust e Reineke Fuchs — dependem de fontes populares anônimas.
- Ao se pesquisarem as fontes reais dos poemas românticos de personagens e sentimentos pretensamente orientais, encontraram-se coletâneas sem nomes de autores, sem data, de datação difícil, circulando por todo o Oriente anterior em árabe, em persa ou em turco.
- Circulam pela Europa contos divertidos e picantes conhecidos desde o Pentamerone de Basile, coletânea que contém, assim como a de Boccaccio, elementos que já viviam anonimamente no Oriente muito antes e que ainda lá vivem sem poder ser derivados das coletâneas italianas do final da Idade Média — e os fabliaux franceses tampouco são inteiramente originais.
- Basile é citado como autor do Pentamerone, coletânea de referência para os contos populares europeus.
- Boccaccio é mencionado como outro organizador de coletânea que incorporou elementos anônimos de origem oriental.
- Os fabliaux franceses são indicados como igualmente devedores de um fundo anônimo preexistente.
- Esopo e os contadores latinos e gregos devem sua glória a pretensas criações que não passam de arranjos — e, mais frequentemente ainda, de simples apropriações feitas, com toda a inocência, do fundo popular circundante.
- Esopo é apresentado como exemplo paradigmático de autor cuja originalidade se dissolve diante do fundo popular de onde extrai seus materiais.
- Não se sabe de onde Perrault tirou Cinderela, mas se sabe que existem mais de 400 variantes desse conto, em todos os tempos e em todos os países, assim como não se sabe de qual marinheiro ou localidade Homero colheu a lenda de Polifemo — embora esse mesmo tema do Monstro Antropófago se encontre em toda a Europa moderna e no Cáucaso.
- Perrault é mencionado como autor da versão literária de Cinderela, cuja origem popular permanece desconhecida.
- Homero é citado como o literarizador da lenda de Polifemo, igualmente de raiz popular difusa.
- Cinderela e Polifemo são apresentados como casos típicos do duplo movimento entre o popular e o individual.
- Cinderela e Polifemo são casos típicos de um duplo movimento — extraídos do fundo popular e literarizados, do coletivo ao individual, retornaram depois ao povo e se espalharam pelo mundo, Cinderela da Europa ao Extremo Oriente e às Américas, Polifemo apenas pela Europa central e oriental.
- Nem o folclore pode prescindir da história literária, nem esta do folclore, pois há em todos os povos, em graus variáveis segundo as épocas, correntes incessantes do popular ao individual e do individual ao popular.
- O fato literário obedece à lei geral do desenvolvimento das civilizações.
- Há uma produção contínua de técnicas, artes, ideias e sentimentos que os homens comuns suportam e transmitem inconscientemente.
- Os mais dotados escolhem nesse fundo amorfo, modificam, moldam e individualizam — e o produto assim cunhado retorna à circulação geral, passa de mãos em mãos, de cérebros em cérebros, e se desgasta.
- A coletividade se serve do produto se o julga útil, sem se preocupar com o nome do criador — do qual apenas os sábios, os artistas e os colecionadores se preocupam.
- O folclore não deve seu rápido desenvolvimento no século XIX apenas aos sábios e curiosos — um fenômeno de ordem ao mesmo tempo política e sentimental contribuiu poderosamente para isso, pois o princípio das nacionalidades precisava necessariamente fundar sua teoria em um conhecimento exato do que era verdadeiramente nacional.
- As populações dos Bálcãs são mencionadas como exemplo de uso dos argumentos históricos, etnológicos, etnográficos, folclóricos e linguísticos nas disputas territoriais.
- Na Hungria, na Boêmia e na Áustria alemã, revistas e museus de folclore se multiplicaram.
- Na Rússia, os paneslavistas, e na Alemanha, os pangermanistas, são citados como incentivadores das pesquisas diretas entre o povo desde o início.
- Nos países unificados, são os cantos de sobrevivências regionalistas — Provença, Bretanha, País de Gales, Irlanda — ou recém-incorporados a um conjunto mais vasto — Finlândia, Saboia — que acolhem os adeptos mais fervorosos do folclore.
- O desenvolvimento dos meios de comunicação e a constituição dos impérios coloniais no século XIX constituíram a terceira causa do progresso dos estudos folclóricos, ampliando o alcance geográfico das comparações muito além do Mediterrâneo.
- A expansão da Rússia pela Ásia setentrional revelou na Mongólia e no Extremo Oriente paralelos evidentes com temas usados pelos eslavos em seus poemas épicos, as bylinas.
- A conquista da Argélia e o estudo dos árabes e berberes demonstraram a existência, no norte da África, de temas com grande circulação na Europa central.
- A leitura dos contos populares do Egito antigo, anteriores em pelo menos mil anos aos mais antigos documentos literários da Índia, destruiu a teoria prematura da origem hindu dos contos populares.
- René Basset, na França, e J. Bolte e O. Dähnhardt, na Alemanha, são citados como mestres incontestes no domínio das variantes e referências bibliográficas dos temas populares.
- A questão do lugar de origem único dos contos populares não avançou — ao contrário, tornou-se mais difícil e complexa desde que se passou a recolher as produções literárias dos habitantes da Oceania, da Austrália, da Indonésia, da Indochina, da África central e meridional e das duas Américas.
- Os materiais acumulados são tais que para um tema de três linhas é preciso uma nota de cinquenta ou sessenta linhas em letra pequena para enumerar todas as variantes com referências bibliográficas.
- Embora não se possa prever aonde conduzirá esse enorme trabalho, já é possível, com os materiais disponíveis, tentar esboçar visões de conjunto — não mais unilaterais como antes, mas conformes à complexidade das atividades vivas.
- Muitas populações ainda precisam ser exploradas, e essas lacunas devem ser consideradas antes de qualquer julgamento decisivo sobre o método.
- O mesmo método é aplicado ao estudo de provérbios, ditados, crenças, ritos e atividades de toda ordem, em alguns casos com êxito evidente.
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