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folktale:graal:buescu:1.3

1.3 Chrétien e Echenbach

Maria Gabriela Carvalhão Buescu. Perceval e Galaaz, Cavaleiros do Graal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991

De Chrétien de Troyes e Wolfram von Echenbach

1. Chrétien de Troyes leva a lenda arturiana a uma expressão artística difícil de igualar, segundo Bruneti, embora Loomis mitigue esse radicalismo ao afirmar que alguns estudiosos exageraram muito a influência do poeta sobre os romances arturianos posteriores, e, apesar da reserva, Chrétien foi um dos grandes nomes da literatura francesa, ainda que não seja o primeiro a integrar a lenda do Graal no âmbito arturiano, tendo o mérito de construir um romance que uniformiza e aglutina vários elementos, com predomínio das lendas célticas, formando unidade a partir da dispersão e constituindo marco fundamental na história da literatura francesa e de todo o ciclo arturiano, embora seja absurdo considerá-lo o verdadeiro criador da literatura arturiana.

2. Jean Frappier afirma com pertinência que, embora Chrétien tenha sido chamado pai ou inventor dos romances da Távola Redonda, o título é suscetível de má interpretação e deixa obscura a natureza precisa de sua originalidade, pois ele não criou o gênero, assim como Corneille e Racine não criaram do nada a tragédia clássica francesa, mas, por outro lado, corroborando a afirmação anterior, alega que ele elevou a Matéria da Bretanha, ainda nova e incerta, a uma alta eminência e a tornou algo até então desconhecido.

3. Segundo esse arturianista, Chrétien de Troyes teve o mérito de divulgar uma literatura fragmentária e dispersa, constituindo uma obra coerente e unitária que conheceu incomensurável fortuna nos séculos seguintes, e, embora poucos dados existam sobre sua vida, o que se sabe liga-se inevitavelmente à sua obra, apontando seu nome para a conjectura de ter nascido em Troyes, sem documentação irrefutável, aventando Frappier a hipótese de ele ter passado alguns anos em Troyes, já que sua língua preservava traços dialetais da região de Champagne, e concebendo Gaston Paris a hipótese de Chrétien ter passado o Canal, de acordo com seu provável conhecimento de locais do Sudeste da Inglaterra, não se podendo senão considerar que se trata de conjecturas enquanto não surgirem documentos novos.

4. Muito provavelmente a atividade literária de Chrétien de Troyes integra-se entre os anos de 1150 e 1190 e inclui as obras Erec et Enide, Cilgès, Lancelot ou le Chevalier de la Charrette, Yvain ou le Chevalier au Lion e Perceval ou Li Contes dou Graal, sendo que esta última foi deixada incompleta porque o autor morreu antes de terminar seu projeto, dando origem às quatro Continuações, e, além dessas obras, Chrétien teria sido também autor de Guillaume d'Angleterre, adaptação da lenda de Santo Eustáquio, cuja atribuição, segundo Jean Frappier, é duvidosa, embora o nome de Chrétien figure como autor na primeira linha, sustentando Frappier que não reconhece no poema o temperamento e o estilo do autor de Lancelot, Yvain e Perceval, tese que pode constituir mais uma questão sugerindo novas reflexões sobre o escritor e sua obra.

5. Quanto à produção literária que mais interessa focar, Perceval ou Li Contes dou Graal, Frappier adianta com muita precisão a data de 1181, em que Chrétien de Troyes terá muito provavelmente começado a escrevê-la, e, na globalidade de sua obra, pode dizer-se que foi bastante influenciado pelas Chansons de geste, por Wace e pelos romances da Antiguidade, mas não há dúvida de que os principais modeladores da importante concepção do amor cortês foram os trovadores da época, nos quais Chrétien foi beber sua noção de espírito cavaleiresco, ao mesmo tempo que seu estilo bastante trabalhado atingia elevado nível, fazendo as técnicas literárias que utiliza, o estilo e a própria noção de roman dele um escritor de grande envergadura não só no âmbito da literatura francesa como da própria literatura europeia da época, sendo curioso acentuar a noção de literariedade que Chrétien parece possuir ao escrever suas obras, nomeadamente o Perceval ou Li Contes dou Graal.

6. Rudolfo I de Vermandois casa-se em 1159, e, em 1183, desposa Matilde, filha do Rei de Portugal, Afonso Henriques, e, sem pretender formular conjecturas sobre a problemática histórica, julga-se pertinente pensar que a relação da Infanta portuguesa, Condessa de Flandres, com a obra de Chrétien teria constituído elemento importante na difusão, na Península Ibérica, da Matéria da Bretanha, concretamente da versão do poeta francês.

7. Teria sido o Conde quem forneceu a Chrétien um livro contendo a história do Graal, contribuindo para a construção de seu Perceval, sem que se tenha chegado a conclusão precisa sobre seu conteúdo, sendo alguns estudiosos de opinião que teria fortes influências célticas, colocando-se a questão fundamentalmente em saber se no livro surgiria já a história de Perceval ligada à lenda do Graal, afirmando Frappier com veemência a impossibilidade de atribuir essa ligação ao livro de Filipe de Alsácia, nem sequer ao gênio criador do próprio poeta, sendo essa uma interrogação para a qual não existe ainda resposta verossímil e suficientemente fundamentada.

8. A morte de Chrétien de Troyes impediu-o de acabar o Perceval, fato atestado por um de seus continuadores, havendo nada menos do que seis adições ao poema, duas das quais são meros prólogos, já que, como Thompson explica, precedem o trabalho de Chrétien nos manuscritos, e as outras quatro adições constituem concretamente as Continuações já mencionadas.

9. As duas principais Continuações são anônimas e representam fonte de problematização, pois em primeiro lugar as duas primeiras eram consideradas uma só, supostamente atribuída a um certo Wauchier de Denain, cujo nome foi encontrado na segunda Continuação, e, quando se descobriu que ela se dividia na realidade em duas composições distintas, a primeira passou a ser designada como Continuação de Pseudo-Wauchier, tendo Thompson o cuidado de frisar que Wauchier de Denain não deve ser considerado autor da segunda Continuação, acentuando que os estudiosos estão de acordo na questão de que as duas primeiras Continuações são anônimas e que o nome de Wauchier nada tem a ver com elas, passando a ser conhecidas como a Primeira e a Segunda Continuações, sem ignorar que, na realidade, são meros prólogos.

10. Das outras quatro Continuações, que verdadeiramente tentam retomar o fio narrativo da composição de Chrétien, duas são anônimas e as outras duas são atribuídas a Manessier e a Gerbert, referindo ainda Thompson a importância de a versão em prosa do Perceval ter sido impressa pela primeira vez em 1530, incluindo já os dois prólogos e todas as Continuações, exceto a de Gerbert.

11. A questão de saber se os continuadores do Perceval conheceram as fontes de Chrétien de Troyes continua em aberto, perguntando-se se conheceriam o livro que supostamente o Conde Filipe de Alsácia teria dado a Chrétien, fazendo tudo isso parte da complicada teia de questões, conjecturas e hipóteses que envolvem a Matéria da Bretanha até Chrétien, concordando todos os arturianistas precisamente quanto à origem predominantemente celta do tema graálico.

12. Quanto à influência exercida pelo Perceval de Chrétien de Troyes sobre a literatura medieval posterior, o poema do alemão Wolfram von Eschenbach foi certamente um dos mais profundamente marcados, tendo surgido nos primeiros anos do século XIII o grandioso poema de Eschenbach que, segundo suas próprias palavras, se baseou no poema de Chrétien de Troyes por um lado e, por outro, num escritor chamado Kyot, cuja existência é incerta.

13. O poema de Eschenbach, conhecido sob o nome de Parzival, é célebre e marca de forma notória a literatura alemã pelo seu mérito literário, pela sua beleza e pela influência que exerceu muito mais tarde sobre o poderoso e impressionante texto Parsifal, de Richard Wagner.

14. Tal como no caso de Chrétien de Troyes, pouco se sabe a respeito da vida de Wolfram von Eschenbach, e tudo o que se conhece sobre o autor de Parzival o é de maneira indireta, ou seja, através de sua obra, presumindo-se, segundo Otto Springer, que Wolfram teria nascido em Eschenbach, uma pequena e idílica cidade situada na Baviera setentrional.

15. Alguns estudiosos veem as ruínas de Wildenberg assomando por entre os arvoredos da grande floresta de Odenwald como o local, provavelmente o castelo que terá albergado o autor quando escreveu sua obra, nomeadamente o episódio do Graal em seu Parzival, e, ainda segundo Springer, terá sido esse ambiente de atmosfera certamente sugestiva que teria influenciado o autor a escrever sua obra e teria sobretudo servido de modelo, sugerindo a descrição do castelo do Graal, pouco evidente nas fontes que utilizou, nomeadamente no poema de Chrétien, colocando Springer algumas reticências quanto à identificação de Wildenberg, na medida em que faltam fundamentos objetivamente rigorosos para essa hipótese.

16. Do que não restam dúvidas é de que Wolfram teria frequentado o círculo literário de grande celebridade da corte de Hermann von Thüringen (1155-1217) em Eisenach, situando-se a data de redação de Parzival entre 1200 e 1212, e, no seu conjunto, essa obra, sendo significativamente próxima da obra de Chrétien, Perceval, apresenta relevantes diferenças, não só em relação a algumas das personagens, mas também e sobretudo no que diz respeito à concepção do próprio Graal, o qual, tendo a forma de uma taça no Perceval de Chrétien, assume em Parzival a forma de uma pedra milagrosa, aspectos a que se terá ocasião de referir mais pormenorizadamente na sequência do estudo.

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