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3 Elementos da Lenda

Maria Gabriela Carvalhão Buescu. Perceval e Galaaz, Cavaleiros do Graal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991

1. Neste capítulo propõe-se analisar, com base nos textos sobre que se debruçou, o perfil do herói achador do Graal, isto é, Perceval na obra de Chrétien de Troyes e Galaaz na Demanda do Santo Graal, sendo este último acompanhado de um Persival que lhe está próximo e é seu companheiro mas que passa para segundo plano na tríade Galaaz — Persival — Boorz, e será Galaaz a alcançar a cidade de Sarraz e aí venerar e guardar o Graal, tornando-se indispensável situar Perceval e Galaaz respectivamente no cenário que serve não só de pano de fundo mas de espaço para a aventura a que são chamados, desempenhando a floresta em ambas as obras uma função particular que tem a ver com o percurso espiritual dos cavaleiros, que, como cavaleiros, são portadores de emblemas que os assinalam e distinguem, a espada e o escudo, estando por outro lado vinculados a uma ordem, a cavalaria, a que se obrigam e que os obriga, e que de certo modo constitui uma prova e uma didáctica.

2. Importa referir o significado da Lança e do Graal, este último objeto e motivação da Demanda e operador de transformação dos próprios heróis, cujo significado ambíguo e complexo levou a tentar, de modo abrangente, dar conta, ainda que não exaustivamente, das opiniões diversas e até controversas dos críticos, decidindo-se dar primazia aos próprios textos em estudo e pôr em relevo o que neles se diz sobre a significância do Graal e da Demanda, começando por comodidade de exposição pelo Graal e pela Lança, passando em seguida à Floresta, aos emblemas e, finalmente, aos comportamentos dos heróis que sugerem, explícita ou implicitamente, o percurso paralelo mas distante de Perceval e de Galaaz.

3. O Graal e a Lança constituem dois elementos integrados num mesmo todo significativo que, no Cortejo do Graal, surpreende e aterroriza o herói Perceval, e, no Castelo do rei Pescador, tem para Galaaz o sentido de uma revelação, dizendo Chrétien que, antes de servido o suculento repasto no Castelo do Rei Pescador, surgiu um pagem empunhando uma lança da qual escorria uma gota de sangue, seguindo-se-lhe outros pagens transportando candelabros e, finalmente, uma formosa donzela muito bem vestida trazendo nas mãos o Graal, e, ao entrar, toda a sala se encheu de claridade, vindo depois uma segunda donzela com uma bandeja de prata, contemplando Perceval o cortejo que passa em vaivém por ele, mas nada diz.

4. Na Demanda, porém, o encontro de Galaaz com o Graal, no Castelo do Rei Peles, considerado uma segunda aparição, já que a primeira ocorreu em Camaalot, é descrito de maneira totalmente diferente, pois, andando de câmara em câmara, Galaaz chegou ao tabernáculo do Graal e aí viu a tábua de prata onde o Santo Vaso estava e viu sob a tábua a lança onde a mui santa carne foi chagada de Jesus Cristo, estando a lança no ar com o ferro a juso e a hasta contra suso, deitando gotas de sangue pela ponta que muito espessamente caíam num bacio de prata, mas, tanto que caíam, não se sabia que se delas fazia.

5. Verifica-se que, de maneira semelhante, os dois objetos, Lança e Graal, se encontram associados, totalizando um só significado transcendente e sobrenatural, mas o que é então o objeto que no texto de Chrétien aparece designado por Graal e Saint Vase e na Demanda por Santo Graal ou Santo Vaso, dualidade de designações que parece esclarecer a controvérsia e até a diversidade de concepções, pois, segundo os textos sobre que se debruçou, parece não haver dúvidas de que se trata de um recipiente em forma de taça que serviu de receptáculo ao sangue de Cristo, recolhido por José de Arimateia, e que teria já sido também a taça utilizada na Última Ceia para a primeira consagração do vinho.

6. O termo Graal e as numerosas variantes linguísticas (grial, gréal, grail, etc.) não deixam de suscitar a reflexão dos estudiosos, quer no contexto dos romances arturianos, quer independentemente deles, estudando Martin de Riquer pormenorizadamente toda a questão a partir das variantes atestadas em textos dos séculos XIV e XV (gradal, gradalete, grô, griot, grian, gre, grai, etc.), significando sempre cubo, vaso, escudela, prato, o que afasta a hipótese de o Graal, no universo literário representado, ser constituído, como se mostra na obra de Wolfram von Eschenbach, por uma pedra sobre a qual todas as sextas-feiras santas uma pomba vinha depositar uma hóstia.

7. Pierre David sintetiza a questão, mostrando ao mesmo tempo a dificuldade de dissociar a forma do termo, dizendo que se nomeia em francês graal (gradalis sive gradale) uma escudela larga e bastante profunda (aliquantulum profunda) na qual se servem aos ricos iguarias preciosas no seu molho, e acrescenta que um graal não é nem um cálice, nem um cibório, nem uma taça nem um hanap, mas uma peça de ourivesaria doméstica para o serviço da mesa, sendo bastante longa, larga e profunda para conter com o seu molho as carnes para um repasto de aparato com numerosos convivas.

8. Não se deixa de referir a opinião de Jean Marx sobre o assunto, afirmando que o termo Graal é de origem francesa, pois o termo Graal aparece nitidamente como de origem francesa e todas as tentativas feitas para derivar esse nome de uma palavra ou raiz celta permaneceram vãs, tendo Arthur Brown querido remontar à palavra irlandesa criol, empregada para designar o cofre ou a cesta da rainha fabulosa Medv que continha suas joias preciosas, sendo certo, porém, que, se a origem celta é controversa, alguns arturianistas fazem derivar o termo Graal do étimo latino cratalis, e, seja como for, se a origem da palavra permanece não totalmente esclarecida, parece certo que o termo terá surgido primeiro como nome comum, designando uma escudela, tendo evoluído para nome próprio depois de Chrétien de Troyes e de Robert de Boron.

9. Para além disso, Jean Marx, quanto à significação, rejeita a hipótese apontada por Bruce segundo a qual o significado de Graal pode desdobrar-se em vários sentidos tais como o cálice do Precioso Sangue ou escudela onde Jesus comeu o Cordeiro com os seus Apóstolos, ou ainda o recipiente em que foi recolhido o Sangue por José de Arimateia, podendo ainda, segundo o mesmo autor, representar o cálice da primeira missa, mas o que importa acima de tudo reconhecer é o valor e a significação que adquire a partir de Robert de Boron, ou seja, o seu significado definitivamente cristianizado.

10. Yves Bonnefoy diz acerca desta questão que com Robert de Boron o passo decisivo foi franqueado, pois doravante, no grande Lancelot em prosa ou nos romances mais tardios, o mito do Graal, cristianizado, será o cruzamento dos dois mundos, atribuído em evangélico, ou mais exatamente a resolução do primeiro, ficção romanesca, na realidade do segundo, e, no entanto, apesar de Yves Bonnefoy afirmar que só a partir de Robert de Boron o mito do Graal foi cristianizado, o certo é que já Chrétien de Troyes havia inserido no seu Perceval ou Li Contes dou Graal algumas incidências cristãs, pois não só o Graal em si, mas sobretudo a Lança, simbolizam não ideias pagãs, mas sim temas cristãos ou cristianizados.

11. É nesse sentido que Ribard afirma que a tentação de cristianizar os mitos era demasiado forte para que os autores não se deixassem levar, querendo falar do revestimento cristão que vem como que do exterior designar o mito, à mercê de rápidas notações emprestadas à civilização do tempo, como essas missas a que assiste o herói, essas capelas que cruza no seu caminho, esses ermitérios no coração das florestas, essas festas religiosas que escandem o relato.

12. O texto de Chrétien parece significativo ao dizer que o Graal que ia adiante era feito do mais puro ouro, nele havendo pedras de muitas espécies, das mais ricas e das mais preciosas que existem no mar ou na terra, e nenhuma outra se poderia comparar às pedras que engastavam o Graal, e, assim como tinha passado a lança, diante dele as pedras passaram.

13. No contexto das novelas arturianas que constituem objeto deste estudo, parece, pois, que, para além do termo em si e da forma que pode revestir, o material precioso lhe confere um significado mais amplo, o qual tem dado origem a inúmeras interpretações, e, de fato, na questão relativa aos cavaleiros da Távola Redonda, parece significar o corno de abundância, por ter o poder de oferecer a cada um dos cavaleiros o alimento que cada um prefere e também ao Rei Pescador, como seu único alimento, a hóstia que está no seu interior.

14. O Graal apresenta, pois, virtudes nutrientes de que insistentemente dão conta os textos, e assim, quando Lançalot pretende alcançar a câmara do Graal, que lhe está vedada, diz o texto que ao terceiro dia aconteceu que o rei Peles se sentou a seu manjar no paço aventuroso e eram já todos servidos da graça do Santo Vaso.

15. E mais explicitamente quando, antes ainda de penetrar no Castelo de Corbenic, Galaaz se aproxima, diz o texto que naquele dia em que passou Galaaz perante os tindilhões podia ser hora de meio-dia e el-rei se sentava à mesa e seus ricos-homens com ele, e eram mui viçosos de comer, mas não unicamente pela graça do Santo Vaso, pois o Santo Vaso nunca saía de Corbenic por mão de homem, mas todos aqueles sem falha que no paço aventuroso comiam eram avondados de quanto haviam mister, a tanto que orassem em sua vinda.

16. É ainda mediante essa virtude nutriente que Galaaz, Boorz e Persival, quando em Sarraz são aprisionados pelo cruel Escorante, sobrevivem, corporal e espiritualmente alimentados pelo Graal, durante um ano, dizendo o texto que aquele rei era bravo e desleal mais que homem do mundo e mandou-os então filhar e deitá-los em prisão, e teve-os um ano, mas não esqueceram a Nosso Senhor, pois logo meteu dentro o Graal com eles, por que foram avondados de quanto mester houveram enquanto foram na prisão.

17. É assim que, retirado o Graal do reino de Logres, nunca mais este seria abundado pelos seus manjares, dizendo o texto que, em tal guisa como se diz, perderam os de Inglaterra o Santo Graal, que houveram muitas vezes muito bem por ele e foram muitas vezes avondados por ele, e que, enquanto ele foi no reino de Logres, nunca houve fome na terra, mas, tanto que ele partiu, começou tal fome.

18. Além da virtude nutriente que já evidenciara na primeira aparição do Graal em dia de Pentecostes, o Graal irradia luz ofuscante, e eis como Chrétien de Troyes descreve a sua aparição, dizendo que uma donzela muito bela, esguia e bem paramentada, que com os valetes vinha, tinha um grande graal entre as mãos, e, quando entrou na sala com o Graal que segurava, dele veio uma luz tão grande que as velas perderam seu clarão como as estrelas quando se levantam o sol ou a lua.

19. A característica iluminadora surge também, com insistência, na Demanda, desde a primeira aparição do Graal em Camaalot, e sempre que é descrito no tabernáculo de Corbenic, e em Camaalot, contra a noite, depois de vésperas, ouviram vir um trovão tão grande e tão espantoso que lhes pareceu que todo o paço caía, e logo depois entrou uma tão grande claridade que fez o paço dois tanto mais claro do que era antes, e em Corbenic, quando Lançalot entrou no paço aventuroso, viu grande lume e entrou por ver que havia ali, e foi-se de câmara em câmara até que chegou à câmara onde o Santo Graal era, e viu ele tão grande lume como se fosse hora de meio-dia.

20. Contrariamente ao texto de Chrétien, porém, diz-se apenas que o Graal é rico mas não se faz a descrição pormenorizada que acompanha o Cortejo do Graal no Perceval, cortejo que, aliás, está ausente da Demanda, onde o Graal e os restantes símbolos estão entronizados numa espécie de altar.

21. Se para Chrétien o Graal era um vaso feito de ouro puro incrustado de pedras de todas as variedades, das mais ricas e das mais preciosas, transportado por formosas donzelas, na Demanda do Santo Graal, pelo contrário, o Graal não é descrito, pois só se conhecem os efeitos que provoca quando entra na sala onde estão os cavaleiros, acompanhado de luz ofuscante e também de bom odor, dizendo o texto que, estando eles assim, entrou no paço o Santo Graal coberto de um eixamete branco, mas não houve ali tal que visse quem o trazia, e, tanto que entrou, foi o paço todo comprido de bom odor, como se todas as espécies do mundo ali fossem.

22. Assim, simultaneamente ao aparecimento do Graal, enche-se a sala de maravilhosos odores, e isto é tudo quanto se sabe neste passo acerca do Graal, que desaparece tão misteriosamente como surgira, sublinhando-se, contudo, que se tratava sem dúvida de um vaso, já que é frequentemente designado como tal, dizendo o texto que se foi de câmara em câmara até que chegou à câmara onde o Santo Graal era, e viu ele tão grande lume como se fosse hora de meio-dia, e catou a câmara e viu-a tão formosa e tão rica que nunca viu coisa que tão bem lhe parecesse, e, em meio da câmara, estava uma tábua de prata em lugar de altar, e o Santo Vaso de cima, coberto tão ricamente como era naquele dia em que José fez o primeiro bispo e cantou missa, e, quando ele viu o lugar onde o Santo Vaso estava, logo soube bem que aquele era o Santo Graal e disse que ai Deus, como seria bem-aventurado quem pudesse ora ver aquele vaso que ali está coberto, por que tantas grandes maravilhas haveria no reino de Logres.

23. Com efeito, se na Demanda o Graal é, portanto, um vaso do qual emana um bom odor e que irradia uma clara luz que enche toda a sala, tanto neste texto como no Perceval ele contém simultaneamente um alimento espiritual, isto é, uma hóstia que serve para alimentar o Rei enfermo, devendo, no entanto, ter-se em conta que no texto de Chrétien de Troyes o Graal reveste uma forma muito mais definida, o que, do ponto de vista adotado, assume uma importância particular, na medida em que dá conta de um texto em que os elementos externos apontam para as persistências de uma tradição pagã, nomeadamente celta, em conjugação com temas cristãos.

24. Por outro lado, note-se que, como acentua Frappier, Chrétien não suprimiu o caráter nutriente do graal, atenuou-o, ou antes adaptou-o ao sentido religioso, e esse sentido religioso está, de resto, insinuado na designação também ambígua, vaga e potenciadora de valor transcendente ou espiritual «sainte chose», denunciando-se pois uma tentativa do autor identificar o objeto com um símbolo cristão, embora de uma forma completamente distinta da que o tradutor ou autor da Demanda utilizará.

25. Quanto à hóstia guardada no Graal, isto é, quanto ao seu conteúdo, é nos dois casos um alimento espiritual e taumatúrgico na medida em que é o único alimento do Rei, rejeitando Martin de Riquer, entre outros, a hipótese de Frappier ao considerar a hóstia, em Perceval, como uma hóstia não consagrada e por isso mesmo não representando o Corpo de Cristo, dizendo que no graal se leva uma hóstia, e não pode ser senão uma hóstia consagrada, havendo que rechaçar a hipótese lançada por Frappier ao supor que a hóstia do graal é uma hóstia não consagrada, que é nutrição miraculosa sem ser corpus Christi.

26. Mas se podem existir dúvidas quanto à sacralidade no que diz respeito ao Perceval, o mesmo não se passa quanto à Demanda, pois com efeito tudo na Demanda converge para os principais passos da Paixão de Jesus Cristo, tal como Albert Béguin sugere a propósito da Queste del Saint Graal do ciclo da Vulgata, texto, aliás, com importantes pontos de contato com a Demanda.

27. Albert Béguin afirma que o Graal representa ao mesmo tempo, e substancialmente, o Cristo morto pelos homens, o vaso da Santa Ceia, isto é, a graça divina concedida por Cristo a seus discípulos, e, enfim, o cálice da missa contendo o sangue real do Salvador, e a mesa sobre a qual repousa o vaso é, portanto, segundo esses três planos, a pedra do Santo Sepulcro, a mesa dos Doze Apóstolos e, enfim, o altar onde se celebra o sacrifício cotidiano, sendo essas três realidades, a Crucificação, a Ceia e a Eucaristia, inseparáveis, e a cerimônia do Graal é sua revelação, dando na comunhão o conhecimento da pessoa do Cristo e a participação em seu sacrifício salvador.

28. Essa afirmação de Albert Béguin reveste-se de suma importância, mesmo referindo-se à Queste del Saint Graal do ciclo da Vulgata, porquanto, embora esteja relativamente distanciada da Demanda portuguesa, o certo é que com ela apresenta afinidades, e, de fato, na Demanda podem detectar-se também alguns passos da vida de Jesus Cristo, e assim o Graal representaria o Cristo morto na cruz e por isso só os eleitos teriam acesso a ele, e mesmo na própria Demanda o Graal ou o Santo Vaso significa em si as grandes puridades de Nosso Senhor, ou seja, os supremos mistérios da Vida de Cristo, tal como o ermitão revela a Boorz, quando este ingenuamente manifesta sua ignorância.

29. O ermitão diz a Boorz que certamente de grande coisa se trabalhava, de demandar as puridades de Nosso Senhor e de buscar as maiores maravilhas do mundo, e pede que lhe diga primeiramente se sabe o que é a demanda do Santo Graal, ao que Boorz responde que não muito bem, e então o ermitão diz que lhe dirá o que é demanda do Santo Graal buscar: tanto quer ser como buscar as maravilhas da Santa Igreja e as coisas abscondidas e as maravilhas e as grandes puridades que Nosso Senhor não quis outorgar que homem as achasse que jouvesse em pecado mortal.

30. Este é, pois, o principal significado do Santo Graal ou, como também é chamado, do Santo Vaso, ao que mais adiante o ermitão, na sua conversa com Boorz, acrescenta que a demanda do Santo Graal é, pois, que ele esparta os bons cavaleiros dos maus, assim como o grão da palha, e, quando ele partir os luxuriosos dos bons cavaleiros, então mostrará a estes homens bons e a estes bem-aventurados as maravilhas que andam buscando do Santo Graal, e então os avondará do bem do Santo Graal e da sua santa graça, e do bento manjar onde falaram os profetas e os homens bons desta terra.

31. É desta forma que o Santo Graal é esclarecido no texto da Demanda, em que os grandes mistérios de Deus através de Cristo são explicados, e esta explicação não se pode de modo algum ignorar no contexto da Demanda, visto que se trata do significado do objeto mais importante, e essa explicação não surge no texto de Chrétien.

32. O eleito para a missão de encontrar o Graal, Galaaz, o puro dos puros, o cavaleiro desejado, simboliza a própria imagem de Cristo vivo, e a hóstia, por seu lado, seria uma representação da Última Ceia, com os doze apóstolos, neste caso cavaleiros, os nove que já lá se encontravam e os três que vêm a caminho: Galaaz, Palamades, o bom cavaleiro cujo único defeito era não ser cristão, tendo-se depois convertido e batizado, e Persival, ou seja, os doze Apóstolos que se encontravam reunidos à volta da mesa da Última Ceia, hipótese corroborada por vários arturianistas, pois não só Albert Béguin ou M. M. Davy insistem neste ponto, como até Tzvetan Todorov.

33. Em última instância, o Graal propriamente dito representa de uma forma globalizante a procura da plenitude espiritual, que é operada pela ascese e pela graça divina, e essa graça divina consiste, nos dois textos, no próprio alimento eucarístico que o vaso contém, a hóstia, fonte da Vida, da elevação moral, da purificação física e espiritual, e, uma vez que o Rei se alimenta única e exclusivamente dela, é o símbolo máximo da ascese, e a própria forma do Graal, na sua forma mais usual, um receptáculo, aponta para qualquer coisa escondida, porque sagrada, mas encontrada, sendo dessa maneira que Pierre David afirma que o mito parece, à primeira vista, apresentar-se como num tríptico: o Graal dado, o Graal escondido, o Graal reencontrado.

34. O Graal, no qual se inclui já o seu conteúdo, apresenta uma significação complexa, importando pois definir em que medida, e, nas palavras de Pierre David, o Graal é dado por Deus, mas está escondido à espera do Eleito, a quem se descobrirá no tempo devido, não sendo, portanto, unicamente símbolo de uma demanda que implica a perfeição espiritual, mas é sobretudo símbolo do Deus e da graça divina que é oferecida pelo próprio Cristo, e por isso ele está escondido, bem como a hóstia, para que os olhos profanos o não maculem.

35. O problema do Graal escondido e descoberto, referido por Pierre David, parece ser um dos aspectos que com mais evidência se descortinam na Demanda, e, para além da ausência de uma descrição semelhante à que o texto de Chrétien oferece, o Graal, tal como aparece na Demanda, surge, desde a sua primeira aparição, na corte do Rei Artur, coberto, isto é, oculto, dizendo o texto que, estando eles assim, entrou no paço o Santo Graal coberto de um eixamete branco.

36. É também coberto que ele surge perante os olhos do pecador Lançalot, dizendo o texto que em meio da câmara estava uma tábua de prata em lugar de altar, e o Santo Vaso de cima, coberto tão ricamente como era naquele dia em que José fez o primeiro bispo e cantou missa, e, quando ele viu o lugar onde o Santo Vaso estava coberto, logo soube bem que aquele era o Santo Graal e disse que ai Deus, como seria bem-aventurado quem pudesse ora ver aquele vaso que ali está coberto.

37. Quando Galaaz entra na câmara do Graal, em Corbenic, embora o texto não seja explícito, parece que também ainda o Graal está coberto, dizendo o texto que viu em meio da câmara uma tábua de prata onde o Santo Vaso estava tão honradamente como a estória há já divisado.

38. Coberto estará também na nave de Salomão, onde embarcam Galaaz e Persival, dizendo o texto que entraram dentro e acharam sobre o leito, que em meio da nave estava, o Santo Graal, de cima coberto de um rico pano de seda tão formoso e tão rico que era uma grande maravilha.

39. Finalmente, no paço espiritual, na cidade de Sarraz, o Graal descobre-se como um cálice de missa, dizendo o texto que, quando foi deposta a sagrada, que o homem bom tolheu a patena de sobre o Santo Vaso, chamou Galaaz e disse-lhe que viesse adiante, sergente de Jesus Cristo, e veria o que tanto desejaste sempre a ver.

40. Só neste momento, portanto, o Graal se descobre perante Galaaz, Boorz e Persival, e, revelado porém, e saída do corpo a alma de Galaaz, a sua presença sobre a terra vai terminar, dizendo o texto que, tão toste que ele foi morto, aconteceu uma grande maravilha, que Boorz e Persival viram que uma mão veio do céu, mas não viram o corpo cuja a mão era, e filhou o Santo Vaso e levou-o contra o céu, assim que nunca houve homem na terra que pois pudesse dizer com verdade que nunca o viram.

41. Falando agora da Lança que, como visto, se apresenta associada ao Graal, pode dizer-se que é o complemento simbólico de toda esta problemática.

42. No caso do Perceval de Chrétien de Troyes, uma das perguntas que Perceval deveria ter formulado no castelo do Rico Rei Pescador era por que sangra a Lança, e, ao ingênuo Perceval, que até adolescente vivera isolado na Gaste Forest, apartado do mundo civilizado, a lança que sangra durante o cortejo em que o Graal também faz a sua aparição surgiu como algo simultaneamente maravilhoso, estranho e insólito, refletindo-se essa estranheza certamente na reação do próprio leitor moderno, sendo necessário, no entanto, remontar às origens deste tópico, e com ele às tradições do calvário, sem esquecer a sobreposição desse tópico com outros significados míticos, nomeadamente a tradição céltica.

43. Segundo a lenda medieval, o soldado que atravessa com a lança o lado de Cristo é Longino, um soldado cego, e o sangue escorre pela lança e embebe a mão do soldado que, ao levá-la aos olhos, milagrosamente recupera a vista, mas nos textos evangélicos esse episódio surge de modo muito mais lacônico, e apenas no Evangelho de São João, que diz que, ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados perfurou-lhe o lado com a lança e logo saiu sangue e água.

44. O tema lendário de Longino ou Longinus percorreu toda a Idade Média e interferiu em numerosos textos, sendo registada a sua relação com o mito do Graal.

45. O tema de Longino, que entra na tradição popular com o nome de São Longuinhos, fazia parte, portanto, do universo cultural da Idade Média, e a Lança, constituindo um objeto de agressão, transforma-se num instrumento de salvação, mediante as virtudes curativas do sangue de Cristo, pois a Lança que fere é, ao mesmo tempo, a lança da cura, já que se trata do próprio sangue de Cristo, também presente no ritual da Eucaristia sob as espécies do pão e do vinho.

46. Mas o que parece de sublinhar é a interferência deste tema lendário com o próprio significado mítico da lança, pois a Lança é sempre um símbolo axial, semelhante ao tronco e capaz de pôr em relação direta o Humano e o Divino, Longino e Cristo, e esta significação pode abranger igualmente a questão da complementaridade sexual em que se torna clara a associação da Lança e do Graal, reproduzindo no seu conjunto a imagem do almofariz mágico, sendo esta, pois, a origem céltica e pré-cristã do mito.

47. Nos textos em análise, nomeadamente no de Chrétien de Troyes, em que na mesma cena surgem simultânea e indissociavelmente ligados a Lança e o Graal, não se pode deixar de verificar a existência desta imagem do almofariz mágico, cujo conteúdo encerra a hóstia sagrada e sacralizante, fonte de vida, e, nesta perspectiva, a Lança e o Graal desempenham um papel indissociável e porque símbolos de intervenção e de complementaridade, contêm em si mesmos a imagem e o paradigma da Perfeição e da Totalidade.

48. Tal como Martin de Riquer afirma, esta questão da Lança que sangra pode parecer-nos estranha, mas o mesmo não acontecia aos leitores do século XII, já que, como ele próprio atesta, os leitores de Chrétien de Troyes de finais do século XII, tanto os mais encumbrados como os vilãos, sabiam perfeitamente o que significava, pois infinidade de vezes haviam escutado as mesmas palavras da boca dos jograis de gestas.

49. É curioso que também esta lenda de Longino tem a sua representação no âmbito da cultura popular portuguesa, sendo de referir a lenda de São Longuinhos, a quem tradições muito antigas associam com a morte de Cristo.

50. A Lança adquire, portanto, uma importância singular no que se refere ao Graal, já que, como dito, juntos formam o núcleo de toda a problemática.

51. Assim, e para terminar, sublinhe-se que na Demanda do Santo Graal, ao mesmo tempo que vê o Graal, Galaaz avista também, em cima de uma mesma mesa, a Lança sagrada que feriu o lado de Jesus, dizendo o texto que Galaaz fez o sinal da cruz ante si e comedou-se muito a Nosso Senhor e entrou dentro, e viu em meio da câmara, que era grande e rica, uma tábua de prata onde o Santo Vaso estava tão honradamente como a estória há já divisado, e não se ousou a ele chegar, que lhe semelhou que não era tal que se a ele desse chegar, mas onde o viu, ficou-se em joelhos e orou-o, chorando muito de coração, e viu sob a tábua a lança onde a mui santa carne foi chagada de Jesus Cristo, e estava a lança no ar, e o ferro a juso, e a hasta contra suso, e sabede que deitava gotas de sangue pela ponta que muito espessamente caíam num bacio de prata, mas, tanto que caíam, não se sabia que se delas fazia.

52. No entanto, como se verifica, a Lança surge na Demanda apenas na aparição do Graal em Corbenic, enquanto no Perceval de Chrétien de Troyes surge quando Perceval chega ao castelo do Rico Rei Pescador e assiste ao desfilar do cortejo, dizendo o texto que, como falavam de coisas e outras, um valete de uma câmara veio, que uma lança brilhante segurava, empunhada pelo meio, e passa ao lado do fogo e daqueles que estavam sentados, e corria uma gota de sangue da ponta do ferro da lança e até à mão do valete corria essa gota vermelha.

53. Na versão da Demanda, é o próprio autor que identifica a Lança com aquela que feriu o lado de Jesus Cristo, o que não acontece com o Perceval de Chrétien de Troyes, e assim, neste, Perceval vê a lança que sangra mas o autor nada diz acerca da origem desta lança, e a Lança reveste-se, pois, de extrema importância, só comparável à questão do Graal, e, assim como o Graal apresentava uma virtude nutriente, a Lança apresenta uma virtude curativa, tanto no texto de Chrétien como na Demanda.

54. Observemos neste último texto, por mais explícito, a descrição desse fenômeno, dizendo o texto que, quando Galaaz viu esta maravilha, esmou que aquela era a lança com que Jesus Cristo foi chagado, e ouviu uma voz que lhe disse que se levantasse e tomasse aquele bacio de sob aquela lança e fosse ao rei Peles e entornasse-o sobre as chagas, pois assim havia de guarnecer por sua vinda.

55. Assim aconteceu de fato, e o Rei Peles foi logo são de suas chagas, contudo, e isso parece da maior relevância, tal como o Graal será arrebatado ao céu quando Galaaz morrer, esgotando-se os seus poderes terrestres, também neste momento a Lança desaparece de entre os homens, dizendo o texto que, tão toste, lhe saiu o bacio de entre as mãos e foi-se contra o céu, que não houve poder de o ter, e, assim como se diz, aconteceu da Lança vingadora e do bacio que estava sob ela, que se partiram do reino de Logres, e daquela santa lança nem daquele bacio não se sabe muito bem se se foram para os céus, mas a vontade de Deus foi tal que não foi pois homem em Inglaterra que dissesse que os vira.

56. Sobre a hipótese interpretativa avançada a propósito destes dois fatos paralelos, o desaparecimento do Graal e da Lança, ocupar-se-á na Conclusão.

57. Há tendência para se sobrepor a questão da Espada com a da Lança, no âmbito dos textos arturianos, não se podendo, no entanto, confundi-las, já que a Lança representa, como dito, a lança com que Longino abriu o lado de Cristo, e a espada não tem o seu homólogo na tradição lendária cristã, revelando-se assim como símbolo de cavalaria, ou, se se quiser, o emblema do bom ou mau cavaleiro, possuidor de uma boa ou má espada.

58. É, de qualquer modo, como Georges Duby afirma, o emblema de uma profissão nobre, dizendo que insígnia de um ofício, de uma função reputada nobre, instrumento da repressão, da exploração do povo, o gládio, mais que o cavalo, distingue o cavaleiro dos outros, proclama sua superioridade social, e acredita-se que as espadas dos príncipes foram fabricadas desde um passado lendário, bem antes da evangelização, por artesãos semideuses.

59. A espada adquire assim uma feição de relevo na vida do homem medieval, seja em que situação for, sendo representativa não só do trabalho como também e sobretudo do estatuto e da vida social do cavaleiro, e Georges Duby continua dizendo que a espada do ano mil é como uma pessoa, e, à hora de morrer, sabe-se, a primeira preocupação de Roland foi por Durandal.

60. Com efeito, na famosa Chanson de Roland, poema épico francês, é bem visível essa união quase mística que se estabelece entre o cavaleiro e a sua companheira de vida e de morte, e Roland, sentindo que a morte se aproxima, dirige-se angustiado à sua espada, Durandal, numa belíssima e vibrante invocação, dizendo que ah, Durandal, minha boa espada, que desgraça para você, pois, já que estou perdido, não sou mais doravante responsável por você, e que nunca caia nas mãos de um guerreiro capaz de fugir diante de outro, pois você pertenceu por muito tempo a um valente senhor, e jamais se reverá espada semelhante na santa França.

61. Igualmente comovente e de uma bárbara poesia é, em paralelo, a despedida do Rei Artur da sua espada, forjada por Merlin, a Excalibur, dizendo o texto que, pois a catou grande peça, disse suspirando que ai, Esclabor, espada boa e honrada, a melhor que nunca entrou no reino de Logres, ora perderás teu senhor, mas acharás homem jamais onde tão bem empregada sejas como eras em mim, se às mãos não vires de Lançalot, e ai Lançalot, o melhor homem e o melhor cavaleiro que nunca vi, fora Galaaz.

62. Também denso e poético o encontro de Lançalot com a espada-da-estranha-cinta cingida por seu filho Galaaz, dizendo o texto que, tanto que Lançalot viu a espada, conheceu-a, e filhou-a e beijou-a, e beijou-a, e beijou-a.

63. A espada representa, pois, acima de tudo, um poder que se transmite ao cavaleiro que a empunha e lhe é transmitido, numa permuta de valores, pois ela pode representar a justiça tanto como o crime, a luta pelo bem como a luta pelo mal, donde a sua ambiguidade representada nos seus dois gumes.

64. Como espada boa e honrada, porém, era, como já dito, um emblema guerreiro, que adquire juntamente com o sentido de justiça e o de restabelecer o equilíbrio, o bem e a paz, uma função primordial na guerra santa, e assim ela luta pelos valores cristãos.

65. Com efeito, a espada na Demanda do Santo Graal desempenha um papel fundamental só paralelo ao episódio da Sceda Perigosa, e a Excalibur encontra-se enterrada no padrom, uma pedra grande, e nem o Rei Artur nem nenhum outro cavaleiro consegue dali retirá-la, esperando, portanto, que o Cavaleiro Perfeito, Galaaz, chegue para dar cima a esta aventura.

66. A espada desempenha assim uma função axial tanto na Demanda do Santo Graal como no Perceval de Chrétien de Troyes, e, para além das questões já vistas, a espada detém igualmente o poder de dar luminosidade e de tudo à sua volta se tornar claro.

67. A luz emanada não provém portanto só do Graal, mas, embora de uma forma mais atenuada, da própria espada, o que significa que esta traz a luz e o equilíbrio da justiça, ainda que de maneira violenta, contudo essa violência é logo exorcizada pelo Bem que a espada pode trazer consigo, e na Demanda o tema da espada de Merlin aparece como um tema central, pois é a espada destinada ao Cavaleiro Perfeito, Galaaz, e todos os outros tentam tirá-la do padrom, pedra em que está cravada, mas nenhum deles consegue, nem mesmo Lançalot.

68. No texto da Demanda, Galaaz diz que iria mui de grado, e então o filhou el-rei pela mão e levou-o à ribeira do rio, onde o padrom estava, e os do paço foram todos com eles, por verem o que poderia ser, e, quando a rainha viu que el-rei levava Galaaz pela mão ao padrom, saiu ela com grande companha de donas e de donzelas, e el-rei disse a Galaaz se queria sacar esta espada deste padrom, pois a não queria ninguém provar, de quantos ali som, pois dizem que a ventura não é sua, e que a provasse, se lhe aprouvesse, pois, se ele a não provasse, não achariam cavaleiro que a provasse, e então filhou Galaaz a espada pelo mogoram e tirou-a tão ligeiramente como se se não detivesse em rem, e depois filhou a bainha e meteu-a dentro e cingeu-a logo, e disse a el-rei.

69. Neste belo passo da Demanda, verifica-se que a espada se torna tão importante como o próprio Graal, representado neste capítulo pela aventura da Sceda Perigosa, sendo, com efeito, os sinais de que Galaaz sairá vitorioso na aventura da própria Demanda do Graal.

70. Por outro lado, a espada neste texto, mais ainda do que no de Chrétien, tem ainda um significado religioso que é o de defender os valores da Santa Igreja, e assim o afirma Jean Flori, dizendo que a loriga que ele reveste tem uma significação quase idêntica, assim como o elmo, pois todas essas armas defensivas simbolizam a proteção que o cavaleiro deve à Santa Igreja, e, quanto à espada, a arma nobre por excelência e a mais honesta, seus dois gumes significam que o cavaleiro deve servir a Deus e seu povo, isto é, o clero.

71. Com efeito, Jean Flori faz incidir suas afirmações no aspecto do clero e da Igreja, e o escudo, a cota de malha, o elmo e finalmente a espada, que como ele frisa é a arma nobre, são todos elementos que o Bom Cavaleiro deve possuir a fim de bem servir a Igreja, e Jean Marx refere-se à espada do Outro Mundo na sua obra, o que de certo modo é relativo ao Perceval de Chrétien e em certa medida à Demanda.

72. No texto de Chrétien, por outro lado, existe a espada do Cavaleiro Vermelho, da qual Perceval se apodera ao travar uma luta com ele até à morte, e também quando Perceval chega ao castelo do Rico Rei Pescador, vê um pagem que lhe oferece uma espada proveniente de uma donzela, dizendo o texto que, enquanto falam, entra um valete com uma espada pendurada ao pescoço, que a oferece ao seu senhor, que a tira um pouco da bainha e vê claro onde a espada foi feita, pois está escrito sobre a espada, e ele a vê de um aço tão duro que em nenhum caso ela se quebrará salvo um só, e só o sabia quem a havia forjado e temperado, e o valete, que a havia portado, diz que senhor, a loura pucela, vossa sobrinha a bela, vos faz presente desta espada, e que jamais tivestes arma mais leve para seu tamanho, e que a dareis a quem vos aprouver, mas que minha dama seria hábil no jogo das armas, e que quem a forjou fez que três, e, como ele morrerá, não poderá jamais forjar outra.

73. Essa espada, tal como o pagem afirma ao dirigir-se a Perceval, detém também um poder quase mágico, tal como na Demanda, sendo, pois, utilizando a expressão de Jean Marx, a espada do Outro Mundo, e o texto continua dizendo que, pois o punho era de ouro, do ouro mais fino da Arábia ou bem da Grécia, a bainha de orfroi de Veneza, e, tão preciosa, ele lhe faz dom, dizendo belo senhor, esta espada foi feita para vós, e quero que ela seja vossa, e que a cinja e a desembainhe.

74. Neste passo do Perceval, o autor descreve a espada, referindo-se ao botão do punho da mesma em ouro e à bainha de orla dourada, tendo-se aqui a descrição da espada em que predomina o ouro, enquanto o pagem diz a Perceval que a espada é feita para ele, e sublinhe-se que a espada é feita de um metal nobre, o ouro, considerado o metal perfeito, e o ouro, por sua natureza, é um metal brilhante, que reflete bem a luz e portanto, por si só, já é um elemento quase mágico, significando assim a luz, a cor, o sol, em conjugação com o objeto, a espada, e é o metal nobre que por excelência dignifica e diviniza a guerra, pois a guerra é feita para o bem, o da Igreja, o do clero, e não para o mal, e, embora no Perceval os elementos não estejam ainda totalmente cristianizados, é muito claro o ascendente da dimensão cristã, contudo, ainda há a considerar outro aspecto da espada na Demanda do Santo Graal.

75. Com efeito, na Demanda surge não só a espada do Bom Cavaleiro como a espada do Mau Cavaleiro, e assim aparece a Donzela Laida antes dos Cavaleiros partirem para a Demanda com uma estranha espada que se tinge de sangue, profetizando as maldades que o Mau Cavaleiro fará durante a Demanda, dizendo ela que o dirá, pois saber hão de o saber, e que saibam que esta espada, que ora veem tão formosa e tão limpa, será toda tinta de sangue quente e vermelho, tanto que a tiver na mão aquele que fará a maravilha de matar cavaleiros nesta demanda mais que outrem, e que esta espada trouxe ela ali para o conhecerem e para o fazerem ali ficar, pois, sem falha, se ele ali vai, tanto de mal e de pesar acontecerá e tanta mortura de homens bons, que chamareis, à sua tornada, rei pobre, herdeiro deserdado de bons filhos de algo.

76. Com este discurso a donzela profetiza que a Demanda se anuncia sangrenta com a participação do Mau Cavaleiro, e este será identificado com o único Cavaleiro que a retira com sangue, Galvão, dizendo o texto que Galvão a deu a seu padre, e seu padre tirou-a, e não apareceu rem, e depois a Boorz de Gaunes, e a Estor e a Persival de Galas e a Erec, filho del-rei Lac, e a Gaeriet, mas rem não se mostrou em nenhum destes, e então a filhou Galvão, e, tanto que a sacou da bainha, tornou-a toda coberta de sangue, toda de uma parte e da outra, tão quente e tão vermelho como se a sacassem do corpo de homem ou de chaga.

77. A espada tem portanto o papel de profetizar os males que advirão na Demanda se o Mau Cavaleiro, Galvão, nela participar, e verifica-se então que, para além de simbolizar a guerra-santa, a espada é também um elemento anunciador e simbólico, porque dotado de função profética.

78. Insígnia de um cavaleiro, identificando-se de certo modo com ele, como já visto, ela pode ser um penhor de lealdade entre dois bons cavaleiros, e é assim que Gamaliel, para garantir a sua maldade para com o rei Artur, lhe deixa a espada que foi de seu pai, levando em troca a do Rei Artur, dizendo que, mas por saber a bondade que eu ali fiz, lhe deixarei a espada de meu padre e levarei a sua, por lhe lembrar de minha cortesia e de minha mesura.

79. Como que duplo do cavaleiro, a espada só pode ser uma, isto é, o cavaleiro não pode ou não deve usar duas espadas, dizendo o texto que, quando Keia lhe viu duas espadas, maravilhou-se, pois não era de costume então de nenhum cavaleiro trazer duas espadas no reino de Logres, se não fosse tão ousado por prometê-lo ou por jurá-lo, e se algum fosse tão ousado que trouxesse duas espadas de costume, não poderia recar dos cavaleiros que à batalha o chamassem.

80. Assim se explica que, quando Galaaz depara com a espada-da-estranha-cinta que lhe é destinada na Nave de Salomão, lhe seja necessário despojar-se da espada que já longinquamente arrancara do padrom e que aí fora cravada pelo encantamento de Merlin, e parece significativo que, ao aproximar-se das derradeiras aventuras antes de chegar a Corbenic, Galaaz não cinja uma espada marcada pela magia de Merlin, evocadora da antiga tradição pagã, mas sim a espada que lhe é concedida em nome da cristandade, dizendo o texto que acharam a espada que jazia atravessada no leito, aquela espada que era de tão grande maravilha e de tão grande virtude como o conto há já dito, e acharam a coroa que rei Salomão pusera e a carta por que poderiam saber a verdade da nave e da espada.

81. Armado com esta espada, a espada-da-estranha-cinta, a melhor espada e a de maior virtude que nunca cinju cavaleiro, Galaaz, tendo-se despojado dos sinais de Merlin, poderá finalmente aproximar-se das grandes puridades e coisas ascondidas.

82. Assim, Galaaz, finalmente investido, assume a plenitude do seu estatuto de sergente de Jesus Cristo, e a espada de Merlin, aliás, passará para a posse do segundo cavaleiro que atingirá os segredos do Graal, Persival, dizendo o texto que filhou Persival a espada que trazia sua irmã, a que fora do padrom de Merlin, a qual leixara Galaaz por a espada da estranha cinta.

83. O escudo constitui também um emblema no contexto da Demanda, e, neste sentido, quando Galaaz retira a espada da pedra, dirige-se ao rei Artur nestes termos, dizendo que senhor, ora hei já a espada, mais o escudo não hei, e o rei responde-lhe, profetizando que amigo, pois Deus e a ventura vos a espada deu, não tardará muito o escudo.

84. Este diálogo prepara, sem dúvida, o aparecimento do Escudo Maravilhoso, e, tal como o rei Bandemaguz explicará a Galaaz, não há nenhum cavaleiro que consiga pegar nesse escudo, sob pena de ser morto ou ferido, e ora, esse escudo, também como complemento da espada e do Graal, está destinado ao Melhor Cavaleiro do Mundo, e o seu caráter maravilhoso está marcado pelo fato de exalar, tal como o Graal, um bom odor, notando-se que, tal como a espada irradia luz, e nisso se assemelha ao Graal, também o escudo exala esse bom odor, que assinala uma virtude celestial e se opõe à pestilência que, no imaginário medieval, assinala as instâncias infernais.

85. É por isso que o misterioso cavaleiro branco invectiva o Rei Bandemaguz por se haver apropriado do escudo que não lhe era destinado, dizendo que muito fizeste sandeu, cavaleiro, que este escudo filhaste, pois não é outorgado senão para um homem só, e aquele quem quer que seja o melhor cavaleiro do mundo.

86. É por isso também que, em seguida, entrega o escudo ao cavaleiro, depois de o ter retirado ao Rei Bandemaguz, dizendo que filha este escudo e leva-o ao sergente de Jesus Cristo, aquele que chamam Galaaz, e diz-lhe que o alto mestre lho manda, que o traga, pois sempre será tão fresco como agora é e tão formoso.

87. Galaaz entra na posse do escudo maravilhoso e logo com ele opera as primeiras maravilhas, perante os frades que veem nele benta coisa nova e perante Ivã o Bastardo que diz que nunca tanto desejou nem como ver o Bom Cavaleiro que deste escudo haveria de ser senhor.

88. Verifica-se, portanto, que o escudo desempenha um papel extremamente importante na Demanda, porque também remete para a divindade de Jesus Cristo, bem como para o caráter carismático do cavaleiro que o usaria.

89. Tal como a espada, o escudo, ou melhor, este escudo, é também um emblema do Bom Cavaleiro, e, ao contrário da espada, mas por isso mesmo servindo-lhe de complemento, o escudo representa a arma passiva, defensiva e não ativa ou ofensiva como a espada, mas de qualquer maneira um emblema de guerra, e o escudo serve de defesa enquanto a espada atua no ataque, mas os dois complementam-se um ao outro.

90. Na Demanda, o escudo tem, para além destes aspectos, uma vertente mágica, e, com efeito, sabe-se que os escudos que, ao longo da literatura universal, constituem tópicos literários apresentam, como o escudo de Aquiles e o escudo de Héracles, na sua ornamentação não só um aspecto estético mas destinam-se a aterrorizar e até a projetar uma força destrutiva sobre o antagonista, e, assim sendo, é significativo que este escudo apresente sobre o fundo branco a cruz vermelha que representa o próprio Cristo.

91. Após tomar posse desse escudo, revela-se a sua origem e o passado desse mesmo escudo, e, com efeito, o rei Evalac pretendera vencer Tolomer com quem travava guerra, e então aparecera Josefes, filho de José de Arimateia, cristão que lhe diz que o pode auxiliar, e assim pede ao rei o escudo e grava nele uma cruz vermelha, e o rei Evalac servir-se-ia deste escudo em combate contra Tolomer, e, vencendo-o, o rei Evalac converte-se e recebe o batismo, e é de notar que também à semelhança da Lança, deste escudo caem gotas de sangue, mais propriamente do crucifixo nele gravado, e assim o rei liberta José de Arimateia da sua prisão e retribui o escudo a Josefes, que nele grava o crucifixo não já com tinta mas com o seu próprio sangue, dizendo o texto que el-rei lhe fez aduzer o escudo, e, naquela hora em que o escudo aduseram ante Josefes, saiu-lhe tanto de sangue dos narizes que o não podia estancar, e Josefes filhou o escudo e fez ali do seu sangue cruz, tal qual ora vós vedes, e este é o escudo de que vos eu conto.

92. Com efeito, este sinal que Josefes grava no escudo com o seu próprio sangue representa a lembrança que Josefes deixa ao rei de si próprio, dizendo o texto que vedes aqui a lembrança que vos eu deixo de mim, pois vós sabedes bem que esta cruz é de meu sangue, e sabede que sempre assim será fresca e assim vermelha, bem como vós ora vedes, enquanto o escudo durar, e não durará pouco, porque nunca o deitará cavaleiro a seu colo que se mal não ache, até à vinda do bom cavaleiro Galaaz, que será o postumeiro da linhagem de Naciam, que o deitará a seu colo, e porém vos digo que nenhum será tão ardido que o a seu colo deite, senão aquele a quem o Nosso Senhor há outorgado, e assim, como mais maravilhas haverá deste escudo que doutro, assim haverá mais bondade de armas e de santa vida naquele que o há de trazer que em outro cavaleiro.

93. Verifica-se neste passo da Demanda não só que o escudo adquire uma relevância grande como também anuncia o aspecto da predestinação de Galaaz que surge, efetivamente, como o Cavaleiro Perfeito e desejado.

94. Vê-se, pois, que não só a espada tem importância como emblema, mas que também o escudo se revela de uma prioridade extrema juntamente com a primeira, tratando-se de um aspecto que se afigura extremamente importante no que diz respeito ao perfil do Cavaleiro Perfeito, e Galaaz é armado cavaleiro de uma maneira formal por seu pai Lançalot, mas na realidade é Deus, a ventura, às vezes antonomásia de Deus, que lhe dá as armas, isto é, por um lado a espada, que Galaaz retira do padrom, e por outro lado o escudo que lhe já estava predestinado, revestindo-se este aspecto da maior importância, já que Galaaz reúne as duas facetas, a humana, investido por Lançalot, e a divina, investido por Deus, sendo ele o cavaleiro predestinado, porque perfeito.

95. Ora, o paralelismo espada e escudo mantém-se claramente ao longo do texto da Demanda, e, se, como visto, no percurso para a perfeição ascética e cristã, Galaaz repudiara a espada de Merlin e a substituíra pela espada-da-estranha-cinta, o que é fato é que também o escudo recebido do Rei Bandemaguz vai ser substituído por um novo escudo, e, desembarcados da Nave Maravilhosa, significância da Santa Igreja, Galaaz, Persival e a donzela sua irmã entraram no castelo onde a ventura os levou, sem escudos nem elmos, e é então que se depara a Galaaz o novo escudo, dizendo o texto que Galaaz catou ante uma igreja velha e antiga e viu seu escudo aïstado à porta e mostrou-o aos outros e disse que bento seja Deus e louvado, que lhe não esqueceu o meu escudo, ante mo deu por a sua mercê, e eles disseram que era mui formoso milagre, e ele foi ao escudo e filhou-o e deitou-o a seu colo.

96. Revestidos de elmo, loriga e cota, porém, os cavaleiros embrenhados por florestas e carreiras são irreconhecíveis, e são as marcas e sinais presentes no escudo que os identificam, e é assim que a troca do escudo pode ser aparente troca de identidade, e é por isso que no episódio de Galaaz e Eliezer, este não é reconhecido por seu pai pelo escudo que havia cambado, e é também por isso que Galaaz reconhece, durante a aventura da Besta do Ladrador, os dois cavaleiros, Palamades e Persival, que haviam as armas, escudos, cambadas.

97. É assim que se pode ver uma identificação quase física do escudo e do Cavaleiro, visto que, ao defender o seu corpo, o cavaleiro defende o escudo e vice-versa, e, debruçando-se sobre o encontro entre Keia e Galaaz, diz o texto que Keia leixou-se a ele e disse-lhe que dom cavaleiro, leixade o escudo que tragedes, ou vos guardade de mim, e Galaaz, que o não conhecia, disse-lhe que o escudo não leixarei eu, enquanto o poder defender.

98. Talvez também por isso a identificação do escudo implica a identificação do cavaleiro, e a sua perda implicará também a perda do cavaleiro, e reconhecimento e desconhecimento aparecem claramente no passo em que, quando Boorz e Persival viram o escudo de Galaaz pendurado ante a choça, esteveram e disse Boorz a Persival se não é aquele o escudo de dom Galaaz, e Persival disse que sem falha esse é, e então se foram contra o escudo e acharam Galaaz que se queria já colher ao cavalo pelos ir ferir, pois bem cuidara que eram dos do castelo, pois os não conhecia pelas armas que haviam cambadas, e, tanto que chegaram a ele, salvaram-no e ele os perguntou então quem eram e eles se nomearam e desceram logo, e Galaaz tolheu seu elmo e eles os seus e receberam-se o melhor do mundo.

99. Armados de espada e escudo, os cavaleiros que atravessam a Floresta Gasta, ou a Floresta das Serpentes, enfrentam a ameaça de cavaleiros sandeus e de monstros ladradores, e espada e escudo sairão vencedores quando empunhados pelos cavaleiros investidos na função e na dignidade de sergentes de Jesus Cristo, sendo Galaaz o seu mestre.

100. Na análise desta vertente dedicada aos cavaleiros e à cavalaria no universo romanesco, considerou-se pertinente e até indispensável proceder à sua inserção nos restantes elementos que constituem o seu enquadramento, e por isso se referirá ao papel do ermita, prud'homme, homem avisado ou homem bom que contribui para a modelação do cavaleiro quer como oposição, quer como complemento, não esquecendo que os cavaleiros em expiação se tornam ermitas, como acontecerá a Perceval, Lancelote e Boorz, e, por outro lado, sendo as novelas arturianas caracterizadamente novelas de espaço, considerou-se também necessário analisar a floresta ou as florestas como espaço simbólico dentro do qual se movem, evoluem e progridem os cavaleiros bons e também em que encontram o castigo e a derrota os cavaleiros maus, e, lugar de revelação, a floresta é também o lugar da sepultura de alguns, e, no contexto das duas novelas arturianas sobre que se debruçou, os seus heróis definem-se como heróis itinerantes, isto é, em permanente passagem, tendo de certo modo o seu contraponto na figura do ou dos ermitas, sedentário habitante de uma ermida ou de um ermitério.

101. Assim, os cavaleiros vão deparando passo a passo com essas personagens ambíguas e por vezes inquietantes, que parecem deter o saber e possuem também muitas vezes o dom profético, representantes, no universo romanesco, do poderoso movimento espiritual que foi o monaquismo medieval.

102. É relevante sublinhar a observação de Jean-Charles Huchet ao notar a introdução do ermita no universo romanesco, precisamente através do romance bretão e dos outros tipos de romance medieval, nomeadamente a canção de gesta, e, nesse sentido, aquele autor afirma que, muito cedo figura literária, o ermita assombra, desde o século XII, todos os gêneros narrativos em língua vernácula, a canção de gesta, o lai, o fabliau, permanecendo, no entanto, um personagem essencialmente romanesco, e pergunta se é preciso ver nessa presença sustentada um reflexo do desenvolvimento do movimento eremítico no ocidente medieval que, no rescaldo da reforma gregoriana, traduziu uma exigência espiritual maior, e, paradoxalmente, o número de ermitas cresce no Romance, o Lancelot em prosa não comporta menos de vinte, no tempo, início do século XIII, em que o movimento eremítico marca o passo e recua, dando lugar a outras formas de espiritualidade melhor adaptadas ao surto urbano, e cujas ordens mendicantes, franciscanos e dominicanos, foram os ardentes propagandistas, sendo portanto à história e aos textos onde aparecem os ermitas que se devem pedir as razões de sua promoção romanesca, e, perdido na solidão da floresta, o ermita interrompe seu diálogo permanente com Deus com um trabalho de cópia ao qual o obriga a regra de São Bento sobre o trabalho manual, e, homem de oração, o ermita é também o homem do livro e da escrita, mas de uma escrita menos a tomar no seu sentido material que no de concepção e de realização da obra na qual ele aparece.

103. No texto português, o que parece significativo é que surge uma figura singular de ermita, aquele que, por amor a Galaaz, se torna também itinerante e o acompanha desde a partida do jovem cavaleiro para Camaalot, desempenhando ao mesmo tempo o papel de pedagogo, o que, de certo modo, confirma as observações supracitadas de Jean-Charles Huchet relativamente ao poder sobre a escrita memorativa, dizendo o texto que sem falha o irmitam andava sempre após ele, quando longe e quando perto, e contava-lhe cada dia as vidas dos padres santos e as estórias antigas.

104. Trata-se, aliás, de um aspecto que já se teve ocasião de referir no esboço de comparação que se apresentou da Queste e da Demanda, pois o ermitão sobejo amava Galaaz e propõe-se pôr em escrito todas as maravilhas da demanda, e é também ele que apresentará Galaaz ao Rei Artur como cavaleiro desejado e se instaurará como testemunha e narrador das aventuras da Távola Redonda.

105. A presença do ermita-pedagogo e relator dos feitos de Galaaz é, no entanto, um caso singular, já que a figura do ermita aparece tanto no texto de Chrétien como no da Demanda sobretudo como o habitante solitário de deserto ou da floresta, num cenário ambíguo em que o único dado fundamental é a solidão como fonte de saber, e é por isso que é Gorneman de Gorhaut que faz a Perceval a grande revelação do que é e como deve ser mantida a Cavalaria.

106. Gorneman diz a Perceval que com esta espada que lhe remete, lhe confere a ordem mais alta que Deus criou no mundo, que é a Ordem de Cavalaria, que não sofre nenhuma baixeza, e pede que se lembre, se deve combater, que, quando gritar mercê para ele seu adversário vencido, deve tomá-lo em misericórdia e não o matar, e que não fale demasiado voluntariamente, pois quem fala demasiado pronuncia palavras que lhe são tornadas loucura, e quem demasiado fala faz um pecado, diz o sábio, e pede também que, se lhe acontecer encontrar em desamparo, por falta de socorro, homem ou mulher, órfão ou dama, os socorra se puder, e que fará bem, e, enfim, que há outra coisa que não se deve esquecer, que vá frequentemente ao mosteiro orar ao criador de todas as coisas que tenha mercê de sua alma e que neste século terreno o guarde como seu cristão.

107. É, de resto, também junto de um ermitão que Perceval expiará durante cinco anos até atingir a perfeição.

108. Na Demanda, e tratando-se de um texto extremamente complexo e repleto de sobreposições e contaminações, multiplicam-se os encontros com os ermitas que são, ao longo do percurso dos cavaleiros, instrumentos de arrependimento, penitência, revelação dos mistérios e sabedoria, e o que parece significativo é que esses ermitas habitam a floresta, que constitui de certo modo o centro do imaginário do Ocidente.

109. Vejamos as considerações do medievalista Jacques le Goff sobre o papel da floresta medieval na modelação desse imaginário, dizendo ele que Charles Higounet redigiu o inventário e o mapa das florestas da alta Idade Média, época que conheceu, de 500 a 1200, mais ou menos, uma fase climática quente e, por conseguinte, um retorno ofensivo da floresta, e, entre essas florestas europeias, Higounet distingue a floresta das Ardenas, que desde o tempo dos celtas era a floresta por excelência, e registra o aparecimento, ao lado do italiano, do castelbano e do português selva, que continua o termo latino silva, e do germânico wald, do termo forestis ou foresta, que dará fôret em francês, floresta em português, Forst em alemão, forest em inglês, e a mais antiga atestação conhecida do termo associa por outro lado a ideia de floresta à ideia de solidão, tratando-se de um diploma de Sigoberto III, de 648, para a abadia de Stavelot-Malmédy, que fala na nossa floresta chamada Ardenas, vasta solidão onde se reproduzem os animais selvagens, e a palavra deriva sem dúvida da expressão silva forestis, uma selva que depende do tribunal, forum, do rei, e designa na sua origem uma reserva de caça, tem um significado jurídico, e assim os homens da segunda função indo-europeia, os guerreiros, os bellatores, os homens da força física, tentaram apropriar-se da floresta durante a Idade Média e fazer dela o seu terreno de caça, e, para voltar à floresta material do Ocidente medieval, sublinhe-se com Charles Higounet que ela serviu de fronteira, de refúgio para os cultos pagãos, para os eremitas que vieram procurar lá o deserto, eremium, para os vencidos e os marginalizados, servos, fugitivos, assassinos, aventureiros, malfeitores, mas também que ela foi útil, preciosa, reserva de caça.

110. No texto da Demanda, a floresta aparece como um espaço cumulativo que confunde, pois, o deserto e a floresta e multiplica até a sua delimitação e as próprias denominações, e, segundo as expressivas palavras de Jacques Ribard, encerrando todos esses lugares, ouse-se dizê-lo, simbólicos, há a presença, a onipresença, da floresta, a grant forest escure, lugar secreto, lugar sagrado, onde o homem vem retemperar-se nas pulsões originárias de seu ser.

111. Se, no texto de Chrétien, a Gaste Fôret se apresenta de certo modo como um espaço uniforme, entrecortado de marcos constituídos pelos castelos e limitado pela beira do mar, pelo contrário na Demanda a floresta surge mais como labirinto, interrompida por montanhas, lagos e fontes, cortada por carreiros por onde dividem o seu caminho os diferentes cavaleiros.

112. A floresta pode chamar-se Floresta das Serpentes, Foresta Aula e Foresta Gasta ou ainda Foresta Aacena, podendo ser ainda a Floresta Pequena e podendo ser espessa e cerrada, e a Floresta será não só o lugar de revelação, mas também lugar de entretenimento palaciano, onde o rei e os cavaleiros podem ir por caça.

113. Considera-se significativo o fato de a floresta constituir um motivo de descrição literária, o que, em termos de literatura medieval, é de certo modo inigualável, e, entre essas descrições, é talvez uma das mais extensas e literariamente mais conseguidas a da Floresta de Bretheam onde o rei Artur fora caçar, dizendo o texto que naquele dia em que el caçara, lhe aconteceu assim, que, perdendo toda sua companha e todos os seus cães, e o veado depois que ia, assim que andou errado pela foresta uma hora de acá e outra de alá, assim como aquele que nunca muitas vezes caçara por aquela foresta, ele andou assim errado como se diz, e aconteceu que a ventura o levou a uma fonte que era à entrada de uma veiga, e aquela fonte era mui formosa, e achou ali uma donzela só, a mais formosa nem que ele nunca viu, e era vestida e guisada tão ricamente que não era se maravilha não, e, quando el-rei viu a donzela tão formosa, cuidou verdadeiramente que era fada, porque se sentava sozinha.

114. Lugar de encontros insólitos, é neste sentido que Jacques Le Goff pode afirmar que mas o deserto é também o lugar de encontro com Satanás e os demônios, se bem que este tema de espiritualidade oriental do deserto não tenha encontrado no Ocidente da alta Idade Média o mesmo sucesso que no Oriente, e Enquérrito refere-se apenas de passagem às tentações do Inimigo que vagueia em vão em torno do eremitério como o lobo à volta do rebanho.

115. A floresta da Demanda parece, no entanto, perder o sentido desértico que apresentara na obra de Chrétien, e, com efeito, ao longo da leitura do texto português, ela chega a ser superpovoada, de acampamentos de tendas, choças, tendilhões e tendas, ermidas pequenas, casas de ermitães e mesmo uma casa velha onde morava um montanheiro, e na floresta, percorrida pelos cavaleiros de Artur, surgem abadias e até a casa da ordem de frades brancos.

116. De qualquer modo, os acidentes que povoam a floresta não deixam de confirmar a análise de Le Goff, que diz que habitualmente representou os valores opostos aos da cidade e, por isso mesmo, deve interessar à história da sociedade e da cultura, e, no cristianismo medieval, a ideologia do deserto apresentou-se de uma forma inédita, pois o deserto foi a floresta.

117. Ainda que diluído, pode-se de certo modo encontrar, como vestígio de um complexo simbolismo da floresta, o animismo vegetal característico da mitologia céltica, tratando-se de árvores com nome, dizendo o texto que assim, disse Palamades, mostra-me esta fonte, e então se erguem Atamas e filhou Palamades pela mão e levou-o à fonte que nascia ao pé de uma árvore, que havia nome saquimor.

118. E então cavalgaram e foram-se após ele e alcançaram-no e andaram de seu até hora de noa e chegaram a uma fonte que nascia ao pé de uma árvore que há nome Sagramor, sendo, neste último caso, curioso notar que Sagramor é o nome de uma das personagens de Chrétien.

119. Neste espaço aparentemente sem tempo, encontram-se por vezes as marcas temporais, e aí o caminho mede-se por dias e é assinalado o mês de Abril, a entrada de Maio, a Primavera e o Verão, e as tempestades podem também assolar a floresta, que na maioria dos casos e em termos genéricos é designada por Foresta Perigosa, tendo como correspondente a Fôret félone em Chrétien, e os cavaleiros movem-se neste espaço complexo por vezes num vaivém que não deixa de ser perturbador, e o seu perfil desenvolve-se em função da experiência da floresta ou, segundo Jacques Le Goff, da floresta-deserto.

120. Diz aquele medievalista que a floresta-deserto, lugar de provas e aventuras, ocupa um grande espaço em seu último romance, Perceval ou Li Contes du Graal, e é verdade que Perceval, embora filho da Dame de la Gaste Fôret solitaire e apresentado como valet sauvage, não é propriamente um homem selvagem, mas o itinerário de iniciação e de provas está marcado por passagens pela floresta, que constituem outros tantos momentos de recolhimento e de perseguição na solidão ou na aventura, e, com uma genial metonímia, Chrétien de Troyes chama à própria floresta onde se encontra a solidão, solitária, floresta soutaine, mas também floresta félone, floresta traiçoeira, porque em termos de moral feudal é o lugar das alucinações, das tentações e das insídias características do simbolismo do deserto, e, finalmente, numa altura crucial, Perceval encontra, no âmago da floresta, um ermita que se revela ser seu tio e lhe desvenda a causa e o sentido de suas provas, sendo penitência e revolução, em última análise, o sentido profundo, apocalíptico, do simbolismo cristão da floresta.

121. É neste contexto, pois, que se desenvolve e se modela o perfil dos cavaleiros, em especial dos dois achadores do Graal, Perceval e Galaaz.

122. É com as palavras de M. M. Davy que se começa por caracterizar a cavalaria, aludindo à estreita relação que se gera entre ela e a Igreja, dizendo que falar do amor cortês é necessariamente evocar a cavalaria, e que de origem germânica a cavalaria deve à Igreja sua forma e seu ideário, sendo o cavaleiro considerado como o soldado de Deus, que deve combater nas justas guerras.

123. De fato, o cavaleiro é incumbido da tarefa elevada de fazer guerra ao serviço de Deus, a guerra santa, e deste modo a Igreja cristianiza o soldado, que a partir desse momento luta e trava batalhas ao serviço da Igreja e de Deus, e é conveniente, desta forma, delimitar este aspecto antes de abordar a problemática dos cavaleiros nos sistemas textuais de Perceval e da Demanda, e assim se poderá saber em que medida Perceval, por um lado, e Galaaz, por outro, são investidos cavaleiros e em que grau cada um desempenha o seu papel de forma mais ou menos perfeita.

124. Para ver até que ponto Perceval na obra de Chrétien de Troyes e Galaaz na Demanda do Santo Graal apresentam dessemelhanças como heróis, é necessário ater-se em primeiro lugar ao seu estatuto de cavaleiros, e, por um lado, é necessário ter em atenção que Perceval entra no conto num estádio de ignorância semi-selvagem, não sabe o que é uma igreja nem o que é um mosteiro, e, acima de tudo, ignora o que é a cavalaria.

125. No entanto, Perceval demonstrará que o seu estado inculto e selvagem esconde de certo modo uma via de conhecimento, como M. M. Davy afirma, dizendo que Perceval, conduzido por sua mãe numa floresta virgem, sabe a linguagem dos pássaros e das bestas, e que conhecer a linguagem dos animais é um privilégio reservado àqueles que possuem o conhecimento.

126. Aparentemente, porém, Perceval é caracterizado pelo Não-Saber e ignora até o seu próprio nome, sendo por isso o jovem sem-nome, e apenas o ficará a saber quando uma donzela sua prima lho revelar, e esta questão afigura-se de grande importância, já que, não conhecendo o seu próprio nome, o jovem não tem identidade, e, de fato, a doação do nome, a posse do nome, constitui uma questão que envolve a própria problemática da existência e do ser, pois é o nome que dá corpo ao objeto em si e à sua própria essência.

127. Ter nome é o mesmo que existir, não ter nome é o mesmo que não existir, e este aspecto remete para a relação necessária existente entre o nome e o designado, e é curioso que Chrétien, até ao ponto em que é revelado o nome do herói, o designa sempre por jovem, cavaleiro, galês, o filho da viúva, etc., dizendo o texto que nenhuma palavra saiu de minha boca, e que Deus me ajude, é pior ainda, e pergunta como tendes nome, amigo, e ele, que seu nome não sabia, subitamente o conheceu e lhe disse que é PERCEVAL O GALÊS.

128. É a partir deste momento, depois de ter já entrado no Castelo do Graal, que lhe é dado conhecer o seu nome, e é a partir também daqui que integra na sua plenitude o estatuto de cavaleiro, e Perceval sofre, pois, uma evolução ao longo do texto.

129. Esta evolução ou, mais exatamente, progressão, é efetuada de um modo atenuado mas sempre no sentido ascendente, até que Perceval se arrepende dos seus pecados, conhecendo-os, remedia o mal que tinha feito e assim atinge os supremos mistérios do Graal, e só nesse momento Perceval se tornará perfeito.

130. Toda esta problemática não se aplicará a Galaaz, já que este conhece de início o seu próprio nome e, por outro lado, é também desde o início o Cavaleiro Perfeito, o esperado, o desejado e, em suma, o Eleito, dizendo o texto que veio a ele a abadessa com quatro donas, e adusse consigo Galaaz, e Galaaz tão formosa coisa era, que maravilha era, e ele disse que se Deus o fez assim formoso, dar-lhe-á bondade, se lhe prouver, pois em outra guisa valeria pouco, e que ele quererá que seja bom e coisa que semelhe sua linhagem e aqueles onde ele vem, e que metida há sua esperança em Nosso Senhor, e por isso vos rogo que me façades cavaleiro.

131. Até chegar aos mistérios do Graal, Perceval tem de cumprir uma progressão e um caminho mais ou menos árduo, e, além de ignorar o seu nome, Perceval, como observa Martin de Riquer, mantém um silêncio completo quando presencia os mistérios que lhe surgem no castelo do Graal, e, de certo modo, este silêncio denota a obediência que observa em relação a Gorneman de Gorhaut, o prud'homme que o esperava e que lhe dissera que não falasse demasiado voluntariamente, pois quem fala demasiado pronuncia palavras que lhe são tornadas loucura, e quem demasiado fala faz um pecado, diz o sábio.

132. Esta obediência cega, e, portanto, ignorante, redunda, no entanto, em erro e mesmo em pecado, porque Perceval não sabe distinguir até onde deve guardar o silêncio que o homem avisado lhe aconselhara, e, ao contrário de Riquer, porém, M. M. Davy considera o silêncio de Perceval de forma diversa, dizendo que o silêncio de Perceval pode significar que ele não estaria ainda apto para receber as respostas a eventuais questões que ele pusesse, pois, na verdade, Perceval, quando chega pela primeira vez ao castelo do Graal, é ainda um jovem imaturo e não tem consciência das suas capacidades e deveres como cavaleiro.

133. Ora, também neste caso, Galaaz sabe o que dizer ou o que omitir, e ele fala quando é necessário e tudo aquilo que diz é conveniente dizer-se, e, por outro lado, o pecado maior de Perceval fora o de abandonar sua mãe, causando-lhe a morte, e este pecado marcou-o não só como pessoa, mas sobretudo como cavaleiro, e, em obra dedicada ao conceito e à vivência do pecado e do medo, Jean Delumeau analisa os vários tipos de pecado, considerando que os pecados cometidos por cristãos serão mais severamente punidos por Deus, e Perceval será punido e, para alcançar a purificação, terá de submeter-se a uma expiação.

134. Segundo os valores da sociedade medieval, como sublinha Delumeau, o casamento é um estado perigoso, e Perceval vive por uns dias no castelo com Blanchefleur, libertando-a dos seus inimigos, e, de resto, antes de chegar ao Graal, o seu percurso não será isento de episódios amorosos, como o beijo dado à donzela da tenda que ocasionará o seu confronto com o Chevalier Orgueilleux, e, no entanto, os seus amores, segundo observa Jean Marx, serão marcados pela discrição, contudo ultrapassada pelos continuadores de Chrétien e por Eschenbach, em cuja obra Parzival desposará a formosa Cundwiramurs.

135. Ao contrário, Galaaz é e mantém-se virgem ao longo de todas as suas aventuras, circunstância claramente explicitada no episódio do castelo do Rei Brutus, em que Galaaz se recusa a amar a filha do Rei, que acaba por suicidar-se por seu amor.

136. Observa-se assim que os valores medievais condenam a perda da virgindade, considerada como um valor mais importante do que a própria vida, e, no caso de Galaaz, poder-se-ia, de resto, segundo outra moral, apontar a morte da donzela como um pecado, o que, no entanto, a ética medieval não permite, e assim Galaaz mantém-se puro e virgem e é, por isso, o cavaleiro desejado, embora não tenha de expiar, já que é isento de pecados, e Galaaz terá de passar por esta nova prova que é, no fundo, uma demonstração, e consegue sair dela vitorioso e incorrupto.

137. Verifica-se assim que, por seu lado, Perceval mantém uma faceta de imperfeição e, se por isso terá de sofrer uma evolução e uma expiação, não é menos certo que para alguns críticos é um herói mais humano do que o perfeito, desejado e incorrupto Galaaz, e este nasce puro, ainda que nasça em pecado, e conserva sempre ao longo da demanda a sua pureza e a sua bondade sem falha, já presenciadas no grave momento em que, deixada a adolescência, recebe de seu pai a ordem de cavalaria, dizendo o texto que veio a ele a abadessa com quatro donas, e adusse consigo Galaaz, e Galaaz tão formosa coisa era, que maravilha era, e ele disse que senhor, se promesse a vós, bem no quereria ser, pois não há coisa no mundo que tanto desejo como honra de cavalaria e ser carnalior da vossa mão, pois de outro não o quereria ser, que tanto vos ouço louvar e preçar de cavalaria, que nenhum, a meu cuidar, não podia ser covarde nem mau, quem vós fizésseis carnalior, e isso é uma das coisas do mundo que me dá maior esperança de ser homem bom e bom carnalior.

138. Galaaz é, pois, o cavaleiro puro e bom e ao mesmo tempo o desejado, o esperado, e, quando Galaaz entra na corte do Rei Artur, todo o palácio se alumia de uma luz intensa que ninguém soube dizer por onde entrou, dizendo o texto que, estando eles nisto falando, cataram e viram que todas as portas do paço se cerraram e todas as frestas, pero que não escureceu por ende o paço, pois entrou ali um tal raio de sol, que por toda a casa se estendeu, e aconteceu então uma grande maravilha, pois não houve tal no paço que não perdesse a fala, e aconteceu que entrou Galaaz armado de loriga e de baforeiras e de elmo e de dois sobressinais de eixamente vermelho.

139. Neste ponto sublinhe-se mais uma vez que Galaaz é sempre acompanhado pelo ermitão, e é este que apresenta Galaaz ao Rei Artur e aos outros cavaleiros.

140. Convém não esquecer também que quem conta toda a história da Demanda do Santo Graal é o mesmo ermitão, e atente-se naquilo que o ermitão diz, chamando Rei Artur e dizendo que eu te trago o cavaleiro desejado, aquele que vem do alto linhagem del-rei David e de Josep Darimatia, por que as maravilhas desta terra haverão cima.

141. Vejamos igualmente a resposta do Rei Artur, dizendo que se isso é verdade, vós sejades benvindo, e bem seja vindo o cavaleiro, pois este é o que há de dar cima às aventuras do Santo Graal, e que nunca foi a homem feita tanta honra como lhe nós faremos, e que quem quer que ele seja, eu queria que lhe fosse muito bem, pois de tão alto linhagem vem, como vós dizedes.

142. Do mesmo modo, os cavaleiros que estavam sentados à mesa reconhecem-no como o cavaleiro desejado e por isso o saúdam.

143. Pondo em paralelo os dois heróis, parece pertinente lembrar a tese de Jean Marx relativamente à substituição de Perceval como herói achador do Graal por Galaaz no Lancelot en Prose e na Queste del Saint Graal, dizendo esse arturianista que Galaaz não é mais do que um herdeiro, ou melhor um Perceval transfigurado, e por isso diz que mas Galaad é Perceval recriado e repensado à cristã, contudo, não está ainda tão longe de seu protótipo, e que essa audácia na aventura, esse risco sem cálculo, encontrou muito naturalmente seu acabamento e sua sublimação na figura do Cavaleiro Cruzado, instrumento e imagem do Cristo, que nos deixou a Queste del Saint Graal.

144. Num breve parêntese, registe-se que esta observação, ainda que referida à Queste, é perfeitamente aplicável ao caso da Demanda.

145. Nesta transferência da função heroica de Perceval para Galaaz, parece efetivamente verificar-se aquilo a que Jacques Ribard chamou o revestimento cristão da Matéria da Bretanha, e que para ele constitui de certo modo um desvirtuamento do mito, dizendo que mas devemos ultrapassar esse revestimento superficial sem grande significação para nos atermos a verdadeiros episódios de coloração cristã acusada, que são como enxertos no relato, sortes de peças trazidas para as necessidades da causa que fazem sofrer ao mito, mais que um disfarce, uma maneira derivada.

146. No que diz respeito a esta questão, a reflexão de Todorov traz, no entanto, uma clarificadora observação, e Todorov distingue, dentro da lógica específica de cada um dos textos, duas lógicas que estão em permanente tensão: a lógica narrativa profana, da qual depende uma temporalidade que classifica como a de presente perceptivo, em que os acontecimentos se sucedem e se encadeiam no tempo, cristalizada em Perceval bem como Persival, Boorz, Galvão, etc., e, por outro lado, existe uma lógica ritual, religiosa, cristalizada em Galaaz, que classifica como de eterno retorno, já que a origem do rito se perde na origem do tempo e se confunde com a sua escatologia, e, dentro desta ordem de ideias, no caso de Galaaz, tudo foi predito e todas as aventuras conduzem à realização das predições, e o acaso não existe, não foi por acaso que Galaaz deparou com o escudo ou com o castelo do conde Arnalt.

147. Com efeito, e seguindo ainda o pensamento de Todorov, coincidente, aliás, com o da maior parte dos arturianistas da escola mais recente, no caso de Galaaz como achador do Graal tudo foi predito, e ele sabe que lhe cabe realizar as predições, e ele é sempre anunciado como o cavaleiro celeste e desempenha um papel específico num rito pré-estabelecido, sendo essa, segundo parece, a mais significativa diferença entre Galaaz e o Perceval na concepção de Chrétien de Troyes, e, assim, segundo este último texto, a perplexidade do herói ao ver surgir o Graal e a Lança que goteja sangue impede-o de proferir palavra, sendo esse o seu erro e a causa da inoperância da graça contida nos mistérios do Graal.

148. Seria, pois, a pergunta que libertaria o Rei Pescador da sua enfermidade e restauraria a fecundidade da Terra Gasta, e, a esse propósito, parece encontrar na interpretação de R. J. Stewart uma bela síntese, dizendo ele que algumas vezes a Questão é o que significa, implicando uma revelação posterior da mística Procissão dos implementos do Graal, e que isso é uma compressão de uma sequência de pergunta e resposta na qual a identidade do Graal, do Rei e da Terra são plenamente unificadas.

149. Segundo o mesmo autor, a pergunta fundamental desdobrar-se-ia em três: o que significa, como poderei eu próprio ter essa experiência, e o que acontecerá a seguir.

150. Ora, como se sabe, Perceval permanece em silêncio e o seu silêncio será a causa das maldições da Demoiselle Hideuse, a Donzela Feia, e, pelo contrário, Galaaz não necessita colocar qualquer questão, e, quando chega a Corbenic, ele já sabe, dizendo o texto que, onde Galaaz viu o castelo, conhece-o e disse que ai, Corbenic, quanto andei noites e dias por ver as maravilhas que em vós há, e, entrando no Castelo, é ele, uma vez mais, que instrui os seus companheiros, dizendo que senhores, ora podedes ver as provas de nossas obras, e que neste paço não pode nenhum cavaleiro entrar se se não mantém como cavaleiro da Santa Igreja contra Nosso Senhor, e que, se nós somos cavaleiros do Santo Graal, as portas se nos abrirão, e se o não somos, não entraremos ali.

151. Contudo, segundo algumas interpretações, nomeadamente de M. M. Davy, o silêncio e a ignorância de Perceval potenciam a aquisição de um conhecimento superior que será afinal o seu percurso, dizendo aquela autora que Perceval, conduzido por sua mãe numa floresta, sabe a linguagem dos pássaros e das bestas, e que conhecer a linguagem dos animais é um privilégio reservado àqueles que possuem o conhecimento.

152. É esse percurso e esse dinamismo interior que fazem de Perceval, segundo alguns autores, um herói mais humano do que Galaaz, o herói que já nasce perfeito, e dessas imperfeições, aliás, dá conta o texto em toda a sua extensão, e, predestinado e anunciado, ele apresenta-se como uma segunda imagem de Cristo, exorcista e taumaturgo.

153. Vejamos o seguinte exemplo, dizendo o texto que ante a porta jazia um homem tolheito que se sentava pedindo esmola aos que passaram, e, quando havia de andar, sofria-se em dois paus, e disse-lhe Galaaz que homem, vem acá e ajuda-me a esta tábua levar, e poé-la-emos naquele paço, e ele disse que ai, Senhor, isso não posso eu fazer, pois bem há X anos passados que não pude já um passo mover sem ajuda de outrem, e Galaaz disse que não me em chal, leva-te suso e não hajas pavor, pois tu és são, e, Galaaz isso dizendo, provou se se poderia erguer, e achou-se são como se nunca houvesse mal.

154. Este passo demonstra claramente um insólito sincretismo do universo romanesco da cavalaria com o discurso evangélico, dizendo o texto que e eis que lhe apresentaram um paralítico estendido num catre, e, vendo Jesus a sua fé, disse ao paralítico que tem confiança, filho, os pecados te são perdoados, pelo que alguns escribas disseram de si para si que este blasfema, mas Jesus, que lhes lia os pensamentos, disse que porque pensais mal nos vossos corações, que é mais fácil, dizer que os pecados te são perdoados, ou dizer que levanta-te e anda, e que por isso, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder para perdoar pecados, disse ao paralítico que se levante, tome o seu leito e vá para sua casa, e ele levantou-se e foi para casa, e, vendo isso, as multidões, tomadas de admiração, glorificaram a Deus, que deu tal poder aos homens.

155. Esse sincretismo entre o universo romanesco e profano e o universo do sagrado manifesta-se, segundo se crê, na ambiguidade da figura do cavaleiro, mais evidente no caso de Galaaz do que no caso de Perceval, e, efetivamente, Galaaz acumula as virtudes ascéticas do cristão sublimado, é humildoso e casto mas é ao mesmo tempo o cavaleiro mais ardido e em quem a bondade de armas mais se evidencia, sendo o milhor cavaleiro que nunca trouxe armas na Grã-Bretanha, e também o mais formoso do mundo, e o mais sofrido e mais mesurado que nenhum cavaleiro que homem soubesse.

156. Tão depressa Galaaz se envolve nas mais sangrentas batalhas das quais sai sempre vitorioso como se entrega à oração e à contemplação mística, como sergente terreal e espiritual.

157. É nesta ambiguidade e dualidade, fazendo de Galaaz o ponto de convergência do sagrado e do profano, do universo cristão e do universo mágico, que reside a grande riqueza deste herói e fará dele o paradigma acabado do cavaleiro medieval, garante da justiça, defensor da Igreja, campeão dos fracos e dos oprimidos, segundo a árdua exigência da Ordem da Cavalaria.

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