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EXEMPLOS DE ESTRUTURALISMO DE PROPP

FAIVRE, Antoine. Les contes de Grimm: mythe et initiation. Paris: Lettres modernes, 1979.

Os KHM não são tão “puros” quanto os contos coletados por Afanasiev, mas sabemos que, embora se possa concordar com Propp nesse ponto, seria errado suspeitar que os irmãos Grimm tenham feito principalmente uma obra de “poesia de arte”. Trata-se muito mais de “poesia da natureza” — não de Kunstmärchen. A própria diferença observada por Propp entre os contos de Afanasiev e os KHM leva a tentar aplicar a estes o esquema das funções proposto pelo autor da Morfologia do conto. Este, como se viu, especificou que seu número (trinta e uma) esgota as possibilidades do conto idealmente “completo” e necessariamente composto por duas sequências. Há uma abundância de escolhas para apresentar um KHM com dupla sequência, mostrando que cada função corresponde a uma das de Propp. Procedendo da mesma forma para os cerca de sessenta KHM que são verdadeiramente contos, destacam-se dominantes a partir das quais seria possível traçar o perfil do KHM típico. Não há espaço aqui para apresentar tal trabalho. Por isso, pareceu-me útil fornecer apenas dois exemplos de KHM interessantes por serem incompletos. O primeiro (Donzela Maleen, n° 198) apresenta-se como o desenvolvimento de uma segunda sequência cuja primeira parece truncada. O outro (Chapeuzinho Vermelho, n° 26), que possui uma única sequência, é tão condensado em sua parte final que é difícil identificar as funções desta. A ocasião também permite enumerar as trinta e uma funções de Propp na ordem por ele indicada. Cada uma delas é seguida pela função correspondente, segundo minha análise, extraída de cada um dos dois contos escolhidos. I.

I. Um dos membros da família se afasta de casa (“Afastamento”). n° 198: [Nada.] n° 26: “Então, enquanto Chapeuzinho Vermelho chegava na floresta”.

III. A proibição é violada (“Transgressão”). n° 198: [Não é uma verdadeira transgressão (os sete anos se passaram).] n° 26: “Ela saiu do caminho e foi procurar flores”.

IV. O agressor tenta obter informações (“Interrogação”). n° 198: [Nada.] n° 26: “Por que saís tão cedo, Chapeuzinho Vermelho? […] O que levas debaixo do avental? […] Onde mora tua avó?”

V. O agressor recebe informações sobre sua vítima (“Informação”). n° 198: [Nada.] n° 26: “Vou visitar minha avó […] Um pedaço de bolo e vinho […] a um quarto de hora daqui na floresta, debaixo de três grandes carvalhos”.

II. O herói recebe uma proibição (“Proibição”). n° 198: [Proibição de casar com o príncipe — e de sair da torre.] n° 26: “Não saias do caminho”.

VI. O agressor tenta enganar sua vítima para se apoderar dela ou de seus bens (“Engano”). n° 198: [Nada.] n° 26: “Olha só as belas flores, Chapeuzinho Vermelho! E acho que não ouves o doce canto dos pássaros!” [E, mais adiante, finge ser Chapeuzinho Vermelho para a avó, e depois a avó para Chapeuzinho Vermelho.]

VII. A vítima se deixa enganar e assim ajuda seu inimigo sem querer (“Cumplicidade”). n° 198: [Nada.] n° 26: “Quando Chapeuzinho Vermelho viu os raios de sol dançando entre as árvores e todas as belas flores que havia ali, pensou: Se eu levar para minha avó flores frescas colhidas […].”

VIII. O agressor causa dano a um membro da família ou o prejudica (“Dano”). n° 198: n° 26: “O lobo, sem dizer uma palavra, aproximou-se da avó que estava deitada e a engoliu”.

VIIa. Falta algo a um membro da família; um membro da família deseja possuir algo (“Falta”). n° 198: n° 26:

IX. A notícia do dano ou da falta é divulgada, o herói é solicitado ou ordenado, é enviado ou deixado partir (“Mediação, momento de transição”). n° 198: [Maleen, fugida, parte em busca de seu noivo.] n° 26: “O caçador passava justamente perto da casa e pensou: Como a velha ronca!”.

X. O herói-buscador aceita ou decide agir (“Início da ação contrária”). n° 198: n° 26: “É preciso ver por que ela ronca assim!”.

XI. O herói sai de casa (“Partida”). n° 198: [Nada.] n° 26: “O caçador entrou então no quarto”

XII. O herói passa por uma prova, questionário, ataque etc., que o prepara para receber um objeto ou auxiliar mágico (“Primeira função do doador”). n° 198: [Nada.] n° 26: “Então o caçador quis apontar sua espingarda, quando lhe ocorreu que o lobo poderia ter comido a avó e que ainda seria possível salvá-la.” [Não há um doador, mas algo como uma prova que consiste em escolher bem um objeto.]

XIII. O herói reage às ações do futuro doador (“Reação do herói”). n° 198: [Nada.] n° 26: [Não há um doador, mas há reação diante da situação (“Ele não atirou”).]

XIV. O objeto mágico é colocado à disposição do herói (“Recepção do objeto mágico”). n° 198: n° 26: “Mas ele pegou uma tesoura”.

XV. O herói é transportado, conduzido ou levado para perto do local onde está o objeto de sua busca (“Deslocamento no espaço entre dois reinos, viagem com um guia”). n° 198: [Nada.] n° 26: [Nada.]

XVI. O herói e seu agressor se enfrentam em combate (“Combate”). n° 198: [Nada.] n° 26: “O caçador começou a abrir a barriga do lobo adormecido. Já tinha começado a cortá-la […] Mais alguns cortes […] Encheram a barriga do lobo de pedras” [Função humorística, o verdadeiro combate não ocorrendo.]

XVII. O herói recebe uma marca (“Marca”). n° 198: n° 26: [Nada.]

XVIII. O agressor é derrotado (“Vitória”). n° 198: [Nada.] n° 26: “O lobo acordou e quis fugir imediatamente, mas as pedras eram tão pesadas que ele caiu, morto”.

XIX. O dano inicial é reparado ou a falta é preenchida. («Reparação»).

n° 198:

n° 26: «O caçador viu brilhar o pequeno capuz […] A menina saiu da barriga do lobo […], depois a velha avó, ainda viva, também saiu».

XX. O herói retorna («Retorno»).

n° 198:

n° 26: «O caçador voltou para casa».

XXI. O herói é perseguido («Perseguição»).

n° 198:

n° 26: [Nada.]

XXII. O herói é socorrido («Socorro»).

n° 198:

n° 26: [Nada.]

XXIII. O herói chega incógnito em sua casa ou em outro país («Chegada incógnita»).

n° 198:

n° 26: [Nada.]

XXIV. Um falso herói faz valer pretensões mentirosas («Pretensões mentirosas»).

n° 198:

n° 26: [Nada.]

XXV. Propõe-se ao herói uma tarefa difícil («Tarefa difícil»).

n° 198:

n° 26: [Nada.]

XXVI. A tarefa é cumprida («Tarefa cumprida»).

n° 198:

n° 26: [Nada.]

XXVII. O herói é reconhecido («Reconhecimento»).

n° 198:

n° 26: [Nada.]

XXVIII. O falso herói ou o agressor, o vilão, é desmascarado («Descoberta»).

n° 198: «Ele retirou o véu de seu rosto e […] viu sua insondável feiura».

n° 26: [Nada.]

XXIX. O herói recebe uma nova aparência («Transfiguração»).

n° 198: «Agora», disse ela, «o sol brilha novamente para mim!»

n° 26: [Nada.]

XXX. O falso herói ou o agressor é punido («Punição»).

n° 198:

n° 26: [Nada.]

XXXI. O herói se casa e sobe ao trono («Casamento»).

n° 198: «Então eles se beijaram e foram felizes por toda a vida».

n° 26: [Nada.]


  • A aplicação das funções proppianas a dois contos dos irmãos Grimm — Donzela Maleen e Chapeuzinho Vermelho — suscita observações sobre os limites e as inconsistências do esquema de Propp quando confrontado com textos que não seguem o modelo ideal.
    • Em Donzela Maleen, a primeira sequência se reduz a quase nada: só começa realmente a partir da VIII função — o dano —, que Propp considera extremamente importante por ser ela que dá ao conto seu movimento, sendo as sete primeiras apenas o período preparatório.
    • As funções IX e X de Donzela Maleen são praticamente vazias: como as funções poderiam se manifestar em uma torre? Não há sequer um doador, e a servente que faz companhia à heroína é mal um auxiliar — no máximo uma sombra, uma redundância.
    • Nessa primeira sequência, as funções se sobrepõem: a XIV se colocaria mais entre a VIII e a IX; a fuga da heroína não resolve nada, pois ela se exila sem retornar, e ninguém pensa em persegui-la.
    • A transformação em criada de cozinha — XXII função — é uma pálida cópia das transformações mágicas frequentes em outros contos, mas é ela que relança a ação e introduz a segunda sequência, a partir da qual tudo se desenrola de acordo com o esquema ideal de Propp até a XXXI e última função.
    • Em Chapeuzinho Vermelho, o conto corresponde à primeira sequência de Propp, mas as funções só estão representadas até a VIII inclusive; a VI aparece duas vezes — redundância —; a partir da IX, as funções se imbricam de tal maneira que toda a segunda parte dá uma impressão de anamorfose.
    • O caçador desempenha o papel do herói tradicional, mas de forma pouco heroica — pois lida com um animal adormecido, do qual basta abrir a barriga com uma tesoura.
    • A miniaturização dos personagens e do cenário — as mulheres na barriga do lobo, que está no quarto, que está na casa, que está na floresta — leva a uma concentração extrema do texto, que se poderia chamar de gulliverização.
    • Propp não especificou segundo quais critérios seria conveniente praticar as segmentações — ou seja, considerar um elemento como função independente —, o que deixa sem resposta questões como: é legítimo considerar as palavras “Mas ele pegou uma tesoura” como ilustrando a função XIV (“Recepção do objeto mágico”)? ou que “O caçador voltou para casa” corresponde à XX função, o “retorno do herói”?
  • As funções proppianas aparecem apenas na medida em que as folhas do conto estão desdobradas — o que não prova que elas existam necessariamente em algum lugar antes desse desdobramento, pois o elemento originário poderia muito bem não ser a função, mas a imagem arquétipo.
    • Nada prova que a primeira sequência de Donzela Maleen e a segunda parte de Chapeuzinho Vermelho resultem de uma compressão de textos anteriores mais desenvolvidos, nos quais as funções proppianas teriam sido facilmente identificáveis.
    • O processo poderia ser inverso: um núcleo originário apareceria e se desenvolveria, gerando uma sucessão de funções que ele não parecia conter no início.
    • Enquanto a teoria de Propp parece implicar que os contos têm todos uma origem histórica em um conto único — posição evolucionista —, sugere-se aqui a possibilidade de uma metaestrutura intemporal de natureza arquetípica, da qual as funções proppianas seriam apenas uma consequência.
    • Essa comparação com a embriogênese recorre a imagens biológicas, assim como a teoria de Propp, que tomou como epígrafe de vários capítulos da Morfologia do Conto opiniões de Goethe sobre a metamorfose das plantas: “A metamorfose das plantas nos mostra as leis segundo as quais as plantas se formam. Ela chama nossa atenção para uma dupla lei: 1) A lei da natureza interior, pela qual as plantas se constituem. 2) A lei das condições exteriores nas quais elas se modificam.”
    • Goethe havia até empregado a palavra função: “Bem compreendida, a função é a existência, pensada em termos de ação.”
    • Étienne Souriau também se referiu a Goethe ao tentar estabelecer a lista de todas as funções dramáticas possíveis.
  • A terceira tese de Propp — segundo a qual a ordem das funções é sempre idêntica — é contrariada pelos dois contos de Grimm analisados, o que fragiliza igualmente sua quarta tese, de que todos os contos, por sua estrutura, pertencem ao mesmo tipo.
    • Questiona-se também por que Propp encontra tantas funções: é preciso realmente distinguir como duas funções diferentes o fato de ter um problema a resolver e o fato de resolvê-lo?
    • É legítimo considerar como uma função o fato de desejar ou de carecer de alguma coisa? — crítica desenvolvida por B. Nathorst.
    • O importante para Propp é o que se faz, não quem o faz nem como se faz — mas pode não ser indiferente saber se é o vilão ou o herói que executa certa ação: quando é um príncipe que parte com a princesa, ainda se trata da mesma função que quando é um dragão que a sequestra?
    • Afirmar que a estrutura da narrativa é a mesma em contos de conteúdo totalmente diferente e que o fundamento do conto é a estrutura e não o conteúdo pode levar a negligenciar completamente o conteúdo em favor da estrutura — mas o herói não é apenas um instrumento a serviço da ação; ele é ao mesmo tempo fim e meio da narrativa.
  • Em 1960, Claude Lévi-Strauss criticou o formalismo de Propp antes de conhecer o capítulo “As transformações dos contos maravilhosos” inserido nas edições posteriores da Morfologia do Conto — e Propp se defendeu afirmando que a análise estrutural nunca havia sido para ele senão a condição de uma pesquisa sobre a origem e a história do desenvolvimento dos contos.
    • Lévi-Strauss entendia por formalismo o fato de distinguir entre forma e conteúdo de tal maneira que apenas a forma parece suscetível de análise e compreensão.
    • Ao formalismo de Propp, Lévi-Strauss pretendia substituir um estruturalismo para o qual não há oposição entre o concreto e o abstrato, forma e conteúdo sendo da mesma natureza.
    • Analisar como Propp, dizia Lévi-Strauss, é imaginar que, ao estudar uma língua, pode-se começar pela gramática e só depois passar ao dicionário.
    • Lévi-Strauss vê no conto um mito ligeiramente enfraquecido — posição próxima à de Propp, que diz que o conto é mítico na medida em que parece derivar geneticamente do mito, resumo feito por Meletinsky.
    • Segundo Lévi-Strauss, as unidades constituintes do mito revelam sua natureza significativa como conjuntos de relações em duas dimensões — diacrônica e sincrônica; lê-se o mito horizontalmente e compreende-se verticalmente.
    • Lévi-Strauss considera o mito como instrumento lógico para superar antinomias, o pensamento mítico indo da determinação de dois termos contraditórios a uma mediação progressiva — e tende a fazer dos heróis do conto, como Cinderela, mediadores ligando oposições do tipo masculino/feminino, alto/baixo.
    • Propp havia estudado sobretudo o aspecto narrativo, horizontal ou sintagmático, para esclarecer o significado de cada segmento no interior de um assunto dado; Lévi-Strauss se concentra no significado simbólico e lógico dos conjuntos de relações agrupados verticalmente para a confrontação das variantes — análise paradigmática.
    • Por isso Lévi-Strauss não considera pertinente a distinção histórica entre mito e conto, pois ela não possui, segundo ele, caráter de princípio.
    • Lévi-Strauss também se refere a Goethe: “Nenhum mito é semelhante. No entanto, tomados em seu conjunto, todos eles remetem à mesma coisa e, como Goethe afirma das plantas, seu coro nos guia para uma lei oculta.”
  • O estruturalismo metodológico em questão aqui difere do estruturalismo global: onde este se limita ao sistema de relações observáveis, aquele quer explicar o sistema em uma estrutura subjacente que reconstrói construindo modelos lógicos ou matemáticos — estrutura que permanece inconsciente para os indivíduos do grupo considerado.
    • Lévi-Strauss, por trás das relações concretas, busca a estrutura inconsciente e subjacente que apenas uma construção dedutiva de modelos abstratos pode esperar alcançar — o que supõe a crença em uma permanência do intelecto humano, comparável à inatividade da razão em Chomsky.
  • A abordagem dos contos feita por Algirdas Julien Greimas merece atenção especial por tentar sintetizar a metodologia de Propp e a de Lévi-Strauss — os métodos sintagmático e paradigmático.
    • Na análise do conto, Greimas se apoia em Propp; na do mito, parte de Lévi-Strauss, complementando em cada caso um com o outro.
    • Suas pesquisas levam, segundo Meletinsky, ao reconhecimento do papel mediador do conto, que “resolve as contradições entre a estrutura e os eventos, entre a continuidade e a história, entre a sociedade e o indivíduo.”
    • Alan Dundes e E. Meletinsky destacam o caráter qualitativo da distinção entre mito e conto — a oposição coletivo/individual —: “É aí, e não na estrutura mesma, que reside a distinção entre mito e conto.”
    • Meletinsky observou que a especificidade do conto maravilhoso clássico reside na oposição entre uma prova preliminar — da qual um objeto mágico é indispensável e o herói deve observar um comportamento correto — e uma prova fundamental, um feito heroico que permite alcançar o objetivo principal; essa oposição está incluída na estrutura semântica mesma do conto e “não pode ser dela separada”, enquanto nos mitos ela está ausente ou não é pertinente, de modo que eles aparecem “como uma espécie de metaestrutura, em relação ao conto maravilhoso clássico.”
    • Vilmos Voigt, em trabalho sobre estrutura narrativa e universais no folclore, considera insuficiente caracterizar o mito pelo eixo paradigmático e o conto pelo eixo sintagmático, e propõe a fórmula: mito = predominância do eixo paradigmático sobre o eixo sintagmático; conto = predominância do eixo sintagmático sobre o eixo paradigmático.
  • As leituras estruturalistas são indispensáveis para delimitar a especificidade do conto, mas não são, de forma alguma, doadoras de sentido — daquele sentido que as interpretações psicanalíticas mal desvelaram — e abordagens complementares são necessárias para compreender melhor a natureza própria dessas narrativas.
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