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Prantos
MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969
PRANTOS DA PAIXÃO, NAS “LAUDES E CANTIGAS” DE MESTRE ANDRÉ DIAS
- A Paixão de Cristo é apontada como origem de vasta e comovente literatura, incluindo mistérios, narrativas dialogadas e loas dramáticas centradas em Nossa Senhora e no filho morto.
- Os prantos da Mãe de Deus, alguns dialogados, tinham como principais personagens Nossa Senhora, São João Evangelista, Santa Maria Madalena e as santas mulheres.
- Jacopone de Todi escreveu um “Pianto della Madonna” cheio de comoção e dialogado, com o verso: “Figlio, dolce e paciente — figlio de la dolente, figlio, hatte la gente — malamente trattadol'”.
- Gonçalo de Berceo, no século XIII, escreveu um “Duelo de la Virgen María” (ou “Dó da Virgem María”), colorida narração dos padecimentos do Senhor com o canto “Eya velar!”.
- A Virgem das Sete Espadas chora sobre as dores do Filho de Deus e conta sua desgraça, com o verso: “Io lazdraba mesquina, de plorar non cesaba, Reptaba al mi fijo porque non fablaba, Io bien me entendia que sin seso andaba”.
- Gómez Manrique, contemporâneo de Mestre André Dias, compôs em castelhano um pranto ao pé da cruz ou lamentações da Virgem.
- A exclamação “Ay dolor” é constante, cujo equivalente “ai dor!” aparece depois num auto de Francisco Vaz, de Guimarães.
- Transcreve-se o pranto castelhano: “Ay dolor, dolor, por mi fijo y mi Señor! Yo soy aquella Maria del linaje de David; oyd, señores, oyd, la gran desventura mia. Ay dolor!”
- A Virgem recorda que Gabriel lhe disse que o Senhor era com ela, mas deixou-a sem abrigo, amarga mais que o fel, bendita entre todas as nascidas, mas agora a mais triste e aflita.
- Pede aos homens que passam pela via mundanal que digam se já viram igual dor, e às mulheres que têm pais, filhos e maridos que a socorram com gemidos se não puderem com lantos.
- Francisco Vaz, de Guimarães, exprime-se de modo semelhante aos prantos medievais, pondo nos lábios da Senhora palavras ao ouvir más notícias trazidas por São João.
- A Senhora pergunta às mulheres que consolação, alegria, prazer, manjares e comeres lhe dão, pois lhe trazem tristes novas de seu amor, exclamando “Ai dolor!”.
- Dirige-se ao Filho como “oh meu amor, oh triste desemparada!”, com a alma traspassada por seu Redentor, repetindo “Ai dolor!”.
- A devoção à compaixão da Mãe de Deus e às sete dores que lhe traspassaram a alma crescia por toda parte.
- A poesia desse ambiente espiritual reflete uma atitude religiosa de dor calma e cheia de esperança, nascida da liturgia da Paixão de Cristo.
- Essa poesia foi enriquecida pelo “Stabat Mater dolorosa”, considerado a maior elegia do Cristianismo (Menéndez y Pelayo), e por sequências lamentosa como o “Planctus beatae Mariae virginis”.
- Mestre André Dias, beneditino e bispo de Mégara, mergulha fundamente nessa corrente espiritual.
- Compôs várias orações, laudas e prosas à honra de Nossa Senhora das Dores.
- Em dois casos, emprega o termo exato “planto” e o verbo “planger”, como em “A gloriosa virgem dante a crux do seu filho plange”.
- Essa espécie de poesia religiosa ocupa lugar à parte dentro do “Livro das Laudes e Cantigas” de Mestre André Dias.
- No primeiro pranto de Nossa Senhora (quatro ao todo), informa-se que a Virgem está muito doente, isto é, cheia de dores.
- Uma espada de amargura traspassa a pobre Mãe, que se vê sozinha e deixada pelo filho muito belo, coitado e desgraçadinho (“mesello”), pregado na cruz.
- Ela se sente muito longe dele, sua esposa muito namorada, e ao recordar a saudação do arcanjo São Gabriel, tais palavras lhe amargam como fel.
- Outra oracom e lauda da morte e Paixom do Boo Jhesu muyto contenplativa
- Convida-se a chorar “muyto de boa mente” com a virgem santa Maria, que está muito doente.
- A gloriosa virgem, diante da cruz do seu filho, “plange” e se dói olhando o filho muito amado, vendo-o muito ensanguentado.
- A espada da amargura a traspassa e abrange, e com muito grande nojo e tristeza, a muito alta imperatriz, triste e chorando, diz ao filho muito caro, doente, triste e veementemente.
- A Virgem vê-se só e desamparada de ti, filho muito belo, muito deixada, ela mãe de ti “mesello”, vê-te nessa cruz pregado com quatro pregos e mal julgado, ensanguentado e muito dessemelhado.
- Vê-se de ti muito alongada, tua esposa muito namorada, vê-te de todo deixado do teu padre Deus omnipotente.
- Pergunta ao filho bom Jesus a quem a deixa encomendada, pois está todo perdido e ferido de grande lançada.
- Chora aquela saudação do arcanjo Gabriel, e quando dela se lembra, lhe amarga como fel.
- Com grande dó de ti se parte, e porque te vê muito dessemelhado, morrerá logo de presente.
- Nesta lauda não há diálogo porque Cristo tem o coração traspassado e nada responde.
- Palpita neste pranto uma atitude antiga que Santo Inácio recomendaria nos exercícios espirituais ao falar da Paixão: dor, lágrimas ante os sofrimentos de Jesus.
- É a compaixão, um dos elementos mais fortes da espiritualidade afetiva ante as dores de Cristo e de sua Mãe Santíssima.
- Cita-se a prece final do “Stabat Mater”: “Fac me tecum pie flere, Crucifixo condolere, Donec ego vixero. Juxta crucem tecum stare, Et me tibi sociare In planctu desidero.”
- Traduzem-se os versos latinos: fazer que chore piedosamente contigo, compadecer-se do crucificado enquanto viver; ao pé da cruz estar contigo e unir-se a ti nas lágrimas, deseja-se.
- Todo o pranto de André Dias vibra dolorosamente ante as dores do crucificado e da Virgem Mãe, associando o leitor às lágrimas: “Choremos ora de muyto boa mente”.
- Noutra prosa e lauda da paixom, o bispo e monge beneditino acentua ainda mais essa atitude religiosa e humana, insistindo “Choremos”.
- A poesia é rica de psicologia feminina, em que a Virgem recorda toda a vida do seu menino.
- Quando Jesus era menino, confundiu a sabedoria dos doutores; nas bodas de Caná transformou água em vinho nobre; multiplicou pães e curou doentes como glorioso físico verdadeiro e curador; entrou em Jerusalém com palmas e ramos de oliveira.
- Depois veio a sua Paixão.
- Convida-se a “Choremos do boom Jhesu, ora de boom coraçom, a paixom do tristo Jhesu nosso rey e senhor.”
- Deve-se acompanhar a sua madre sancta Maria, com ela chorar seu filho, pensar naquele que ela chorava e ver na cruz o seu doce amor.
- Jesus, quando menino, partiu da mãe, esteve com os doutores no templo, confundiu toda a sua sabedoria, mostrando-lhes o seu muito grande e falso erro.
- Nas bodas transformou água pura em vinho nobre; com cinco pães e dois peixes fartou cinco mil homens; curou muitos enfermos de graves enfermidades como glorioso físico verdadeiro e curador.
- Sempre se fatigou por nós, rogou ao pai por nossa saúde, pregou muitos ensinamentos, demonstrou a salvação para que se converta todo pecador.
- Quando quis morrer por nós, humilhou-se a ponto de se pôr sobre uma asna, e entrou em Jerusalém com palmas e ramos de oliveiras, com grande canto e louvor.
- Ainda que todos o louvaram, depois por escárnio o coroaram de espinhos, cobriram e fecharam seus santos e belos olhos, esbofetearam sua face com muitos brados e desonra.
- Depois o açoitaram, enviaram a Pilatos para que morresse na cruz, crucificaram-no em Calvário, e estando na cruz, o doestaram com muitos doestos, ele nosso salvador.
- A Virgem, vendo Jesus na cruz muito chagado, morto e muito desonrado, e depois soterrado e muito bem guardado por muitas gentes, pede-lhe que a socorra, seu salvador.
- Em alguns casos, o pranto assume a forma de uma narrativa direta, em estilo falado, que lembra uma cena dramática de um auto da Paixão.
- No pranto de André Dias, o poeta encontra a Senhora das Dores e a saúda piedosamente: “Salve! mãe piedosa e cheia de toda humildança!”
- André Dias volta-se para o povo e exclama: “— Vós outros, boas gentes, ouvi um dorido canto que fez S. Bernardo!”
- Começa a cena dramática: “Salve, ó Virgem gloriosa! Estavas tu em Jerusalém, quando prenderam o teu filho?” Nossa Senhora responde que sim, ainda lá estava e viu-o levar preso, duramente atormentado com muitos cuspidos e escarros na sua santa face, coroado de espinhos e depois morto e crucificado.
- Mestre André termina este pranto com uma prece: “Este Senhor piedoso e gracioso nos queira socorrer!”
- Indaga-se que “dorido canto” foi esse de S. Bernardo e em que medida serviu de base para o pranto de Nossa Senhora.
- Trata-se de uma obra apócrifa atribuída a S. Bernardo, conhecida como “Lamentatio Virginis Mariae” ou “Liber de passione Christi et doloribus et planctibus Matris ejus”.
- A obra está escrita em prosa dialogada: um contemplativo (Bernardo ou outro) dirige-se à Virgem e pede que lhe conte como tudo se passou.
- Ela responde que o pedido a fará sofrer, mas já que não pode chorar por estar no Céu, ele ao menos escreva com lágrimas tudo o que ela passou.
- O contemplativo pergunta se ela estava em Jerusalém quando o filho foi preso, ligado, levado e arrastado até Anás. Ela responde que estava em Jerusalém quando ouviu isso, e com a pressa que pude chegou a chorar onde estava o Senhor.
- Quando viu darem-lhe punhadas, bofetadas, cuspirem na face, coroarem-no de espinhos e tornar-se o opróbrio dos homens, comoveram-se as suas entranhas.
- Nossa Senhora continua a narrativa, falando de Maria Madalena e como chorou junto do Filho e lhe dirigiu palavras amarguradas.
- Mestre André Dias isolou uma pequena parte da “lamentatio dolorosa” para fazer dela um “planto da virgem sancta Maria”.
- O bispo de Mégara não foi o primeiro nem o único a usar os recursos dramáticos e poéticos dessa lamentação apócrifa.
- Gonçalo de Berceo, no século XIII, pôs em verso essas passagens do pseudo-Bernardo no “Duelo da la Virgen María”, afirmando que “Sant Bernalt un buen monge de Dios mucho amigo” quis saber a coita do duelo.
- Berceo dirige-se à Virgem perguntando: “Ruegote que me digas luego de las primeras: Quando Christo fo presso si tu con elli eras?” Custava muito a Nossa Senhora recordar essas dores antigas, mas foi contando a Paixão de Cristo e o que ela sofreu, muito mais longamente que no pranto de Mestre André.
- Depois dessa poesia da Paixão, vem uma lauda sobre o mesmo assunto com um pensamento único: dói o coração por ver Cristo a sofrer por amor de mim, pelos meus pecados.
- Interessa mais um pranto da Santíssima Virgem.
- A Virgem diz: “Vós, que amais o Criador, atendei ao meu pranto e à minha dor! Eu sou aquela virgem santa, de coração triste, por causa da morte do meu filho.”
- Pede ao filho que envie algum conforto à sua pobre mãe.
- Dirige-se à cabeça bela e delicada, vendo-a muito inclinada; o filho está muito desonrado e ensanguentado da coroa de espinhos.
- Os olhos estão cerrados, a barba dependurada, os narizes sentem fedores muito sujos e ribaldos, a face muito dessemelhada, todo treme e tem grande pavor.
- A boca muito cortês e ensinada todos a perguntam e ela não fala; quando responde, de todos é blasfemada; é abeberada com fel e azedo por escárnio.
- As mãos estão estendidas na cruz e muito mal atormentadas; os braços padecem muitas feridas; as mãos são muito furadas por grandes pregos, causando grande dor à Virgem.
- Os pés, que tantos tempos se cansaram pregando, estão cruelmente encravados.
- O lado foi perfurado por um cavaleiro com sua lança, e logo da parte do coração saiu sangue e água, com que a culpa já está perdoada por Jesus Cristo, senhor e remidor.
- Agora que o filho fina e a deixa desamparada, pergunta a quem a encomenda, que ajuda lhe deixa, pois ela não pode sentir outra coisa senão chorar e carpir enquanto viver neste mundo.
- Planto breve que fazia sancta Maria, da morte de Jhesu Christo
- A Virgem pede aos que amam o Criador que tenham mente ao seu planto e grande dor.
- Ela é aquela virgem sancta que tem o coração muito triste pela morte do filho, seu prazer e esperança e seu doce viso, que foi cruelmente crucificado por cada pecador.
- Pede ao filho, pessoa tão bela, que mande algum conforto a ela, sua madre muito mesella, a deixe em bom porto, pois fica muito pobrella e o criou com grande amor.
- Diz à cabeça tão bela e muito delicada do filho bem-aventurado: como te vejo muito inclinada! Filho muito amado, como te vejo muito desonrado e de coroa de espinhos ensanguentado, por grande doesto e desonra!
- Os olhos estão cerrados, a barba dependurada, os narizes sentem fedores muito sujos e ribaldos, a face muito dessemelhada, todo treme e tem grande pavor.
- A boca muito cortês e ensinada todos a perguntam e ela não fala; quando responde, de todos é blasfemada; é abeberada com fel e azedo por escárnio.
- As mãos estão estendidas na cruz e muito mal atormentadas; os braços padecem muitas feridas; as mãos são muito furadas por grandes pregos, causando grande dor à Virgem.
- Os pés, que tantos tempos se cansaram pregando, estão cruelmente encravados.
- O lado foi perfurado por um cavaleiro com sua lança, e logo da parte do coração saiu sangue e água, com que a culpa já está perdoada por Jesus Cristo, senhor e remidor.
- Agora que o filho fina e a deixa desamparada, pergunta a quem a encomenda, que ajuda lhe deixa, pois ela não pode sentir outra coisa senão chorar e carpir enquanto viver neste mundo.
- Jesus responde: “Oo madre senhora nom choredes, eu vos encomendo a meu primo Johanne e meu parente, e a el por filho receberedes, e vos meu primo aa mynha madre servyredes como boom e leal servydor.”
- A sua madre virgem Maria ficou muito “esmariá” (esmorecida), chorava e dizia: “e que escambho he este mezquinha, porque sempre chorarey por veer o meu filho e mynha asperança, de todo seer perdida com dolor.”
- Convida-se a chorar com esta senhora, que agora está muito dolorosa, e a pedir-lhe que sempre seja piedosa e graciosa ante seu filho, fazedor de todo o mundo.
- O monge beneditino pôs em português de quatrocentos outras laudes, cantigas e orações com narrativas versificadas da Paixão de Cristo e louvores da Santa Vera Cruz.
- Às vezes são endechas dolorosas e sentidas, dominadas pelo pensamento “morreu por mim!”: “E quando eu pensso na mynha salvacom, como padece por mynha razom, muito me doyo no meu coracom, e soffro porem grande tribulacom, quando me nembro da sua sancta paixom.”
- Lembra como por ele, mesquinho, foi preso e ligado, perguntado ante o príncipe com grande escárnio, se era ele Jesus Cristo, Rei e senhor.
- Numa destas laudas para dizer em cantar, encontra-se outra pequena lamentação ou pranto de Nossa Senhora em forma de diálogo dramático.
- Santa Maria Madalena vai referir à Virgem Maria que o Filho está preso e que o vão matar.
- Nossa Senhora põe-se a caminhar apressadamente ao encontro de Jesus e lhe diz coisas tristes que só uma mãe sabe dizer.
- Madalena, vendo isso, vai de manhã com grande “mazella” dizer à madre essa novela: “viinde ora veer oo muýto mesella, como levam preso o voso filho cousa muýto bella, como se fosse huum falsso enganador.”
- A madre se levantou, chegou-se ao filho e falou-lhe: “oo muýto dolçe mynha vyda, como soom triste e mesquynha filho meu por vosso amor.”
- Quer morrer com ele, ser presa e sofrer a morte que ele quer padecer; mas se ele puder deixar a morte, far-lhe-á grande solaz como bom consolador.
- Jesus responde: “Oo mynha madre e amyga, tu nom podes ora seer ouvida, ca por salvar todo o mundo convem perder mynha vyda.” Pede que ela fique com Madalena e com seu irmão Lázaro, seu leal servidor.
- Se ela soubesse quanto bem se segue de ele padecer essa morte, seria bem contente por se livrar do Inferno todo homem pecador.
- Naquela hora da alvorada, sua madre ante ele punha os joelhos em terra e com grandes choros e soluços abraçava seu filho, dizendo e bradando: “oo meu filho como me leixades, em tanto deshonor.”
- Nesta pequena cena da Paixão, Mestre André Dias entrava nessa corrente antiga e fortemente emocional que se aproxima do teatro e autos sagrados.
- Trata-se de um gênero literário que lembra uma ave a despregar voo, desdobrando as asas e tomando impulso, sem voar definitivamente.
- A diferença entre os prantos da morte de Jesus e os da morte de Roldão está no sentido subjacente da vitória do morto (Cristo) contra a morte.
- Há a consciência de que a vida de Cristo não foi sombra vã.
- Por isso, o tempo nele adquire um aspecto positivo de eternidade, que falta ao tempo dos pobres pecadores correndo atrás de ilusões e vivendo anos, dias e horas quase vazias.
- Ainda assim, a dor une todos os prantos e vai ser encontrada nos “Trabalhos de Jesus”, no “exercício” da morte de Nosso Senhor, como no “Llanto por Ignacio Sánchez Mejías”, de García Lorca, obra de gênio enraizada numa tradição milenária.
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