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Prantos (2)
MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969
PRANTOS NA “CRÓNICA DO INFANTE SANTO” E NA “TRAGÉDIA” DO CONDESTÁVEL D. PEDRO
- Frei João Álvares, secretário do Infante D. Fernando, descreveu na crônica os trabalhos e a morte do Infante Santo com base em coisas vistas e palavras ouvidas diretamente.
- Acompanhou o infante na desgraçada expedição de Tânger e ficou prisioneiro com ele nos cárceres de Fez, sem nunca o deixar até o último momento.
- A autenticidade substancial do pranto dos portugueses à morte de D. Fernando é garantida pelos costumes da época e pela honradez da testemunha histórica.
- Não há autenticidade literal palavra por palavra, pois seria difícil recordar sempre os termos exatos dos prisioneiros.
- O pranto não tem o sabor épico da lamentação de Carlos Magno sobre Roldão, pois o Infante D. Fernando tinha uma derrota, embora se houvesse portado com heroísmo e pudesse ter fugido.
- O pranto tem sabor especial, saudoso das bondades e da presença amiga de D. Fernando, que partiu deixando os companheiros sós.
- Os companheiros de cativeiro entoaram lamentos em voz alta, visando órfãos, viúvas e todos os reinos de Portugal, chamando os que viviam à memória do infante.
- Lamentavam que D. Fernando, por quem Deus fazia maravilhas, morresse deixando-os ao abandono, oferecendo-se valentemente ao cutelo dos infiéis.
- O amor que ele tinha a Deus não o deixava sentir as penas e os trabalhos.
- Perguntavam ao Senhor por que não levara consigo aqueles órfãos tristes e desamparados, nove malaventurados criados e servidores.
- Afirmavam que quem odiava o infante os odiaria a eles, e que se não tiveram pena dele, menos terão da gente.
- Perguntavam a Deus a que deserto os trouxera, seguindo eles a brilhante coluna da sua boa e santa doutrina, e por que os deixara afogar no Mar Vermelho das angústias antes da libertação.
- A noite escura e trevosa os separara de tão grande lume e claridade; perguntavam como passariam as águas, que farol os guiaria, com que alegria e coragem suportariam as tribulações.
- Indagavam o que seria feito da esperança dos prometidos galardões; com que prazer, no fim do trabalho, voltavam ao cárcere como quem havia de encontrar quem lhes curasse as chagas.
- Todas as bênçãos e promessas se mudaram em escárnio.
- A morte tem o sabor de uma separação, alguém da família que parte e nunca mais volta, ficando os vivos em solidão como se a terra verdadeiramente habitada fosse a outra.
- Vivia ainda D. Fernando quando lhe chegou a notícia da morte de seu irmão, o rei D. Duarte.
- Arrancando os cabelos, arrepelando-se e dando bofetadas no rosto, o Infante Santo chorou a morte do rei com palavras resumidas por Frei João Álvares.
- O cronista interpretou o pensamento e a dor do seu herói, talvez compondo um pouco as palavras.
- O pranto durou todo o dia, segundo Frei João Álvares, e os companheiros prolongaram-no pela noite, até julgarem ter chorado bastante e ser tempo de consolar D. Fernando e exortá-lo a temperar a dor e as lágrimas.
- Entre 1456 e 1457, o Condestável D. Pedro compôs a “Tragédia de la Insigne Reina Doña Isabel”, seguindo a terminologia da época expressa na “Comedieta de Ponza”.
- Tragédia é definida como aquela que contém quedas de grandes reis e príncipes, cujos nascimentos e vidas alegremente se começaram e por grande tempo se continuaram, e depois tristemente caíram.
- Carolina Michaelis de Vasconcelos acentua a falta de ação dessa obra em prosa e verso, preferindo chamá-la de “Auto-Consolatória”.
- A obra é inserida na literatura dos prantos sobre as desgraças que o tempo e a morte trazem consigo, seja o tempo, a morte ou a Fortuna.
- A “Tragédia” apresenta a filosofia do tempo efêmero e da morte certa, num diálogo plangente presidido pelo velho Cronos (o Tempo).
- Cronos explica serem inúteis tantas lágrimas por alguém ter passado deste mundo ou por ter acontecido esta ou aquela desgraça.
- A Morte sente-se no fim de todas as vidas, apagadas ou gloriosas, sendo igual e igualadora como uma rasoira inexorável sobre toda a história humana.
- Tudo muda, a sorte é incerta e a morte espera a todos: Adão foi derribado do Paraíso Terreal, gregos e troianos sofreram, morreu a mulher que fundou Cartago, e morreram também outros homens famosos como o rei Artur e D. Afonso o Sábio.
- O Tempo levanta e derruba, o Tempo ou, por outro nome, a Fortuna alada: “la bolante fortuna”. Hoje tristes, amanhã alegres, num grande mar inquieto.
- O Condestável D. Pedro sabia isso por experiência própria, e agora morrera sua irmã Dona Isabel, a rainha preclara e boa a quem todos louvavam.
- Ao escutar a notícia funesta, o autor chora, maldiz a vida e desfaz na lábil grandeza de tudo o que passa.
- Maldiz com muito furor as falsas riquezas e as dignidades, o celso e real honor, todas as vãs potestades, Antropos e seu grande erro, a gala e feias belezas, o mundo cheio de tristeza, as frescas e verdes idades, pois não podem salvar-se da morte e da dor.
- O Marquês de Santillana é citado como tendo escrito versos do mesmo tom à morte de Henrique de Villena, maldizendo Antropus com fúria indignada e sua crueldade que não olha o vão nem cura do sábio mais que do imprudente, fazendo o menguado igual ao potente, cortando a teia que Cloto fiava.
- Surge o majestoso Cronos, com três pomos na mão direita (passado, presente e futuro) e movimentos compassados, repreendendo as lágrimas e queixas amargas de D. Pedro.
- Dona Isabel finou-se, mas a morte é a condição para que se encaminham todos os que nascem; até Jesus passou pelos desfiladeiros da morte.
- Dona Isabel, feitas as contas, saiu da prisão para a glória, pois cárcere é este mundo; Deus, o bom hortelão, colheu-a no tempo devido. Não morreu, partiu. Vivia morrendo e tinha o coração posto no Céu.
- Nunca as dores da morte são tão grandes como as da vida; portanto, eram inúteis e fora de propósito as lágrimas de D. Pedro.
- O Condestável replica que Cronos é duro, lembrando que o profeta David também chorou pela morte de Absalão e Deus chorou por Lázaro e por amor de nós.
- Cronos responde que tudo o tempo gasta, até a dor e as lágrimas; ninguém consegue fugir à morte e tudo o que vive tem de engolir esse trago raivoso — “el ravíoso trago de la muerte”.
- Os santos desejavam passar desta vida; a existência dos pecadores é sempre curta por inútil e má; longa é a vida dos bons, mesmo quando têm poucos anos.
- D. Pedro não ouve a voz da razão e grita “Por que continuo eu a existir? Por que não morro?” como se tivesse de chegar vivo ao Dia do Juízo.
- Cronos manda descansar, pois todos morrem: a uns leva-os o mar, a outros a doença, a outros o veneno, a outros um tiro. Ninguém escapa ao dardo da morte: “No puede ninguno escapar al su furioso dardo”.
- Pensa na própria morte e nas contas que dará a Deus dos clamores supérfluos. Morrer equivale a sair do cárcere. Basta de chorar.
- D. Pedro contesta, perguntando o que se há de fazer; detesta a dor e as razões não vencem o sentimento.
- Pensar no futuro e esperar nele? Não se sabe o que há de vir amanhã! As palavras de Cronos só o deprimem.
- Nada mais teve na vida do que sofrimentos e agora deseja acabar de vez.
- O sábio Cronos volta a falar, dizendo que D. Pedro precisa tanto de explicações como qualquer outro, embora se tenha criado com o leite da filosofia.
- Lembra o austero Séneca, desprezador das grandezas, e manda olhar para os frades menores que renunciam às riquezas.
- D. Pedro sente-se só no mundo, mas os altos varões amaram a solidão; não achará felicidade na convivência dos outros. Deve procurá-la dentro de si: “Dentro en tus entrañas busca el alegria verdadera”.
- Vive-se para amar a Deus e não para gozar; aliás, os bens desta vida são frequentemente males. Deve-se apoiar antes no que não passa.
- Esta é a filosofia da vida no tempo: buscar nela a eternidade, o permanente.
- Homens ditos ajuizados esquecem tal sabedoria e andam atrás das riquezas, honras, fama, poderio e mando; anseiam por guerras e distúrbios para pescarem em águas revoltas, mas não são discretos de verdade nem bem-aventurados.
- Os autênticos sábios riem-se dos bens mundanais, pois tudo é vaidade e insensatez.
- Ante a figura do velho Cronos e seus ditos, o Condestável reage de maneira sentimental e teimosa, com desejo de luz e amparo.
- Mataram-lhe o pai, deixaram-no sem nada e, ainda por cima, faleceu agora sua irmã. Pede a Cronos que tenha pena dele e o console com doçura, embora duvide que o consiga.
- Como veado sedento a correr para as águas de uma lagoa, assim procura o ensino de Cronos para curar-se dessa dor.
- Cronos fala pela derradeira vez com inteligência, como aquele que muito aprendeu ao longo dos séculos.
- Verifica que D. Pedro se esforça, como Boécio, por descobrir o direito caminho, mas as lágrimas não o deixam fitar bem a luz clara.
- Para tomar o verdadeiro remédio, deve considerar que as coisas terrenas pouco duram, arredar-se de cuidados grandes, ler bons livros, temer a Deus e não ambicionar prazeres que murcham.
- Deve renunciar ao tumulto e à alegria cortesã dos que se banqueteiam à custa dos outros, fazendo-se truões e jograis para agradar aos senhores e aos ricos.
- Se possui honras e bens mundanais, não seja servo deles nem confie em tais coisas; hoje estão conosco, amanhã abandonam-nos.
- Alonso Pérez de Vivero (ou Bivero) subiu de pescador a tão alto estado que grandes de Castela e condes iam visitá-lo a sua casa. Pois bem, atiraram-no como um cão da varanda abaixo.
- Quem isso fez chegou a mandar mais do que o rei, mas um dia tombou da sua grandeza, cortaram-lhe a cabeça com pregão numa praça de Valhadolide e a espetaram num pau, onde ficou nove dias.
- No mundo antigo, o mesmo acontecia: a Fortuna ergue e abate os homens, passando do bem ao mal e deste ao bem, sem nunca se poder ter confiança senão em Deus.
- D. João será príncipe de Antioquia, casado com a princesa de Chipre, e morrerá dias depois de veneno; assim como fumo e sombra, desaparecerá a sua juventude.
- Se não morresse de veneno, talvez o levassem preso os turcos, como aconteceu ao avô da sua mulher.
- Teu tio D. Fernando, filho dum rei vitorioso, morreu nas prisões de Fez. A vida, triste e mal-aventurada, custa mais a sofrer do que a morte.
- Nenhuma aldeia, cidade ou casa onde não habitem as lágrimas. Coragem, pois, e constrói morada firme e perpétua no Céu, onde a cega Fortuna nada pode contra os homens e nada lhes tira.
- Em suma, as coisas vão e vêm, o tempo tudo baralha e é inútil afligir-se pelo que brevemente se esfuma, pois tudo é lábil neste mundo.
- A “Tragédia” apresenta filosofia do tempo e também da morte: do tempo que tudo transforma e nada conserva no mesmo estado, que vive e morre do movimento e da mudança, isto é, do ir morrendo.
- O pensamento da morte domina o subconsciente (e às vezes o consciente) da “Tragédia” escrita pelo infeliz Condestável.
- Rui de Pina segue pelo mesmo caminho na “Exclamação à morte do Infante D. Pedro”, chorando a desgraça do infante.
- Põe em relevo a diferença entre o que ele era e o que depois se tornou, soltando imprecações contra os enganos da Fortuna.
- Considera-se mais interessante, porém, o pranto vicentino à morte do Rei Venturoso.
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