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Prantos neolatinos
MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969
PRANTOS NEOLATINOS
- Os prantos fúnebres neolatinos são lembrados principalmente no teatro de Diogo de Teive e do Padre Luís da Cruz, S. J., ambos do século XVI, deixando para o fim os versos de Gaspar Pinto Correa e do Padre António de Morim, S. J.
- Deixam-se para lugar mais apropriado os epitáfios neolatinos.
- Diogo de Teive celebrou os feitos dos grandes do seu tempo, mesmo quando chorava a crueza da morte devastadora.
- Desse modo nasceram os versos heroicos da “Deploratio Consolationsi Admixta in Mortem Ferdinandi Menesii Archiepiscopi Ulyssesponensis” (Lisboa, 1564) e a “Mortis Meditatio in Funus Theodosii Brigantiae Ducis” (Lisboa, 1563), além de outras composições afins.
- Na “Oratio Funebris in Laudem Joannis Tertii”, afirma-se que a vida piora ao longo dos anos, até nos levar a inclemência da morte sem misericórdia: “et durae rapit inclementia mortis”.
- No último ato da tragédia “Joannes Princeps”, Philanax, Eubularchus, a rainha e depois o rei lamentam a desgraça da morte do príncipe.
- Escutam-se as reflexões dos coros fúnebres e as palavras de Eubularco acerca da inconstância da Fortuna e da inanidade de todos os esforços.
- Um belo destino naufraga como um barco que se afunda à vista do porto: “Ó falsa spes mortalium! ó rerum omnium Fortuna fragilis! ó labores irriti! Medio ut soletis saepe spatio labier, Medioque cursu, ut naufragae cymbae, obrui. Tumidis superba quas procellaflictibus Evertit, ante laeta quam adeant littora.”
- A morte sem coração roubou o príncipe, e o corpo jaz deitado num pequeno leito; pergunta-se quem poderá fiar-se nas coisas humanas, pois é tudo caduco.
- Como a viração, assim ele passou, semelhante a um sonho ou a um ligeiro fumo; como a rosa que floresce alegremente na Primavera, assim desabrochou pela manhã e ao anoitecer murchou: “Ut laeta verno tempore exiens rosa, Quae mane flore pulchra conspicuo nitet, Vespere decorem prorsus amittit suum.”
- O príncipe entregou cedo a alma a Deus, sem fazer 17 anos, vindo ao pensamento os versos de Malherbe: “Rose, elle a vêcu ce qui vivent les roses / l'espace d'un matin.”
- Philanax cita as palavras do rei ao filho moribundo, recordando que somos todos peregrinos neste mundo e temos de partir quando Deus quiser; aqui tudo passa, no Céu nada passa.
- O rei diz ao filho: “His, nate, terris tam diu facimus moram Peregrina turba, quandiu placet Deo, Qui cuncta nutu volvit ac regit suo, Si te ille nunc accersat, ut jungat suis, Terrena linques ac petes coelestia Jam regna felix, sorte meliori fruens: Meliora quo sunt sempiterna his infimis Quae sunt caduca, fluxa et inconstantia.”
- O coro põe em contacto com a violência dos prantos fúnebres.
- Pede-se que se derramem rios de lágrimas, que se arranquem os louros cabelos, que se bata com força no peito e se arranhe o rosto, pois morreu quem era a glória do mundo.
- “Chorus: Jam lâcrymarum fundite fontes, Ac perpetuis ora rigate Fletibus, ingens crescere ut aequor Sentiat undas, pleno irrumpant Exultantes gurgite ut amnes. Omnes ergo plangite duris Pectora palmis, fulvasque comas Omnes rabida laniate manu, Ungueque saevo scindite vultum. Clarum amisit jam decus orbis, Incyl tus orbis dum florebat Principe tanto, nunc sine laude Jacet, et moeret Principe dempto.”
- Deve-se também chorar pela esposa do príncipe, que com ele viveu e foi como se tivesse igual sorte, pois uma era a alma de ambos.
- A rainha lamenta: que faço eu neste mundo?
- Os prantos de quatro coros são ouvidos um após outro.
- O primeiro coro exclama: “O vita rebus subdita infelicibus! O vita morte pejor! Ut nos despicis Sors dira, inanes gaudii spes offerens Quas subito, iniqua, demis, at pro illis graves Reddis dolores atque acerba funera! Pro facibus ergo nuptialibus, faces Jam funebres spectabimus! pro purpura Gemmisque, vestes funebres gestabimus!”
- O segundo coro afirma: “Sic vita fragilis exigit mortalium, In quam repente dum ingredimur, a lacrymis Ordinur omnes triste vitae exordium, Tritisque finis atque lamentabilis. Sunt cuncta semper moesta, sint aliquot licet Aspersa guttis gaudii tenuissimis.”
- A vida assemelha-se a um cárcere, onde a alma jaz até ao dia da libertação: “ab istis eruenda vinculis Est anima, ab isto ergastulo ubi reconditur Jacetque consepulta…”
- O pranto do rei D. João III é forte, com imprecações contra a sorte (sors) ou, melhor, contra a morte (mors).
- O rei diz: “0 sors acerba! cur adeo saevo impetu Adeoque validis dejicere conatibus, Inimica, curas pectoris robur mei? Sed firma mentis arx superbis machinis Usquam domari qui potest? O impia! O saeva rerum domina! quanquam incusseris Tam saepe nobis multa et alta vulnera, Nullum fatebor gravius atque acerbius Mihi contigisse; mentis hoc ad intimos Abiit recessus. Tot mare obruit viros, Tot opes voravit, totque puppes naufragas Submersit undis, Indicis ac Persicis Gazis refertas…”
- Tantos homens pereceram no mar, tantos bens ele devorou, tantos navios naufragaram cheios de riquezas da Índia e da Pérsia, mas em nenhum desses casos o rei teve dor igual a esta.
- Por fim, o rei consola a rainha, e quando ela se queixa de que o filho faleceu muito jovem, escuta em resposta que o fim da vida é sempre incerto: “Non ulla vitae certa meta data homini est.”
- O jesuíta Luís da Cruz, maior dramaturgo do teatro neolatino português, introduziu mais de um pranto fúnebre, um deles em “Sedecias”.
- O coro recita o pranto diante do cadáver do profeta Ananias, numa imprecação suprema contra quem o assassinou.
- O coro dirige-se ao sacerdote: “Triste cupresso tibi luctuosa Funus inducit chorus, ó sacerdos. Te genis unda saliente plangit. Mortuis vivi dare iusta possunt Et pio corpus sepelire ritu. Haec habe. Fama memori vigere Sola dat nunquam tumulanda virtus Foeda quem labes animi peremit, Criminum dira nece funeratum, Non sepulturae decus expiabit, Fama corruptae putrefacta mentis Semper exhalat, licet involutum Balsamo spiret bene olente corpus.”
- Na tragédia “Manasses”, o coro lamenta a morte de Isaias, pranteando alternadamente com uma personagem que vai adiante dele.
- O solista exclama que continuam a viver sem perigo os que, se morressem, dariam descanso à nação; e deixam de existir os que a sustentariam aos ombros e por ela haveriam de lutar: “Vivunt incolumes qui, si morerentur, haberet Publica res laetae tranquillior otia pacis. Intereunt, humeris quorum fundata maneret, Certarent avidi, quamvis evertere sontes.”
- Em “Iosephus”, o patriarca Jacob lamenta o destino funesto de José, cuja morte lhe foi anunciada, e vai alternando com o coro em canto fúnebre (“Lessum canendo faciunt”).
- Jacob afirma que a Morte achou a melhor maneira de o ferir, levando José para o túmulo: “donec iaculo ut graviore noceret, Inventi mors dura viam, te namque parente Et sene posthabito, Iosephum in funera misit.”
- Deixa-se para outro capítulo a “Vita Humana”, de Luís da Cruz, em que surge a Morte e o pranto do coro sobre as vítimas da “loba devoradora”.
- Passa-se ao Padre Gaspar Pinto Correa e sua obra “Lacrymae Lusitanorum in Obitu Serenissimi Principis Theodosii Secundi, Brigantiae Ducis” (Lisboa, 1631).
- A obrinha abrange um volume em prosa e verso, onde não faltam três epitáfios em português para o Duque D. Teodósio sob forma de soneto.
- Desses, isola-se unicamente o final do terceiro epitáfio: “Que tudo à morte deve seu tributo.”
- Dos versos neolatinos, interessam sobretudo os quinze prantos ao passamento do sobredito fidalgo.
- Jaz no sepulcro D. Teodósio, e jaz também ali Portugal inteiro e os restos dos reis que foram e já não são.
- Ao povo só ficam cinzas, morte, dor e sombra: “Si latet in tumulo clausus Theodosius, ipso Lysia sub tumulo cum Duce clausa latet. Tot Regum in cineres abiit cinis ille; cadentis Relliquias regni triste cadaver habet. Plena cadaveribus Regum est mea Lysia; tristi Quid super est regno? mors, cinis, umbra, dolor.”
- Observa-se que o pranto, na vida e na literatura, é um gênero difícil, prestando-se bastante a exibicionismo e retórica sem ideias nem emoção.
- Disso enfermam as “Lacrymae Lusitanorum”, alheias à nobre compostura das nénias teatrais do Padre Luís da Cruz.
- Recordam-se as “Dulces Exuviae” do Padre António de Morim, de temperamento poético.
- Só “Triambos” ou “Triumphus Lusitaniae”, peça de teatro em três atos, abrange maior espaço; o resto dos versos, de sabor muitas vezes bucólico, distribui-se em poemazinhos de pequena extensão.
- Pelas suas relações com o tempo e a morte, vale a pena deter-se na descrição da velhice: pergunta-se que espectro ou fantasma horrendo aparece, com a magra carne mal aderindo às junturas dos ossos e movendo-se com dificuldade.
- Indaga-se se será a Morte que vem dos abismos ou a velhice; conclui-se que deve ser a velhice: a boca repugnante, a sordidez e a deformação do rosto; o peso dos anos faz dobrar as costas, os cabelos embranqueceram.
- O velho parece buscar de novo a terra-mãe: “Saepius apparet telluri iterare parenti: Accedo jam jam ó genitrix, accedo, reclude Viscera et effaetum tege natum aetate sub urna.”
- O ancião diz à terra: “Estou mesmo a chegar, ó mãe, estou mesmo a chegar. Abre-me o seio e esconde o teu menino num caixão!”
- A poesia sobre S. Francisco de Borja, ao contemplar o cadáver putrefato da Imperatriz, difere um pouco dos prantos habituais, mas entra no gênero.
- É o pranto dos males da morte em geral, do tempo perdido e da beleza desfeita.
- Pergunta-se se a isto se reduz a majestade de Isabel e se tão depressa passou a glória.
- Interroga-se se é ela, naquele caixão, aquela a quem o poeta serviu; sim, é ela mesma, embora custe a acreditar, tão diferente está a ponto de parecer outra.
- O poeta lamenta ter andado a servi-la e a esperar nela; do seu fausto ficou uma sombra.
- Quase se chamaria balada da rainha morta a essa poesia, não fosse certa dureza, como se o poeta julgasse não ser cristão dedicar-se a alguém neste mundo.
- Transcreve-se o começo: “Siccine Maiestas perit Elisabetha? supremi Tam subito Imperii gloria fluxa cadit? Tune illa es quam sum jussus sociare pheretro Inclusam, et custos corporis esse tui? Haec illa es, tamen esse negat tua tristis imago, Nec bene credo oculis credere posse meis. Iuro, eadem certe es, sed eandem Te esse negarem, Altera tam facta es, dissimilisque Tibi.”
- Com bastante frequência, os humanistas da Renascença e dos séculos posteriores eram também ascetas de ideias e de ação; portanto, a morte ensombra muitos dos seus versos.
- Masculamente, fitavam-na nos olhos e faziam-lhe versos, bonitos ou feios, conforme os homens e as horas.
- Noutros casos, choravam a morte dos amigos e recordavam as suas qualidades, como nas trinta e tal páginas da edição de Lião, 1635, por Gabriel Boissat.
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