RAÍZES HISTÓRICAS DO CONTO DE FADA
PROPP, V. Historical roots of the wondertale. Tradução: Miriam Shrager; Tradução: Sibelan E. S. Forrester; Tradução: Russell Scott Valentino. Bloomington, Indiana, USA: Indiana University Press, 2025.
1. Problema fundamental
- Antes da revolução, o folclore era criação das classes oprimidas — camponeses analfabetos, soldados, operários e artesãos semianalfabetos —, ao passo que no tempo presente ele se tornou, no verdadeiro sentido da palavra, uma criação popular.
- A ciência do folclore, antes da revolução, procedia de cima para baixo, esgotava-se na literatura e era considerada um ramo dos estudos literários.
- No tempo presente, o folclore tornou-se uma ciência autônoma.
- As teorias que se sucederam no período pré-revolucionário mostraram-se impotentes diante da complexidade do problema e nenhuma delas resiste a uma crítica séria.
- O método do marxismo-leninismo — o método de Marx, Engels, Lenin e Stalin — permite abandonar a via da teorização abstrata em favor da investigação concreta.
- Estudar concretamente o conto de fadas implica ultrapassar o comparativismo e encontrar a base histórica que originou a narrativa maravilhosa, formulando o problema das raízes históricas do conto de modo suficientemente geral.
- O limite do comparativismo reside em restringir a investigação ao confronto interno entre os próprios contos.
- Antes já se tentou estudar historicamente o folclore — a escola histórica russa, cujo chefe foi Vsévolod Miller, e Speranskij, em seu curso sobre a literatura oral russa, são exemplos disso —, mas a abordagem proposta difere em princípio daquela.
- Speranskij enuncia: “Estudando a lenda épica oral, nos esforçamos por adivinhar o fato histórico que está em sua base e, partindo desse pressuposto, demonstramos a identidade do sujeito da lenda épica oral com certos acontecimentos ou ciclos de acontecimentos que nos são conhecidos.”
- A proposta aqui não é adivinhar fatos históricos nem provar sua identidade com o folclore.
- O objetivo é investigar a quais fenômenos — e não acontecimentos — do passado histórico corresponde o conto de fadas russo e em que medida esse passado o produziu e o fez nascer.
- O estudo da gênese de um fenômeno não equivale ainda ao estudo de sua história — este é obra de longos anos, de gerações inteiras e da ciência folclorística marxista em formação.
- O estudo da gênese constitui apenas o primeiro passo nessa direção.
- Este é o problema fundamental que o trabalho se propõe.
2. Significado das premissas
- Todo estudioso parte de certas premissas que existiam nele antes de iniciar o trabalho, e por isso se faz necessário um rigoroso controle dessas premissas antes de empreender qualquer investigação.
- Desde 1873, Veselóvski havia indicado a necessidade de esclarecer previamente as próprias posições e de examinar criticamente o próprio método.
- No exemplo do livro de De Gubernatis, Zoological Mythology, Veselóvski demonstrou como a ausência de autocontrole conduz a conclusões errôneas, a despeito de toda a erudição e capacidade combinatória do autor.
- A chamada escola mitológica partia da premissa de que a semelhança aparente entre dois fenômenos constitui prova de seu vínculo histórico — o que não procede, pois analogia não é o mesmo que vínculo histórico.
- O exemplo da rápida ascensão do herói, que deveria refletir a trajetória do sol acima do horizonte, é contestado pelo fato de que o sol não cresce aos olhos do observador, mas diminui.
- Uma das premissas da chamada escola finlandesa consiste no pressuposto de que as formas encontradas com maior frequência são também as mais características da forma primordial do tema.
- Essa teoria dos arquétipos do tema carece de provas, e a investigação mostrará reiteradamente que as formas arcaicas são raras e frequentemente suplantadas por formas novas de difusão universal.
- Os autores não perceberam seus próprios erros porque não podiam pensar de outro modo — suas ideias eram condicionadas pela época em que viveram e pela classe à qual pertenciam, e na maioria dos casos o problema das premissas sequer foi colocado.
- A voz de Veselóvski, que reexaminou e reestudou repetidamente suas premissas, permaneceu como a voz de quem clama no deserto.
3. Delimitação dos contos de fadas
- A denominação “conto de fadas” precisa ser delimitada, pois o conto é tão rico e multiforme que é impossível estudar o fenômeno em toda a sua extensão e junto a todos os povos, sendo necessário circunscrever o material.
- A denominação “contos de fadas” aplica-se às narrativas cuja estrutura foi estudada na obra Morfologia do conto maravilhoso.
- O gênero assim delimitado é aquele que começa com uma lesão ou dano causado a alguém — rapto, expulsão de casa, entre outros — ou com o desejo de possuir algo, desenvolve-se pela partida do protagonista, pelo encontro com um doador que lhe oferece um meio mágico ou um auxiliar, passa por um duelo com o adversário — sendo a forma principal o duelo com a serpente —, pelo retorno e pela perseguição.
- Complicações frequentes incluem: o protagonista já regressou, os irmãos o lançam num precipício, ele reaparece, submete-se a uma prova, sobe ao trono e se casa em seu reino ou no do sogro.
- A delimitação do material não transgride o princípio da conexão dos fenômenos, pois todas as ciências separam os fenômenos sujeitos à sua investigação, e tudo depende de onde e como se traça a linha de demarcação.
- Os contos de fadas não são parte inseparável do todo folclórico como a mão em relação ao corpo ou a folha em relação à árvore — embora sejam parte, constituem um todo em si mesmos.
- O estudo da estrutura dos contos de fadas demonstra sua estreita parentela recíproca — tão íntima que não se pode separar com exatidão um tema do outro —, o que conduz a duas premissas fundamentais.
- Primeira premissa: nenhum tema de conto de fadas pode ser estudado isoladamente.
- Segunda premissa: nenhum motivo de conto de fadas pode ser estudado prescindindo de suas relações com o todo.
- O procedimento habitual — tomar um motivo ou tema qualquer, reunir todas as variantes escritas e extrair conclusões do confronto — não conduz a conclusões.
- Polivka estudou a fórmula “há cheiro de russo”; Radermacher, o motivo dos engolidos e vomitados pela baleia; Baumgarten, o motivo dos vendidos ao diabo — e nenhum chegou a conclusão alguma.
- Mackensen estudou o conto do osso que canta; Liljeblad, o do morto agradecido — estudos que fizeram progredir o conhecimento da difusão dos temas, mas não resolveram os problemas de origem.
- Se Polivka não se tivesse limitado a reunir variantes da fórmula “há cheiro de russo”, mas tivesse perguntado quem a pronuncia, em que circunstâncias e a quem se dirige, estudando-a em conexão com o todo, muito provavelmente teria chegado a uma conclusão correta.
- O motivo só pode ser estudado no sistema do tema, e os temas só podem ser estudados em sua conexão recíproca.
4. O conto de fadas como fenômeno de caráter supraestrutural
- A época do socialismo elaborou suas próprias premissas para o estudo dos fenômenos da cultura espiritual, premissas que — diferentemente das de épocas anteriores — conduzem as ciências humanas ao único caminho correto.
- Marx enuncia: “O método de produção da vida material condiciona o processo social, político e espiritual da vida em geral.”
- Disso decorre com clareza que é preciso encontrar no passado o método de produção que tornou possível o conto de fadas.
- O capitalismo não produziu o conto de fadas, embora o método capitalista de produção se reflita nele — com o patrão cruel, o padre ganancioso, o oficial que espanca, a senhora prepotente, o soldado desertor, o camponês miserável e embriagado.
- O verdadeiro conto de fadas — com cavalos alados, serpentes de fogo, reis e rainhas fantásticos — é evidentemente mais antigo que o capitalismo e também mais antigo que o feudalismo.
- A explicação da incongruência entre o conto de fadas e a forma de produção sob a qual ele prosperou amplamente encontra-se em Marx: “Com a mudança da base econômica, verifica-se uma revolução mais ou menos rápida em toda a sua colossal superestrutura.”
- As palavras “mais ou menos rápida” são muito importantes — a modificação da ideologia nem sempre acompanha imediatamente a modificação das bases econômicas.
- Essa incongruência — preciosa para o estudioso — significa que o conto de fadas surgiu sobre a base de formas de produção e de vida social anteriores ao capitalismo, restando investigar quais seriam essas formas.
- Engels, citando Morgan e invocando Marx em A origem da família, esclarece um tipo análogo de incongruência: “A família, diz Morgan, representa um elemento ativo; ela nunca permanece parada, mas passa de uma forma mais baixa para uma mais alta à medida que a sociedade evolui de um grau mais baixo para um mais alto. Ao contrário, os sistemas de parentesco são passivos; somente após longos intervalos de tempo registram o progresso alcançado pela família e sofrem mudanças radicais somente quando a família se transformou radicalmente.”
- Marx acrescenta: “E o mesmo ocorre em geral com os sistemas políticos, jurídicos, religiosos, filosóficos.”
- O mesmo ocorre com o conto de fadas.
- A origem do conto de fadas não está conectada à base econômica sobre a qual ele começou a ser transcrito no início do século XIX, o que leva à premissa de que o conto de fadas deve ser confrontado com a realidade histórica do passado e nela buscadas as suas raízes.
- O conceito de “passado histórico” precisa ser decifrado — se compreendido como o compreendia Vsévolod Miller, provavelmente se chegará onde ele chegou, afirmando, por exemplo, que a luta de Dobrýnia Nikítich com a serpente se formou com base no fato histórico do batismo de Nóvgorod.
5. O conto de fadas e as instituições sociais do passado
- No conto de fadas, as referências imediatas à produção são muito escassas e raras — a agricultura representa uma parte mínima, enquanto a caça se reflete de modo mais amplo — e o que importa não é a técnica da produção como tal, mas o regime social que lhe corresponde.
- Os caçadores do rei ou os caçadores livres representam uma parte importante no desenvolvimento da narrativa, assim como os animais selvagens de toda espécie.
- A investigação das formas de produção no conto de fadas resume-se em determinar sob qual regime social foram criados os motivos individuais e o conjunto da narrativa, levando à premissa de que o conto de fadas deve ser confrontado com as instituições sociais do passado.
- Não é possível confrontar o conto de fadas com o regime patriarcal em geral, mas é possível confrontar alguns de seus motivos com certas instituições desse regime, na medida em que elas se refletiram no conto ou originaram determinados motivos.
- Formas de matrimônio diversas das atuais se conservaram no conto de fadas — o protagonista busca a esposa em países distantes e não em seu próprio meio —, o que possivelmente reflete o fenômeno da exogamia.
- O protagonista sobe com frequência ao trono, mas ocupa o lugar não de seu pai, e sim de seu sogro, a quem muitas vezes mata — o que levanta a questão de quais formas de sucessão ao poder se refletem no conto.
- O conto de fadas conservou traços de formas já desaparecidas da vida social, e o estudo desses resíduos pode desvendar as fontes de muitos motivos — mas isso não é suficiente, pois existem motivos que não se ligam diretamente a nenhuma instituição.
6. O conto de fadas e o rito
- Há muito tempo se observou que o conto de fadas apresenta certo nexo com a esfera dos cultos e da religião — e embora o culto e a religião possam ser considerados uma instituição, o vínculo do conto com a religião merece ser tratado como problema particular.
- Engels formulou com exatidão, em Anti-Dühring, a essência da religião: “Toda religião não é outra coisa que o reflexo fantástico nas cabeças dos homens daquelas forças exteriores que reinam sobre eles na sua vida cotidiana; é um reflexo no qual as forças terrenas assumem a forma de forças sobrenaturais. Nos primórdios da história, as forças naturais são as primeiras a sofrer esse reflexo. Mas logo, ao lado das forças da natureza, aparecem também as forças sociais, forças que se contrapõem ao indivíduo e reinam sobre ele, permanecendo inicialmente incompreensíveis, estranhas e dotadas de uma visível necessidade natural, à semelhança das forças da natureza. As imagens fantásticas nas quais inicialmente se refletiam apenas as forças misteriosas da natureza adquirem atributos sociais e tornam-se representantes de forças históricas.”
- O reflexo da religião pode ser duplo: cognitivo — desembocando em dogmas, doutrinas e procedimentos para explicar o mundo — ou volitivo — desembocando em atos ou ações destinados a agir sobre a natureza e a dominá-la, que serão chamados de ritos e costumes.
- Rito e costume não são a mesma coisa — por exemplo, a cremação é um costume, não um rito —, mas o costume se cerca de ritos e separá-los é metodologicamente incorreto.
- O conto de fadas conservou traços de numerosíssimos ritos e costumes, e apenas confrontando-os com eles muitos motivos podem ser explicados geneticamente.
- No conto de fadas, a donzela enterra no jardim os ossos da vaca e os rega — esse costume ou rito existiu de fato, pois os ossos dos animais não eram consumidos ou destruídos, mas enterrados.
- Se for possível provar quais motivos remontam a tais ritos, a origem desses motivos estará em certo sentido elucidada.
- O confronto entre o conto de fadas e o rito pode ser muito mais difícil do que parece à primeira vista — o conto não é uma crônica, e entre ele e o rito há diversas formas de relação.
7. Correspondência direta entre conto de fadas e rito
- O caso mais simples de relação entre rito e conto de fadas é a coincidência completa entre o rito ou costume e a narrativa — embora esse caso seja raro.
- No conto de fadas, os ossos são enterrados, e na realidade histórica procedia-se exatamente assim.
- No conto de fadas, os filhos do rei são encerrados em uma câmara subterrânea e mantidos no escuro, recebendo alimento de modo que ninguém o veja — e na realidade histórica isso ocorria do mesmo modo.
- O levantamento dessas correspondências é extremamente importante para o folclorista — a partir delas, pode revelar-se que um dado motivo remonta a este ou àquele rito ou costume, e sua gênese pode ser explicada.
8. Transposição do sentido do rito no conto de fadas
- Com maior frequência se encontra outro fenômeno — a transposição do sentido do rito —, que consiste na substituição, no conto de fadas, de um elemento do rito tornado supérfluo ou incompreensível em consequência de mudanças históricas por outro elemento mais compreensível.
- A transposição de sentido geralmente se acompanha de uma deformação e de uma mudança das formas, afetando frequentemente a motivação e por vezes as próprias partes que constituem o rito.
- O motivo em que o protagonista se faz costurar dentro de uma pele de vaca ou de cavalo para poder sair de uma fossa ou alcançar o reino distante — sendo transportado por um pássaro junto com a pele — remonta ao costume de costurar os mortos na pele dos animais.
- O estudo sistemático do costume e do motivo demonstra seu indubitável vínculo: há coincidência completa não apenas das formas exteriores, mas também do conteúdo interior, do sentido do motivo e do rito no passado histórico.
- Há uma exceção: no conto de fadas é um homem vivo que se faz costurar na pele, ao passo que no rito se trata dos mortos — e nessa não correspondência reside um caso muito simples de transposição de sentido: o ato que no costume assegurava ao morto a chegada ao reino dos mortos assegura no conto a chegada ao reino distante.
- O fato da transposição de sentido prova que na vida do povo sobrevieram certas mudanças que acarretaram também a mudança do motivo — e essas mudanças devem ser identificadas e explicadas caso a caso.
- Em muitos casos a base primordial está tão obscurecida que nem sempre é possível descobri-la.
9. Inversão do rito
- A inversão — caso particular de transposição de sentido — consiste na conservação de todas as formas do rito com a atribuição, no conto de fadas, de um sentido ou significado oposto.
- Existia o costume de matar os velhos — mas no conto de fadas quem tem piedade do velho é o herói, que age sabiamente, ao passo que na vigência do costume tal atitude seria ridicularizada ou punida.
- Existia o costume de oferecer uma donzela em holocausto ao rio do qual dependia a fertilidade da terra — mas no conto de fadas o protagonista libera a donzela do monstro ao qual ela foi entregue para ser devorada; na época em que o rito vigorava, esse “libertador” teria sido despedaçado como um criminoso que punha em risco o bem-estar do povo.
- Isso demonstra que o tema nasce às vezes de uma relação negativa com uma realidade histórica anterior — o tema não podia nascer como motivo narrativo enquanto existiam as condições de vida que exigiam o holocausto das donzelas, mas com o declínio dessas condições o costume outrora sagrado tornou-se supérfluo e repugnante.
- O tema corresponde à realidade por antítese.
- Isso confirma as palavras de Lenin, quando ele contrapõe a concepção do desenvolvimento evolutivo à concepção do desenvolvimento como unidade de antíteses: “Somente a segunda nos dá a chave para o automovimento de tudo que existe; somente ela nos dá a chave para os saltos, para a interrupção da gradualidade, para a transformação em antítese, para a destruição do que é antigo e o surgimento do que é novo.”
- Daí deriva a premissa de que é preciso confrontar o conto de fadas com os ritos e costumes para determinar quais motivos remontam a este ou àquele rito e em que relações se encontram com ele.
- Quando se estabelece o vínculo entre o rito e o conto, pode acontecer que o rito seja absolutamente obscuro enquanto o conto conservou o passado de modo tão completo e fiel que apenas através dele o rito ou outro fenômeno do passado é exatamente iluminado.
- D. K. Zelenin afirma: “As lendas folclóricas das populações siberianas alógenas foram talvez para nós a principal fonte para a reconstrução das antigas crenças totêmicas.”
- Os etnógrafos recorrem frequentemente ao conto de fadas, mas nem sempre o conhecem suficientemente — o que se pode dizer especialmente de Frazer: a grandiosa construção de O ramo de ouro se apoia em premissas extraídas do conto, mas de um conto erroneamente compreendido e insuficientemente investigado.
- Engels escreve: “O baixo desenvolvimento econômico do período pré-histórico tem como integração e às vezes como condição e mesmo como causa uma representação inexata da natureza. E embora a necessidade econômica tenha sido sempre e se torne cada vez mais o impulso essencial de um progressivo conhecimento da natureza, seria pedanteria querer buscar causas econômicas para cada tolice primitiva.” (Carta a K. Schmidt, de 27 de outubro de 1890)
10. O conto de fadas e o mito
- Se o rito é uma das manifestações da religião, não se pode deixar de considerar outra manifestação dela — o mito —, sendo necessário incluí-lo entre as possíveis fontes do conto de fadas.
- Por mito entende-se aqui uma narrativa sobre divindades ou seres divinos em cuja realidade o povo acredita — sendo a crença considerada não como fator psicológico, mas como fator histórico.
- As narrativas sobre Héracles são muito próximas do conto de fadas — mas Héracles era uma divindade a quem se prestava culto, ao passo que o herói do conto é o herói de uma criação artística.
- O mito e o conto de fadas se diferenciam não por sua forma, mas por toda a sua função social.
- A função social do mito não é sempre a mesma e depende do grau de cultura do povo — os mitos dos povos que não atingiram a condição de Estado são um fenômeno, os mitos dos antigos Estados civis que chegaram até nós pela literatura são já um fenômeno diverso.
- Formalmente o mito não pode ser distinguido do conto de fadas, e na etnografia e no folclore tais mitos se chamam frequentemente de contos.
- Quem estuda não apenas os textos, mas a função social desses textos, acaba por considerar a maior parte deles mitos, e não contos.
- Na folclorística burguesa contemporânea não se leva em conta o grandíssimo significado inerente a esses mitos — os folcloristas os recolhem, mas quase nunca os estudam.
- No índice de Bolte e Polivka, os “contos dos povos primitivos” ocupam um lugar muito modesto.
- Tais mitos não são “variantes”, mas produtos de estágios mais antigos da evolução econômica que ainda não haviam perdido o vínculo com sua base econômica.
- O que no conto de fadas europeu sofreu uma transposição de sentido conserva-se frequentemente nesses mitos em seu aspecto primordial, o que os torna uma chave para a compreensão do conto de fadas.
- Os materiais americanos e em parte os oceânicos e africanos revelaram-se mais preciosos e importantes do que os europeus e os asiáticos, contrariando o que se poderia esperar por razões de proximidade territorial.
- Os povos asiáticos encontram-se em geral em estágio cultural mais elevado do que os povos da América e da Oceania no momento em que os europeus começaram a coletar materiais etnográficos e folclóricos.
- A Ásia é o mais antigo continente civilizado — um caldeirão onde correntes de povos se transferiram, misturaram e suplantaram mutuamente —, e nos materiais asiáticos há uma mistura que torna a investigação muito difícil.
- Os Iacutos narram o conto de Illiá Muromez da mesma forma que narram seus mitos iacutos provavelmente originais; no folclore dos Voguis mencionam-se cavalos, que os Voguis não conhecem — exemplos que mostram como é fácil confundir o que é estrangeiro com o que é original.
- A situação da África é melhor do que a da Ásia quanto às influências culturais recíprocas, mas os materiais africanos são frequentemente registrados de modo tão deficiente quanto os americanos.
- Frobenius, um dos maiores estudiosos da África, não conhece as línguas africanas, o que não o impede de publicar massas de materiais africanos sem esclarecer como os obteve.
- Os mitos dos povos civis da Antiguidade — greco-romanos, babilônicos, egípcios e parcialmente indianos e chineses — chegaram a nós pela refração da literatura, e não diretamente de seus criadores.
- Esses mitos são conhecidos por meio dos poemas de Homero, das tragédias de Sófocles, de Virgílio, de Ovídio, entre outros.
- Wilamowitz tenta negar à literatura grega qualquer nexo com o povo, considerando-a tão inadequada ao estudo dos temas populares quanto os Nibelungos de Hebbel, de Geibel e de Wagner o são para o estudo dos autênticos Nibelungos — ponto de vista que nega o fundamento popular do mito antigo e abre caminho para orientações reacionárias.
- Os mitos egípcios chegam por meio das inscrições funerárias, do Livro dos Mortos e de fontes semelhantes — na maior parte das vezes, trata-se apenas da religião oficial, cultivada pelos sacerdotes para fins políticos e aprovada pela corte ou pela nobreza.
- Distinguem-se, portanto, os mitos de formações anteriores às castas — que podem ser considerados fonte direta — dos mitos transmitidos pelas classes dominantes dos antigos Estados civis — que podem servir como prova indireta da presença de determinadas representações nos respectivos povos.
- Daí deriva a premissa de que o conto de fadas deve ser confrontado tanto com os mitos dos povos primitivos anteriores às castas quanto com os mitos dos Estados civis da Antiguidade.
- Desse passado não interessam os acontecimentos isolados — o que se entende comumente por “história” e o que entendia a chamada “escola histórica”.
11. O conto de fadas e a mentalidade primitiva
- Há imagens e situações no conto de fadas que evidentemente não remontam a nenhuma realidade imediata — a serpente ou o cavalo alado, a cabana sobre patas de galinha —, e seria um grosseiro erro tratá-lo como uma crônica ou buscar na pré-história serpentes aladas autênticas.
- Nem as serpentes aladas nem as cabanas sobre patas de galinha existiram — mas também eles são históricos, não em si mesmos, mas em sua origem, que deve ser explicada.
- O ato do rito é provocado por interesses econômicos não imediatamente, mas pela refração de uma certa mentalidade determinada, em última análise, pela mesma causa que produziu o ato.
- O exemplo da dança com serpentes vivas para fazer chover — em vez de simplesmente verter água, que seria um caso de magia simpática — ilustra que o ato não emana diretamente do interesse econômico, mas passa pela mediação de uma mentalidade específica.
- Tanto o mito quanto o rito são produtos de uma mentalidade.
- A mentalidade primitiva não conhece as abstrações e se manifesta nos atos, nas formas de organização social, nos costumes e na língua — e há casos em que o motivo fiabesco não se explica por nenhuma das premissas anteriores, pois sua base é um conceito de espaço, tempo e quantidade diverso do habitual.
- Daí se deduz que é preciso recorrer às formas da mentalidade primitiva também para explicar a gênese do conto de fadas.
- A mentalidade é, antes de tudo, uma categoria historicamente determinada — o que libera da necessidade de “interpretar” os mitos, os ritos ou os contos de fadas: trata-se não de interpretar, mas de reduzir às causas históricas.
- Não existe uma semântica absoluta, fixada de uma vez por todas — a semântica só pode ser semântica histórica.
- Se a maga ameaça devorar o protagonista, isso não significa necessariamente que se esteja diante de traços de canibalismo — a imagem pode ter sido originada de outro modo, como reflexo de imagens mentais e não de realidades concretas.
12. Genética e história
- A investigação genética — que tem por objetivo o estudo da origem dos fenômenos — é sempre histórica em sua substância, mas não se confunde com a investigação histórica, que tem por objetivo o estudo do desenvolvimento dos fenômenos.
- A genética precede a história e lhe abre o caminho.
- Qualquer fenômeno ao qual o conto remonte é considerado como processo — quando se estabelece o nexo entre alguns motivos do conto e as representações da morte, a “morte” é considerada não como conceito abstrato, mas como um processo de representação da morte exposto em sua evolução.
- Há casos em que o fenômeno ao qual o conto remonta é muito claro em si mesmo, mas não se consegue desenvolvê-lo em um processo — como ocorre com certas formas muito primitivas de vida social que o conto conservou admiravelmente, como o rito de iniciação.
- A história dessas formas exige uma investigação histórico-etnográfica especial, e o folclorista nem sempre pode arriscar-se a tal investigação.
- A elaboração histórica não é sempre igualmente profunda e ampla, em parte por causa da insuficiente elaboração dos motivos pela etnografia, em parte pela disparidade de peso específico dos motivos narrativos.
13. Método e material
- Os erros dos estudiosos consistem frequentemente em restringirem seu material a um tema, a uma cultura ou a outras delimitações artificiosamente criadas — e para a investigação proposta essas delimitações não existem.
- Usener cometeu esse erro ao estudar o tema ou mito do dilúvio universal apenas no âmbito do material clássico — não se devem generalizar as deduções nem estudar geneticamente tais problemas apenas no âmbito de um dado povo.
- O folclore é um fenômeno internacional, mas isso coloca o folclorista em situação de nítida desvantagem em relação aos especialistas — indianólogos, classicistas, egiptólogos —, que dominam absolutamente seu campo.
- É absolutamente indispensável ampliar o âmbito da investigação folclórica, mesmo que isso implique o risco de errar, de incorrer em equívocos e inexatidões — o que é sempre menos perigoso do que estabelecer bases metodologicamente erradas ainda que se possua perfeitamente um material parcial.
- Engels escreve: “Se quiséssemos esperar até que todo o material para uma lei estivesse purificado, deveríamos adiar a investigação teórica até esse momento, e já por esse único motivo nunca teríamos a lei.”
- É possível começar a investigação mesmo quando o material não foi inteiramente explorado — essa premissa se apoia na observação da reiteração do material folclórico e de sua conformidade a uma lei.
- Todo o material se divide em material que necessita de explicação — em primeiro lugar, o conto de fadas — e material que fornece a explicação; todo o restante é material de controle.
- O folclorista pode definitivamente não levar em conta uma enormidade de materiais — se a lei é correta, será correta para qualquer material, e não apenas para o incluído na investigação.
- Antes de qualquer outra coisa, o problema deve ser posto exatamente — e então um método exato conduzirá a uma solução exata, o que é antitético ao princípio habitual de buscar primeiramente uma exaustiva riqueza de material.
14. O conto de fadas e as formações pós-narrativas
- Os ritos, os mitos, as formas da mentalidade primitiva e alguns institutos sociais são considerados formações anteriores ao conto de fadas — e as formações posteriores a ele, como o epos heroico, as lendas e outras, são em princípio deixadas de lado, pois podem ser explicadas pelo próprio conto de fadas, ao qual frequentemente remontam.
- Há o Mahabharata, há a Odisseia e a Ilíada, a Edda, a poesia épica oral, os Nibelungos, entre outros.
- Pode ocorrer que o epos tenha conservado detalhes e minúcias que o conto não oferece — como nos Nibelungos, em que Siegfried mata a serpente, banha-se em seu sangue e adquire a invulnerabilidade, detalhe importante para o estudo da imagem da serpente e que não se encontra no conto de fadas; nesses casos, pode-se recorrer ao epos heroico na ausência de outro material.
15. Perspectivas
- Mesmo que se comprove que determinado motivo entrou no conto de fadas a partir da realidade histórica, surge ainda uma questão não resolvida: por qual motivo se narravam essas coisas e como se formou o conto de fadas como gênero narrativo.
- O resultado da investigação proposta será o quadro das fontes do conto de fadas.
- Paralelamente ao problema da proveniência dos motivos individuais, será preciso responder de onde vem a narrativa, de onde vem o conto em si.
- A essa pergunta se tentará responder no último capítulo, mas a resposta esbarra em uma dificuldade — o ato de narrar contos de fadas não é separável do ato de narrar contos de outro gênero, como as fábulas de animais, e enquanto os outros gêneros não forem estudados historicamente, só se pode dar uma resposta preliminar e hipotética.
- Na sua substância, um trabalho dessa natureza nunca pode ser considerado concluído.
- O estudo pode ser comparado a uma expedição de reconhecimento em terras ainda desconhecidas — são apontados os jazimentos e desenhadas cartilhas esquemáticas, e a elaboração detalhada de cada jazimento será tarefa do futuro.
- No estágio atual da ciência é mais importante estudar o nexo dos fenômenos do que elaborar detalhadamente cada fenômeno isolado.
- Como base do estudo foi tomado o conto de fadas russo — com especial atenção ao da Rússia setentrional —, mas o trabalho não é um estudo do conto de fadas russo em particular, e sim de folclore comparado histórico sobre a base do material russo considerado como ponto de partida.
- O folclore russo se distingue por sua grande multiformidade, riqueza, altíssimo senso artístico e excelente estado de conservação.
- Todos os tipos fundamentais do conto de fadas são levados em conta — e quando o material russo é insuficiente, recorre-se também ao material estrangeiro.
