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TRAVESSIA

PROPP, V. Historical roots of the wondertale. Tradução: Miriam Shrager; Tradução: Sibelan E. S. Forrester; Tradução: Russell Scott Valentino. Bloomington, Indiana, USA: Indiana University Press, 2025.

1. O balsa como elemento da composição

  • A balsa para o outro reino constitui o eixo e o centro do conto de fadas.
  • O deslocamento do herói no espaço configura o momento de maior destaque e vivacidade cromática da narrativa.
  • A estrutura elementar da fábula torna-se perceptível ao motivar a balsa pela busca de uma esposa, de uma viagem milagrosa ou de objetivos comerciais.
  • O conto de fadas russo apresenta variedades típicas de transporte, como a transformação do herói em animal ou o uso de objetos mágicos como o tapete voadore e as botas de sete léguas.
  • O percurso pode envolver auxílio de espíritos, naves voadoras, descidas em precipícios por cordas ou a ascensão ao céu por uma árvore.
  • A origem única de todos os tipos de transporte reside na representação da viagem do morto ao além, refletindo ritos funerários.
  • A classificação exata das formas é secundária, pois as modalidades de transporte se fundem e se assimilam mutuamente.

2. A balsa sob forma de animal

  • A metamorfose do herói em animal ocorre frequentemente no momento em que ele toma conhecimento da existência do reino distante.
  • A transformação em seres alados ou terrestres vincula-se à representação da morte e à transição para o voo após o contato com a feiticeira.
  • A escolha de animais como arminhos, patos e castores revela a origem venatória e utilitária dessas imagens na narrativa.
  • Corriam pelos montes como arminhos e pelo mar azul como patos cinzentos.
  • Ivã, paladino russo, sentou-se sobre um castor e atravessou o mar, atravessou-o e desceu do castor.
  • O gigante Burja bateu no chão, transformou-se em águia e voou para o castelo.
  • A função de transporte migra para os animais de sela à medida que estes surgem na cultura, mantendo resquícios de formas mais antigas.
  • Ao partir transformou-se em um cervo de pés velozes e voou como uma flecha disparada pelo arco; correu, correu, sentiu-se cansado e de cervo transformou-se em lebre; pôs-se a galopar com quanta força tinha no corpo, estragou as patas de tanto correr e transformou-se em um passarinho com a cabecinha dourada; voou ainda mais rápido, voou, voou e em um dia e meio chegou ao reino onde estava a rainha Marja.
  • N. Ia. Marr demonstra, por materiais linguísticos e arqueológicos, que o cervo foi a montaria mais antiga da Europa antes do cavalo.
  • Transformou-se em cavalo e correu para a corte de Helena, a Bela.

3. O saco de pele

  • A representação da jornada ao reino distante fundamenta-se na balsa dos mortos, evidenciada pela prática de costurar o herói em peles de animais.
  • O motivo do herói que se oculta dentro de um cadáver para ser transportado por aves é amplamente difundido.
  • O mercante providenciou uma faca, matou um cavalinho doente, tirou-lhe as entranhas, colocou o jovem na barriga do cavalo e o costurou, depois se escondeu nos arbustos. De repente chegam certos corvos pretos, com as patas de ferro, agarram a carniça, transportam-na para a montanha e começam a bicá-la. Eles comeram o cavalo e estavam para chegar ao filho do mercante.
  • Veio voando uma águia, envolveu-o em uma pele bruta e o levou para a montanha de ouro.
  • Como escapulir? Vê uma grande ave que arrasta uma vaca; ao mesmo tempo jogaram na fossa uma vaca morta. Ele a amarrou ao redor do corpo. A ave chega, agarra o animal e o leva embora e o principezinho Ivã balança pelo ar e não consegue se desvencilhar.
  • O uso de peles animais em ritos de iniciação simboliza a identidade totêmica entre o indivíduo e o animal.
  • Sternberg afirma que, como após a morte o homem se torna o animal que lhe serve de totem, é natural que o defunto seja envolto na pele desse animal.
  • Os mortos eram costurados em peles de búfalo entre a tribo Owaha e em peles de animais marinhos entre os esquimós, conforme observações de Nansen e Rasmussen.
  • Mitos americanos descrevem deuses e heróis que vestem peles de aves para ascender ao reino dos mortos ou ao céu.
  • Chacoalhou-a tão forte que todos os ossos e a carne se soltaram… Depois vestiu a pele da águia e voou ao céu, no reino dos mortos.
  • Ielch, divindade Tlinkit, utiliza penas de pega para alcançar o céu e posicionar o sol.
  • Povos pastores africanos, como os Dgiagga e Wahehe, mantêm a tradição de envolver cadáveres em peles de bois ou vacas.
  • Quando morre alguém que possui gado, mata-se um de seus animais e cobre-se o cadáver com a pele.
  • Frobenius relata que reis eram costurados em peles de vaca para flutuarem em lagos durante ritos funerários.
  • Na Índia védica, a cobertura do morto com partes de uma vaca servia como proteção contra o fogo purificador.
  • Para te defender de Agni, veste um invólucro feito de partes de vaca.
  • O termo alemão Umlegetier designa o animal utilizado para revestir o corpo do falecido.
  • No Egito antigo, a passagem pela pele de um animal simbolizava o renascimento e a imortalidade, identificando o morto a divindades como Osíris.
  • Budge nota que o sacerdote, ao envolver-se em pele de boi, buscava adquirir o dom de um novo nascimento.
  • Moret descreve o boi como acompanhante celestial que oferece sua pele para servir de vela à embarcação divina.
  • Na Grécia, a tradição evoluiu para a representação de deuses vestindo peles, como Dionísio e Héracles, ou o uso do animal como alimento e servo no Hades.

4. A ave

  • A cavalgada sobre as asas de aves gigantes vincula a imagem do transporte ao espaço oceânico e ao horizonte distante.
  • Senta sobre as minhas asas. Te levarei ao meu país… O mercante sentou sobre as asas; a águia levantou voo em direção ao mar azul e subiu ao alto, ao alto.
  • O camponês sentou na águia; a águia elevou-se e iniciou o voo para o mar azul; afastou-se da margem e pergunta ao camponês: Olha e me diz o que há atrás de nós, diante de nós e sob de nós?
  • Atrás de nós está a terra, diante de nós está o mar, sobre nós o céu, sob nós a água.
  • O arquétipo da ave transportadora predomina entre povos costeiros e insulares da Oceania e América do Norte.
  • O reino dos mortos é concebido como o domínio do sol e da água, situado além do horizonte.
  • Wundt associa a concepção de almas que vivem em aves ao mito da morada solar do defunto.
  • Em Tahiti e Tonga, acredita-se que aves capturam as almas para levá-las ao além, enquanto os Daiaki utilizam galinhas em ritos para garantir a viagem à cidade dos mortos.
  • Mitos da Micronésia e da América vinculam aves ao resgate de esposas ou à guia de espíritos.
  • Coloca comida em uma ave, coloca nela algumas esteiras, voa e busca tua mulher.
  • Ielch é antes de tudo a ave dos mortos, o guia das almas; ele convida para o banquete os espíritos dos defuntos e convida outros para chorar com ele sobre os mortos.
  • A alma alada ou transportada por aves é uma constante em civilizações como a egípcia, babilônica e clássica.
  • Elevei-me, elevei-me como um poderoso jovem gavião, saído do seu ovo. Eu voo e desço como um gavião que tenha as costas largas quatro braços e cujas asas sejam semelhantes a uma esmeralda do sul.
  • O herói Eabani, no poema de Gilgamesh, sonha com o inferno onde se veste um traje de penas, como as aves.
  • Relatos sobre Alexandre e Peregrino Proteu mencionam águias que transportam a alma ao Olimpo, tradição mantida em funerais imperiais romanos e na iconografia cristã dos anjos.
  • Abandonei a terra e subo ao Olimpo.

5. A cavalo

  • O cavalo substitui e se assimila à ave em fases culturais posteriores, mantendo a função de transporte para o reino dos mortos.
  • Malten observa que, na religião helênica e germânica, o morto manifesta-se tanto na forma do animal quanto na do cavaleiro.

6. Na nave

  • O navio voador representa uma evolução técnica da ave, herdando sua capacidade de deslocamento aéreo no conto de fadas.
  • Verás diante de ti uma nave, sobe a bordo e voa para onde precisares.
  • De repente a barca elevou-se no ar e em um instante, como uma flecha disparada pelo arco, levou-os a uma grande montanha rochosa.
  • O culto à barca dos mortos é predominante na Escandinávia e Oceania, vinculando-se frequentemente à representação solar.
  • Na ilha de Timor, a chegada da barca de ouro ao outro mundo simboliza o alcance do reino do sol.
  • No Egito, a embarcação dos mortos funde-se à navegação solar, enquanto na Babilônia o mito de Gilgamesh descreve a travessia oceânica.
  • A tradição grega prioriza a travessia fluvial conduzida por Caronte, refletindo um temor cultural em relação ao mar aberto.
  • No teu caminho há três rios largos, sobre esses rios há três balsas: no primeiro te cortarão a mão direita, no segundo a esquerda, e no terceiro te deceparão a cabeça.
  • A amputação da mão no transporte remete a elementos típicos dos ritos de iniciação.

7. A árvore

  • A árvore atua como intermediária que conecta os mundos terrestre, celeste e subterrâneo.
  • Pegou o saco e subiu no carvalho. Subindo, subindo, chegou até o céu.
  • O mastro xamânico com efígies de aves representa a estrada para a comunhão com divindades celestes.
  • Sternberg descreve que a ascensão da árvore é o momento central da iniciação do xamã, simbolizando núpcias celestiais.
  • A queda do xamã dessa árvore traria a ruína de todo o mundo.
  • A árvore sagrada bodhitaru na Índia compartilha o sentido de acesso à sabedoria e aos planos superiores.

8. A escada ou as correias

  • Meios mecânicos de ascensão ou descida, como escadas e correias de couro, derivam de transformações de representações animais anteriores.
  • E instantaneamente apareceu uma escada no monte.
  • E então lhe veio à mente matar seus cavalos, esfolá-los e cortar correias na sua pele, trançá-las e fazer um saco e então descer lá embaixo.
  • Entrou, prendeu nas mãos e nos pés certas garras de ferro e começou a subir o monte.
  • Escalas em miniatura eram depositadas em múmias egípcias para permitir a ascensão da alma ao céu sob supervisão de Set.
  • Glória a ti, escada do deus, glória a ti, escada de Set. Constitui-te, escada do deus, constitui-te, escada de Set…

9. O condutor

  • A figura da guia animal ou antropomórfica sela o destino da alma, conduzindo-a conforme a natureza da vida do falecido.
  • A loba pôs-se a correr e o principezinho galopou atrás dela.
  • Vai pelo mar, encontrarás uma ave de prata com topete de ouro: para onde ela voar, vai tu também.
  • A evolução da guia passa pelo xamã e atinge formas antropomórficas como Osíris, mantendo traços de sua origem animal.
  • Osíris, guia dos deuses, atravessa o Duat, irrompe através dos montes, perfura as rochas, alegra o coração de cada khu.
  • Penetrei na casa do rei por meio de um escaravelho que me conduziu.

10. Conclusão

  • Todos os modos de transporte no conto de fadas emanam da representação da peregrinação do morto no além.
  • A estratificação das formas narrativas decorre das mudanças nos métodos de produção e organização social, partindo do totemismo animal para a domesticação de montarias e o desenvolvimento técnico da agricultura.
  • A fragmentação do herói em transportador e transportado reflete o processo de divinização e antropomorfização das antigas guias animais.```
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