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folktale:thompson:antiguidade
ANTIGUIDADE
THOMPSON, Stith. The folktale. Berkeley: Unv. of California Pr, 1977.
O CONTO POPULAR NA LITERATURA ANTIGA
- A existência de contos populares na antiguidade é conhecida por meio de menções em textos literários e pela presença de histórias claramente baseadas em tradição oral.
- Referências na literatura grega e romana, a partir de As Vespas de Aristófanes (422 a.C.), mostram que esses contos se assemelhavam aos europeus atuais, com fadas, monstros e maravilhas, sendo chamados de “histórias de velhas”.
- Ao encontrar contos orais em clássicos, duas possibilidades se apresentam: o clássico é a origem das formas orais atuais ou a versão clássica é uma elaboração literária de um conto oral já existente.
- A probabilidade de uma tradição oral por trás de muitos contos clássicos conhecidos é forte, com o valor da releitura literária antiga residindo em mostrar a adaptação do material tradicional a diferentes padrões religiosos ou literários.
1. ANTIGO EGITO
- Várias coleções de contos em papiros do Egito antigo, embora claramente obra de sacerdotes, mostram um fundo tradicional semelhante ao do folclore oral europeu e asiático atual.
- O conto do “Náufrago” (c. 2000-1700 a.C.) menciona um espírito em forma de serpente em uma ilha, uma donzela terrena que pereceu e predições, apontando para a existência de contos populares no Egito em 2000 a.C.
- Um manuscrito de cerca de 1700 a.C. relata que Quéops mandava contar contos populares, oferecendo uma visão histórica da atividade de contar histórias há cinco mil anos.
- Os contos desse manuscrito incluem feitos de magos, como a criação de um crocodilo gigante para punir adultério, e a história de um mago que recusa testar seus poderes em humanos.
- Do Novo Império (c. 1600-1000 a.C.), um conto de estratégia militar contém os motivos do general que finge trair seu exército para enganar o general inimigo e do saco com soldados para tomar a cidade (cavalo de Troia).
- A história do “Príncipe Encantado” envolve uma profecia de morte por serpente, crocodilo ou cão, o confinamento do príncipe em uma torre, e a princesa que salva sua vida de uma serpente.
- O conto dos “Dois Irmãos” (c. 1250 a.C.) contém vários motivos conhecidos: a mulher de Potifar, conselho de uma vaca falante, fuga com obstáculo (rio), alma separável, profecia maligna, amor pela visão do cabelo de uma mulher desconhecida, traição do segredo do marido pela esposa, sinal de vida (cerveja que espuma), ressurreição por recolocação do coração, reencarnação repetida e transformação da pessoa que é engolida e renasce em nova forma.
- Heródoto (séc. V a.C.) registra no Egito a história do “Tesouro de Rampsinito” (Tipo 950), sobre o arquiteto que deixa uma pedra solta no tesouro e o roubo que passa despercebido.
2. BABILÔNICO E ASSÍRIO
- Dos textos mitológicos da antiga Mesopotâmia, embora escritos por sacerdotes, emergem muitos motivos familiares aos contos populares, testemunhando o desenvolvimento precoce desses temas narrativos.
- A epopeia de Gilgamesh (c. 650 a.C., mas remontando a pelo menos 2000 a.C.) contém os motivos de herói forte, visita ao mundo dos mortos sob o mar guardado por monstros, árvores com joias em vez de frutas no jardim dos deuses, barqueiro que carrega para o mundo dos mortos, obtenção de uma planta que dá vida e seu roubo por uma serpente.
- Na fábula de Etana, surgem os motivos da serpente que se esconde na carcaça de um boi para pegar a águia e da águia que carrega um herói ao céu para buscar uma planta de cura, voando tão alto que a terra parece um bolo e o mar um cesto de pão.
- O mito da descida da deusa Ishtar ao mundo inferior envolve passar por uma série de guardas que exigem uma peça de roupa de cada vez, até que ela chega completamente despida e depois as recupera uma a uma.
- A lenda do dilúvio e a história do sábio Aicardo (c. 420 a.C.), do conselheiro condenado à morte que se esconde e depois salva o país, também são de interesse para o folclorista.
3. GRÉCIA ANTIGA
- Embora a Grécia antiga não tenha preservado um conto popular autêntico como contado pelo grego comum, há muitas evidências da presença de motivos e narrativas elaboradas familiares ao folclore atual.
- Referências na literatura grega mencionam contos como “histórias de velhas”, repletos de maravilhas, animais medonhos e ogros, que faziam parte do entretenimento de crianças e adultos.
- Em Homero, as aventuras de Odisseu com os feácios incluem harpias, sereias, a feiticeira Circe que transforma homens, a viagem ao mundo dos mortos, as transformações de Proteu e a flor de lótus que causa esquecimento.
- A Ilíada contém motivos como o cavalo de Aquiles que fala e aconselha, a guerra entre pigmeus e grous, e a história de Belerofonte com a mulher de Potifar, a carta de Urias e a recompensa da princesa.
- Os mitos de Héracles, com seus feitos de força desde o berço, matando serpentes e realizando doze trabalhos (como obter as maçãs de ouro e trazer Cérbero do inferno), têm muitas analogias com os contos modernos do homem forte.
- A lenda de Teseu inclui a derrota do minotauro no labirinto com a ajuda de Ariadne e a substituição das velas do navio para anunciar notícias, motivos amplamente usados em contos.
- A lenda de Perseu, estudada por Hartland, tem analogias com os contos “O Matador de Dragão” e “Os Dois Irmãos”, incluindo nascimento sobrenatural, abandono com a mãe, roubo de um olho único, derrota de Medusa (que petrifica com o olhar) e conquista da princesa Andrômeda.
- A história dos Argonautas apresenta motivos como a fuga dos enteados, a deusa que testa a bondade na forma de uma velha, os companheiros extraordinários e, com Medeia, a ajuda mágica para tarefas impossíveis, a fuga com obstáculos (membros do irmão morto) e a noiva esquecida.
- Dois contos gregos apresentam a corrida de pretendentes (do Rei Enómao e de Atalanta) com os motivos das cabeças dos mal-sucedidas exibidas em postes e do herói que distrai a donzela com maçãs.
- Outros motivos encontrados na literatura grega incluem a troca de gorros nos filhos do ogro para escapar, o aprendizado da linguagem animal lambido por serpente, a identificação pelo sapatinho perdido, o tolo que conta as ondas do mar, a moeda que sempre retorna, os anéis mágicos de desejo, os assentos que seguram a pessoa e as mesas que se servem sozinhas.
4. LATIM
- Embora Ovídio, em Metamorfoses, tenha reunido mitos com transformações que explicam condições atuais, seu estilo narrativo está distante do conto popular tradicional, assim como a visita de Virgílio ao mundo inferior na Eneida imita a Odisseia.
- Apuleio, no início do século II d.C., fornece um belo exemplo de conto popular em “Cupido e Psique”, inserido em sua obra Metamorfoses.
- O conto de “Cupido e Psique” contém elementos do conto popular atual: as irmãs ciumentas, a proibição de ver o marido miraculoso, a vela que pinga, as tarefas da heroína e os ajudantes no caminho.
- É provável que a transformação de contos populares autênticos em mitos por sacerdotes e poetas tenha sido de grande importância para o desenvolvimento das grandes mitologias.
- Nos séculos posteriores do Império Romano, não há mais nada do gênero, sendo necessário esperar a ascensão da igreja cristã e suas lendas de santos e mártires para ver na literatura sinais de tradição narrativa persistente entre o povo.
- Nas primeiras obras-primas literárias medievais em língua vulgar, como Beowulf, sagas islandesas e romances medievais, os contos populares servem de base para reelaborações artísticas, atitude que persistiu até a gravação fiel das palavras do contador de histórias tradicional há cerca de cem anos.
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