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folktale:tolkien:flieger:contos-de-fadas:1.3

1.3 Guerra

FLIEGER, Verlyn. There would always be a fairy tale: more essays on Tolkien. Kent, Ohio: The Kent State University Press, 2017.

Guerra, morte e contos de fadas na obra de J. R. R. Tolkien

1. A escrita pode organizar sentimentos dolorosos sobre bem, mal, beleza e degradação, impedindo que permaneçam interiormente sem expressão, e a experiência militar de Tolkien contribuiu para intensificar o interesse pela imaginação que alimentou o Silmarillion e O Senhor dos Anéis.

2. Racionalizar também significa tornar compreensível aquilo que parece destituído de razão, e a invenção mítica oferece uma via para conferir significado à experiência histórica, embora seus resultados possam permanecer complexos, enigmáticos e mais próximos da especulação espiritual do que da explicação conclusiva.

3. A morte de Rob Gilson atingiu um grupo de jovens amigos que compartilhava ambições artísticas e uma percepção elevada de sua missão cultural, tornando a destruição de um integrante do TCBS um problema simultaneamente afetivo, criativo e religioso.

4. A grandeza alcançada pelo sacrifício de Gilson precisava ser distinguida da realização artística e espiritual esperada para o grupo, preservando a esperança de que seus integrantes fossem instrumentos de renovação sem desvalorizar a coragem, o sofrimento e a entrega daquele que morrera.

5. A morte violenta de um contemporâneo introduz uma ruptura diferente daquela provocada pela perda dos pais, pois confronta diretamente o sobrevivente com a interrupção de um futuro possível e com o problema do significado da própria mortalidade.

6. A morte de Gilson no primeiro dia da batalha do Somme integra uma operação marcada por informações falsas, exposição maciça ao fogo inimigo e perdas humanas imensas, cujo prolongamento não produziu vantagem duradoura proporcional à destruição.

7. A trégua de Natal de 1914 demonstrou que combatentes de lados opostos podiam reconhecer sua humanidade comum e conviver pacificamente, mas a repressão dos comandos a esses encontros preservou a separação necessária à continuidade da matança.

8. A aproximação entre a fraternização dos soldados e a inutilidade estratégica da batalha torna especialmente difícil justificar a morte de Gilson como sacrifício racional, pois a identificação de causas militares não equivale à descoberta de uma razão moral ou existencial.

9. A repetição de ideias de grandeza, intenção e destino revela o esforço de conciliar a vocação artística do TCBS com a crença religiosa, procurando preservar algum sentido em uma morte que não realizou os objetivos coletivos nem alterou decisivamente o curso da guerra.

10. A busca de significado para a sobrevivência e para a morte conduz a interrogações sobre a ação divina, a escolha dos destinados à realização e a possível relação entre permanecer vivo e receber uma missão, aprofundando a culpa de quem sobrevive.

11. A morte de Geoffrey Smith, atingido casualmente longe de um combate direto, tornou ainda mais difícil reconhecer um propósito no acontecimento, enquanto seu pedido para que Tolkien expressasse o que ele próprio não pudesse dizer converteu a memória do amigo em responsabilidade criativa.

12. A elaboração da mitologia ofereceu um espaço para investigar essas questões e formular a morte como dom de Ilúvatar, possibilidade que se afasta da interpretação cristã da morte como consequência do pecado e demonstra a liberdade especulativa proporcionada por um mundo inventado.

13. A oposição entre elfos vinculados à duração do mundo e humanos destinados a deixá-lo transforma a mortalidade em questão aberta, preservando a esperança sem garantia e permitindo explorar o destino humano sem exigir uma revisão direta da doutrina religiosa.

14. A investigação das desvantagens da ausência de morte oferece uma forma indireta de examinar perdas aparentemente absurdas, pois a existência élfica, repetidamente restaurada e presa à mesma identidade, permite compreender que a duração indefinida também pode constituir um fardo.

15. O desejo humano de escapar da morte encontra seu reverso no desejo élfico de escapar da imortalidade mundana, fazendo o amor pelo mundo produzir angústia tanto em quem precisa abandoná-lo quanto em quem está condenado a acompanhá-lo até o fim.

16. A diversidade das mortes em O Senhor dos Anéis impede uma explicação uniforme do dom de Ilúvatar, pois algumas personagens procuram voluntariamente o fim, outras o recebem sem desejá-lo e cada situação introduz problemas distintos de valor, responsabilidade e significado.

17. A morte esperada de Théoden é celebrada como conclusão heroica, enquanto a morte deliberada de Denethor é condenada como exercício indevido de autoridade sobre a própria vida, revelando que o dom da morte se submete a condições morais diferentes conforme a personagem.

18. A liberdade concedida a Aragorn para escolher a própria morte, evitando a decadência futura, cria uma tensão com a reprovação de Denethor, pois ambas as decisões antecipam um fim para impedir consequências indesejadas e tornam problemática a aplicação de um critério moral universal.

19. A morte anônima do homem de Harad desloca a reflexão das explicações transcendentes para a singularidade de uma vida interrompida, aproximando a experiência ficcional da perda de Gilson e formulando perguntas que nenhuma classificação heroica ou moral resolve plenamente.

20. O corpo do combatente abatido, marcado por ferimentos, sangue e sinais de sua origem, torna a guerra uma presença física imediata diante de Frodo e Sam, retirando o acontecimento do plano abstrato dos exércitos e das estratégias.

21. A primeira visão de uma batalha entre homens desperta em Sam desconforto e perguntas sobre o nome, a procedência, os desejos e as circunstâncias do morto, incluindo a possibilidade de que mentiras ou ameaças o tivessem afastado de uma vida pacífica.

22. A descrição minuciosa do corpo força o reconhecimento de que uma guerra dirigida por poderes malignos é combatida por pessoas comuns, moralmente complexas e vulneráveis, cuja morte em terra estrangeira não pode ser reduzida à eliminação de um inimigo abstrato.

23. A compaixão de Sam aproxima-se do reconhecimento mútuo dos soldados na trégua de Natal e da relutância pessoal de Tolkien diante da guerra, incluindo a percepção de que dirigentes podem manipular pessoas e corromper tradições culturais para sustentar seus objetivos.

24. A mitologia não alcança uma justificativa única da morte nem a torna sempre conforme à razão, mas encontra especial força ao preservá-la na memória e representá-la em sua singularidade, acompanhando a recusa de julgar apressadamente quem merece viver ou morrer.

25. A morte do combatente de Harad encontra significado narrativo nas perguntas simples sobre sua história pessoal, permitindo que a investigação dos grandes destinos inclua um soldado desconhecido e que a dor diante da guerra seja transformada em atenção à humanidade de cada vítima.

26. A compaixão concedida a Sam oferece uma forma de homenagem aos que tiveram suas possibilidades de grandeza interrompidas pelo dom obscuro da morte, preservando sua dignidade sem pretender explicar inteiramente o acontecimento.

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