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9 Percepção

FLIEGER, Verlyn. Splintered Light: Logos and Language in Tolkien's World. Grand Rapids: Eerdmans, 1983. (Edição revista e ampliada: Kent: Kent State University Press, 2002).

Percepção = nome = identidade

1. A mente encarnada, a linguagem e a narrativa surgem conjuntamente no mundo humano, constituindo dimensões inseparáveis de sua relação com a realidade.

2. Sem a experiência humana que o integra à narrativa, o trovão permaneceria um acontecimento ainda não ouvido por nenhum ser humano, anterior às relações de sentido estabelecidas pelo conto de fadas.

3. As línguas inventadas não constituem um detalhe dispensável da obra de Tolkien, pois formam simultaneamente seu fundamento e sua atmosfera, tornando sua compreensão necessária para reconhecer como o mundo narrativo adquire consistência e envolve a experiência do leitor.

4. O primeiro olhar dos Elfos dirige-se às estrelas e provoca a exclamação ele, associada ao ato de mostrar algo efetivamente visível, inaugurando uma relação em que a percepção distingue quem vê daquilo que é visto e começa a formar uma identidade própria, embora essa primeira palavra élfica permaneça posterior à Palavra criadora de Eru, que tornou possível sua existência.

5. A resposta à luz reúne inicialmente percepção e significado numa unidade semelhante à postulada por Barfield, dando origem à linguagem e à consciência dos Elfos como seres perceptivos, enquanto os nomes Quenya e Quendi, derivados da fala, estabelecem respectivamente a identidade de sua língua e sua autodefinição como aqueles que falam com vozes.

6. As informações linguísticas condensadas nos apêndices não devem ser tomadas como um sistema definitivamente fixado, pois a construção das línguas permaneceu fluida e frequentemente procedeu retrospectivamente, reconstruindo formas anteriores a partir das posteriores de maneira comparável à investigação de raízes indo-europeias.

7. Apesar das reformulações, certas concepções persistem desde os primeiros projetos até os comentários tardios, revelando a coerência de uma invenção linguística que procura reproduzir imaginativamente a complexidade histórica da expansão, da separação e da diversificação das línguas.

8. A comparação entre As etimologias, de 1937–1938, e Quendi e Eldar, de 1958–1960, evidencia a continuidade da investigação sobre as relações entre o nome dos Elfos e os elementos associados à fala, articulando diferentes fases da elaboração por meio de uma reconstrução cada vez mais detalhada.

9. A interpretação de Quendi como falantes exige remontar a uma fase anterior à organização das línguas conhecidas, supondo um elemento primordial do qual se desenvolveram formas relativas ao falar e ao falante, até que a capacidade vocal, escolhida para distinguir os Elfos das outras criaturas, passasse a designar a própria pessoa.

10. A fala e a autoconsciência élficas procedem da percepção da luz, e os nomes Quenya e Quendi exprimem o princípio organizador de uma existência que se reconhece e se constitui mediante a linguagem, reproduzindo, em outro nível, a relação entre luz e palavra presente na criação de Eru e dos Ainur.

11. O nome Eldar, Povo das Estrelas, atribuído pelos Valar, relaciona os Elfos à sua primeira experiência luminosa, mas também os distingue da luz contemplada, estabelecendo uma distância mais explícita que sua autodenominação original, embora ambos os nomes permaneçam vinculados ao mesmo princípio de percepção e expressão.

12. As diferenças progressivas de percepção produzem novos nomes mediante os quais os grupos se caracterizam e distinguem uns aos outros em relação à luz, fazendo da transformação linguística o resultado de pressões exteriores e respostas interiores que geram crescimento, separação e diversidade.

13. Elfos e Homens possuem uma condição excepcional porque foram concebidos diretamente por Eru e introduzidos com o terceiro tema, sem participação dos Ainur em sua criação, circunstância que permite interpretá-los como uma resposta à rebelião de Melkor e supor uma função restauradora para seus destinos conjugados no mundo desfigurado.

14. Os Valar não compreendem inteiramente os Filhos de Ilúvatar nem a totalidade do mundo que devem realizar, pois cada um conhece sobretudo sua própria participação na Música, de modo que a limitação de seu entendimento impede que suas boas intenções produzam necessariamente resultados benéficos.

15. A decisão de convocar os Elfos para Valinor nasce do amor e do receio dos perigos da Terra-média, mas substitui sua liberdade de determinar o próprio futuro por uma orientação protetora e se revela um erro de julgamento, do qual decorrerão muitos sofrimentos e mudanças em sua relação com a luz.

16. A convocação contribui para a dispersão dos povos élficos e a diferenciação de suas línguas, reproduzindo imaginativamente um processo semelhante às migrações e ramificações indo-europeias, embora todos esses acontecimentos permaneçam abrangidos pela Música e tenham sua origem última em Eru.

17. A separação dos Elfos provoca incompreensão e afastamento, mas também possibilita novas percepções, maior individualidade e formas de beleza que não existiriam sem essa diferenciação, conferindo à tensão entre luz e escuridão uma ambivalência constitutiva ainda não resolvida.

18. A oposição entre bem e mal não se traduz em efeitos sempre facilmente distinguíveis, pois o convite destinado a beneficiar os Elfos amplia seu acesso à luz e simultaneamente lhes impõe uma decisão, desencadeando diferenças que separam pessoas, palavras e experiências e conduzem à fragmentação progressiva da própria luminosidade.

19. O retorno dos três embaixadores que contemplaram as Árvores de Valinor desencadeia respostas divergentes ao convite dos Valar, produzindo uma divisão dos Elfos que se refletirá em suas línguas e alterando o alcance dos nomes coletivos, à medida que Eldar deixa de abranger a comunidade inteira e surgem designações que distinguem os que alcançam o reino luminoso.

20. Os Tareldar, Altos Elfos, estabelecem-se na luz de Valinor, enquanto os Avari, os Relutantes ou Recusantes, permanecem na Terra-média e desenvolvem uma fala diferenciada, preferindo a experiência conhecida das estrelas ao relato das Árvores, numa oposição entre confiança no testemunho e exigência de experiência direta interpretada como separação entre crentes e céticos.

21. A designação Calaquendi, Elfos da Luz, acrescenta ao nome original Quendi um elemento ligado ao brilhar e exprime uma distinção mais precisa entre grupos, exemplificando a passagem de uma realidade espiritual semanticamente unificada a conceitos diferenciados de pensamento e luminosidade física.

22. O elemento associado ao brilho não é aplicado arbitrariamente aos Calaquendi, mas responde à necessidade de nomear uma percepção e uma identidade novas, pois a comunidade dos falantes se divide e parte dela passa da luz distante das estrelas à claridade das Árvores, exigindo uma palavra adicional para expressar aquilo que a denominação originária já não distingue suficientemente.

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