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2 Homem

PEARCE, Joseph; MURRAY, Jef (ORGS.). Frodo’s journey: discovering the hidden meaning of The Lord of the Rings. Charlotte, North Carolina: Saint Benedict Press, 2015.

O ESPELHO DO HOMEM

1. Além de declarar O Senhor dos Anéis uma obra fundamentalmente religiosa e católica, Tolkien estabeleceu uma escala de significância na relação entre os fatos pessoais e as obras de um autor, distinguindo fatos insignificantes, mais significantes e realmente significantes e pondo no topo o fato de ser cristão, o que se pode deduzir de suas histórias, e, de fato, católico romano, citando com aparente aprovação um crítico que via nas invocações a Elbereth e na caracterização de Galadriel uma clara relação com a devoção católica a Maria e outro que via no lembas, o pão de viagem élfico, o viático e a Eucaristia, e reconhecendo, diante da perspicácia desses críticos, que coisas muito maiores podem colorir a mente ao lidar com as coisas menores de um conto de fadas.

2. Logo após afirmar a importância suprema de seu cristianismo na escala de significância, Tolkien declara-se um hobbit em tudo menos no tamanho, estabelecendo um vínculo aplicável entre os diminutos heróis da epopeia e o mundo e as pessoas fora dela, pois gosta de jardins, árvores e lavouras não mecanizadas, fuma cachimbo, aprecia comida simples e boa, não refrigerada, gosta de coletes ornamentados e ousa usá-los naqueles dias sem graça, aprecia cogumelos colhidos no campo, tem um senso de humor muito simples que até os críticos favoráveis acham cansativo, deita-se e levanta-se tarde quando possível e pouco viaja.

3. A comparação com um hobbit estabelece a conexão aplicável entre os hobbits e a humanidade e indica que esse conto de fadas, como todo bom conto de fadas, ergue um espelho diante do homem e mostra-lhe a si mesmo, sendo, porém, importante saber que espécie de homem nele se mostra, o que exige responder à pergunta fundamental sobre quem é o homem.

4. Para um cristão profundamente comprometido, o homem não é simplesmente homo sapiens, rótulo inventado apenas no início do século XIX e tornado sinônimo do homem darwiniano, mero macaco nu e o mais inteligente dos primatas, mas criatura feita à imagem de Deus de modo que o distingue radicalmente dos demais animais, havendo nele uma parte que não é Natureza e que, por isso, ela jamais satisfaz, sendo mais adequado o nome grego anthropos, aquele que se volta para cima, pois, ao contrário dos animais governados pelo instinto, o homem olha para os céus em busca de propósito e sentido além dos confortos cotidianos, e, retomando o epigrama de Wilde de que todos estamos na sarjeta, mas alguns olham as estrelas, a sarjeta simboliza o instinto natural e as estrelas o desejo sobrenatural, já que o homem contempla, enquanto o animal pasta.

5. O que o espelho mágico da Terra-média reflete não é o homo sapiens, em última instância tão escravo do instinto quanto os demais animais, mas o anthropos, que busca consolo no sol e nas estrelas, sinais da luz da graça, em eco às palavras de Samwise Gamgi de que acima de todas as sombras cavalga o sol.

6. A Terra-média reflete também o homo viator, o homem que viaja na jornada da vida, cujo propósito é chegar em casa enfrentando a aventura que a vida lhe impõe, tendo como arquétipo ocidental talvez Odisseu e, em termos cristãos, o Todo-Homem medieval, que chega ao céu por suas boas obras e com a ajuda dos sacramentos, de modo que todo homem é homo viator, cujo único propósito, propósito da alma, é atravessar a aventura da vida rumo ao céu, seu último e único verdadeiro lar, enfrentando muitos perigos e tentações pelo caminho.

7. O inimigo do homo viator é o homo superbus, o homem orgulhoso que recusa o autossacrifício exigido pela aventura da vida e procura construir um lar dentro do próprio eu, tornando-se viciado nos pecados que o prendem e encolhendo até o tamanho patético de seu eu gollumizado, e o drama da vida gira em torno dessa batalha interior entre o homo viator que cada um é chamado a ser e o homo superbus que é tentado a tornar-se, drama espelhado na Terra-média nas lutas entre altruísmo e egoísmo no coração de hobbits e homens.

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