LIVRO DA ÁRVORE E DOS QUATRO PÁSSAROS
Risalat al-ittihad al-kawni
Há uma tradução em francês feita por Denis Gril e publicada pela Deux Océans.
Trata-se segundo o prefácio de Gril de um dos tratados menores de Ibn Arabi, ainda inédito no Ocidente. Escrito em prosa rimada, segundo a preferência do autor, encanta pelo ritmo mas logo conduz o leitor à perplexidade. Pois mais do que uma forma literária atraente, é um meio de expressão simbólica e mais ainda uma espécie de linguagem cifrada, que nem sempre dispomos as chaves e a capacidade de compreender.
Esta linguagem hermética corresponde a dupla necessidade de não perturbar os iniciantes no caminho, com uma doutrina que não possam assimilar e assim não provocar condenações de autoridades exotéricas. Embora Gril confesse ainda não compreender tudo que o tratado oferece, considera seu sentido geral muito claro e seu objeto suficientemente importante para tentar a tradução.
Seu longo título resume de modo notável o plano da obra: Epístola onde se demonstra como a criatura reencontra sua unidade da qual testemunha seu ser essencial e como ela é posta em presença da Árvore humana e dos quatro pássaros espirituais. A simetria do proposto no título se apresenta nos dois poemas introdutórios consagrados à dupla natureza do homem. O tratado em seguida se divide em duas grandes partes: a realização suprema do homem e sua dimensão mais universal expressa pelos símbolos da Árvore e dos quatro Pássaros.
Os dois poemas da introdução O primeiro expressa a passagem incessante do ser para uma ou outra das duas faces de sua realidade: o essencial e o substancial; o absoluto e o relativo; a luminosidade e a obscuridade. Mas esta aparente dualidade nada mais é, no fundo, que a tomada de consciência da unidade profunda do Eu do Ser cujo ego só é um reflexo. É o que ilustra a imagem do arqueiro amoroso de si, cujo piscar de olho dispara a flecha que incendeia seu próprio coração de amor por ele mesmo. O arqueiro, sua flecha e a vítima, o amante, o amor e o amoroso, são uma realidade única.
Remetimento
Embora Ibn Arabi anuncie que se trata de uma mensagem do Eu para o eu, ele remete sua epístola, de acordo com o gênero literário da risala, para um certo Sahr Ibn Sinan, que pelos sinais de honra dados por Ibn Arabi, se apresenta como uma “homem universal” (al-insan al-kamil); expressão que no sufismo designa a perfeição, não somente humana mas universal, do ser criado à imagem de Deus, síntese de todas as possibilidades de manifestação.
Ascensão
O texto se apresenta em seguida como o relato de uma ascensão celeste que culmina pela superação dos sete céus sobre os quais velam os sete profetas. Entre o relator do relato e o musir, aquele que fala por alusão em nome da realidade essencial, se encerram uma série de diálogos onde o homem descobre progressivamente o sentido de sua dupla realidade, como criatura (kawn) e como essência (ayn). Ibn Arabi coloca aqui a questão central de toda sua obra, a da identidade. Em que o homem, aqui o Homem Universal, é semelhante a Deus ou diferente Dele? A resposta é concisa: enquanto manifesta, por sua qualidades positivas, os atributos divinos, o Homem se encontra com Deus em uma relação de similitude, mas enquanto ser, a diferença é absoluta, pois o Ser (al-wujud), só pertence a Deus. Quanto aos seres manifestos, sua realidade se destaca sobre um fundo de não-ser absoluto (adam).
Desta maneira, Ibn Arabi sugere mais do que exprime, que o Homem não pode realizar a unidade de seu ser (ittihad) sem tomar consciência de sua inexistência como tal. No segundo poema, a oscilação entre as duas dimensões complementares do ser, constitui tantas expressões possíveis da realização espiritual (tahqiq). Mais que um simples retorna à unidade, esta realização é a tomada de consciência da unidade na dualidade e reciprocamente. Tal é o segredo divino, oculto entre o “murmúrio” e “plena voz”, quer dizer entre a não-manifestação e a manifestação; segredo que o depositário não é outro que o destinatário desta missiva.
SIMBOLISMO DA ÁRVORE E DOS QUATRO PÁSSAROS
Gril (IAA4P)
Tendo alcançado o fim da perfeição por meio da realização de sua própria unidade, o Homem aparece não apenas como o fim da criação, mas também como seu princípio imediato; ele é então simbolizado pela Árvore e pelos quatro Pássaros. Estes, engendrando-se sucessivamente, são os aspectos complementares do princípio do qual procede a manifestação universal. Essa última parte, uma continuação lógica da anterior, assume a forma de um discurso (hutba) no qual cada um dos pássaros explica o significado de seu símbolo.
A Árvore: símbolo do Homem, a Árvore aparece acima de tudo em seu aspecto de universalidade (kulliya) e identidade (mitliya). “A mão do Único me plantou no jardim da eternidade”, declara. Único e atemporal, é o lugar onde encontramos o Absoluto em um instante de felicidade inalterável. Um eixo vertical e essencial, a árvore une todos os estados do ser. Em virtude de sua verticalidade, que implica horizontalidade , ela simboliza o eixo da descida divina ao Trono (hatt al-istiwa). O Trono é uma imagem da manifestação universal e da realidade intermediária entre o criado e o incriado. As raízes e os galhos da Árvore representam os mundos inferior e superior, respectivamente; as folhas, os estados paradisíacos; e os frutos, o conhecimento ligado a eles. Por meio de sua sombra, ela protege a manifestação dos raios de luz do dia, mantendo assim os seres naquela mistura de luz e sombra, a matéria prima (hayula) da qual as criaturas surgiram. Um princípio de unidade e identidade, ela também carrega em si a dualidade e a diferença, o próprio fundamento da criação. A ascensão e a queda perpétuas de seus galhos ao longo do tronco expressam o movimento alternado dos seres: para longe e para trás, a ascensão em direção a Deus e a descida das criaturas. É por isso que Ibn Arabi também a compara à Sarça Ardente de Moisés, a “Árvore da Luz e da Palavra”, onde Deus pronunciou o “Innani ana'llah” “Certamente sou Deus” (Alcorão, 20, 14). O Eu essencial, a primeira afirmação do Ser, nos leva de volta ao poema que segue imediatamente o envio, um diálogo entre o Eu divino e o Eu do conhecimento.
