DEUS E O COSMOS
SDG
Wujud e as Entidades
O cosmos é definido como “tudo o que não é Deus”, sendo a marca e o sinal que aponta para o Real, e o termo árabe para cosmos deriva da raiz de “marca”, “sinal” e “conhecimento”.
- A cosmologia é apresentada como uma ciência dos sinais (ayat) de Deus, onde cada coisa no cosmos é um sinal que significa o Real, o que é corroborado pela afirmação de que “tudo na existência engendrada é um sinal d’Ele”.
- O termo “prova” (dalil) é contrastado com “sinal”, sendo o primeiro associado ao entendimento indireto dos pensadores racionais e o segundo à cognição direta do povo do desvelamento, que percebe que “tudo o que não é Deus é um local para o fluxo das instruções do Real para eles”.
- Cada entidade no cosmos é tratada como uma palavra ou letra pronunciada por Deus no Soprar do Todo-Misericordioso, carregando um significado que é o próprio Deus, de modo que “todo o cosmos é uma palavra que veio com um significado, e seu significado é Deus”.
- A analogia do ato de casamento (nikah) é utilizada para descrever a criatividade divina, sendo este ato também uma forma de “escrita” (kitaba) que permeia cada átomo, e o cosmos é comparado a um livro inscrito que Deus dita por inspiração.
- O hadith do Tesouro Escondido é aludido para explicar que Deus criou o universo por amor a ser conhecido, e os herdeiros do Livro que provam o castigo dos amantes encontram-no doce por causa da visão dos amigos.
Eus e Horizontes
Os sinais de Deus são encontrados tanto no mundo externo (horizontes) quanto no interior dos seres humanos (em si mesmos), sendo o ser humano um microcosmo que contém os sinais do cosmos.
- A compreensão básica do versículo corânico que menciona os sinais nos horizontes e em si mesmos é que “seu significante do Real é você mesmo e o cosmos”, e o estudo da cosmologia envolve a tentativa de entender ambos os mundos.
- Os sinais habituais (como a alternância do dia e da noite) são notados apenas pelo povo de Deus, enquanto os sinais não habituais (como terremotos e eclipses) chamam a atenção das pessoas comuns, podendo ser uma dádiva ou um engano.
- O dito do Profeta “Quem conhece a si mesmo conhece o seu Senhor” é confirmado, definindo o conhecimento (ma’rifa) como o conhecimento verdadeiro de Deus através do autoconhecimento, onde a própria alma é a primeira prova ou significante d’Ele.
- No hadith qudsi sobre as obras obrigatórias e supererrogatórias, quando Deus ama Seu servo, Ele se torna sua audição e visão, expressando o mistério da proximidade divina e a ideia de que “ninguém conhece Deus senão Deus”.
Sinais, Marcas e Provas
A superioridade dos sinais sobre as provas racionais é estabelecida, pois a fé percebe com uma luz interior que não aceita escurecimento, ao contrário da razão.
- A fé é definida como um desvelamento luminoso que não aceita obfuscações, enquanto o companheiro da prova não consegue se preservar de dúvidas que diminuem sua fé, sendo considerado desprovido de fé.
- O ser humano perfeito é criado na forma de Deus, e seu conhecimento de Deus é uma fé através de luz e desvelamento, descrevendo Deus com atributos que não são aceitos pelas provas racionais.
- As flutuações dos estados no cosmos são todos sinais, e aqueles que compreendem seu significado “veem que tudo o que não é Deus é um local para o fluxo das instruções do Real para eles”.
- Cada coisa no cosmos caminha como um mensageiro com uma mensagem, até mesmo os vermes em seus movimentos, para aqueles que compreendem.
O Povo de Deus e os Gnósticos
O Povo de Deus, também conhecido como gnósticos, reconhece as coisas do universo como sinais e compreende as mensagens que eles transmitem, testemunhando os sinais de si mesmos e dos horizontes.
- Os gnósticos veem nada a não ser em Deus, pois Ele é o recipiente que tudo abrange, e Abū Bakr disse “Não vejo nada sem ver Deus antes disso”, porque a coisa procede d’Ele e Ele é a morada de todas as coisas existentes.
- O hadith “Nem Meu céu nem Minha terra Me abraçam, mas o coração de Meu servo crente Me abraça” é mencionado, indicando que o coração do servo é a morada do Real.
- O conhecimento de si mesmo é a meta primária, mas a menção corânica dos horizontes antes de si mesmos tem sabedoria, pois o cosmos é o pai do ser humano e o precede, sendo a visão dos sinais no cosmos aclaradora de que “Ele é o Real, nada mais”.
Wujud (Ser/Existência)
Wujud pertence somente a Deus, sendo idêntico ao Real, enquanto o cosmos é tudo o que não é wujud, e as coisas existentes manifestam wujud, mas são inerentemente inexistentes em si mesmas.
- Embora se possa falar do wujud das coisas em certo sentido, todo wujud é o Real, pois é uma realidade única, mas não se deve dizer “Não há nada no wujud senão Deus” porque as coisas possíveis e as criaturas são manifestas.
- O cosmos é existente através de Deus, não por si mesmo, e a pergunta “quando” o cosmos derivou seu wujud do wujud do Real é considerada absurda, pois o tempo pertence ao mundo das relações criado por Deus.
- O conhecimento real da onipresença do wujud vem pelo desvelamento, não pela razão, e o amigo escolhido de Deus não tem conhecimento prévio de Deus através da consideração racional, que vincula a visão de Deus a algo que O distingue.
- O espelho e o “espelho de parque de diversões” são usados como analogia para a automanifestação de wujud, onde a Presença da Possibilidade é o espelho e o Real é aquele que olha dentro dele, e a forma é você.
Causalidade
Deus não é considerado a “causa” do universo, pois causa e efeito são correlatos inextricáveis que se demandam mutuamente no wujud, contradizendo a independência da Essência divina.
- O Autor é definido como “Aquele que não é a causa de nada”, e chamar Deus de “Causa das causas” é considerado absurdo, pois a causa é igual ao seu efeito no wujud, o que não é o caso do Real.
- A máxima “Nada procede do Uno senão um” é frequentemente rejeitada, pois, se fosse correta, as relações e as testemunhas seriam anuladas, e não há causa que não seja um efeito.
- O termo “condição” (shart) é preferido por alguns dos Realizadores para evitar os problemas ligados ao termo “causa”, afirmando que Deus é uma condição necessária para a existência do cosmos, mas não sua causa.
- O termo “Real através do qual a Criação Ocorre” é mal-entendido por alguns como uma entidade existente, quando na verdade significa o Real pelo qual a Criação é feita, sendo a verdade, o direito e a sabedoria de Deus na criação.
O Conhecimento de Deus
O conhecimento de Deus é a raiz de todo conhecimento, e o cosmos é a exteriorização desse conhecimento, de modo que nenhum conhecimento de Deus é concebível sem o cosmos.
- Deus conhece todas as coisas em Si mesmo, e o cosmos é uma marca do conhecimento que Deus tem de Sua própria Essência, expressando Seu conhecimento através de Sua palavra criadora “Sê!”.
- O hadith qudsi do Tesouro Escondido (“Eu era um Tesouro mas não era conhecido, então amei ser conhecido”) é interpretado no sentido de que Deus ama coisas inexistentes, e Seu amor pelas criaturas é idêntico à origem de sua existência engendrada.
- A afirmação “Quem busca a Deus” é considerada uma característica do completamente ignorante, pois Deus está com a pessoa onde quer que ela esteja, e as pessoas buscam apenas sua própria felicidade, que é a repulsão das dores.
O Livro Precedente e a Fixidez
O cosmos é um livro inscrito por Deus de acordo com Seu conhecimento eterno, e cada entidade ou criatura é encontrada no texto em seu lugar próprio, imutavelmente fixa no conhecimento divino.
- O “Livro precedente” é o pré-conhecimento de Deus do que entra no wujud, e ele exerce sua propriedade governante sobre todos, de modo que “nada muda o veredito”, e Deus não é temido senão por eventos que chegam novamente d’Ele.
- O hadith sobre o homem que faz as ações do povo do Jardim, mas o Livro o precede e ele faz as ações do povo do Fogo, é citado para mostrar que as ações são julgadas apenas pelas conclusões, que seguem a propriedade governante dos precedentes.
- A distinção entre o estado de inexistência (fixidez) e o estado de wujud é crucial: as entidades são essencialmente inexistentes, mas existem através do Real, e Deus as cria do pó, da gota de esperma e do coágulo, de um wujud para um wujud, não de uma inexistência para um wujud.
A Forma de Deus
O famoso hadith “Deus criou Adão em Sua forma” é interpretado no sentido de que o cosmos é uma vasta coleção de formas que manifestam as entidades fixas, e tudo no cosmos pode ser visto como uma forma do Real.
- A forma é tudo o que se manifesta e pode ser distinguido, enquanto a entidade fixa é eternamente ausente, e a manifestação pertence às formas, não à entidade.
- Somente os seres humanos, e especificamente os seres humanos perfeitos, manifestam a forma de Deus em todo o seu esplendor, pois trazem juntas todas as realidades do cosmos.
- Deus criou o cosmos no limite máximo da boa feitura e da sã ordenação, e não há nada na possibilidade mais maravilhoso do que este cosmos, que é a beleza de Deus.
- Deus é descrito com atributos que os pensadores considerativos consideram verdadeiros para a criação, mas metafóricos para Deus, como fome, sede, doença, mão, olho e braço.
As Entidades Inexistentes
As entidades são essencialmente inexistentes, mas adquirem wujud de Deus, sendo “Ele/não Ele” – o mesmo que wujud e outro que não wujud ao mesmo tempo.
- A inexistência pode ser dividida em absoluta (que não tem nenhum modo de existência) e relativa (a situação das coisas possíveis, inexistentes em relação ao Wujud Real, mas existentes em relação à inexistência absoluta).
- Embora as coisas não tenham wujud próprio, elas existem como entidades fixas conhecidas por Deus, e Ele as traz do wujud em Seu conhecimento para o wujud no cosmos.
- A “nuvem” é o Soprar do Todo-Misericordioso, e nada foi criado de uma inexistência cujo wujud é impossível; as coisas se tornaram manifestas em entidades fixas, de uma inexistência e de sua inexistência.
- A Automanifestação nunca se repete, e a percepção da mudança constante no ser humano está localizada no coração (qalb), que vem da mesma raiz que “flutuação”.
Do Capítulo 73: A Centésima Terceira Pergunta
A incompreensibilidade de Deus é conectada à questão do wujud através do hadith qudsi “A exaltação é meu tapa-sexo”, onde a exaltação impede as faculdades racionais de perceber como as entidades recebem a doação de existência.
- O Real abençoou Seus servos ao descer para golpear semelhanças para eles, colocando-Se na posição de alguém que recebe qualificação por um tapa-sexo, que serve para três coisas: adornamento, proteção e cortinamento.
- A exaltação é proibida por sua inatingibilidade, e a humilhação contradiz a exaltação, de modo que, quando o Real vestiu o tapa-sexo da exaltação, as faculdades racionais foram impedidas de perceber a recepção da doação de existência pelas entidades.
- Deus relata que é disputado em atributos como exaltação, magnificência e grandeza, que são apropriados apenas para Ele, e a exaltação é a força subjugadora que impede a percepção do mistério através do qual o cosmos se manifesta.
A Criação e a Automanifestação (Tajalli)
Dizer que Deus “cria” o universo significa que Ele Se manifesta nas formas chamadas “criaturas”, e tudo no universo é a automanifestação de Deus, pois tudo exibe wujud e os traços de Seus nomes.
- O termo criação (khalq) tem dois significados básicos: determinar (dar medida a algo) e dar existência a algo, sendo o primeiro compartilhado com as pessoas e o segundo exclusivo de Deus.
- O versículo em que Moisés pede para ver Deus (“Mostra-Te a mim, para que eu Te contemple!”) é frequentemente discutido, e os Sufis o veem como uma prova de que Deus pode ser visto neste mundo através da automanifestação.
- Deus não Se manifesta no nome “Um” (al-ahad) nem no nome “Deus”, mas a automanifestação ocorre nos outros nomes, e as propriedades que aparecem nas coisas criadas remontam aos atributos divinos.
- A automanifestação é sempre confinada e constrangida pela forma ou significado no qual ocorre, e somente o wujud em si mesmo é ilimitado, enquanto qualquer outra coisa é para sempre limitada.
Renovação Ininterrupta
A criação é constantemente renovada a cada instante em tudo o que não é Deus, e o cosmos passa por uma incessante afirmação de wujud seguida por sua imediata negação.
- O versículo “Na verdade, eles estão em dúvida sobre uma nova criação” (50:15) é lido como uma alusão à constante e interminável doação de wujud às coisas possíveis neste mundo.
- O cosmos é comparado à “imaginação” (khayal), um fluxo interminável de formas que fornece uma nova imagem do wujud a cada momento, sendo “o sonho do Real” ou a “Imaginação Ilimitada”.
- O “Vazio” (al-khala) é uma extensão imaginada que não está dentro de um corpo, contrastando com o “plenum” (mala’) que o preenche, e o cosmos nunca cessa de sofrer transmutação (istihala) perpetuamente.
- Os seres humanos, enquanto dormem, podem ver a si mesmos no Jardim ou na ressurreição, sendo transmutados dentro de si mesmos em formas familiares ou desconhecidas, experimentando prazer ou dor.
Do Capítulo 369: A Dispensa das Luzes
Os corpos naturais são as dispensa das luzes através das quais sua existência engendrada é iluminada, e o fogo está escondido nas pedras, assim como o Real está escondido dentro da criação.
- O Mensageiro de Deus suplicou “Ó Deus, coloque em minha audição uma luz, em minha visão uma luz, em meu cabelo uma luz”, buscando testemunhar aquilo que ele percebia através da fé e da razão.
- Aquele que bate o sílex da criação com o pensamento reflexivo faz a luz do Real se manifestar, pois “Quem conhece a si mesmo conhece o seu Senhor”.
- Deus é descrito como a Luz dos céus e da terra, e as visões não O percebem porque Ele é luz, e a luz só pode ser percebida através da luz, então Ele é percebido apenas através d’Ele mesmo.
- O golpe de semelhanças é feito para transmitir conhecimento, e através dele se sabe que, no limite máximo da distância d’Ele, também se habita no limite máximo da proximidade.
Infinitude
Wujud é infinito em si mesmo, mas é impossível para o infinito entrar no wujud delimitado e limitado que é o cosmos, e as entidades fixas são infinitas em sua inexistência.
- O versículo “Cada dia Ele está em alguma tarefa” (55:29) é visto como uma referência à infinitude do wujud e à renovação interminável da automanifestação, onde o “dia” é a Essência e o momento presente.
Embora o poder se conecte a coisas possíveis infinitas, o conhecimento tem um compasso maior, pois se conecta ao poder, às coisas possíveis, necessárias, impossíveis e engendradas.
- Os gnósticos nunca podem se satisfazer com nenhuma coisa criada, seguindo o Profeta que foi instruído a rezar “Meu Senhor, aumenta-me em conhecimento!” (20:114), buscando constantemente o aumento.
- O bem e a bênção que o Real dá neste mundo e no outro são pequenos em relação ao que está n’Ele, pois o que está n’Ele não tem fim, mas tudo o que se ganha é finito por estar ali no wujud.
A Entidade Una
Embora o cosmos seja uma multiplicidade, ele remonta a uma Entidade Una (‘ayn wahida), e a diversidade de propriedades que aparece no cosmos pertence à multiplicidade das coisas, não à unicidade da Entidade.
- O Real desce em Seu discurso ao entendimento daqueles a quem se dirige, e todo o Seu discurso é a verdade (haqq), mesmo que seja contraditório, pois há uma Entidade Una que reúne tudo.
- A analogia entre Adão e seus filhos é usada para ilustrar a relação entre a Entidade Una e as coisas criadas: Eva é idêntica a Adão, pois é idêntica à sua costela, assim como todo o cosmos procedeu de um só Deus.
- Os nomes divinos são relações que são apreendidas assim que se vê que há uma Entidade Una e muitas entidades, pertencendo os atributos às coisas porque só podem ser conceituados em termos dos limites assumidos pelo wujud.
- O ser humano é um grande transgressor (wrongdoer) na medida em que usurpa atributos divinos para si mesmo em realidade, e deve devolver a confiança ao seu Dono para eliminar o atributo da transgressão e da ignorância de si mesmo.
Do Capítulo 360: A Nona Deputação
O ser humano possui todos os atributos que possui apenas na medida em que é o vice-regente (khalifa) de Deus, e Deus confiou certos assuntos aos seres humanos, esperando que ajam de acordo.
- A primeira chave através da qual a abertura ocorre é a chave para o domínio ausente do ser humano perfeito, que é a sombra de Deus em tudo o que não é Deus.
- O ser humano perfeito é a coisa engendrada abrangente, singularizada pela abrangência do Soprar do Todo-Misericordioso, e ele tem dez deputações, uma para cada uma das dez categorias de Aristóteles.
- A nona deputação é a manifestação no barzakh inteligível entre as duas semelhanças, que é a separação entre o Real e o ser humano perfeito, necessitando a distinção do Real da criação.
- A criação é distinguida do Real através do Real, e o Real não é distinguido da criação através da criação, pois a criação está vestida nas descrições do Real, mas o Real não está vestido com a criação.
Do Capítulo 198: O Vigésimo Primeiro Tawhid
A unidade (tawhid) do Real, que é a unidade do “Ele”, é explicada através do versículo “Então exaltado é Deus, o Rei, o Real! Não há deus senão Ele, o Senhor do Trono Nobre” (23:116).
- O assunto dentro do qual o wujud do cosmos se tornou manifesto é o Real, e Ele se tornou manifesto apenas no Soprar do Todo-Misericordioso, que é a Nuvem.
- A raiz dentro da qual as formas do cosmos se manifestam abrange tudo no mundo dos corpos corpóreos, e é como um recipiente do qual aparece o wujud de tudo o que ele encerra.
- Deus declara a unidade do Real através do qual a Criação Ocorre, apesar de ele proceder d’Ele, e as pessoas ficam perplexas porque Ele o pluraliza, pois não há nada senão Ele.
- É dito que a madeira (do Soprar) não se pluralizou, embora as formas se tenham pluralizado, e a realidade da madeira permaneceu em cada forma sem se dividir, de modo que se diz “Não há nada lá”.
O Fim de Tudo e o Rosto de Deus
O versículo “Toda coisa é perecível, exceto o Seu rosto” (28:88) é lido de duas maneiras: ou significa que só Deus tem wujud e todas as coisas habitam na inexistência, ou que todas as coisas perecem, mas seus rostos (suas realidades, entidades fixas conhecidas por Deus) nunca perecem.
- O rosto de uma coisa é sua essência e realidade, e Deus tem um rosto específico voltado para cada coisa para dar-lhe existência, sendo este rosto idêntico ao rosto específico da coisa que está voltado apenas para o wujud.
- O rosto de Deus não pode ser conhecido, pois a realidade de Deus é Sua Essência, que está além do conhecimento humano, mas o rosto que se encontra e se reconhece é a automanifestação de Deus, o “deus da crença”.
- O versículo “Onde quer que vos vireis, lá está o rosto de Deus” (2:115) indica que o rosto divino que se vê nas coisas é função da imaginação, que percebe em termos de semelhança (tashbih), enquanto a razão percebe da perspectiva da incomparabilidade (tanzih).
- O caminho da segurança (salama) para o entendimento racional, quando confrontado com declarações corânicas sobre a presença de Deus nas coisas, é aceitar a palavra de Deus e não tentar “interpretar” (ta’wil) o texto de acordo com a própria incapacidade.
Realização (Tahqiq)
A realização é a estação que não aceita obfuscação detratora, sendo o conhecimento verdadeiro da verdade (haqq) exigida pela essência de cada coisa, e o Realizador vê o rosto de Deus em tudo.
- O Realizador sabe que não há erro no wujud, pois Deus colocou cada coisa em seu lugar, mas ele pode saber que ele mesmo está em erro em relação ao que lhe foi ordenado fazer, ganhando um salário em seu erro como um mujtahid.
- Uma pré-condição para o companheiro desta estação é que o Real seja sua audição, sua visão, sua mão e sua perna, de modo que ele tem atividade livre apenas através de uma verdade, em uma verdade e para uma verdade.
- A marca do companheiro desta estação é que, para ele, em tudo o que é chamado de “erro” no wujud, há um rosto voltado para o Real, e ele o conhece e o dará a conhecer a quem perguntar.
- O Realizador dá ao irreal o que lhe é devido e não o leva para além de seu local, e uma pessoa com esta descrição é o Imã Claro e o local de manifestação para os mundos.
O Véu (Hijab)
Um véu é algo que impede de ver o rosto, e tudo no cosmos é um véu, mas na medida em que tudo manifesta wujud, tudo é idêntico ao Seu rosto.
- O véu é uma misericórdia divina abrangente para as pessoas comuns, por causa da oposição aos Seus comandos que Ele determinou para elas, pois elas não têm escapatória das manchas da oposição.
- O véu não é nada além de semelhança e similitude mútuas, e, se não fosse por isso, ninguém permaneceria incerto sobre a nova criação que pertence a Deus no cosmos a cada sopro.
- As criaturas são véus umas sobre as outras, e todo o wujud é um véu, algo velado e algo que vela, sendo os véus tão inescapáveis quanto o próprio ser humano (“não há escapatória do véu, pois não há escapatória de você”).
- Deus fala por trás dos véus em uma diversidade de modos, e a maior parte das coisas que impedem as pessoas de reconhecer o rosto de Deus em si mesmas são traços de caráter censuráveis, que obscurecem o espelho do coração.
O Rosto Específico (al-Wajh al-Khass)
Toda coisa criada tem dois rostos: um voltado para as ocasiões (causas secundárias) e outro voltado para o Real (wujud), sendo este último o “rosto específico” através do qual Deus lhe dá existência e que nunca perece.
- O rosto específico é a própria essência e realidade de uma coisa, e, do ponto de vista deste rosto, não há intermediários entre Deus e a coisa, e a coisa é pobre e necessitada apenas de Deus.
- A doutrina do rosto específico permite afirmar e negar a causalidade, reconhecendo a legitimidade das perspectivas filosófica e ash’ari, onde a primeira é dominada pela visão da multiplicidade (não Ele) e a segunda pela visão da unicidade do wujud (Ele).
- O conhecimento possuído por todas as coisas no cosmos, através do qual glorificam a Deus, é recebido através do rosto específico, e os gnósticos que atingem a estação de ver as coisas por meio de seus próprios rostos específicos recebem conhecimento de Deus sem intermediários.
- A “especificação” (ikhtisas) é o ato de Deus de escolher para Sua misericórdia quem Ele quer, e os “Solteiros” (afrād), tipificados por Khadir, recebem conhecimento diretamente do rosto específico, fora de qualquer cadeia de intermediários.
As Glórias (Subuhat)
As glórias são as luzes do rosto de Deus que queimam tudo o que a visão de Suas criaturas percebe, e elas se relacionam primariamente com a incomparabilidade, majestade e ira divinas.
- As cortinas podem ser descidas por misericórdia para com aqueles sobre quem são descidas, para que as criaturas subsistam e não sejam queimadas pelas glórias faciais.
- As glórias do rosto são os raios da Essência; quando são desdobradas, as entidades das coisas possíveis se manifestam, tornando-se o véu entre nós e as glórias.
- O hadith das glórias menciona véus de luz e escuridão, que podem ser entendidos como referências aos dois rostos de cada coisa: luminoso na medida em que manifesta wujud e escuro na medida em que exibe sua própria inexistência.
- O versículo “Deus é a luz dos céus e da terra” (24:35) é usado para distinguir entre a luz que é o próprio Deus (luz ontológica) e a luz atribuída às criaturas (luz do conhecimento e das boas obras, associada à felicidade e à orientação).
