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CAABA DE ABRAÃO E ISMAEL

GILIS, Charles-André. La doctrine initiatique du pèlerinage. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1994.

A ação conjunta dos dois profetas no âmbito da reconstrução da Caaba se situa no mundo intermediário.

  • Michel Vâlsan observou que as diferentes “moradas” e “mudanças de tamanho” de Adão são representações simbólicas de um processo biológico e espiritual concernente a uma humanidade nas fases de seu desenvolvimento cíclico.
  • A marcha do peregrino Adão da Índia para Meca pode ser interpretada como a de uma entidade de “espécie” ou de um agregado intelectual que pode corresponder historicamente a povos e correntes espirituais.
  • O que é dito na história do próprio Abraão será compreendido da mesma maneira, recordando o caráter “representativo” de Abraão.
  • Foi verificado um preciso relacionamento de polaridade e complementaridade entre dois correntes “étnico-tradicionais”, correspondendo, de um lado, ao Hinduísmo, representado tipologicamente por Abraão, e, de outro, ao Islã, representado sob esse aspecto por Ismael, chamado justamente de “o pai dos árabes”.

O duplo sentido etimológico do nome Ismael (Ismâ’il) está ligado à corrida de Hagar entre as colinas de Safâ e Marwa, sendo o protótipo do ritual da “corrida sétupla” realizado pelos peregrinos.

  • O texto de Thalab relata que, quando Hagar e seu filho ficaram sem água, ela subiu na colina de Safá “procurando ouvir uma voz ou perceber um ser humano, mas não ouviu nem viu ninguém”.
  • Ela desceu ao vale, temendo por seu filho, e então ouviu uma voz vinda de Marwa, começando a correr nessa direção, sendo a primeira a fazer a corrida entre Safá e Marwa.
  • Ao subir a colina, ela ouviu uma voz e se encontrou em um estado comparável ao do homem que se recusa a crer no que ouve em seu sonho até que desperte.
  • Ela começou a invocar: “Escuta, El!” (em árabe: isma’ I’ll!), dizendo: “Tu acabas de me fazer ouvir a Tua voz. Vem em meu socorro, pois pereço, assim como aquele que está comigo”.
  • O versículo da Gênese (XXI, 17) relata que Elohim ouviu a voz da criança e o anjo de Elohim chamou Hagar do alto do céu, dizendo: “Não temas, pois Elohim ouviu a voz da criança no lugar onde ela se encontra!”.

O sentido de “ouvir” refere-se não apenas ao atributo divino de “escutar”, mas principalmente ao de “atender” e, portanto, de “responder”, podendo ser compreendido no sentido geral de “satisfazer” ou no sentido mais especificamente oracular de “responder elocutivamente”.

  • A referência ao “lugar onde se encontrava a criança” faz compreender que a “resposta” divina teve um suporte sensível e exterior, um local que deveria guardar o traço do evento.
  • Um tal lugar, sendo um ponto de influxo celeste, poderia tornar-se também um centro sagrado, o centro da nova forma tradicional que deveria proceder de Ismael.
  • Essa perspectiva é aberta pelas palavras divinas dirigidas a Abraão: “Ismael… gerará doze Príncipes” e “Eu farei dele uma grande nação”, anunciando um centro espiritual com sua comunidade tradicional.
  • A instituição propriamente dita do centro dessa nova tradição se fará mais tarde sob a direção de Abraão, com pai e filho reunidos de forma muito característica na construção da Caaba, símbolo islâmico do Centro do Mundo.
  • Essa instituição foi, antes, a restauração adaptada do templo original que Adão havia fundado após sua saída do Paraíso terrestre.

A Caaba de Abraão e Ismael não é de origem celeste como a de Adão, e sua construção expressa um simbolismo conjuntivo, prefigurado pelo encontro de Adão e Eva em Meca após a queda.

  • A reunião de Adão e Eva se dá não em Meca, mas em Arafa, cujo simbolismo se relaciona aos aspectos informais e metafísicos da Tradição, sendo estranha à restauração de um culto junto ao Templo mecano, uma vez que Eva permanece sob o efeito de uma sanção divina que lhe proíbe todo acesso à Casa de Allah.
  • Na intervenção conjunta de Abraão e Ismael para a reconstrução da Caaba, o patriarca representa a Tradição primordial e a Sabedoria imutável, assegurando uma função ativa na construção, enquanto o papel de Ismael é relativamente passivo e subordinado ao de seu pai.
  • O socorro divino, como no caso de Adão, manifesta-se após um estado de provação e angústia, expresso formalmente pelo simbolismo de Safá e Marwa, mas em contraste completo com a situação de Eva na época primordial, é uma santa mulher, Hagar, cuja intercessão e súplica são determinantes para a atualização desse socorro e a fundação subsequente de um novo centro.

Esse ponto marca uma fundamental “mudança de perspectiva”, correspondendo a uma certa predominância do ponto de vista cosmológico e, consequentemente, também da casta dos Kshatriyas, explicando a importância crescente das considerações de ordem formal.

  • Desta vez, é em Meca, e não em Arafa, que a conjunção se opera, em vista da construção de um templo feito de pedras grosseiras, significando que é no domínio das formas que o encontro se realiza.
  • A reunião dos dois nūn que figuram esse encontro se opera no “mundo intermediário”, domínio da forma sutil do homem.
  • O “califado supremo” será representado não mais pela Montanha polar e pela reconstituição do Andrógino primordial, mas pelo “círculo com o ponto no centro, figura do ciclo completo, que é ao mesmo tempo o símbolo do Sol na ordem astrológica e o da ordem alquímica”.
  • A reconstrução da Caaba por Abraão e Ismael corresponde a um período cíclico consecutivo à “revolta dos Kshatriyas”, onde o simbolismo solar já está substituído ao simbolismo polar, sendo muito significativo que a palavra shams, que designa o sol em árabe, seja do gênero feminino.

A fundação de Nínive e do império assírio por Ninrode é efetivamente o fato de uma revolta dos Kshatriyas contra a autoridade da casta sacerdotal caldeia.

  • As tradições islâmicas confirmam inteiramente esse ponto de vista, pois toda a primeira parte da missão tradicional de Abraão está ligada a uma afirmação da autoridade espiritual pura face às pretensões ilegítimas de Ninrode.
  • A reconstrução da Caaba de Meca aparece como típica de uma readaptação dos suportes do culto operada pela autoridade sacerdotal e destinada às necessidades espirituais de uma época já dominada pela casta real, estando ela mesma ligada à fundação das formas tradicionais de tipo religioso, que reconhecem em Abraão seu ponto de origem comum.
  • O texto de Tha’labi qualifica Abraão de ‘abrani (“hebreu”) e Ismael de ‘arabî (“árabe”), termos provenientes de duas raízes cujas letras são simplesmente permutadas, sendo essas raízes análogas às que estão na origem das palavras eber e ereb que designam o Ocidente tradicional, cujo significado corresponde à revolta dos Kshatriyas.
  • A readaptação deve ser considerada pós-diluviana, pois a intervenção de Abraão na história sagrada se situa sempre após a de Noé, e a constituição das diferentes formas tradicionais próprias à última parte do Manvantara ocorre após o desaparecimento da Atlântida, ao qual corresponde o dilúvio bíblico.

Na reconstrução da Caaba nesse momento cíclico, verifica-se um verdadeiro “intercâmbio de atributos” entre Abraão e Ismael, comparável aos mencionados por Guénon na Grande Tríade.

  • Tha’labi faz referência a esse ponto ao precisar que “o Altíssimo inspirou a cada um deles a língua do outro”.
  • Ismael representa mais especialmente o “Verbo proferido”, e o sentido de seu nome evoca a Audição divina tanto sob o aspecto do “apelo” dirigido a Deus quanto sob o da “resposta” que provém d’Ele.
  • A du’â (súplica ou “demanda”) é um rito onde esses aspectos estão juntos, sendo ao mesmo tempo uma invocação e uma convocação da Graça divina, pois Allah afirma que Ele “responde ao apelo daquele que O chama, quando ele O chama” (Cor., 2, 186).
  • A du’â aparece pela primeira vez no Alcorão a propósito da reconstrução da Caaba (“Nosso Senhor, aceita isto de nossa parte! Em verdade, Tu és Aquele que ouve, o Onisciente…”, Cor., 2, 127), sendo comum a Abraão e Ismael, mas aparece em seguida como um atributo característico não de Ismael, mas de Abraão, explicando-se por um intercâmbio de atributos.
  • Quando Allah ordena a Abraão que lance aos homens, em alta voz, um apelo universal para que façam a peregrinação, Abraão pergunta: “Ó Senhor, o que estenderá o alcance da minha voz?”, e Allah responde: “Cabe a ti fazer o apelo e a Mim comunicá-lo”, constituindo uma referência à função divina, “ismaélita” em princípio, de “fazer ouvir”.

O outro termo do intercâmbio diz respeito à noção de “forma universal” aplicável ao Islã, que, como Arca do fim do ciclo, contém todos os elementos que servirão para a restauração do mundo e os germes de seu estado futuro.

  • O Islã possui uma legislação sagrada precisa que reconhece a legitimidade das outras religiões ou vias tradicionais, atribuindo-lhes um estatuto particular em relação a ele.
  • No caso de Ismael, há que se considerar apenas a eleição de um povo e de uma língua particular destinada a tornar-se o órgão e o veículo de uma revelação universal.
  • A Caaba de Abraão e Ismael aparece fundamentalmente como a manifestação sensível dessa eleição e como o penhor da aliança divina, sendo uma forma particular tomada pelo Tâbât primordial.

O papel da Sakina é decisivo nos dados islâmicos referentes à construção do novo Templo, sendo ela um “suporte sensível e exterior” da resposta divina.

  • Uma tradição que remonta ao califa Alî, na versão de Tha’labi, relata que Allah ordenou a Abraão: “Constrói-Me uma casa sobre a terra!”, e Abraão não sabia como executar essa ordem, então Allah lhe enviou a Sakina, um vento turbilhonante dotado de duas cabeças que se enrolou no local da Casa em forma de disco.
  • Em outra versão, a Sakina é comparada a “uma nuvem tendo no meio como uma espécie de cabeça”, e ela fala, dizendo a Abraão: “Toma, sobre o solo, o que corresponde à minha medida, não acrescentes nem retires nada!”, ou “Constrói sobre mim!”.
  • Muitas tradições descrevem a Sakina como dotada de fala, e Michel Vâlsan precisou que a resposta divina teve “um suporte sensível e exterior”, um local que deveria guardar o traço do evento, podendo tornar-se um centro sagrado.
  • Nos dados islâmicos relativos à reconstrução do Templo de Meca, a Sakina aparece como um aspecto complementar, especificamente abraâmico, da resposta feita a Ismael e sua mãe, realizando no plano técnico e operativo a promessa que lhes havia sido feita.

O caráter operativo da Sakina está ligado à “grande potência” que a acompanha, e as tradições acrescentam que “nenhum beduíno dominador nem opressor penetra no Templo sem que vejas nele a Sakina”, sendo os “beduínos dominadores” e “opressores” uma representação tipológica dos “Kshatriyas revoltados”.

  • A Sakina aparece como uma manifestação circunstanciada da Paz divina, identificando-se, com relação aos homens, à “força pacificadora” que exerce sua ação por meio das duas funções complementares de “Rigor” e “Misericórdia”.
  • Trata-se do “poder único em sua essência e duplo em sua manifestação” que Guénon mencionou, ligando-o ao símbolo das “duas serpentes do caduceu hermético”.
  • Algumas descrições islâmicas precisam que a Sakina “se enrolou sobre as fundações do Templo primitivo à maneira de uma serpente”, e Guénon, em seu artigo sobre Set, considerou as duas serpentes do caduceu como uma figura dos “dois Sets”, mostrando um vínculo direto entre o “poder” em questão e o espírito “nimrodiano” que marca a revolta da casta dos Kshatriyas.
  • O exercício desse poder corresponde à fundação ou restauração de um Santo Império representado, neste caso, pela Caaba de Abraão, cuja forma visível foi “ordenada” e “medida” para esse fim pela própria Sakina.
  • Guénon aludiu também ao “casal fraterno” Fo-hi e Niu-Koua, que são representados com um corpo de serpente e cabeça humana, com as serpentes enlaçadas como as do caduceu, sendo Fo-hi quem está na origem da organização tradicional do Império chinês e a quem pertence “medir a Terra”.

Nos mesmos relatos islâmicos sobre a reconstrução da Caaba por Abraão, diz-se que “Abraão tomou posse da Casa sagrada como a aranha toma posse da sua”.

  • A aranha, mantendo-se no centro de sua teia, dá a imagem do sol cercado de seus raios, imagem que é também a da organização “ritual” do cosmos ou, com relação a um estado determinado de existência, da “medida” de sua manifestação.
  • A aranha no centro de sua teia é uma figura do Arquiteto divino.
  • Guénon indicou a conexão existente, na ordem iniciática, entre a arte de construir e Abraão, mencionando que o Nome divino invocado mais particularmente por Abraão foi sempre conservado pela Maçonaria operativa, e essa conexão está em relação direta com a edificação da Caaba.

Na versão de Tirmidhî sobre a construção, Abraão envia Ismael buscar uma pedra para colocar no lugar do Ângulo da Pedra Negra, mas o monte Abû Qubays, que era então uma montanha do Khorassan, pede permissão a Allah para entregar o depósito a Abraão.

  • Abû Qubays disse: “Ó Amigo íntimo de Allah, eu encerro um depósito que te é destinado. É uma pedra que teu antepassado Noé me confiou no momento do dilúvio”.
  • Abraão disse “Dá-la!”, e o monte lhe entregou a Pedra Negra, que Abraão colocou no lugar vazio, encaixando-se perfeitamente.
  • Quando Ismael voltou, carregando uma pedra que encontrara com dificuldade, viu que a Pedra Negra havia sido colocada em seu lugar e perguntou: “Donde obtiveste isso?”, ao que Abraão respondeu: “Aquele que ma deu não me pôs a ti como encargo”.
  • A Pedra Negra aparece como a Pedra Angular do novo edifício e como o sinal visível da aliança divina, tendo sido confiada por Noé, no momento do dilúvio, a “uma montanha do Khorassan”, com outros relatos precisando que o retorno da Pedra Negra a Meca se efetuou “a partir da Índia”.

Abraão não representa apenas o Hinduísmo, mas também uma adaptação da Doutrina imutável a novas condições cíclicas concernentes à humanidade tradicional em seu conjunto, sendo dito no Alcorão que Allah estabeleceu o Patriarca como “o Imã para os homens”.

  • A “Índia” mencionada deve ser entendida como o ponto de origem da antiga tradição iraniana, e o texto citado menciona o Khorassan, uma região mediana entre a Índia e o Irã.
  • A língua árabe fornece uma indicação interessante, pois a palavra que designa a arquitetura é hindesa, de origem persa, e seu emprego para designar a arquitetura deriva de um sentido primeiro que comporta a ideia de “medida”.
  • O “arquiteto” deve ser entendido em uma acepção propriamente iniciática onde a ideia de medida se refere antes de tudo à produção e definição do universo manifestado e à organização “ritual” do cosmos.
  • No caso de Abraão, essa organização estava ligada a uma adaptação nova dos ritos da peregrinação, de modo que a “arte de construir” tinha por objeto a constituição da própria forma ritual.

Um aspecto mais diferenciado dos ritos parece poder ser considerado como remontando especificamente a Abraão, sendo designado no Alcorão pelo termo manâsik (“ritos sacrificiais” no sentido lato), que aparece na du’â comum de Abraão e Ismael no momento da reconstrução da Caaba (Cor., 2, 128): “… Nosso Senhor, torna-nos submissos a Ti e, de nossa descendência, faze uma comunidade submissa a Ti! Mostra-nos também nossos ritos sacrificiais (manâsikanâ), e volta a nós! Em verdade, Tu és aquele que sempre retorna, o Misericordiosíssimo!…”

  • A Sakina é verdadeiramente a “Shakti” do patriarca, tomando uma forma ao mesmo tempo serpentina e polarizada, correspondendo a um aspecto mais diferenciado do ciclo humano na função de Abraão com relação à restauração do culto mecano.
  • A primeira parte da Ascensão noturna do Profeta, onde ele tem como montaria al-Burâq, corresponde a esse mesmo aspecto em um sentido ascendente.
  • O conjunto das tradições islâmicas confirma que é efetivamente no domínio “intermediário” que se situa a ação conjunta dos dois profetas que intervêm na reconstrução da Caaba.

Abraão construiu a Caaba com pedras provenientes de sete montagens, que lhe foram trazidas por Anjos, e essas montagens têm alguma relação com a história sagrada, conferindo à obra de reconstrução um caráter de “síntese” tradicional.

  • É sempre e unicamente no domínio intermediário que podem ocorrer desvios e abusos quando a Doutrina única e imutável é perdida de vista, ou seja, quando a predominância dos elementos formais acarreta a dispersão, o compartimentamento e, por fim, a “desorientação” das formas tradicionais.
  • Daí a necessidade de construir, no ponto central de nosso mundo e sobre o plano formal, um “Templo” de vocação universal, que aparece como um símbolo anunciador da “Arca” destinada a reunir e integrar no último período do presente ciclo humano o conjunto das forças tradicionais que ainda subsistirão.
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