EXEGESE ESOTÉRICA SUFI
CECQ
O comentário anagógico dos textos sagrados não é próprio nem do movimento sufi nem do Islã em geral — Fílon de Alexandria (morto por volta de 50 d.C.) é considerado seu primeiro grande representante, e sua abordagem e seus temas se difundiram amplamente entre os teólogos cristãos dos primeiros séculos.
- Esse modo de exegese anagógica penetrou relativamente cedo no clima espiritual muçulmano, sobretudo nos meios xiitas e em particular em suas ramificações ismaelitas.
- Henry Corbin sublinhou abundantemente em toda a sua obra que essa ciência hermenêutica, desenvolvida nos meios imamitas, fecundou o esforço de interpretação do Alcorão para além do xiismo, tanto entre os Falasifa quanto entre os Sufis.
- A exegese esotérica sufi do Alcorão distingue-se da xiita por ser desprovida de preocupações apologéticas ou políticas, e da dos Falasifa por conferir papel secundário às considerações filosóficas — mesmo nos comentários tardios de tendências intelectuais e doutrinárias, como o de Qashani.
A exegese sufi do Alcorão repousa sobre duas ideias fundamentais — a primeira é a polaridade zahir-batin, expressa pelo célebre hadith: “O Alcorão tem um sentido exotérico (zahr) e um sentido esotérico (batn); esse sentido esotérico tem um sentido esotérico, e assim até sete sentidos esotéricos.”
- A cada sentido exterior do Alcorão corresponde, para o Sufi, um ou vários sentidos interiores expressos em modo simbólico — existindo uma gradação, um escalonamento interior de sentidos espirituais para além do sentido exterior aparente.
- Ao contrário de certas correntes esotéricas à margem da ortodoxia, os Sufis não consideram o sentido exterior dos versículos corânicos negligenciável para os espirituais iniciados nos sentidos interiores — ao contrário, esforçam-se por aprofundá-lo e revelar a densidade espiritual que ele contém em seu nível primeiro, ou seja, metafísico.
- É esse o sentido do verbo awwala do qual deriva o substantivo ta'wil — “reconduzir o versículo ao seu sentido primeiro” — aplicável a todo versículo do Alcorão, mesmo àqueles cujo sentido aparente não oferece nenhuma dificuldade de compreensão.
- No vocabulário sufi, o ta'wil 'aqli passa a ser considerado um simples gênero de tafsir — representando um importante deslocamento terminológico em relação ao uso corrente.
- Qashani cita um hadith análogo ao dos sete sentidos esotéricos: “Nenhum versículo do Alcorão desceu que não tenha um 'dorso' e um 'ventre'; toda letra tem um limite e todo limite tem um ponto de ascensão.”
- Qashani interpreta esse hadith: o “dorso” designa a explicação exotérica (tafsir) e o “ventre” a interpretação esotérica (ta'wil); o “limite” é o ponto extremo ao qual pode chegar a compreensão do sentido verbal; o “ponto de ascensão” é o nível contemplativo onde se sobe para contemplar o Rei Muito-Sábio.
A segunda ideia fundamental que distingue a exegese sufi é seu fundamento na realização espiritual — experiência vivida e apresentada como uma intuição intelectual imediata que impõe ao leitor sufi do Alcorão os sentidos espirituais virtualmente contidos na formulação exterior dos versículos.
- Qashani descreve o itinerário espiritual que o levou a redigir seu comentário corânico: após longa aplicação à recitação e à meditação do Alcorão com a força da fé — mas com o peito apertado e o coração perturbado sem encontrar apaziguamento —, habituou-se às recitações, provou a doçura de sua taça, sentiu a alma revigorada, o peito distendido, a consciência alargada, o coração dilatado e o segredo (sirr) florescendo; e sob cada versículo se lhe descobriam sentidos interiores inefáveis que ele era simultaneamente incapaz de formular com exatidão e incapaz de deixar de divulgar.
- O desvelamento intuitivo (kashf) pode ser comparado a uma percepção tão direta e imediata quanto, analogicamente, a visão e a audição — sua possibilidade é fundada pelos Sufis na co-naturalidade entre o espírito do Sufi e os “mundos espirituais” que são a realidade interior do mundo sensível.
- A descoberta de um sentido interior de um versículo corânico e a experiência espiritual do Sufi são rigorosamente correlativas — representando os dois aspectos indissociáveis de sua acensão a um nível de consciência superior.
- Qashani adverte contra possíveis equívocos: “Aquele que interpreta o Alcorão segundo sua opinião individual é incrédulo” — mas isso se aplica apenas ao tafsir, pois o comentário esotérico não pode ser alvo dessa crítica, já que a amplitude de suas significações varia segundo os estados (ahwal) e os momentos espirituais do ouvinte, em função das fases do itinerário em que ele se encontra e do nível dos graus espirituais que alcançou.
- Para o Sufi, o comentário esotérico do Alcorão não é obra de reflexão, de imaginação ou de alegorização gratuita com fins homilíticos — o sentido simbólico está objetivamente contido no sentido exterior, que se desvela (kashf) e se impõe ao leitor como o “sentido preparado” (ma'nan 'atid) de que fala Qashani.
