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PREDESTINAÇÃO

CECQ

VII. A PREDESTINAÇÃO

O problema da predestinação é uma das principais aporias com que se defronta toda exegese do Alcorão — em razão da presença simultânea da afirmação da responsabilidade humana e do castigo do pecado, de um lado, e da onipotência de Deus sobre todas as coisas, do outro; na perspectiva doutrinária sufi, o problema está virtualmente resolvido — se em definitivo nada existe fora de Deus, a fortiori não existe nenhum ser dotado de qualquer autonomia em relação a Ele.

  • Qashani consagrou um tratado inteiro a esse problema — a Risala fi-l-qada wa-l-qadar — e suas concepções sobre o “livre-arbítrio” aparecem tanto nesse tratado quanto nos Comentários esotéricos.
  • A Vontade divina geral, chamada “Providência” ('inaya), exprime-se primeiro nos dois primeiros níveis da existência: ao nível do Intelecto Primeiro, manifesta-Se a Si mesma sob a forma das Ideias Universais, sendo chamada “Decreto divino” (qada) — daí o nome de “Tábua do Decreto divino”; esse decreto é detalhado no mundo da Alma Universal, chamada “Tábua do Destino” (lawh al-qadar), que distingue o qadar do qada' por sua relação com o mundo dos fenômenos — pois é ele que atribui causas às coisas e anima as cadeias de causalidade.
  • Na “descida” nos dois últimos mundos, as disposições do qadar se particularizam e se entrelaçam cada vez mais — o comportamento de cada homem é o resultado de um número muito grande de causas segundas, e não, a rigor, de uma única volição divina imediata e diretamente aplicada.

Qashani funda a legitimidade aparente da afirmação do “livre-arbítrio” sobre dois argumentos principais — o primeiro repousa sobre uma simples questão de consideração ou ponto de vista.

  • “A unidade (ahadiyya) da existência e da eficiência é o determinismo; a afirmação da particularização na existência e na eficiência é o livre-arbítrio. Unir esses dois termos por nossa profissão de fé: 'Não há deus senão Deus, Muhammad é o Enviado de Deus', é a via reta e a religião firmemente estabelecida.”
  • Limitar-se a atestar a unicidade de Deus — ser velado pela síntese em relação à multiplicidade — equivale ao determinismo puro, que conduz ao livre-pensamento (zandaqa) e ao anomismo (ibiha).
  • Limitar-se a atribuir o ato e a palavra ao Enviado — ser velado pela multiplicidade em relação à síntese — equivale a professar o livre-arbítrio puro, que conduz ao mazdeísmo e ao dualismo.
  • “O Islã é uma via situada entre essas duas posições, pela adição a 'Não há deus senão Deus' de 'Muhammad é o Enviado de Deus'.”

O segundo argumento se apoia na sucessão das etapas do Decreto divino — a Ciência de Deus, idêntica à Sua Vontade, abarca tudo o que é e será em modo universal, pelo viés dos dados contidos sinteticamente nas essências imutáveis; ela deixa essas predisposições desdobrarem suas possibilidades inumeráveis ao nível do mundo sensível em modo particular e sucessivo.

  • Qashani distingue dois aspectos da Ciência divina: a Presciência eterna (al-'ilm as-sabiq) e a Ciência analítica (al-'ilm at-tafsili) — e é em função dessa distinção que comenta o versículo II, 143: “Para conhecer pela Ciência analítica consequente ao advento do objeto conhecido, não pela Presciência eterna na unidade do primeiro grau de existência.”
  • A predisposição divina que acompanha Sua Presciência é uma aplicação indireta da Vontade divina, mediatizada pelo fato mesmo de que a manifestação dos Atributos divinos se produz no mundo formal, portanto submetido ao tempo e à sucessão.
  • Deus permitirá que se realizem em seu tempo as possibilidades correspondentes à predisposição (istidad) intemporal do homem, que se expandirá do interior — não há portanto coerção (jabr) sobre o homem por parte de uma Vontade divina que lhe seria radicalmente exterior.

O “livre-arbítrio” assim concedido aos homens é, porém, puramente formal — Qashani o reconhece ele mesmo ao comentar o versículo LIII, 39: “O homem não terá (no Além) senão o que se tiver esforçado por merecer.”

  • “Isso contrariamente às partes cabidas a cada um neste mundo, que voltam ao poder de decisão (qudra) do homem. Mesmo nesse caso, essas partes procedem igualmente do Decreto de Deus e do Destino por Ele atribuído — mas aqui consideramos apenas a causa imediata, necessária, de cada uma dessas partes.”
  • Qashani comenta o versículo LXXVI, 30 — “Vós não querereis senão o quanto Deus quiser”: “Vós não o querereis senão por Minha Vontade; pelo fato de Eu os querer, eles Me querem. Sua vontade é portanto precedida de Minha Vontade; mais ainda, sua vontade é Minha Vontade que aparece em suas formas epi-fânicas.”
  • O versículo VIII, 17 — “Não és tu que lançaste quando lançaste, é Deus que lançou” — é citado por Qashani como contendo “o segredo de Seu Decreto e de Sua Predestinação.”
  • A sabedoria da expulsão de Adão do Paraíso: “Sem essa queda, não teria sido possível aos homens seguir a guia, e o bem-aventurado não teria sido distinguido do condenado, o mérito da recompensa ou do castigo não poderia ter sido obtido, e as moradas da retribuição, Paraíso e Inferno, seriam privadas de sentido.”
  • A predestinação divina em relação ao gênero humano se manifesta de forma mais geral na eleição ou na rejeição dos homens de toda a eternidade — ao versículo XVII, 13: “O bem-aventurado é aquele que é bem-aventurado desde que existe no seio de sua mãe, o reprovado é aquele que é reprovado desde que existe no seio de sua mãe.” (hadith)
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