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ESTADOS E ESTAÇÕES

MORA, Fernando. Ibn ’Arabi: vida y enseñanzas del gran místico andalusí. 1. ed ed. Barcelona: Ed. Kairós, 2011.

Estados e Estações Espirituais

A diferença fundamental entre estados (hal, pl. ahwal) e estações espirituais (maqam, pl. maqamat) é que os primeiros são temporários e gratuitos — derivam da graça divina —, enquanto as segundas são permanentes e adquiridas pelo esforço.

  • O sufismo é às vezes chamado de ciência dos estados ou das experiências psicoespirituais, pois se baseia no conhecimento direto ou no gosto da realidade: “Não há outro caminho para o conhecimento dos estados senão pela experiência imediata. Não pode ser definido intelectualmente, nem há prova conceitual que possa suportar tal conhecimento”
  • Das quinhentas e sessenta partes que compõem as Iluminações da Meca, mais de trezentas e sessenta são dedicadas a esse tema; a seção correspondente às estações espirituais consiste em noventa e nove capítulos, ligados aos noventa e nove nomes obrigatórios de Deus
  • Os estados são frequentemente associados aos chamados “carismas” — feitos milagrosos ou rupturas da realidade ordinária —, mas os verdadeiros conhecedores não se interessam tanto por tais experiências incomuns quanto pela compreensão abrangente da natureza mais profunda da realidade
  • Ibn Arabi adverte: “Quando os viajantes são dominados por estados, caem numa condição semelhante à loucura e, como resultado, deixam de ser responsáveis perante a Lei. Por esse motivo, nenhum dos grandes busca estados, mas sempre busca estações”
  • O objetivo do caminho nunca são os carismas ou experiências extraordinárias, mas a sabedoria: “Deus concede estados espirituais até a pessoas que Ele não ama, mas apenas confere conhecimento àqueles que Ele escolhe”

A Armadilha dos Estados e o Engano Divino

Os estados místicos que possuem o sujeito são sintoma de imaturidade e instabilidade; o peregrino deve permanecer firme no objetivo final sem se desviar pelas experiências sublimes que podem adornar o caminho, pois até Deus pode enganar.

  • O Alcorão proclama repetidamente que Deus é “o melhor dos estrategistas” (3:54; 8:30); Ibn Arabi relata: “Quando eu estava em Bagdá no ano 608 (1211-1212), vi numa visão que os portões do céu se abriram e os tesouros do engano divino desceram como uma chuva sempre presente. Então ouvi um anjo proclamar: 'O engano desceu esta noite!' E acordei em terror. Comecei a refletir sobre a forma de evitar essa situação e não pude encontrar outro caminho senão o conhecimento da Balança estabelecida pela Lei”
  • A única proteção contra as armadilhas do caminho é nunca deixar a Balança da Lei cair das mãos: quem fornece ao servo o conhecimento que requer prática e depois o priva da prática, ou quem lhe fornece a prática mas o priva da sinceridade, está sendo enganado

Estações e Contra-Estações

As estações espirituais não têm existência senão a daquele que as percorre; como os nomes divinos, que são meras relações, carecem de realidade independente — o caminho se faz caminhando, e a ordem e a sequência do percurso só se estabelecem segundo as características de cada indivíduo.

  • O avanço de uma estação para outra não significa abandonar a estação anterior: “Adquires o que é superior sem abandonar a estação em que habitas. Embora seja uma passagem para uma segunda estação, não implica afastar-se da primeira, mas sim uma passagem para ela”
  • Cada capítulo das Iluminações da Meca dedicado a uma estação específica é contrabalançado por um capítulo que refuta — ou coloca numa perspectiva mais ampla — o que foi anteriormente afirmado; assim, a estação da servidão é seguida pela estação do abandono da servidão, a estação da viagem pela do abandono da viagem, a do silêncio pela da palavra, e assim por diante
  • A totalidade das estações e contra-estações é transcendida, ao final, pela chamada “estação da não-estação”: “Descansa com o Verdadeiro sem estação, lugar, nome, traço, qualidade, pretensão, visão, contemplação ou busca. Como foi dito, é como se nunca tivesse existido e como se o Verdadeiro nunca tivesse cessado de ser”
  • Abu Yazid al-Bistami responde à pergunta “Como estais esta manhã?”: “Não tenho manhã nem tarde; a manhã e a tarde pertencem àquele que é limitado por atributos, e eu não tenho atributos”
  • Na hierarquia circular dos estados e estações, os estados constituem o começo e o coroamento do caminho; com o tempo e a prática, estabilizam-se e tornam-se estações; mas uma vez transcendidas, as experiências assumem novo significado, pois na estação da não-estação o conhecedor de Deus acolhe com equanimidade qualquer experiência positiva ou negativa

A Integração dos Reinos Naturais

É possível estabelecer, nas obras akbaris, a presença de quatro grandes estações espirituais que resumem os principais modos de existência e consciência presentes no cosmos: animal, vegetal, mineral e humano — que devem ser despertados e harmoniosamente integrados pelo ser humano que aspira à perfeição que inclui a imperfeição.

  • Os animais, plantas e minerais possuem uma percepção direta das teofanias que não é impedida pelo exercício da razão, da comparação ou dos julgamentos conceituais; cada reino natural representa um grau progressivamente mais profundo de transcendência do ego e das limitações da especulação racional
  • Segundo a hierarquia peculiar do Shaykh al-Akbar, embora os animais percebam Deus diretamente, são dotados de plena mobilidade e por isso são menos perfeitos que as plantas, cujo único movimento é determinado pela busca da luz solar e pelo desenvolvimento das raízes; os minerais não se movem a não ser que sejam impelidos a isso — sua imobilidade é o símbolo da máxima entrega e da plena servidão
  • Essa ordem representa uma radical inversão das hierarquias usuais do ser, fazendo de uma pedra comum — o mais baixo e desprezível no mundo — o emblema da receptividade suprema à influência divina

A Estação da Animalidade

A estação da animalidade (maqam hayawan) é caracterizada pela renúncia temporária à atividade conceitual e pelo mergulho num profundo silêncio interior, sem que isso signifique regressão psicológica, mas sim unificação das múltiplas dimensões da existência.

  • O Alcorão descreve a situação de Zacarias: “Meu Senhor, dai-me um sinal. Disse-Lhe: Um sinal será que não poderás falar às pessoas por três dias, exceto por sinais” (3:41)
  • Ibn Arabi descreve a experiência no contexto da ascensão do profeta Idris e sua subsequente descida como o mensageiro Elias: “Quando Deus me estabeleceu naquela estação, realizei minha animalidade plenamente. Vi coisas que queria exprimir, mas não conseguia, sendo não muito diferente das pessoas incapazes de falar”; quando alguém realizou plenamente a estação da animalidade, “vê-se transformado em puro intelecto desprovido de matéria natural. Contempla as realidades informais que constituem os princípios das formas manifestadas na ordem natural”
  • As ações do que alcança essa morada espiritual deixam de lhe pertencer, pois Deus se torna então o agente de suas ações

A Estação da Vegetalidade

A estação das plantas (maqam nabati) é alcançada apenas após a compreensão da prostração de todos os seres diante do Vivente; nela se atingem a ciência do desvelamento, a ciência da iluminação da doçura interior e a ciência da iluminação da expressão.

  • A iluminação da fala é concedida apenas ao Muhammadano perfeito: “A estação mais poderosa que aquele que tem essa iluminação alcança é a da veracidade em todas as suas palavras, seus movimentos e sua imobilidade […]. Para ele, o momento em que fala é o próprio momento em que concebe a fala através da qual exprime seu pensamento”
  • Quanto à doçura interior, embora percebida sensorialmente, tem origem puramente espiritual, dando origem a uma sensação de flacidez nos membros e articulações do corpo que pode durar de alguns momentos a vários dias
  • O mais elevado esclarecimento consiste na simultaneidade da visão de Deus e da visão do mundo, sem que uma eclipse a outra: “A maior iluminação nesse campo é que a visão de Allah é a própria visão do mundo […]. Não vi ninguém entre os homens de Allah que tenham abordado o tema desta iluminação antes de mim que tenha revelado esse ponto preciso”

A Estação da Mineralidade e a Não-Estação

A estação da mineralidade (maqam al-jamadiyya) — também conhecida pelos nomes de estação da proximidade, do inefável, da profecia livre ou da não-estação — constitui a completa superação de qualquer vestígio de vontade pessoal e até de todo conhecimento.

  • Ibn Arabi chega a declarar que o ser humano é mais nobre em sua mineralidade quando morre do que em sua humanidade quando está vivo; a estação mineral corresponde à etapa de superação da jornada
  • O mineral por excelência é a Caaba em torno da qual os crentes giram; o peregrino que alcança o cume das estações espirituais torna-se ele mesmo a Caaba, o eixo estático ou polo em torno do qual todo movimento gira
  • O grande sufi de Sevilha, Abu Madyan — uma das principais fontes de inspiração para Ibn Arabi —, quando questionado se o fato de incontáveis peregrinos tocarem e beijarem a Pedra Negra tinha algum efeito sobre ela, respondeu categoricamente: “A Pedra Negra sou eu”
  • Na estação da não-estação, o conhecedor de Deus não está limitado por nenhuma qualidade específica, mas abraça todas, pois reflete a totalidade dos nomes divinos e assim incorpora o atributo divino apropriado a cada ocasião: “Esse ser humano — que não é nada em si mesmo — pode tornar-se tudo”

A Estação do Ser Humano Perfeito

A estação do ser humano perfeito — também chamada de estação do louvor e da intercessão — é uma morada peculiar e exclusiva que só será plenamente realizada por Muhammad no futuro, no Dia da Ressurreição, quando intercederá por toda a humanidade.

  • Adão também alcançou essa estação quando todos os anjos foram chamados a se prostrar diante de sua presença
  • Ibn Arabi responde à pergunta “O que é a estação do louvor?”: “É a estação na qual todas as estações terminam, aquela à qual todos os nomes divinos a elas atribuídos aspiram. Ela pertence ao Mensageiro de Deus, e isso se tornará aparente a todas as criaturas no Dia da Ressurreição”
  • “O Mensageiro de Deus intercederá por todos eles — anjos, mensageiros, profetas, santos, animais, plantas e minerais — para que possam interceder, por sua vez, por todos os seres humanos. Por essa razão, Muhammad será louvado em todas as línguas e com todas as palavras”
  • Embora cada profeta tenha a prerrogativa de pedir a Deus algo que lhe seja necessariamente concedido, Muhammad reservou esse privilégio para o futuro a fim de exercê-lo, quando chegasse o momento, em benefício dos maiores pecadores de sua comunidade — uma comunidade que não se limita ao Islam em sentido histórico ou geográfico, mas abarca todos os seres humanos, de Adão ao último digno de ser chamado assim
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