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islamismo:jami:dois-amantes

HISTÓRIA DE DOIS AMANTES.

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No início da primavera, o califa, em Bagdá, ofereceu um alegre banquete às margens do rio Tigre. Ele mantinha, sob um véu, uma jovem beldade cuja voz, ao cantar, derramava açúcar; quando, semelhante a Vênus, ela pegava sua lira, a própria lira de Vênus ficava em silêncio. Ela nutria por um pajem do califa, brilhante como um sol no céu do amor, um apego tão grande que perdia a razão. Esses amantes estavam encantados um com o outro — ou melhor, estavam possuídos um pelo outro. Mas os cem guardas que espiavam seus gestos não lhes permitiam estar juntos. Essa beleza velada estava no limite da paciência, no fogo do desejo, ardendo de solidão, e fazendo ouvir, sob o véu, sua bela voz, acompanhada pelos acordes de sua lira. Descrevendo seu amor em um poema que ela musicou, ela cantou o seguinte: “Ó céu! Até quando serás tão pérfido, reduzirás minha alma, esgotarás minha vida? Nunca senti o ardor do teu amor. Por ser tão pouco amada por ti, sinto vergonha. Melhor, então, que por um instante eu cuide de mim, que eu encontre um remédio para minha condição.” No harém havia uma moça encantadora que, como ela, sabia recitar e cantar. “Por toda parte espiões te vigiam”, disse ela, “como encontrarás o remédio para teus males? — Eis como”, disse ela, retirando seu véu. Como a lua que mergulha no rio, como um peixe nas ondas, ela se abandonou. O pajem estava de guarda bem ali perto: a separação amargurava-lhe a alma. Quando a jovem beldade se lançou no rio Tigre, ele a seguiu, envolvendo-lhe o pescoço com os braços; ela fez o mesmo e ambos desapareceram, fugindo do que distingue o tu e o eu, deixando para trás esse universo feito de dualidade. Ó Djâmi! Assim é o costume do amor; assim é o amor verdadeiro; o resto não passa de ódio. Se quiseres voltar-te para o oceano do amor, como esses dois amantes, renuncia a ti mesmo. (Djâmi, Hekmat, p. 263.)

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