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islamismo:jami:velhice

VELHICE DO POETA

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Minha cabeça branqueou como uma árvore em flor; mas, para mim, essa árvore produz apenas o fruto da tristeza. Diante de mim, fio por fio, o espelho refletiu demais esse defeito que é a canice; não quero mais olhar para ele. Antigamente, eu lia à noite, ao luar; hoje não consigo mais, nem mesmo à luz do sol: graças aos óculos da Europa, em vez de dois olhos, tenho quatro; nem mesmo isso basta quando quero ler o Alcorão: a visão, esse puro tesouro, abandona meus olhos; o céu, que se diverte comigo, me engana com lentes, como faz com as crianças. Meu ouvido era tão apurado que, pelo coração, eu ouvia o que os outros contavam em sua alma; meu ouvido enfraqueceu: sem a ajuda de seus gestos, não compreendo mais nada quando meus amigos falam comigo. Minha postura está curvada como um L; e meu pé, enquanto não me apoiar em uma bengala reta como um I, não tem força para caminhar. E eis-me tão debilitado que, por exemplo, se minha cabeça fica pesada pelo sono, meu corpo se quebra na cintura. E se minha mão não vier em auxílio do meu pé, sentar-me e levantar-me não me são mais possíveis. No auge da solidão, como um pássaro estou pousado; e agora estou salvo da tua rede, natureza humana! E quando alvo para o céu da eternidade, o universo contingente, semelhante ao pó, se desvanece ao vento das minhas asas. Com o objetivo de acumular bens, por que, então, clamar por ouro? Na opulência do meu coração, dispenso esses tesouros. O ouro não passa de uma pedra que ganhou brilho à luz do sol; se, portanto, eu me voltasse para o ouro, adoraria apenas uma pedra. Mesmo que me oferecessem o grão colhido da espiga das Plêiades, e se eu tivesse como bebedouro a própria fonte do sol, não sou aquele cuja asa enfraqueceria, caindo do zênite até o mais baixo, para colher minha parte dessa água, desse grão. Graças à verdade mística, meu coração se enriquece de segredos; como pagaria eu sequer meio óbolo pelas palavras vãs dos filósofos? Quando é depositado diante de mim, como diante do profeta Hrizr, o alimento que vem do banquete da ciência inspirada por Deus, então, com suas asas, os anjos ao meu redor afugentam as moscas. Caso meu pensamento mergulhe no oceano da poesia, o tributo dos mares e da terra equivaleria apenas a uma das pérolas encontradas por meu pensamento. Caso minha pena se lance no canteiro da prosa, para mim, a palmeira seca produz tâmaras bem frescas. No pomar da devoção, se alguma árvore dá o fruto do conhecimento (de Deus), essa árvore sou eu mesmo. Mas de que adianta se o seu fruto, por mais bom que seja, parece sempre ter um sabor amargo na boca dos seres de coração sombrio? (Djâmi, Hekmat, p. 232.)

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