ETERNIDADE
NĀṢER-E KHOSROW; GASTINES, Isabelle de. Le livre réunissant les deux sagesses. Paris: Fayard, 1990.
Dísticos 10-11:
Primeiro, o que é a eternidade? Depois, a verdade e a alegria? Qual é a prova desta vida que se esvai dia após dia?
O que é a perfeição? E a ocultação?, sendo este o dom mais nobre de todos, pois é o remédio onde nenhum outro remédio surte efeito.
A eternidade é definida como a duração absoluta dos espíritos puros não encarnados, que não estão sujeitos à corrupção e ao aniquilamento, ou como a duração do vivente não mortal que mantém viva sua própria essência.
- O tempo é concebido como a eternidade medida, ou seja, a duração dos corpos, e, para aqueles que usam sua inteligência, a vida que passa é o próprio tempo.
- Segundo os hermenautas espirituais, a eternidade é a duração da substância eterna, sendo a Inteligência universal a primeira substância eterna, cuja duração é a eternidade.
- A causa da eternidade é a Inteligência, assim como a causa do tempo é a Alma universal, pois o tempo é medido pelos movimentos do céu.
- O tempo é eternidade medida pelos movimentos celestes (dia, noite, mês, ano), enquanto a eternidade é tempo não decorrido, sem início nem fim, duração absoluta e suspensa.
- A vida efêmera é o tempo, que é a duração do vivente mortal, ao passo que a duração do vivente não mortal (Alma e Inteligência) é sem começo nem fim e se chama Eternidade.
- A prova de que a substância da alma não é mortal é que a vida do corpo é um acidente; o atributo acidental em uma coisa provém de outra coisa na qual esse mesmo atributo é substancial.
- A alma, pela qual o corpo vive, é vivente por sua substância e essência própria, não por outra coisa, portanto nunca morre e sua duração é a eternidade.
- A alma, no nível do ser, precede o corpo da mesma maneira que o fogo precede o ferro, e entre Inteligência e eternidade não há anterioridade nem posterioridade.
A verdade, segundo os hermenautas espirituais, é aquilo que remove a dúvida onde há ambiguidade, sendo o ta'wîl (hermenêutica) que reconduz a palavra à sua origem e faz aparecer a verdade aniquilando o que é vão na interpretação das metáforas.
- Em um diálogo com o Imam Nasir ud-Din Allah, foi dito que a sabedoria é superior à verdade porque é pela sabedoria que a verdade é verdade.
- A verdade é o que oblitera o erro, e os maiores erros surgem a respeito das metáforas do Livro, erros que só são levantados pela hermenêutica.
- Deus Todo Altíssimo declara: Ninguém além de Deus conhece a interpretação do Livro, [e que] aqueles que estão enraizados na Ciência. (III/7)
- Deus Todo Altíssimo também declara: … fazer aparecer a Verdade e aniquilar o que é vão, em débito dos culpados. (VIII/8)
- A verdade é o ta'wîl, a remontada, o retorno ao sentido verdadeiro transferido na metáfora, como prova a fala de Deus sobre José: Ó meu pai! Eis a explicação da minha antiga visão: meu Senhor a realizou. (XII/100)
- O que manifesta a verdade são as próprias palavras de Deus, pois está dito no Livro: Deus queria manifestar a Verdade por suas palavras e exterminar os incrédulos até o último. (VIII/7)
- O senhor da hermenêutica e dos hermenautas é, por sua ordem, a própria Palavra de Deus; assim Jesus foi uma das Palavras de Deus e Mohammad é mencionado como seu Livro.
- O Senhor da ciência da hermenêutica é o herdeiro espiritual (wasî) do Enviado de Deus, e há um ponto subtil envolvendo as somas das letras dos nomes 'Alî, Haqq e Wasî.
- A origem de todos os entes é a Instauração eterna (Ibda'), que é una com a Inteligência, e é pela Inteligência que os profetas, como hermenautas, recebem a Palavra.
A alegria é definida como a substância da Inteligência, sendo esta a morada paradisíaca, e sua instauração acompanha a dissipação da ignorância pela conhecimento.
- O Enviado Eleito, segundo uma tradição, disse: Quando os Paradisíacos se aproximam do Paraíso, eles são preenchidos de alegria.
- A prova de que a substância da inteligência é a alegria é que a ignorância é abolida pelo conhecimento, e o conhecimento é o ato da inteligência.
- Nenhuma alegria humana é superior à alegria celeste, e a esfera celeste, no universo, só decorre da Inteligência.
- Dentre todos os animais, apenas o homem, que possui a alma noética (nafs-e 'aqi), é capaz do riso, e o riso é a manifestação da alegria.
A perfeição (kamal), segundo a resposta filosófica de Aristóteles, é a substância da alma, definida como a perfeição de um corpo natural que é vivo em potência.
- Os Sábios da Religião eterna consideram o corpo como a sombra da alma, que é vivente por sua essência, de modo que o corpo, pela vida essencial (a alma), torna-se vivente de uma vida acidental.
- A perfeição do corpo se dá pela alma, e a perfeição da alma se efetua pela inteligência através da criação grandiosa que é o mundo.
- O ser humano, por possuir a alma noética além da alma sensorial, é o fim do ser vegetal e animal, e o homem perfeito é aquele cuja alma noética atinge sua plenitude pelo conhecimento.
- O conhecimento só é acessível ao homem pela palavra, portanto a plenitude do homem é unicamente pela Palavra de Deus.
- Deve necessariamente manifestar-se na espécie humana um falante-perfeito que seja o porta-voz de Deus, dominando os outros homens, assim como a espécie humana domina a animal.
- Por ordem de Deus, o Profeta fez do conhecimento o dever do homem, conforme prescrito: … Chama os homens no caminho de teu Senhor, pela Sabedoria e uma bela exortação. (XVI/125)
- Em quase sete mil anos, apenas seis homens capazes de conduzir parte da humanidade vieram: Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Mohammad.
- Ninguém ainda recebeu a totalidade da Inteligência, e o dia em que a Decisão pertencerá a Deus ainda não chegou (LXXXII/19).
