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islamismo:sanai:le-clos-de-la-verite

O RECANTO DA VERDADE

A ciência.

A ciência conduz à porta de Deus, mas não ao capricho, aos bens nem às dignidades. A alma privada de ciência é assassina do corpo; ela torna pesado o coração: é como ramo sem fruto. Quem não possui ciência é um pobre extraviado; jamais poderá alcançar o além. A ciência abre aos homens o caminho da felicidade; a ignorância conduz os homens ao inferno.

Os mundos da ciência mística; renúncia a este mundo inferior de contingências.

Basta de ouvir os méritos dos bizantinos e dos chineses; levanta-te! vem contemplar o reino de Sanā’ī; ver-se-á ali um coração inteiramente sem avareza nem desejo; e ali se verá uma alma inteira isenta de ódio e de orgulho. Não possui ouro, mas detém um jazigo digno de reis; carece de cevada, mas sela o corcel celeste; é sem força e, contudo, o céu se encontra sob seu pé; é sem poder e, no entanto, o império se submete ao seu selo; sem vestes principescas, todavia estabelece, semelhante aos espíritos, seu trono no céu sublime; libertou-se da ordem que rege a terra e o tempo; está fora do conjunto que une os meses e os anos; encontrou quietude numa retirada secreta; aspira à renúncia, à vida na solidão. Tal como José lançado no poço, dele sai e se eleva ao céu, puxado por uma corda firme. Deixando as regiões da dúvida, pôs-se a caminho em direção ao lugar subterrâneo de onde brota a fonte da certeza; e encerrou em sua alma, semelhante a uma ostra perlífera, a bem-aventurança que trazem os tesouros emanados do céu… Sabedoria, moderação e fé bastam; para que lhe serviria um poder temporal?… Mas goza-se de saúde, sabe-se contentar com pouco; não é esse também um reino firme e verdadeiro? Ora um amigo diz: «Sanā’ī é assim»; ora um inimigo declara: «Sanā’ī é assado»; mas ele permanece, em relação a todos, sem cuidado, livre e satisfeito, como o lírio, a rosa ou o jasmim. Nunca se irrita contra os inimigos; jamais franze o cenho; dele procede a mansidão; de seu inimigo, a cólera; se a primeira vem do céu, a segunda provém deste mundo inferior… Ora, como o inimigo deporia a coroa enquanto o fogo diabólico se associa ao seu orgulho? Todos esses mundanos, dizedores de nadas, reunidos em grupo, têm por companheiros o orgulho e a inveja. Todos esses citadinos, em rebanho, são da raça dos demônios; sua alma, perturbada pelo «eu», não cessa de lamentar-se.

A generosidade de Chosroes.

Num ano de seca, alguém disse ao rei Chosroes: «A nuvem, para com os homens, mostra-se avara de sua chuva.» Mas o rei respondeu: «Abrimos nossos celeiros; somos generosos quando a nuvem é avara; espalhamos claridade, semelhantes à aurora; em liberalidade, igualamo-nos à nuvem, pois se ela nada dá, nós derramamos nossa chuva; se ela se encontra sem água, permanecemos gloriosos; para os homens estamos presentes como uma nuvem, para derramar sobre eles as pérolas de uma chuva; se estivessem famintos sob um príncipe saciado, tal príncipe seria um cão, não um leão; mais generosos que a nuvem cheia de chuva, damos-lhes pão no tempo da fome; esses celeiros, esses tesouros estão preparados para eles, guardamo-los para lhes fazer doação.»

Misoginia.

Não se contemplem, pois, as belas! ao final, sua contemplação terá por fruto as lágrimas; a mulher de belo rosto possui pouca inteligência; belo rosto revela mau caráter; quanto mais beleza, mais detestável; por isso o homem sensato não poderia amá-la; a bela tem maus desígnios; como a lua, seu esplendor não é senão algo emprestado; essa mulher assemelha-se a uma tocha vacilante, que vive apenas pela metade e morre a um único sopro. Que fazer com esse objeto cheio de astúcia? Tu, que és menos que nada, que farás com um nada? As belas deste tempo, sejam grandes ou pequenas, mostram aos olhos os encantos de José, mas são como lobos prontos a devorar os corações; imagens de desgraça que exibem flores aos olhos, mas cravam o espinho no coração. Sem dúvida, seu rosto ilumina o mundo; mas sua cobiça dilacera o coração e consome a alma.

Exortação mística.

Vós que possuís dinheiro e consideração, invocai o Senhor! pedi-Lhe perdão! Antes que vossa alma, ao querer justificar-se, não tenha mais força para falar; antes que vosso olho, ainda que perspicaz, se torne incapaz de servir, acolhei um conselho, ó vós cuja obscuridade não deixa lugar aos conselhos! apresentai vossa desculpa quando sobre vossas faces já tiver crescido a barba branca! Ó homens fracos! vossos cabelos tornaram-se brancos como leite. Vossa alma, seres engenhosos!, parece tão negra quanto o pez. A aurora da ressurreição já retirou o véu que tornava vosso coração cego; e a revolução do tempo fez sair o algodão colocado em vosso ouvido. Até quando tomareis por morada da felicidade o palácio das ilusões? Até quando tomareis por residência definitiva esta morada transitória? Por quanto tempo cobiçareis os encantos deste mundo inferior? Semelhantes ao olho do narciso, vossos olhos não sabem ver; como as folhas do plátano, vossas mãos são moles e passivas. Aqui embaixo não é a planície onde se verá a alma sem corpo; e não é a porta onde se obtém audiência sem declarar o que se fez. Evadi-vos deste universo de paixões para que, no caminho da razão, o que era para vós tristeza se torne consolação. Neste mundo viram-se numerosos monarcas cuja flecha, lançada do céu do poder, feriu os Gêmeos e quebrou as Plêiades; não se vê, porém, que todos esses insensatos não possuem senão uma tumba estreita e sombria, semelhante ao olho oblíquo dos turcos? Mas vede seus cabelos, endurecidos pela poeira que os tornou compactos como escama de tartaruga; e vede seus rostos enrugados como o dorso de um lagarto. Inclina hoje a cabeça para a terra aquele que portava o diadema; leva seu corpo ao inferno, neste ano, aquele que no ano passado se erguia para o céu. Não há vergonha por causa desses cães cheios de iniquidade? Não se sente o coração oprimido por causa desses asnos soltos sem freio? Um parece ornamento da religião; mas dele a impiedade extrai, na verdade, sua cor e seu odor; outro, em aparência, é honra do império, que na realidade não recebe dele senão vergonha e opróbrio. Um deles se diz defensor dos humildes servos de Deus; mas por sua culpa todo um povo se encontra no desarranjo; outro proclama-se guardião dos territórios do Islã; e por ele todo um universo se encontra perturbado. Ó tu que sofres a injustiça! suporta, rangendo os dentes, alguns dias nesta prisão, apesar desses malvados que te mordem como cães; e então ver-se-á a face daqueles que matam seus semelhantes tornar-se amarela como o açafrão; mas aqueles que foram oprimidos terão o rosto vermelho como a flor da romã.

Panegírico de Ali.

A obra do homem sensato não consiste em guardar no coração o amor por um ser que o encanta, nem em selar na alma o amor por um ramo sem fruto, nem em derramar sobre a face o tesouro perolado de suas lágrimas, como ouro, noite e dia, por um ser insensível e duro. Por que não se apegar ao objeto amado que é tal que, no dia em que se o alcançar, convém erguer alto o archote na assembleia do amor mais radiante? Aquele que, semelhante ao abutre, se lança sobre uma carniça, como poderia, semelhante ao papagaio, desejar o açúcar? O estandarte de teus altos desígnios deve ser erguido com o pé do Empíreo para que se possam manter os céus sob a sombra de tuas asas. Para guardar o palácio dos imperadores, não convém ser escravo dos escravos… Tu, que te encontras retido no mar do extravio, ao menos escuta uma palavra de teu irmão: o mar está coberto de naus, mas todas são levadas pelo turbilhão do temor; sem a arca de Noé, não se pode esperar salvação; se, pois, desejas salvar teu coração e tua religião, até quando permanecerás sem pés nem cabeça, como um círculo? Mostra-se, para salvação, a arca de Noé, o profeta, para que nela se permaneça em segurança contra o mal. Vai! busca a cidade da ciência: nela se caminhará em paz; até quando oscilarás como o anel de uma porta? Uma vez que da cidade da ciência se sabe que Ali é a porta, não seria conveniente tomar outro por senhor e mestre. Como seria lícito estabelecer, no caminho de Deus, por astúcia e fraude, o demônio no assento do grande qadi? Que dizer? julga-se razoável acreditar a terra mais nobre que a pedra filosofal? Em suma, não parece justo, segundo o que se deve crer, venerar o profeta lesando os direitos de Zohra (Fátima). Aceitar-se-ia ser infiel se aquele que se denomina emir, subordinando Ali, se mostrasse apenas capaz de guardar as sandálias de Qanbar, liberto de Ali… Sendo Ali, como Salomão, elevado ao ápice da grandeza, seria inconveniente que o demônio lhe colocasse a coroa na cabeça. Quando o sol no céu derrama milhões de luzes, teria Vênus a audácia de mostrar seu brilho? Se se deseja que o amor seja aceito tanto quanto a fé, é necessário amar Ali tanto quanto se ama a vida. No jardim da lei divina, plantou a árvore da fé; não seria conveniente honrar outro jardineiro. Do profeta restaram o Livro santo e sua linhagem — recordações que se podem conservar até o Juízo final. Mas, após Maomé, o Eleito, não se ousa considerar florescente senão Ali, o agraciado de Deus no universo da fé.

O negro e o espelho.

Um negro, tendo encontrado no caminho um espelho, olhou nele e viu a imagem de seu rosto: um nariz achatado, um semblante muito feio, um olho cor de fogo, uma face de carvão. Seus defeitos não estando ocultos por esse espelho, lançou-o ao chão imediatamente e disse: «Aquele que possuía objeto tão horrendo, por ser feio, lançou-o na estrada; se esse espelho fosse tão encantador quanto eu, como estaria abandonado no caminho?»

O terror da morte.

Uma velha, habitante do distrito de Tékâv, possuía três bois. Sua filha, chamada Mahsati, jovem esguia como um cipreste, certo dia lamentou-se, atingida pelo mau-olhado; e seu rosto, semelhante à lua cheia, tornava-se magro como o primeiro quarto. O universo tornou-se sombrio aos olhos da velha; seu coração consumiu-se e seu fígado inflamou-se: no mundo, não tinha amor senão por sua filha. Um dia, um de seus bois, em busca de pastagem, introduziu o focinho na panela por acaso: o animal estúpido ali permaneceu, com a cabeça presa, como um pé coxo atolado na areia; e esse boi, como um demônio escapado do inferno, saiu da cozinha e lançou-se sobre a velha. Esta, acreditando que fosse Azrael, exclamou, dirigindo-se ao grande animal: «Arcanjo da morte! não é Mahsati, é apenas eu, a velha provada pelo destino; se, porém, é Mahsati, minha filha, que buscas, aqui está! toma-a se assim te convém; não estou doente e é ela quem sofre; gozo de plena saúde; não me tomes por ela.» Sua filha lhe parecia encantadora antes da prova; diante da desgraça, entregou a filha; contemplando sua beleza, alegrava-se; mas, sob o efeito de um pensamento funesto, abandonou-a. Narrou-se esta história para que se saiba bem que, no tempo da aflição, nenhum ser terá valor aos olhos.

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