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islamismo:schimmel:smdi:profeta

PROFETA

SMDI

  • O sentimento de que o mundo inteiro se perderia em Muhammad, expresso por Rūmī no século treze, reflete a centralidade absoluta do Profeta na fé e na experiência mística islâmica.
    • Muhammad, o mensageiro de Deus, consolidou-se como o arquétipo ideal para o fiel, cujas ações e palavras são imitadas minuciosamente, desde a vestimenta até as preferências alimentares.
    • A biografia profética foi enriquecida por elementos lendários que lhe atribuem prodígios, como o diálogo com gazelas e a advertência de animais sobre venenos.
    • Na ausência de representações figurativas, a hilya — descrição caligráfica das qualidades físicas e espirituais de Muhammad — tornou-se um objeto de veneração comum nos lares muçulmanos.
  • A figura do Profeta atua como o mediador necessário da experiência religiosa, servindo como um limite que define o Islã e protege contra a tentação de um panteísmo vago.
    • Em contraste com o tauḥīd de Iblīs, que se recusa a curvar-se perante qualquer criação, o reconhecimento do rank especial de Muhammad é o que ancora a fé em seu aspecto legal e comunitário.
    • Místicos que negligenciaram a segunda parte da profissão de fé tenderam a interpretações panteístas que diluíram a identidade islâmica.
    • A resposta profética àqueles que diziam amar apenas a Deus era direta: “Quem ama a Deus, ama a mim”.
  • A mística de Muhammad fundamenta-se na doutrina da Luz Muhammadana (nūr muḥammadī), concebida como a primeira criação de Deus, da qual deriva todo o cosmos.
    • Muqātil e Ḥallāj interpretaram o Verso da Luz como uma referência a Muhammad, cuja luz preexiste à criação e brilha através de todos os outros profetas.
    • A origem da alma é a luz absoluta, nada mais; isso significa que era a luz de Muhammad, nada mais, conforme a exegese poética de ʿAṭṭār.
    • O mundo foi criado por causa do amor primordial manifestado em Muhammad, ideia resumida no ḥadīth qudsī: “Se não fosses tu, Eu não teria criado os céus”.
  • A oração pela luz, atribuída ao Profeta e valorizada por mestres como Ghazzālī e Mīr Dard, exemplifica o anseio místico pela iluminação integral do ser.
    • O místico busca a luz no coração, na língua, na audição e em cada direção do espaço, aspirando ser contemplado pela Luz das Luzes.
    • Sanāʾī relaciona a plenitude dessa luz no coração à segurança contra o fogo do inferno.
    • A veneração culminou na teoria do fanā fiʾr-rasūl, ou aniquilação no Profeta, etapa considerada necessária antes de se atingir a aniquilação em Deus.
  • O nascimento de Muhammad é celebrado anualmente através do maulid, ocasião que gera uma vasta produção poética e hagiográfica em todas as línguas islâmicas.
    • Süleyman Çelebi, na Turquia, compôs o Mevlȗd-i şerif, cujo capítulo de boas-vindas ao recém-nascido é recitado em momentos de luto ou cumprimento de votos.
    • Para as massas, Muhammad é primordialmente o intercessor no Dia do Juízo, enviado como misericórdia para os mundos.
    • Ele é comparado à nuvem que traz a chuva vivificante para campos sedentos, um símbolo de graça divina que renova o que estava morto.
  • A exegese mística utiliza passagens corânicas para exaltar o poder sobrenatural e a beleza do Profeta, como a divisão da lua e o juramento pelo sol e pela noite.
    • O sol simboliza a face radiante de Muhammad, enquanto a noite representa seus cabelos negros; a luz da manhã é uma metáfora recorrente para sua beleza divina.
    • O termo ummī, tradicionalmente traduzido como iletrado, é interpretado como a pureza de um coração não corrompido pela erudição humana, tornando-o o receptáculo perfeito para o verbo divino.
  • A ascensão noturna, ou miʿrāj, constitui o objeto central da meditação mística, representando o protótipo da jornada da alma em direção à Presença Divina.
    • Os sufis aplicam a terminologia da ascensão às suas próprias experiências de êxtase, buscando o momento em que o tempo criado é rompido.
    • No ápice da jornada, Muhammad alcançou uma proximidade descrita como a distância de dois arcos, onde nem mesmo o anjo Gabriel, o puro espírito, poderia acompanhá-lo.
    • A resposta de Gabriel ao ser impedido simboliza o limite da razão discursiva diante do mistério do amor divino: “Se eu desse um passo a mais, minhas asas seriam queimadas”.
  • A experiência do waqt, ou o Momento Eterno com Deus, permite ao místico transcender o tempo serial e estabelecer um encontro pessoal direto com o Criador.
    • Muhammad permanece um servo (ʿabduhu) mesmo no momento do rapto místico, o que indica que a servidão é o nome mais elevado para um ser humano em diálogo com o Absoluto.
    • A literatura épica persa e turca dedica capítulos inteiros à descrição imaginativa da jornada celestial sobre o corcel Burāq.
    • A visão de Muhammad é superior à de Moisés; enquanto este desmaiou diante da manifestação divina, o Profeta manteve o olhar firme na Essência da Essência.
  • O desenvolvimento das ordens sufis no século dezoito e dezenove, sob a denominação de ṭarīqa Muḥammadiyya, reafirmou a figura do Profeta como centro de força espiritual e resistência política.
    • A identificação com o caminho maometano serviu de base para movimentos contra o colonialismo e na defesa da integridade da fé em tempos de crise.
    • A especulação teosófica de Ibn ʿArabī e Jīlī sobre o Homem Perfeito (insān kāmil) sistematizou Muhammad como o arquétipo cósmico e o princípio motor do universo.
    • O Profeta é o mediador através do qual Deus se torna consciente de Si mesmo na criação, sendo a realidade maometana o logos que sustenta a ordem universal.
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