User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
islamismo:tusi:cjnt:uno-verbo

UNO PARADOXAL E VERBO

ṬŌSĪ, Moḥamad ben Moḥamad Naṣīr al-Dīn; JAMBET, Christian. La convocation d’Alamût: somme de philosphie ismaélienne. Lagrasse Paris: Verdier Unesco, 1996.

* Nasîr Tûsî distingue dois “pontos de vista” sobre a realidade do Primeiro Princípio: o ponto de vista da origem e o do retorno.

  • Origem ou começo designam a condição criatural do homem, na qual ele ainda é incapaz de distinção intelectiva.
  • Retorno significa perfeição, acabamento, cumprimento da distinção e unificação do homem, “retorno” ao Único.
  • Segundo a origem, do “ponto de vista” do mundo criatural, atinge-se o Princípio pela via afirmativa.
  • Segundo o “ponto de vista” do acabado, sob o aspecto da eternidade, procede-se pela via negativa, retirando Dele tudo o que não poderia pertencer à sua realidade efetiva.
  • A exegese espiritual da expressão “Deus é o maior” revela que a profação e compreensão puramente exotéricas fazem com que o Princípio se fixe no grau de ser do ente supremo, do ente “o maior”, cujo nome é Allāh, confundindo a unicidade paradoxal do Princípio com uma nomeação positiva.
  • Segundo o ponto de vista do retorno, segundo o sentido oculto, a expressão significa que Ele é tal que seja sempre maior do que o que dele será atestado: a grandeza é eminência pura, mais infinita do que o próprio ente infinito; a infinitude do Princípio é uma infinitude sempre crescente, o infinito tal que esteja além do infinito mais potente que se conceberia; assim, o Uno primordial está além de sua própria infinitude, um infinito além de toda unidade que atribuiria um nome à sua infinitude.

* A noção de “ponto de vista” é capital, indissociável da meditação sobre o Real e funda o docetismo generalizado de Nasîr Tûsî.

  • Existe um ponto de vista da Inteligência sobre o Princípio, que expressa a própria essência da Inteligência e, consequentemente, sua própria posição no processo da emanação; o “ponto de vista” tomado sobre o Uno é a conversão do olhar da Inteligência para o Uno, exprimindo a própria procissão da Inteligência a partir do Imperativo.
  • Na medida em que a Inteligência é o Uno absoluto, o infinito em ato de todas as essências e realidades efetivas, procedendo da instauração primordial, seu ponto de vista tomado sobre o Uno que não é consiste em atestar sua unicidade, em dizer, por seu próprio ser de inteligência universal, na imanência da unidade do Princípio à sua essência, que o Uno é um.
  • O “ponto de vista” tomado sobre o Uno que não é é engendramento da Inteligência e, num mesmo movimento, nomeação do Real sob o título, na guisa do Uno: do uno só pode provir o uno.
  • Existe um ponto de vista da Alma universal sobre o Uno paradoxal: na medida em que a essência da Alma expressa a unidade inteligível e a multiplicidade, por causa de seu duplo ponto de vista (sobre a Inteligência que a precede e sobre a Natureza da qual é o demiurgo), a Alma manifesta o Uno-múltiplo, e seu ponto de vista sobre o Real enuncia: do uno só procede o uno, do múltiplo nada além do múltiplo.
  • Existe um ponto de vista do Corpo universal da Natureza, ponto de vista inteiramente passivo, criatural, dependente do ato demiúrgico da Alma; é o ponto de vista que só expressa o Uno na medida em que ele unifica o múltiplo, e o Corpo manifesta o Uno e o múltiplo; seu ponto de vista sobre o Real enuncia: do uno só pode proceder o múltiplo.

* O docetismo consiste na doutrina da conhecimento segundo a qual tudo o que é enunciado é o “ponto de vista” tomado por aquele sujeito que enuncia, exprimindo sua realidade fundamental e não a realidade fundamental do que é enunciado.

  • É o próprio Real enunciado que é enunciado, mas segundo a realidade daquilo que, enunciando-o, o manifesta e, manifestando-o, o situa aquém de seu próprio Real.
  • O Real é a coisa mesma, não constituída, situando-se além de sua constituição pela nomeação que o faz passar na efetividade dos constituintes sucessivos, dos sujeitos sucessivos onde ele se expressa.
  • Todo o discurso é por essência “docetista”, e toda a pesquisa consistirá na distinção entre a manifestação e o que está além da manifestação, supondo sempre uma deiscência entre o Real e sua manifestação, no seio da própria manifestação.
  • Assim, o Uno que não é, do ponto de vista da Inteligência, é o Uno que é; do ponto de vista da Alma, o Uno que é um e o múltiplo que é múltiplo; do ponto de vista do Corpo, o Uno que é múltiplo.
  • Esta não-reconciliação originária do Uno real e do Uno que é, esta deiscência fundamental do Real e da Inteligência, comanda toda a doutrina da Ressurreição.

* Do Real é possível dizer algo que, embora sendo “ponto de vista” tomado sobre Ele, esteja o mais próximo possível de sua realidade efetiva: Ele é pura espontaneidade de si mesmo.

  • Para concebê-lo, Nasîr Tûsî toma emprestada a doutrina aristotélica da modalidade, que comporta quatro modalidades: o necessário, o contingente, o possível e o impossível, observando-se a exclusão da contingência.
  • O Real é necessário por si, pois é existência pura, ou melhor, existenciação pura, ato puro; a definição aristotélica do Real é aqui retomada por Nasîr Tûsî, mas sob a condição de concebê-la além do ser e do ente, de modo que a existenciação pura ou ato puro seja uma simples apelação à existência, um Imperativo: “Sê!”.
  • O Imperativo é a necessidade do Real; não há outra necessidade enunciável do Real senão a convocação dirigida ao não-ser para se converter em ser; o Real é convocação ao Uno que é, do ponto indizível do Uno que não é.
  • A Convocação é manifestação, portando em si mesma a dupla atestação do Uno que não é e do Uno que é, tanto o nascimento do ponto de vista do Ser sobre o Real que o supera quanto do Real concebido como Uno, na guisa do Uno.
  • Só há necessidade da liberdade, da espontaneidade indizível do Princípio; a manifestação desta espontaneidade será sempre um “ponto de vista” tomado sobre a liberdade indizível.
  • O impossível será a modalidade da privação crescente; quanto mais uma manifestação participa do múltiplo, mais privada de proximidade ao Real ela é, mais recebe uma participação na impossibilidade, no contrário da espontaneidade, que é constrangimento ao existente, à fixidez do existente.
  • Só há existentes “possíveis” se a possibilidade de ser é a modalidade do que se manifesta na guisa da privação, pelo menos de uma privação, a que traduz o estatuto do que emana do Imperativo.

* Entre o Princípio supremo (o Uno paradoxal), o Imperativo e a primeira Inteligência, não existe diferença comparável à que se encontra no seio da gradação dos existentes.

  • Está-se no próprio nível da unidade, que se declina segundo três momentos: o Uno indizível, tal como está além de toda determinação, fosse ela a unidade e a infinitude positivas; o Uno existenciante, seja o Imperativo cuja ipseidade é constituída pelo ato de instauração primordial (Ebda’); o Uno existenciado, ou infinita totalidade das realidades efetivas, a primeira Inteligência.
  • A procissão emanadora propriamente dita começa por ocasião do engendramento da série das Inteligências a partir da primeira delas, assim como do engendramento paralelo das Almas a partir da Alma universal, e dos corpos celestes a partir do Corpo universal, retomando Nasîr Tûsî o esquema avicenniano.
  • A primeira Inteligência expressa seu ponto de vista em três representações (a de seu Princípio, o Verbo ou Imperativo; a de sua própria essência, necessitada pelo Princípio; a de sua essência de existente simplesmente possível), que produzem três existentes (a segunda Inteligência, a Alma universal, a esfera das esferas), cuja natureza expressa respectivamente a necessidade absoluta, a necessidade derivada e a possibilidade-de-ser; esta tripla operação se reproduz até o mais baixo grau, o mundo sublunar.

* Cada existente possui uma realidade efetiva (haqîqat), à qual Nasîr Tûsî opõe regularmente seu estado-de-relação (ezafî).

  • Encarada sob o aspecto da eternidade, tal como configurada na primeira Inteligência, a coisa é realidade efetiva; tomada na rede necessitante de causas e efeitos no mundo inferior da Natureza criatural, a coisa é relação, relatividade, ser relativo.
  • As duas categorias (substância e relação) distribuem-se em função da divisão do mundo do Imperativo e do mundo da criação.
  • O mundo do Imperativo (’âlam al-amr) é o universo infinito das substâncias instauradas sob o aspecto de sua eternidade; cada realidade sensível possui para seu esotérico uma substância efetiva que a faz participar do mundo da instauração primordial; sua haqîqat é sua unidade, que se declina segundo três momentos (Uno indizível, Imperativo e Inteligência).
  • O mundo da criação (’âlam al-khalq) começa onde as multiplicidades exprimem a unidade imperativa; é o mundo da Natureza, frequentemente homologado ao mundo sensível dos corpos; do ponto de vista da criação, o que é substância inteligível torna-se ser-de-relação, expressa-se nas ligações múltiplas que o unem aos diversos corpos, perdendo ou convertendo sua liberdade espontânea em constrangimento; é o mundo do existenciado, das passividades naturais.

* A hierarquia do mundo do Imperativo e do mundo da criação, da substância e da relação, redobra-se da hierarquia do acabado e do incoatovo, do mundo da distinção e do mundo do semblante.

  • O acabado não é propriamente um mundo, mas o estatuto das realidades efetivas; o que é da ordem do inteligível porta em si o traço do Imperativo instaurador, da liberdade fundamental do Princípio; é “acabado” em sua realidade absoluta, em sua haqîqat, e o acabamento de sua essência designa o infinito que constitui seu ser real.
  • Cada existente, concebido do ponto de vista do acabado, em sua realidade efetiva, é infinito porque participa do infinito da instauração primordial; infinito, espontaneidade e realidade efetiva são uma só coisa, e sua unidade se nomeará a Ressurreição; o acabado é o estatuto das realidades em estado de Ressurreição, o estatuto da perfeição final, do retorno de toda coisa ao Uno.
  • O incoatovo é o estatuto das realidades em devir, sejam tomadas na rede das relações, ou estejam no próprio movimento da conversão para o Uno.

* O ismaelismo de Alamût determina a existência de três mundos (mundo do semblante, mundo da distinção, mundo ou estatuto da Unidade), correspondendo a três tipos de homens.

  • O mundo sensível é o mundo do semblante, em dois sentidos: as coisas corporais são as sombras das realidades efetivas, as relações são as imagens confusas das substâncias; e, sob o véu do exotérico, do aparente, “o Real e o ilusório, o tenente do Real e o tenente da falsidade, o verdadeiro e o falso, o verídico e o mentiroso, o bem e o mal, o bom e o mau são todos entremeados”.
  • O sensível é uma confusão das significações na linguagem impura e enganosa que corrompeu a língua impecável do inteligível; é a palavra da mistura, onde nenhuma palavra é pronunciada que não misture os contrários, onde dois se fundem em um, onde o verossímil, o ilusório, o medíocre tomam o lugar da verdade; é o mundo da opressão.
  • “O outro mundo é o mundo da distinção. Lá, o Real e o ilusório, o tenente do Real e o tenente da falsidade, o verdadeiro e o mentiroso, o bem e o mal, o bom e o mau são separados uns dos outros, todos quantos são. É uma condição onde todas as realidades confusas se tornam realidades distintas e onde o tenente do Real é distinguido do tenente da falsidade, isso graças à iluminação da Gnose divina.”
  • O mundo da distinção ou mundo inteligível não é simplesmente superior ao mundo do semblante; lá, um se divide em dois e o Real desfaz os imaginários enganosos; opera-se uma inversão radical de perspectiva, passando-se do ponto de vista do poder-ser ao da efetividade, do “nem bem nem mal” à dualitude esclarecedora do Real, do que confunde ao que decide, da opressão à salvação.
  • A Ressurreição é esta conversão, que absolve as luzes do Real da mistura onde estagnavam; o existente superior, o homem, inverte seu ponto de vista, contempla doravante a pluralidade do ponto da realidade fundamental, concebe-se e concebe toda coisa no partido tomado do Real.
  • Dissipação do imaginário, distinção libertadora do mal, liberdade necessitante são uma só e mesma distinção, cujo termo ou perfeição é a unidade, o mundo das “gentes da Unidade”, daqueles que vivem em estado de Ressurreição.
islamismo/tusi/cjnt/uno-verbo.txt · Last modified: by 127.0.0.1