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1 Loucura que vem das Ninfas

CALASSO, Roberto. La follia che viene dalle Ninfe. Milano: Adelphi, 2005.

1. O primeiro ser a quem Apolo dirigiu a palavra na terra, ao atravessar uma Beócia ainda coberta de floresta, sem Tebas nem caminhos, em busca de um lugar para fundar seu culto, foi a Ninfa Telfusa, que logo o enganou, e o hino homérico, ao transformar bruscamente o “lugar intacto” masculino num ser feminino com quem o deus fala, revela com máxima rapidez e densidade o que a Ninfa representa na economia divina dos gregos.

2. Apḗmōn designa o intacto, o que não sofreu as calamidades vindas de deuses e homens, e Telfusa, considerando a chegada de Apolo uma calamidade, escondeu sua cólera e o enganou com ironia deliciosa e pérfida, aconselhando-o a buscar outro lugar porque o estrépito de suas éguas e mulas a beber nas fontes sagradas perturbaria o santuário e distrairia os visitantes, e recomendando-lhe um sítio áspero e escarpado na garganta do Parnaso.

3. Seguindo sem saber o conselho, Apolo descobriu o futuro sítio de Delfos e sua fonte de belas águas cercada pelos anéis de um enorme dragão fêmea assassino, que ele matou e deixou apodrecer ao sol, grande façanha e grande culpa, e, compreendendo ter sido enganado pela primeira fonte, voltou para soterrar a nascente de Telfusa com um desmoronamento de rochas, erguer ali um altar a si mesmo e roubar-lhe o nome, fazendo-se chamar Apolo Telfúsio.

4. Os detalhes do hino, as palavras idênticas com que Apolo declara em ambos os lugares a vontade de fundar um oráculo para todos os habitantes da Europa, primeira menção dessa entidade geográfica, a mesma fórmula da fonte de belas águas e o caráter feminino de Píton, produzem a impressão quase ótica de um desdobramento do mesmo acontecimento, num caso diálogo malicioso com uma Ninfa, no outro duelo silencioso com um dragão fêmea, ambos centrados numa fonte jorrante e ambos histórias de um poder espoliado, pois Ninfa e Dragão eram guardiões de um saber oracular líquido e fluido de que Apolo, primeiro invasor e usurpador, se apoderou para impor-lhe seu metro, subentendido presente em todas as suas relações tortuosas com as Ninfas, felizes apenas uma vez, quando se uniu a Cirene em forma de lobo.

5. Apolo deve às Ninfas também o uso do arco e a arte divinatória, ensinada pelas Trias, três irmãs aladas do Parnaso nutridas de mel, identificáveis com as Ninfas do Antro Coriciano, que dizem a verdade quando comem mel e mentem quando privadas dele, e que Apolo, ansioso por apagar as origens de seu poder soberano, ofereceu humilhadas a Hermes como presente envenenado, relegando-as a uma divinação infantil de dados e pedrinhas, num mesmo impulso de rebaixar seres femininos detentores de um saber anterior, deixando um vazio que seria ocupado pelas Musas, também três no Hélicon e também enunciadoras do verdadeiro e do falso, mas silenciosas sobre o mel, que Apolo quis apagar, como quis substituir o templo de cera e penas das abelhas por um de bronze, para reivindicar sozinho o conhecimento do pensamento de Zeus, sua primeira e mais pura mentira.

6. Escoliastas e lexicógrafos, legião de espiões da vida secreta dos deuses, revelam que Apolo mentia, pois antes dele Píton e Dioniso já profetizavam em Delfos, cuja soberania, segundo Plutarco, era partilhada igualmente entre Apolo e Dioniso, sinal de um acontecimento obscuro em que Zeus, à espera do filho mais forte que o destronaria segundo a profecia de Têmis, dividiu a soberania entre dois filhos e lhes confiou o mesmo meio de conhecimento, a possessão, numa época em que a realidade se endurecia e a metamorfose, antes estado normal da manifestação, migrava para o invisível e para o reino selado do espírito, tornando-se conhecimento concentrado num lugar que era ao mesmo tempo fonte, serpente e Ninfa, três modalidades de um único ser.

7. Joseph Fontenrose reconheceu que o escritor Norman Douglas antecipara as descobertas da erudição ao perguntar o que é um dragão e responder que é um animal que olha, já que drákōn deriva de “ter vista penetrante”, e que seu olho é a fonte, de modo que dragão e fonte são partes de um mesmo corpo e a água vítrea é o próprio olhar mortal que perscruta o estrangeiro, olhar que Apolo teve de combater e incorporar ao matar Píton, como Atena traz no peito o olhar de sua vítima, a Górgona.

8. O conhecimento pela possessão, em que convergem Dioniso e Apolo, não é apêndice marginal de uma concepção estabelecida, mas subverte de dentro toda ordem preexistente, como Dioniso abalou os muros da incrédula Tebas, pois, se o saber de Delfos não é mero engano sacerdotal, a voz de quem conhece será sempre ao menos dupla, a da phrónēsis que controla e a da palavra éntheos que acolhe um deus, correspondente a um duplo olhar, o de Apolo que observa e o de Píton escondido nele, a Ninfa que jorra no invisível.

9. Entendido o verbo ser como sinal das conexões, bandhu, dos videntes védicos, a fonte é a serpente e a Ninfa e a Ninfa é a serpente, unidade que em Melusina se reúne num só corpo e em Delfos se reparte em três seres porque o apolíneo é o que escande e separa, o metro, embora a substância seja única, razão pela qual as Ninfas podem ser salvadoras e devastadoras, como Telfusa Erínia, irmã das Mélias nascidas com as Erínias do sangue da ferida de Urano, de modo que as Ninfas eufemizadas dos tetos barrocos são parentes consanguíneas de justiceiras funestas e são insones como os dragões, porque a fonte jorra sem interrupção e seu olhar não cessa de vigiar.

10. Antes da batalha de Plateia, que em 479 livrou para sempre a Europa da ameaça de ser engolida pela Ásia, o oráculo de Delfos prescreveu aos atenienses, entre outros atos, a prece às Ninfas Esfragítides, único caso de Ninfas evocadas numa guerra, cujo nome remete a sphragís, selo, e a um antigo antro oracular do Citéron, levantando a questão de qual seria o selo, o segredo das Ninfas, tão bem guardado quanto o de Elêusis a ponto de nem ser reconhecido, como mostra Nilsson ao negar-lhes qualquer relação essencial com a mântica e reduzi-las à fertilidade da natureza, palavra que foi o maior flagelo dos estudos mitológicos desde Mannhardt, capaz de ligar qualquer deus a uma cadeia de tautologias tão verdadeiras e vazias quanto dizer que literatura, publicidade e astrofísica estão ligadas à produção, roupa pronta que nada explica das particularidades dos deuses e que eles contemplam sorrindo do alto.

11. Plutarco menciona que o antro das Esfragítides fora sede de oráculo e que muitos habitantes eram possuídos e chamados nymphólēptoi, “tomados pelas Ninfas”, termo de uma série de compostos com o verbo lambánō e o nome da potência que preside a cada possessão, theólēptos, mousólēptos, phoibólēptos, que revela o amplo leque da possessão grega e uma terminologia muito mais articulada e lúcida que a moderna, exigindo examinar os testemunhos para distinguir o rapto pelas Ninfas das outras formas de possessão.

12. O nymphólēptos não tem relação com o epiléptico, já que Hipócrates, ao enumerar as possessões ligadas à epilepsia, nem menciona as Ninfas, e é grosseira a hipótese de ligá-las especificamente ao delírio erótico, pois o coro do Hipólito de Eurípides, ao enumerar as potências capazes de causar a paixão de Fedra, não as inclui.

13. Na Ética a Eudemo Aristóteles fala surpreendentemente dos nymphólēptoi a propósito da felicidade, distinguindo cinco tipos, a inata, a aprendida e a adquirida pelo exercício, e, em oposição a elas, a que vem pela inspiração divina, como nos nymphólēptoi e theólēptoi, e a que vem pela sorte, ambas caracterizadas pela irrupção súbita de potências que capturam e transformam sua presa, colocando o sistema das Ninfas no mesmo nível do dos deuses e usando a linguagem técnica dos mistérios, mas sobretudo associando a possessão à felicidade, algo que nenhum estudioso moderno, preso à imagem oitocentista e ocultista da possessão como mal terrível e às referências parapsicológicas de Dodds, ousou considerar.

14. A passagem de Aristóteles revela que modernos e gregos falam de realidades diferentes ao falar de possessão, não porque os gregos ignorassem suas formas patológicas, descritas com precisão clínica de Platão a Jâmblico, mas porque os modernos perderam o sentido do que a possessão põe em jogo para o conhecimento, tomando-a por fenômeno extremo e turvo, como o professor Oesterreich, que mascou folhas de louro como a Pítia sem efeito algum, sem pensar que bastaria observar a própria mente nas circunstâncias mais banais para ter uma experiência fundada da possessão.

15. Para os gregos a possessão foi forma fundamental do conhecimento, nascida muito antes dos filósofos que a nomeiam quando sua soberania já declina, e Homero não a ignorava, como pretende Dodds, mas a tinha por toda parte, pois toda a psicologia homérica é atravessada pelo reconhecimento de que a vida mental é habitada por potências autônomas com nomes e formas, como a cólera de Aquiles cravada como lasca em sua mente, de modo que todo aumento súbito de intensidade fazia entrar na esfera de um deus, a mente era lugar aberto a invasões e cada invasão era metamorfose e aquisição de um conhecimento como páthos, necessariamente erótico, já que ser tomado ou golpeado pelo deus corresponde ao rapto e à violação das epifanias de Zeus, rio subterrâneo da história cuja definição mais drástica é a de Patrizzi, conhecer é unir-se ao cognoscível, razão pela qual Platão declara suprema a possessão erótica.

16. Segundo Píndaro, a possessão erótica desceu do Olimpo na forma de um brinquedo enigmático, uma roda de quatro raios com o corpo do torcicolo, ave de convulsos frêmitos, dada por Afrodite a Jasão para seduzir Medeia, e essa ave delirante era a Ninfa Iynx, punida por Hera por ter dado a Zeus um filtro amoroso por Io e transformada na ave que agita as nádegas, imagem que solda fatalidade e fatuidade, como o nome das fadas, herdeiras das Ninfas, deriva das Fata e das Fatuae, e em que a roda de Íxion, círculo inelutável da necessidade, se une ao gesto da fatuidade erótica, solda que devemos refazer para chegar à origem das Ninfas.

17. A história de Iynx mostra que a possessão é literalmente um dom divino, um objeto estranho oferecido por Afrodite, que Apolo fez pendurar em ouro no frontão de Delfos como encantadoras cantantes e que na época alexandrina se encontrava nos quartos femininos junto à maquiagem, usado para chamar de longe amantes rebeldes.

18. As Ninfas presidem à possessão porque são seu próprio elemento, águas eternamente agitadas de onde emerge de súbito um simulacro soberano que subjuga a mente, como indica a dupla acepção de nýmphē, noiva e fonte, e o hino citado por Porfírio sobre as “águas mentais” que Apolo recebeu delas, matéria mental que age e sofre o encantamento, semelhante à prima materia dos alquimistas, de modo que a ninfolepsia, segundo Festo, nasce de ver emergir de uma fonte a imagem de uma Ninfa, como a imagem mental aflora do contínuo da consciência, visão exaltante cantada por Catulo na partida dos Argonautas, mas que exige cautela, pois Teócrito chama as Ninfas de terríveis.

19. Hilas, o amante de Héracles, ao buscar água em Quios encontrou uma Ninfa emergindo da fonte, tomada de desejo violento, que o abraçou e o arrastou para o turbilhão segundo Apolônio, ou várias Ninfas que o fizeram cair como astro na água escura segundo Teócrito, assimiladas a um redemoinho de vento, e uma pintura de Herculano revela toda a brutalidade do episódio, com três Ninfas pressionando sua cabeça para afogá-lo em suas águas como num delírio sem retorno.

20. O mais célebre dos nymphólēptoi foi Sócrates, que, ao meio-dia de verão sob o plátano junto ao Ilisso e ao santuário das Ninfas, fora da cidade, no lugar selvagem que para os indianos era o da doutrina esotérica, apresentou a Fedro, como rito de purificação após declarar-se tomado pelas Ninfas, a doutrina mais perigosa, a mesma que expulsara da cidade na República, para expiar o pecado contra Eros e contra a mitologia, pecado que, pelo exemplo de Estesícoro e Helena, consiste em enganar-se sobre a natureza do simulacro.

21. Sendo esse pecado o desconhecimento da linguagem dos simulacros, de uma sabedoria que fala por gestos e imagens, as destinatárias da palinódia só podem ser as Ninfas, as figuras míticas mais próximas dos simulacros, eídōla do mundo que irrompem entre os eídōla da mente, e por isso Sócrates lhes dirige uma prece no fim do Fedro.

22. O discurso de Sócrates é um katharmós que contém em abismo a descrição de um katharmós na manía telestikḗ, libertação de antigas culpas por um hierofante em delírio, descrição do próprio Fedro como obra de reparação a uma potência ofendida que é ao mesmo tempo Eros, a mitologia e as Ninfas, ofendidas sobretudo pela República, de modo que as duas obras são polos eternamente antitéticos do juízo sobre o conhecimento pela metamorfose, uma tratando dos simulacros que contaminam como peste, a outra dos que curam, mostrando que a única libertação do delírio vem do próprio delírio, segundo o oráculo apolíneo de que quem feriu curará, máxima que paira sobre todo o Fedro como narrativa da cura oferecida às Ninfas e pelas Ninfas.

23. Por volta de 1890, estudando Botticelli em Florença, o jovem Aby Warburg concluiu, contra a fórmula de Winckelmann da nobre tranquilidade, que a Antiguidade pagã ressurgia no Quattrocento tardio como intensificação súbita do gesto feminino que escoa no movimento das vestes e dos cabelos agitados pelo vento, o “gesto vivo” que atribuiu à influência de Poliziano e de seus acessórios, cabelos soltos, roupas infladas, tremor do ar, uma “brisa imaginária” que, como a grisaille, cria a distância entre a fórmula do pathos e a representação, marca da memória e da presença espectral do que retorna.

24. Anos depois, Warburg inventou com André Jolles uma correspondência lúdica sobre a paixão de Jolles por uma figura da fresca de Ghirlandaio em Santa Maria Novella, a jovem de vestes ondulantes e passo leve e frêmito que avança atrás de três figuras severas como empurrada por um sopro de origem desconhecida, a Ninfa, que reúne os traços de Poliziano e Botticelli e irrompe como petrel pagão na respeitabilidade cristã do interior florentino, peça de marchetaria de outra camada da realidade, diante da qual Jolles confessa ter perdido a razão com a voz de Warburg.

25. Os poucos fragmentos publicados dessa correspondência inédita mostram que a Ninfa continuava a agir em Warburg como imagem-fonte da exaltação demoníaca do gesto vivo, a ponto de ocupar um painel inteiro de seu atlas Mnemosyne, onde, com os anos, emergiu também sua variante sinistra, a caçadora de cabeças, Judite, Salomé, a Mênade, não como culto decadente das dark ladies, mas, como notou Edgar Wind, como choque transformado em órgão de conhecimento histórico, pois Warburg sabia que sua cabeça podia a qualquer momento ser raptada pelas Ninfas e ficar prisioneira da loucura.

26. O equilíbrio psíquico de Warburg rompeu-se em 1918 e entre 1920 e 1924 ele viveu na clínica de Binswanger em Kreuzlingen, convencido de que os demônios cujo domínio estudara na história haviam se vingado capturando-o, e em 1923, nymphólēptos moderno, concebeu para si um katharmós, a conferência sobre o ritual da serpente, cuja leitura diante de outros pacientes considerava passo decisivo para sua cura, o que de fato ocorreu, confissão de um esquizoide que se dizia incurável.

27. Warburg dedicou a conferência à serpente, símbolo que circunscreve um terror informe, de modo que Ninfa e serpente, Telfusa e Píton, marcaram o início e o fim de sua pesquisa, retornando à experiência no Novo México, onde vira na dança dos índios Pueblo a perda devota de si na transformação em outro ser e na dança dos Moki com serpentes, iniciadas como noviços e enviadas como mensageiras aos mortos para trazer a chuva, a transformação da imagem do mal em salvadora, aproximando-a da serpente de bronze erguida por Moisés para curar os hebreus mordidos, passagem que contradiz a condenação bíblica dos ídolos e que Warburg escolheu para salvar-se, segundo o mesmo princípio de que quem feriu curará, repetindo na clínica o que Sócrates, raptado pelas Ninfas, ensinara junto ao Ilisso, que pelo justo delírio se alcança a libertação dos males e que a manía é mais bela que a sōphrosýnē, o controle de si conquistado pelos gregos a custo imenso e tantas vezes confundido com a própria Grécia, porque a manía nasce do deus e a sōphrosýnē nasce dos homens.

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