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PORFÍRIO
Capítulo VIII — O Neoplatonismo
- Os sucessores de Plotino abandonaram sua reserva em relação ao culto sacerdotal e ao misticismo laico, promovendo uma aliança do neoplatonismo com a religião, a magia e os mistérios orientais.
- Essa mudança resultou da valorização extrema dos Oráculos Caldaicos dentro da escola a partir de Porfírio.
- A origem dos Oráculos Caldaicos é incerta, mas sabe-se que foram entregues a Juliano, o Teurgo, que viveu sob Marco Aurélio e era filho de um filósofo caldeu.
- Juliano, o Teurgo, escreveu uma exegese sobre esses hexâmetros ambíguos, apresentando-os como revelação divina.
- O termo caldaico sugere a intenção de expressar a sabedoria do antigo clero babilônico, enquanto o foco no culto ao Fogo indica uma possível influência iraniana ou mazdeísta.
- A procedência permanece no campo das hipóteses.
- Um dualismo característico opõe os demônios evocados pelos ímpios aos deuses de quem os teurgos obtêm as teofanias.
- O contexto da época era marcado por uma crença geral no poder da magia para evocar deuses e espíritos de mortos, embora fosse uma prática punida por lei.
- Os teurgos pretendiam realizar prodígios e aparições por meio de práticas piedosas, diferenciando-se pela pureza da alma que permitia a visão dos deuses luminosos.
- A santificação era recomendada para garantir o sucesso das operações.
- Diferente dos feiticeiros que submetiam deidades à vontade própria para obter respostas, os Oráculos Caldaicos consistiam em respostas dadas pela divindade, especialmente Hécate, a Juliano, o Teurgo.
- Hécate era concebida como senhora da natureza inteira, abrangendo céu, terra e infernos.
- Os mistérios revelados por Juliano e transmitidos aos neoplatonistas não se assemelhavam aos do antigo paganismo, que envolviam grandes assembleias de iniciados.
- Reuniões numerosas eram inviáveis devido à proibição legal do culto pagão.
- Os taumaturgos caldeus realizavam suas práticas ocultas de forma isolada, assemelhando-se aos magos documentados nos papiros do Egito.
- O interrogador conversava individualmente com o deus manifestado em visão.
- A teurgia se definia como uma forma honrosa de magia ou uma feitiçaria clarificada, sendo difícil distinguir o papel da ilusão ou do artifício nas visões.
- O prestígio dos Oráculos Caldaicos entre os discípulos de Plotino era imenso, sendo invocados como autoridade suprema para fundamentar especulações metafísicas.
- Porfírio e Jâmblico redigiram comentários sobre a obra, e Proclo afirmava que conservaria apenas os Oráculos e o Timeu de Platão se pudesse suprimir todos os outros livros.
- A sabedoria caldaica passou a ser venerada no mesmo nível que Homero ou Orfeu.
- Uma revelação de origem bárbara exerceu influência sem precedentes sobre o sistema de uma escola filosófica grega, inspirando suas teorias.
- Os Oráculos utilizavam uma linguagem imagética e obscura, onde a luz física simbolizava a iluminação psíquica, em vez da precisão de um tratado metafísico.
- O conteúdo combinava demonologia e misticismo oriental com doutrinas pitagóricas, platônicas e estoicas em um amálgama místico.
- A construção teológica visava indicar o caminho da salvação para a alma exilada no mundo sensível, assemelhando-se ao propósito da gnose.
- A concepção de universo era dualista, opondo o mundo inteligível das Ideias ao mundo sensível das aparências, seguindo a tradição platônica.
- O topo do panteão era ocupado pelo Intelecto, também chamado de Pai, um deus transcendente representado às vezes como Fogo imaterial.
- Abaixo do Pai organizavam-se as tríades do mundo inteligível e os deuses que presidiam ou habitavam além das esferas celestes.
- Uma cadeia ininterrupta de criaturas inferiores, como anjos, heróis e demônios, estendia-se em degeneração contínua até o reino da natureza ao qual o homem está submetido.
- A alma humana, faísca do Fogo original, aprisionou-se no corpo por um ato de vontade, perdendo a memória de sua preexistência ao entrar em contato com a matéria.
- No mundo material, a alma torna-se escrava do Destino, sendo que apenas os teurgos conseguem escapar da Fatalidade por meio da piedade.
- A massa dos seres humanos pode degradar-se ao ponto de transmigrar para corpos de animais.
- A semente ínea interior incita o espírito caído a buscar o retorno à fonte luminosa.
- A ascensão da alma é descrita por vezes como auxiliada por agentes físicos, como os Ventos ou elementos aéreos e lunares.
- O Sol, deus dos sete raios, possuía o poder de atrair para si as almas mergulhadas no abismo, conforme antigas doutrinas caldaicas.
- A explicação mitológica para a subida do espírito envolvia a necessidade de um deus psicopompo e o auxílio de anjos e demônios benevolentes.
- Um sinal de reconhecimento era fornecido para garantir a livre passagem pelas potências hostis.
- Após despojar-se das camadas materiais, a alma purificada era acolhida no seio paterno do Deus supremo em estado de felicidade infinita.
- Essa beatitude opunha-se aos suplícios aplicados aos ímpios pelos demônios do Tártaro.
- As ideias orientais e gnósticas foram integradas pelos mistagogos caldaicos e valorizadas pelos neoplatonistas devido à semelhança com o sistema de Plotino.
- Porfírio foi o primeiro a reconhecer a autoridade desses oráculos, tornando-se a principal fonte para identificar sua influência na escola.
- A relação afetiva entre Plotino e Porfírio baseava-se em temperamentos complementares, resultando na incumbência deste último de publicar os escritos do mestre.
- Plotino demonstrava desinteresse pela elegância formal e pela erudição citatória, priorizando o sentido e a investigação da verdade.
- Redigia seus textos de uma só vez, sem correções, o que resultava em uma escrita por vezes incorreta e enigmática.
- A transfiguração do rosto de Plotino durante suas exposições orais e sua ferveur mística conferiam uma força persuasiva singular às suas lições.
- Porfírio destacou-se como um estilista erudito e polígrafo, produzindo obras em áreas diversas como filosofia, história e ciências ocultas.
- A facilidade do estilo de Porfírio contrastava com a escrita abrupta de Plotino, tornando os teoremas abstrusos deste mais acessíveis.
- Porfírio era um grande vulgarizador, mas carecia da profundidade e do poder de síntese original de seu mestre.
- A filosofia para Porfírio assumia o papel de medicina das almas, focando na cura das paixões e na pregação moral.
- A vida do filósofo era comparada a um sacerdócio, exigindo abstinência alimentar total e ascetismo rigoroso.
- A divergência mais clara entre os dois filósofos residia na atitude religiosa, com Porfírio valorizando as tradições sagradas e o simbolismo dos ritos.
- Originário da Fenícia, Porfírio manteve uma inclinação para interpretar mitos e rituais em busca de sentidos profundos.
- Porfírio integrou os Oráculos Caldaicos às especulações platônicas, buscando conciliar essa prática com o idealismo de Plotino.
- A purificação da alma exige a renúncia aos prazeres sensoriais e o libertar das paixões decorrentes da união com o corpo.
- O caminho para a perfeição envolve o esforço da vontade para afastar-se do terrestre em direção à contemplação das realidades inteligíveis.
- O sábio pode atingir o Bem supremo por meios próprios, independentemente de ritos ou iniciações, unindo seu Intelecto à energia divina onipresente.
- A alma que compreende a natureza do mal durante a existência terrena perde o desejo de reencarnar, aspirando à felicidade eterna em Deus.
- Porfírio manteve fidelidade ao ensino de Plotino, acentuando a tendência ascética baseada na oposição entre alma divina e corpo corruptor.
- Na descida ao mundo material, a alma adquire sucessivos invólucros que compõem sua constituição temperamental.
- O processo inclui a recepção de um corpo etéreo, um solar e um lunar, conforme atravessa as esferas planetárias.
- O invólucro vaporeux ou pneuma atua como intermediário entre a matéria e o intelecto, sendo o responsável pelas sensações e paixões.
- Se a alma se entrega aos prazeres terrestres, esse veículo torna-se pesado e manchado.
- Purificações rituais e a teurgia podem auxiliar a alma pneumática a recuperar o acesso ao céu, especialmente para aqueles incapazes de atingir a salvação pela filosofia.
- Almas menos elevadas podem ser conduzidas através do ar por demônios benevolentes até as esferas astrais.
- O retorno ao ser supremo não é garantido para todos, e Porfírio admite a necessidade de sucessivas reencarnações humanas para a alma que não atinge a redenção definitiva.
- Ao contrário de Plotino, Porfírio sustenta que a alma humana nunca decai ao ponto de habitar corpos de animais.
- A redenção no seio do Bem absoluto é reservada a uma elite pensante, enquanto para a massa restam as práticas de culto com eficácia limitada e temporária.
- O espiritualismo plotiniano, ampliado por Porfírio, passou a ser visto como o complemento superior de todas as teologias e cultos sincréticos.
- Sem essa expansão interpretativa, a influência de Plotino poderia ter se limitado a pequenos círculos e se extinguido com o tempo.
- Porfírio interpreta a descida ao Hades não como um deslocamento espacial, mas como a união da alma a um invólucro pesado e obscuro.
- O Hades é identificado com a própria matéria tenebrosa que corrompe a essência da alma.
- A alma que se prendeu às obras da natureza atrai vapores densos que a precipitam em abismos subterrâneos após a morte.
- Essa explicação de caráter físico aproxima-se de concepções estoicas.
- A demonologia ganha grande relevância em Porfírio, que atribui aos demônios aspectos do politeísmo incompatíveis com sua visão filosófica da divindade.
- Adota-se uma doutrina influenciada pelo dualismo mazdeísta, onde demônios perversos submetidos a um antideus causam males à humanidade e supliciam almas nos infernos.
- O rio Estige é interpretado por Porfírio como um demônio temível e uma potência punitiva.
- As obras de Homero são vistas como repletas de sabedoria teosófica oculta sob alegorias.
- As almas de ímpios e de mortos sem sepultura permanecem aquém do Aqueronte, sofrendo tormentos gerados pela própria imaginação que revive seus crimes.
- Os mitos de Sísifo e Tântalo são explicados como obsessões mentais recorrentes.
- Os justos que atravessam o rio infernal perdem a memória da vida passada e obtêm repouso, cessando suas angústias.
- É possível que retornem brevemente à terra para fazer predições se absorverem vapores de sangue sacrificial.
- Deuses também podem ser punidos por suas paixões e ódios, sendo lançados nas profundezas do Tártaro, abaixo do Hades.
- O demônio do Estige exerce sobre os deuses caídos o mesmo papel que as Erínias exercem sobre as almas humanas.
- A evolução do pensamento de Porfírio demonstra um esforço contínuo para harmonizar o idealismo de Plotino com as tradições e superstições populares.
- Apesar das concessões ao politeísmo, sua visão é considerada mais lúcida do que a de sucessores como Jâmblico.
- Jâmblico elevou a teurgia dos Oráculos Caldaicos à condição de fonte principal de purificação e salvação, superando a proeminência da filosofia defendida por Porfírio.
- Os comentários de Jâmblico transformaram essas revelações no livro sagrado do neoplatonismo.
- Jâmblico era venerado como um hierofante e taumaturgo, capaz de evocar demônios e realizar fenômenos como a levitação.
- Exerceu uma fascinação mística sobre seus discípulos, sendo visto como um salvador do helenismo contra o cristianismo.
- O poder do teurgo não advém da inteligência ou de operações mentais, mas do conhecimento de símbolos ocultos e ritos inexprimíveis.
- Essas práticas agem sobre potências superiores de forma que a filosofia sozinha não alcançaria.
- O êxtase teúrgico é provocado por fórmulas litúrgicas e atos que geram aparições divinas sob luz sobrenatural.
- O Livro dos Mistérios detalha minuciosamente os sinais para reconhecer cada entidade evocada, de anjos a almas de defuntos.
- A teurgia se diferencia da magia por não utilizar ameaças contra as divindades, baseando-se na piedade e na pureza do oficiante.
- A manifestação divina elimina a maldade e as paixões desordenadas do celebrante, trazendo revelação intelectual e moral.
- Almas impuras que tentam contatar o divino acabam atraindo demônios impostores que agravam sua perversão.
- A gnose mais infalível é considerada a instrução recebida diretamente de uma potência celeste.
- A ascensão ao deus inteligível torna-se o objetivo final da operação teúrgica e da presciência do futuro.
- A purificação plena da alma deixa de ser fruto apenas da razão e do ascetismo para depender do auxílio de heróis, demônios, anjos e deuses.
- A teofania garante ao teurgo a certeza da união pós-morte com o Deus supremo.
- A incorporação das almas e seu retorno ao inteligível ocorrem por uma necessidade inelutável da lei cósmica.
- Causas adicionais para a descida incluem o desejo de purificar seres inferiores ou punições por corrupção moral anterior.
- Jâmblico sustenta a métempsycose apenas entre seres de mesma natureza, negando a passagem de almas humanas para animais ou vice-versa.
- O Tártaro é aceito por Jâmblico como um local real de punição transitória para as almas pecadoras, em conformidade com as crenças pagãs.
- Os suplícios não podem ser eternos, pois a natureza superior da alma exige seu eventual retorno ao mundo inteligível.
- Jâmblico propõe uma hierarquia de virtudes que culmina nas virtudes hiératicas, permitindo que a parte divina da alma ultrapasse o Intelecto para atingir o Um.
- O auxílio das potências celestes é indispensável para superar a fraqueza humana e as leis da Fatalidade que oprimem o indivíduo.
- Os deuses são adorados como seres superiores ao Destino, capazes de libertar o homem do devir.
- A doutrina da alma gerou controvérsias extensas sobre sua origem astral, sua passibilidade antes da encarnação e a natureza de seus veículos etéreos.
- Questionava-se também a sobrevivência do veículo após a morte e a possibilidade de almas perfeitas cooperarem com anjos.
- A variabilidade das opiniões dos mestres impediu que tais especulações se tornassem um dogma tradicional duradouro para a sociedade.
- A tentativa de Juliano, o Apóstata, de restaurar o politeísmo foi profundamente influenciada pela teurgia e pelo pensamento de Jâmblico.
- Juliano via-se como defensor da cultura helênica contra a barbárie cristã, motivado por um temperamento místico e iniciações teúrgicas.
- A fé de Juliano baseava-se em uma teologia solar onde o Sol é o criador e o destino final das almas.
- O imperador acreditava estar unido a Hélios, tendo Mitras como guia para a vida eterna nas regiões superiores.
- O fracasso de Juliano marcou o declínio do politeísmo, mas o neoplatonismo continuou a influenciar o pensamento cristão.
- Pais da Igreja como Basílio e os dois Gregórios integraram ideias plotinianas sobre a imaterialidade de Deus e da alma em suas teologias.
- No século V, Proclo tentou coordenar os problemas metafísicos e religiosos em um sistema vasto para conter a expansão cristã.
- O magistério sobre as crenças da vida futura passou gradualmente da filosofia para a Igreja.
- A influência dos últimos platônicos atenienses foi limitada no Ocidente devido ao declínio do conhecimento do grego e à desintegração política do Império.
- Autores como Macrobe focavam em Plotino e Porfírio, que haviam ensinado na Itália.
- O isolamento das províncias e a insegurança das comunicações empobreceram a tradição científica e as relações intelectuais entre Oriente e Ocidente.
- A obra de Boécio serviu como um dos principais intermediários das ideias neoplatônicas para a Idade Média.
- O neoplatonismo forneceu as ferramentas intelectuais que a teologia cristã utilizou para fixar seus próprios dogmas.
- Santo Agostinho foi profundamente impactado pelas obras de Plotino e Porfírio, que o ajudaram a superar o materialismo maniqueísta.
- Agostinho adotou a concepção de que a alma immatérielle deve buscar a visão de Deus libertando-se dos laços corporais.
- Apesar de Agostinho ter reconhecido posteriormente pontos inconciliáveis entre o neoplatonismo e a fé cristã, a influência dessas ideias persistiu em seus escritos.
- Plotino é considerado um dos pensadores que mais influenciou a teologia cristã, apesar de sua identidade pagã.
- Outras vias de infiltração païenne incluíram as obras do Pseudo-Dionísio, o Areopagita, que inspiraram místicos medievais como Scot Erígena e Mestre Eckhart.
- O neoplatonismo espiritualizou a concepção de felicidade no além, movendo a morada das almas para um plano suprassensível.
- A alma que mantém a pureza aspira à união com a Unidade divina, transcendendo o mundo das ideias em um êxtase de amor.
- A visão beatífica e o amor místico pela beleza inefável representam a aspiração por um ideal de perfeição que sobreviveu à queda do paganismo.
- Visão beatífica da magnificência de Deus, percepção imediata de toda a verdade, amor místico da Beleza inefável.
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