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3 Mirra

DETIENNE, Marcel. Les Jardins d’Adonis. Paris: Editions Gallimard, 1972

Da mirra à alface

1. Usados nas fumigações rituais e na celebração do sacrifício, os aromas não se reservam apenas ao culto, tendo também, como unguentos, perfumes e cosméticos, uma função erótica, mas, enquanto nas práticas sacrificiais são entregues em forma sólida, de pães ou grãos, às chamas que os consomem, na perfumaria as essências aromáticas são duplamente protegidas da força do fogo, pois para fabricar os perfumes, à base de óleo, o fervedor de unguentos, myrepsós, realiza uma operação culinária que engrossa e condensa o líquido usando, segundo Teofrasto, um recipiente meio imerso em água quente para evitar o contato direto com a chama, e, segundo o mesmo Tratado dos odores, os perfumistas nunca expõem os perfumes ao calor e à luz viva do sol e moram sempre em casas frescas e sombreadas, precauções que confirmam que mirra e aromas são o oposto das plantas cuja maturação-cozimento deve prolongar-se pelo fogo culinário, encarregado de substituir a ação do sol distante demais, pois, sendo os aromas o produto do cozimento natural mais vivo, interno e externo, não devem ser submetidos diretamente nem ao fogo culinário nem ao solar, obtendo-se a mediação num caso pela água, no outro pela sombra ou pelo chumbo e pelo alabastro que encerram os perfumes em sua opacidade protetora, de modo que as substâncias aromáticas destinadas à cosmética são de certo modo subtraídas à comunicação vertical que seu uso no culto implica, mas, transformadas em unguentos e perfumes, conservam a mesma virtude da mirra e do incenso queimados em honra dos deuses, permitindo agora, num plano horizontal, unir seres normalmente separados pela força de seu perfume.

2. Perfumes e aromas são substâncias dotadas de misteriosa eficácia, como mostra o episódio em que os deuses tentam convencer Hefesto a deixar Lemnos para libertar Hera dos laços invisíveis de um trono enfeitiçado e só Dioniso consegue, seja vertendo ao ferreiro o vinho que o embriaga, seja friccionando-lhe os membros com uma mirra que o encanta com seu perfume e o arrasta sem resistência até o Olimpo, ou um relato de Apuleio, em que Panfília, morrendo de amor por um belo jovem que filtros e encantamentos não conseguem levar ao seu leito, decide revestir-se de penas como uma ave e voar até o objeto de seu desejo, despindo-se, tirando de um cofre várias caixinhas e untando todo o corpo, das unhas ao alto da cabeça, com um unguento perfumado, e depois, após longa conversa com sua lâmpada, agitando os membros até que surgem plumagem macia, penas fortes, bico curvo e garras aduncas, transformando-se em coruja e lançando-se ao ar com um grito lamentoso, amante transformada em ave pela magia de um unguento que se une ao amado pela simples virtude dos aromas.

3. Para toda uma tradição moralista, cujo porta-voz mais virulento é o Platão da República, os eflúvios perfumados dos banquetes e o brilho dos unguentos sobre os membros testemunham um gênero de vida voltado à alegria e aos prazeres dos sentidos, bastando pensar nos aromas para evocar uma série de imagens de luxo e moleza, vestes de cauda, alimentos delicados, molhos e iguarias, coroas de flores, cortesãs e prostitutas, todas as delicadezas da vida à moda persa como os gregos gostam de imaginá-la, sendo prazeres e devassidão inseparáveis das nuvens de incenso e dos perfumes, e Hēdonḗ, Prazer Sensual, é o nome da Afrodite coberta de perfumes que se apresenta ao julgamento de Páris orgulhosa do poder do desejo, mas a Afrodite perfumada não é só protetora da lascívia, makhlosýnē, das cortesãs, cujos cabelos e seios inundados de perfumes despertariam o desejo de um velho, pois, protetora do casamento ao lado de Hera e Deméter, a mesma deusa representa no plano religioso a parte de desejo sexual e prazer amoroso, aphrodísia, indispensável à consumação da união entre homem e mulher no casamento.

4. Aromas e perfumes são de uso ritual na Grécia no dia das núpcias, pois antes de conduzir a jovem à casa do noivo as mulheres que a cobriram de tecidos de cores vivas friccionam-na com unguentos e derramam sobre ela, gota a gota, os perfumes mais preciosos, e o jovem noivo que a espera, vestido de branco e coroado de flores púrpuras, está também coberto de mirra, emanando o perfume dos aromas do corpo dos jovens esposos como sinal eficaz da atração que os leva irresistivelmente um ao outro, e, por mais que o Sócrates de Xenofonte censure às mulheres o uso de cosméticos e diga às jovens esposas que não precisam de perfumes porque elas próprias os exalam, na Grécia o prazer amoroso não dispensa nem uns nem outros, já que a maioria dos homens, observa Plutarco, não se dispõe a deitar-se com suas mulheres se não vierem cobertas de perfumes e aromas.

5. Dessa função erótica dos aromas testemunha um episódio da Lisístrata de Aristófanes, em que, para obrigar os homens a pôr fim à guerra, todas as mulheres da Grécia juram recusar-se aos maridos e, com as armas de seu sexo, túnicas cor de açafrão, perfumes e camisas transparentes, preparam-se, instigadas por Lisístrata, para excitá-los, ou, como dizem, assá-los, optân, e pô-los na grelha, statheúein, cabendo a certa Mirrina dar a demonstração perfeita do método, pois, fingindo ceder ao desejo do marido, Pequena Murta deixa-se levar à gruta do deus Pã, junto à Acrópole, mas encontra mil pretextos para retardar o abraço, um colchão de palha, uma esteira, um travesseiro, uma coberta, até que, ao desnudar os seios, lembra que ambos esqueceram de friccionar-se com perfumes e, apesar dos protestos do marido, corre a buscar um frasco de bálsamo e unge-se cuidadosamente, convidando-o a fazer o mesmo, desaparecendo de vez no momento em que o infeliz, consumido pelo desejo, julga enfim tê-la nos braços.

6. A sedução exercida por essa mulher é sublinhada pelo nome de Pequena Murta, rico em referências eróticas, pois com os ramos desse arbusto aromático se tecem na Ática as coroas dos noivos e o nome dessa planta, sagrada a Afrodite, designa tanto o clitóris quanto o sexo feminino, de modo que o perfume com que Mirrina se inunda é apenas a forma extrema da sedução que emana de uma mulher inteiramente votada a Afrodite.

7. A distância entre essa Mirrina e Mirra, sedutora do pai, é tanto menor quanto uma versão do mito de Adônis conta a metamorfose de sua mãe não em árvore da mirra, mas em jovem murta, e é nesse contexto semântico que Adônis encontra um de seus significados fundamentais, seja produto da árvore da mirra ou fruto da murta, confirmado por duas provas mais imediatas, a primeira, a de que no vocabulário amoroso grego Adônis é sinônimo de perfume e de amante, como nos nomes, meu perfume, meu terno Adônis, que uma cortesã dá ao amante num epigrama da Antologia Palatina, e a segunda, uma variante latina do mito de Mirra que, ligando Adônis ao vocábulo grego hēdoné, prazer sensual, diz explicitamente que a paixão de Afrodite pelo filho de Mirra é provocada pelo suco da árvore da mirra, perfume que torna ardentes e abrasados, de modo que, filho de Mirra e produto da árvore da mirra, Adônis é amante e perfume em sentido próprio e figurado.

8. Decifrado o conjunto de imagens e valores ligados pelos gregos aos aromas, o mito de Adônis e Mirra só pode ser interpretado como mito da sedução, dupla sedução que orienta a história da mãe e a do filho, pois na primeira parte, centrada em Mirra, o jogo da sedução entra explicitamente na problemática do casamento, já que Mirra, jovem que recusa o estado conjugal, rejeita a união à justa distância e a escolha de um marido entre os pretendentes que formam o grupo dos homens disponíveis, e, por ter rejeitado o casamento e a parte de Afrodite inseparável de sua condição feminina, é condenada pela deusa a desejar a união com o pai e levada a seduzir o único homem que não pode desejar de modo normal e legítimo, aparecendo o casamento como termo mediano entre os dois estados de Mirra, ora virgem enojada dos pretendentes, ora mulher presa do desejo desenfreado de união sexual com o pai, e o mito, através dos amores de uma filha que seduz o pai, parece definir a forma mais acentuada da sedução, a que une dois seres enganosamente próximos na aparência, mas de fato cuidadosamente separados pela ordem social.

9. Na segunda parte do mito, dedicada a Adônis, a sedução manifesta-se em estado puro, pois, mal nasce da árvore da mirra em que a mãe se transformou, Adônis desperta, primeiro em Afrodite e depois em Perséfone, o desejo exclusivo e possessivo de uma amante pelo amado, tão rico em sedução desde a mais tenra idade que Afrodite o escondeu num cofre para subtraí-lo aos olhares dos deuses e o confiou a Perséfone, que, ao vê-lo, recusou devolvê-lo, sendo Adônis, segundo Teócrito, o amado tanto na terra quanto às margens do Aqueronte, conforme o julgamento de Zeus que, para resolver o conflito entre as duas amantes exigentes demais, fez dele alternadamente amante de Afrodite e de Perséfone, permitindo a sedução, como na história de Mirra, reunir termos normalmente separados, um mortal que seduz duas imortais, um único amante unido sucessivamente a uma amante do Alto, Afrodite, e a uma amante do Baixo, Perséfone, esquema espacial confirmado por uma referência ao mundo animal, pois Eliano, nas Histórias dos animais, descrevendo os hábitos de um peixe que dorme sobre as rochas e divide seu tempo entre o mar e a terra, observa que essa espécie de tainha é chamada Adônis, em alusão ao duplo gênero de vida do filho de Mirra, dividido entre duas amantes, ora sobre, ora sob a terra.

10. No ritual das Adônias, tal como celebrado em Atenas no fim do século V, as substâncias aromáticas e as relações de sedução parecem tão ligadas quanto no mito, festa exótica tolerada pela cidade à margem dos cultos oficiais e das cerimônias públicas e de caráter privado em dois sentidos, por se realizar numa habitação particular e não num santuário ou lugar público e porque os participantes, homens e mulheres, eram recrutados sobretudo entre amantes, cortesãs e seus frequentadores, como atesta Alcífron, sofista contemporâneo de Luciano, numa carta atribuída a uma hetera ateniense do início do século IV, em que certa Mégara censura a amiga Báquis por faltar a uma festa terminada num banquete extraordinário, ao qual até Filomena, recém-casada e vigiadíssima pelo marido, conseguira chegar tarde da noite enquanto ele dormia, acusando-a de pensar apenas no seu Adônis, com medo terrível de que Afrodite ou Perséfone o roubassem, e convidando-a para um banquete nas Adônias em casa do amante de Téssala, que forneceria o amante de Afrodite, pedindo-lhe que levasse um jardinzinho, uma estatueta e o seu Adônis, que cobre de beijos, para embriagarem-se com todos os amantes, descrição do século II d.C. cuja autenticidade é garantida por testemunhos da comédia ática sobre as Adônias do século IV a.C., da qual Alcífron tirou as informações essenciais das Cartas, como mostram dois exemplos de Dífilo, a comédia O pintor, em que um personagem, depois de explicar o método para escolher um protetor, leva o interlocutor a um autêntico bordel, porneîon, onde uma hetera celebra grandiosamente as Adônias com outras heteras e onde ele poderá empanturrar-se e até levar algo nas dobras da túnica, e outra comédia em que três cortesãs de Samos festejam alegremente as Adônias bebendo taça após taça e propondo adivinhas maliciosas, como a de quem é o mais forte, o ferro, o ferreiro ou a vara que faz gemer o ferreiro, caráter libertino do ritual confirmado por uma obra de Menandro publicada em 1969, a Sâmia, em que o protagonista, Mosquíon, seduz uma jovem numa festa de Adônis organizada em casa, com amigas e vizinhas, pela concubina de seu pai, ex-cortesã, de modo que festas entre amantes, embriaguez de cortesãs, refeições requintadas e conversas obscenas explicam que, aos olhos dos atenienses bem-pensantes do fim do século V, as festas de Adônis representassem o espetáculo da licença feminina, a imagem do desregramento, da tryphḗ, inevitável quando as mulheres são deixadas a si mesmas, mas os mesmos traços, confirmados por toda a tradição, sugerem que o desenfreio das fiéis de Adônis assume valor de certo modo ritual, como as fumigações de substâncias aromáticas feitas em honra do amante de Afrodite, unindo-se as mulheres enfeitadas e perfumadas aos amantes com liberdade tanto mais ousada quanto o par Adônis-Afrodite define, num plano mítico mas num quadro ritual, o tipo de relação entre um homem e sua amante.

11. Antes de prosseguir a análise do código sociológico do mito de Adônis, que exige outros relatos míticos explicados num plano paradigmático, é necessário, na ordem sintagmática, confirmar o significado da mirra e continuar decifrando um código vegetal de riqueza e importância já documentadas, pois a existência de Adônis é ritmada pela oposição violenta entre vida e morte, morrendo o filho de Mirra tragicamente na flor da juventude e da beleza, segundo a versão mais difundida morto por um javali durante a caça, episódio que os escultores greco-romanos representaram em numerosos sarcófagos acentuando a virtus do herói caçador, morto ou vencedor, enquanto na tradição mítica Adônis está nos antípodas do caçador heroico, pois, vencido pelo javali, recebe sinal negativo em relação aos valores da força guerreira e da potência viril encarnados positivamente por esse animal, que, como o leão, seu homólogo, é para os gregos terrível e monstruoso, símbolo do furor e da força guerreira, como mostra Tideu, guerreiro selvagem da epopeia tebana, que se apresenta à casa de Adrasto revestido de pele de javali, já que é a vitória sobre essa fera que confere aos jovens a qualidade de guerreiros, dando os caçadores, ao triunfar dela, prova de possuir a audácia e a coragem de um javali furioso.

12. Sedutor voltado ao mundo das mulheres e do prazer, ligado às amantes pelo vínculo excessivo de uma paixão sem pudor, Adônis está excluído do mundo da guerra e da caça e é para os gregos a antítese perfeita de um herói guerreiro como Héracles, sendo no episódio da caça, em que o javali faz o papel de caçador, apenas uma vítima tão lastimável quanto miserável, aspecto ainda mais acentuado por outras versões de sua morte, como a do poeta alexandrino Nicandro de Cólofon, que no II livro do Glossário, a propósito do nome cipriota de uma espécie de alface, revela que Adônis foi morto pelo javali quando se refugiava num canteiro de alface, ou a de Calímaco, igualmente vergonhosa, segundo a qual a deusa o teria escondido entre as alfaces, sem dúvida para subtraí-lo aos golpes do javali, lendas que não só revelam sua covardia e o mostram oposto do caçador e do guerreiro, mas introduzem um novo termo vegetal nesse mito das plantas aromáticas, a alface, já que, fuja ou seja escondido pela amante, Adônis acaba sempre num canteiro de alface, selvagem ou cultivada, elemento integrante de sua história desde o início do século IV, como atesta um personagem de uma comédia de Êubulo ao lembrar que, segundo a lenda, o corpo de Adônis foi exposto por Afrodite num canteiro de alface.

13. Assim como a mirra representa a juventude e a vitalidade de Adônis, a alface está estreitamente associada à sua morte, como indica o mesmo personagem de Êubulo ao dizer que a alface é alimento de cadáveres, nekýōn brôma, expressão precisada pelo título da comédia, Os impotentes, Ástytoi, e pelo contexto, em que a lembrança de Adônis é provocada pelo aparecimento de um prato de alface na mesa de um conviva, que protesta à mulher que não sirva alface ou depois se queixe de si mesma, de modo que, referidos a Adônis, dois traços essenciais precisam a configuração mítica da alface, a impotência sexual e a falta de força vital, testemunho de botânicos e médicos que se soma ao da comédia, pois para Dioscórides e Oribásio a alface é planta de natureza fria e úmida, hygròn kaì psykhrón, fria, precisa Oribásio, não em grau extremo, mas como a água das fontes, e em toda a tradição grega, da botânica à comédia, goza da mesma má reputação que hoje o brometo nos quartéis, sendo seu suco útil, segundo as Matérias médicas de Dioscórides, aos que têm poluções noturnas e afastando das relações amorosas, afirmação científica a que correspondem as tiradas cômicas sobre os inconvenientes da alface, como a que deseja má morte às alfaces porque o homem com menos de sessenta anos que as comer passará a noite revirando-se junto a uma mulher sem conseguir fazer nada do que quer, nem com a ajuda da mão, convicção tão forte que Ateneu, no verbete Alface de sua enciclopédia culinária, podia lembrar como fato incontestável que, na linguagem dos poetas, a imagem de Adônis escondido numa alface é expressão alegórica da impotência produzida pelo uso contínuo dessa verdura.

14. Alimento de cadáveres em dois sentidos que se combinam no mito de Adônis, a alface é planta de natureza fria e úmida, situada do lado do que está prometido à morte e à putrefação, e põe fim à potência sexual dos homens, coincidindo para o amante de Afrodite a morte com a impotência, de modo que entre a mirra e a alface, as duas plantas que delimitam a existência de Adônis, o sedutor, a oposição é radical, podendo uma despertar o desejo de um velho e a outra extinguir o dos jovens amantes, conferindo a primeira superpotência sexual e vital e a segunda a impotência, que equivale à morte.

15. Que a alface inverte os valores da mirra prova-o outro relato, a aventura de Fáon, o barqueiro, cujo mito apresenta o mesmo esquema e obedece aos mesmos códigos da história de Adônis, afinidades tão extraordinárias que o filólogo inglês C. M. Bowra quis reconhecer nos dois amantes de Afrodite uma só figura mítica, mito conhecido em três versões, a primeira contada por Paléfato nas Histórias incríveis, segundo a qual Fáon, barqueiro que passava a vida no mar, num estreito, irrepreensível por ser razoável e cobrar apenas dos que tinham meios, objeto de admiração para a gente de Lesbos, mereceu a aprovação de Afrodite, que, tomando o aspecto de uma mulher idosa, lhe pediu travessia e foi transportada sem nada pagar, transformando então a deusa o barqueiro de velho em jovem e belo, a segunda relatada por Eliano na Varia história, segundo a qual Afrodite foi procurar o barqueiro Fáon para fazer a travessia e ele, sem saber com quem tratava, a acolheu cortesmente e se ofereceu para levá-la aonde quisesse, recebendo em troca da gentileza um alábastron com um perfume que fez dele o mais sedutor dos homens, de modo que todas as mulheres de Mitilene se apaixonaram por ele, até que morreu de morte violenta, surpreendido em adultério, e a terceira, que só difere das anteriores por variantes retóricas, sendo a mais importante relativa ao perfume, já que, por ter transportado gratuitamente a deusa disfarçada de velha, Fáon recebeu um vaso cheio de unguento, com que se ungia diariamente para atrair as mulheres, que se apaixonavam por ele.

16. Através das três versões, o mito de Fáon apresenta-se de imediato como mito da sedução e dos aromas, pois pelo favor de Afrodite, que dispõe de todo encanto erótico, o barqueiro é transformado em sedutor, respondendo a divindade das relações amorosas ao dom espontâneo, à charis do barqueiro, com generosidade excessiva, dando-lhe uma beleza extraordinária, uma charis que seduz todas as mulheres e as impele irresistivelmente a entregar-se a ele, num dos significados mais antigos do termo, de modo que a sedução de Fáon, produto da charis que por sua vez suscita, representa a forma extrema de uma relação social exercida fora dos esquemas regulares, caráter excepcional e irregular manifesto tanto na metamorfose de um velho em jovem belo quanto no electuário que torna um barqueiro vulgar o mais sedutor dos homens, conquistando Fáon todas as mulheres pelo esplendor da beleza ou pela virtude do perfume que atrai e enamora, e, perfume e amante como o belo Adônis, conhecendo o mesmo fim trágico do filho de Mirra, pois, embora só uma versão pareça narrar a conclusão, a morte pelas mãos de um marido traído, o mesmo relato de Eliano alude claramente a outro desfecho, segundo o qual Fáon era o mais belo dos homens, mas Afrodite o escondeu entre as alfaces, versão que inspirou o poeta Cratino numa comédia sobre Fáon, que mostrava aos atenienses do século IV uma Afrodite loucamente apaixonada pelo novo protegido e escondendo-o, como o anterior, num canteiro de alface, sofrendo Fáon a mesma sorte de Adônis, votado à alface e condenado à impotência pela precaução da amante, de modo que a dupla versão da morte de Fáon é perfeitamente paralela à dupla tradição do fim de Adônis, sendo o sedutor sempre despojado de seu poder de sedução, pela alface ou por morte violenta, homologia que permite rejeitar decididamente as conclusões da análise filológica que veem na imagem de Fáon entre as alfaces a invenção gratuita de algum poeta cômico, pois a alface reaparece na história de Fáon porque assim o exigem os valores míticos do perfume, tendo em ambos os mitos a mesma planta função oposta à do perfume e da sedução e seguindo os dois sedutores o mesmo curso, da superpotência à impotência, dos aromas à alface.

17. De um mito a outro, a armação e os códigos permanecem os mesmos e as leves diferenças apenas explicitam a estrutura comum, seja porque as versões do mito de Fáon reproduzem a equivalência entre perfume, plantas aromáticas e sedução implícita na história de Adônis, seja porque o curso da vida de Fáon, na primeira versão, torna mais manifesta a oposição jovem-velho, repetindo o ciclo de Adônis, criança precoce prematuramente envelhecida, com um duplo movimento que o leva da velhice à juventude e de volta, em sentido inverso, da juventude à velhice sob a forma da impotência, e até o código vegetal comum aos dois mitos é confirmado por uma variante das aventuras de Fáon que atribui sua força de sedução ao eríngio de cem cabeças, já que Plínio, o Velho, numa notícia sobre essa planta espinhosa, tida por antídoto contra serpentes e animais venenosos, relata prodígios, como o de que sua raiz tem a forma do sexo de um homem ou de uma mulher, que essa raiz é rara e que os homens que encontram a raiz macho se fazem amar, razão do amor de Safo por Fáon de Lesbos, raiz que confere o poder de seduzir e que não é a da mandrágora, como alguns pensaram, mas a do cardo-corredor, cuja variedade cultivada apresenta inchaços, apêndices e anéis cicatriciais de formas por vezes estranhas, lembrando os órgãos sexuais masculinos e femininos, de modo que nos antípodas da alface já não está o perfume dos aromas, mas a raiz de uma planta cuja virtude afrodisíaca deriva de sua semelhança com os órgãos genitais humanos, referência ao eríngio que, por diferente que pareça, confirma o significado das substâncias aromáticas, indicando na figura de Fáon um caráter essencial da sedução, a superpotência sexual.

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