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ORFEU
DETIENNE, Marcel. Les dieux d’Orphée. Paris: Éditions Gallimard, 1989, 2007
- Orfeu nasce poeta e é de imediato o “pai dos cantos” — nem as Musas nem Apolo, seus ascendentes naturais, lhe fazem sombra; antes de aparecer nas margens do mar Negro ou no cimo das montanhas da Trácia, ele possui o poder absoluto de encantar os animais e os seres mais selvagens.
- O “Encantador” Orfeu citaredo surge para nós por volta de 570 antes de nossa era num pequeno vaso de figuras negras, avançando com passo decidido entre duas Sereias — potências de voz mortífera, híbridos emplumados cuja sexualidade desliza entre o virginal, o masculino barbado e a dupla identidade sem perturbação.
- Uma voz se eleva que não se assemelha a nenhuma outra: surge além do canto que recita e narra, é anterior à voz dos aedos e citaredos que celebram os feitos dos homens; como uma voz primordial, anterior à palavra articulada, excede o círculo de seus ouvintes — rochas, habitantes do ar ou bestas ferozes de rosto humano.
- Nessa primeira voz há a liberdade extrema de tudo englobar sem se perder na confusão, e ainda de convidar à aceitação de cada vida e de toda coisa, recusando o devir de um mundo habitado pelo despedaçamento e pelo desmembramento.
- Quando em torno de Orfeu e de sua lira começam a se reunir os representantes da espécie humana, eles mostram o rosto da guerra e da selvageria, mas como desviado, já purificado de suas violências naturais — são guerreiros trácios revestidos de peles de animais, que saem da floresta como saltam do mar os peixes entorpecidos pelo canto.
- A voz de Orfeu se prolonga em escrita material — o canto se faz livro, e uma voz desenha sinais de escrita grega sobre tábuas trácias.
- Desde o século VI se instaura um grande “tumulto de livros”, como dirá Platão em sua nova biblioteca.
- A livraria de Orfeu narra o nascimento do mundo e a gênese dos deuses — as “teogonias” sucessivas, citadas e comentadas até o final da Antiguidade.
- Outros livros prescrevem um regime alimentar, convidam a sacrifícios puros e de fumaças odorantes, ordenados por exemplo na obra intitulada Thuēpolikon — sobre como oferecer oferendas não sangrentas —, perdida até hoje, mas à qual Platão alude diretamente na República ao polemizar com sectários “de Orfeu e de Museu.”
- Uma grande ânfora apuliana publicada em 1976 mostra um “Orfeu nos Infernos” tocando lira diante de um morto heroicizado que segura na mão esquerda um rolo de papiro — provavelmente um livro dito de Orfeu, como o encontrado em Derveni perto de uma tumba do século IV antes de nossa era.
- Orfeu age na Grécia antiga como um passador experiente entre os relatos da mitologia e as idas e vindas constantes dos deuses que a habitam — seu primeiro paisagem é o alto e profundo maciço da mitologia, onde as potências divinas se entrecruzam, se agenciam e se entrelaçam como ocorre nas sociedades ditas “politeístas”, onde os deuses são sempre no plural.
- Circulam pelo mundo grego histórias como os relatos da fundação de Tebas e as semeaduras de autoctonia, a mácula de Édipo na Cidade das Sete Portas, o combate homérico entre Lápitas e Centauros, a caça heroica ao javali de Calidão, a dor insuportável de Níobe, as errâncias do menino Dionísio.
- Essas histórias, sobrevivendo a dilúvios e terremotos ordinários, constituem para nós, nascidos depois de Homero, a matéria em expansão da mitologia — a grande tradição dos relatos tornados memoráveis e às vezes inesquecíveis.
- Narrar histórias permanece uma necessidade vital na história da espécie humana; em grego antigo, “mitologizar” — muthologeuein — exprime uma das mais antigas formulações desse gesto, e Ulisses na Odisseia lembra que não convém “redizer uma história já dita.”
- Pode-se distinguir, no contexto grego, uma “mitologia-quadro” — sistema de pensamento fundado num saber cultural partilhado no tempo longo de uma dúzia de séculos, formado por uma vasta rede de relatos míticos entrelaçada com o politeísmo — e uma “mitologia-saber” que pode começar por um discurso discreto sobre a tradição e se continuar com diversas formas de escrita dos relatos míticos.
- Na Grécia, sobretudo da época arcaica até o século IV de Platão, os poetas assumem o papel essencial de educadores da cidade — a palavra “educar” substitui tardiamente “nutrir”: o centauro Quíron “nutre” Aquiles com tudo o que sabe, a arte da caça e da guerra, o conhecimento das plantas medicinais e a ordem das potências divinas.
- Hesíodo, poeta e camponês de Ascra na Beócia, impõe um tipo de sábio educador entre as comunidades-aldeias e as primeiras formas de cidade — com seu duplo registro: o nascimento dos deuses articulado à soberania de Zeus, e os Trabalhos e os Dias que descreve um “gênero de vida” fundado em sua própria “verdade.”
- No contexto das cidades gregas fundadas nas margens do mar Negro, como Olbia — a Cidade Bem-aventurada —, descobertas arqueológicas revelam pela primeira vez num sítio a presença de pessoas chamando a si mesmas de “órficos.”
- Hérodoto, o turista de Halicarnasso, conhecia bem as margens do Dniepre, que chamava de Borístenes; Skylès, coroado rei dos Citas, apaixonou-se pelo grego — sua mãe o ensinara —, e cada ano vinha passar semanas em Olbia; quando se fez iniciar no culto de Dionísio Bakcheios, os mais nobres dos Citas, escandalizados, decidiram pôr fim à helenização de Skylès, que teve a cabeça cortada.
- Escavações soviéticas desde os anos 1970 trouxeram objetos e inscrições da época arcaica, incluindo espelhos de bronze que atestam um Dionísio Lenaios com o grito Euai.
- Próximo ao santuário de Apolo Delfínio foram encontradas pequenas tábuas de osso escritas no anverso e no verso, revelando pela primeira vez num sítio arqueológico pessoas chamando a si mesmas de “órficos.”
- O conjunto de “grafitos” sobre osso apresenta a tríade “vida-morte-vida” — bios-thanatos-bios — central no “gênero de vida órfico”; a noção de “verdade” — alētheia —; o nome abreviado de Dionísio; a autodesignação “órficos” — orphikoi; dois pares contrastados — paz-guerra, verdade-engano — com o nome de Dionísio; e o binômio “corpo-alma” — sôma-psychē —, igualmente fundamental no querer viver de Orfeu.
- Os poetas, desde que os há na Grécia, fazem parte daqueles que “fazem” — poiein —, fabricam coisas como objetos preciosos, tecidos ou armaduras, ou cantos habilmente tecidos que relevam da mesma “sofia” — sophia —, uma “sabedoria” partilhada por “artesãos” e “especialistas”, cobrindo tanto a prudência da ação quanto a habilidade dos saberes organizados em regras e procedimentos.
- É enquanto “sábios” prometidos às classificações conhecidas como “Os Sete Sábios” que os poetas se impõem como “educadores.”
• A sabedoria de Orfeu excede o círculo dos banquetes que convém a Xenófanes de Colofão ou a Teógnis de Mégara, assim como é e permanece estranha ao outro círculo escolhido por Sólon de Atenas — o da ágora, requerido pelo aedo-legislador e educador de sua própria cidade.
- Aedo e sábio, Orfeu o é mais do que qualquer outro — assim como escolhe a via, tão nova neste século VI, do fundador, não de uma cidade, mas de um gênero de vida.
- A comparação entre o gênero de vida órfico e o pitagórico é esclarecedora — Pitágoras, vindo de Samos para a Grande Grécia, pretende fundar uma cidade nova no quadro de uma cidade preexistente, inaugurando uma reforma da “vida política” do cidadão.
- Pitágoras faz a escolha do “político” — um gênero de vida novo, desenhado no círculo da cidade e de sua ágora; enquanto seu contemporâneo Orfeu escolhe um gênero de vida fora do político, que recusa a cidade e rejeita seu sistema de valores.
- Para os contemporâneos de Aristófanes e de Sócrates, o ensinamento de Orfeu se resume numa frase: “Ele ensinou os homens a se absterem de assassínios” — phonoi, palavra que significa ao mesmo tempo “assassínio” e “sangue derramado”, pertencendo tanto a uma legislação sobre o homicídio quanto ao vocabulário do sacrifício sangrento.
- Do século VI ao IV, os Órficos são marginais, errantes e sobretudo “renunciantes” — escolheram renunciar ao mundo de quem vive em cidade; esse renunciamento se exprime num gênero de vida com regras estritas, atestadas pelas Leis de Platão: não tocar no boi, abster-se de toda carne, oferecer aos deuses somente bolos ou frutas mergulhadas em mel.
- Renunciar a fazer correr o sangue das vítimas animais significa se colocar voluntariamente fora do mundo da cidade e à parte dos cidadãos que, nas festas e atos mais “políticos”, tomam parte nos sacrifícios públicos financiados pela cidade; a metade das “leis” ditas de Sólon se apresenta como um enorme calendário sacrifical.
- O ensinamento de Orfeu é duplo: não fazer correr o sangue, e descobrir as “iniciações” — télétai; Orfeu é o iniciador de um gênero de vida que conduz seus adeptos à salvação, passando pela morte reservada aos que escolheram usar apenas vestes de cor branca e recusado ser sepultados em tecido de lã — pois a lã é também parte inteira do vivente.
- Enquanto Pitágoras condena a escrita e a transcrição de seu ensinamento, Orfeu escolhe o livro, e seu canto se faz escrita no plural; entre seus escritos “antigos” figura a Iniciação — Télétē — com o relato da morte do menino Dionísio devorado pelos Titãs num primeiro sacrifício horrível e sangrento.
- Os Órficos não parecem atribuir grande importância ao elemento feminino — e não há Órficos no feminino, ao contrário do gênero de vida dos Pitagóricos, do qual as mulheres não são de modo algum excluídas.
- O projeto de Pitágoras visa a reformar a cidade e exige portanto uma reorganização da unidade familiar — oikos —, conduzindo diretamente a assumir a regulamentação dos comportamentos femininos; um dos discursos proferidos por Pitágoras em Crotona se dirige às “mulheres casadas” para as “converter” ao seu ensinamento.
- Que Orfeu tenha sido morto por mulheres, e que tenha querido descer aos Infernos por amor de Eurídice, não deve fazer esquecer que a questão da sexualidade e das relações entre o masculino e o feminino se coloca com acuidade para um pensamento que pretende dar conta do aparecimento da espécie humana num mundo marcado pela separação entre os deuses e os mortais — mortais condenados a se matar mutuamente, sem o saber, a cada dia.
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