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2 Estruturas e metalinguagens

DURAND, Gilbert. Figure mythique et visage de l'œuvre: De la mythocritique à la mythanalyse. Paris: Berg International, 1979.

1. A linguística está na moda e acompanha a mesma corrente de entusiasmo intelectual que impulsiona o estruturalismo, dois navios do pensamento contemporâneo que navegam juntos, levando jovens pesquisadores franceses como Derrida, J.-P. Faye, Robel e Todorov a lançar-se com deleite numa dupla aventura de origens imediatas eslavas, com Propp, Polivanov, Trubetzkoy, Jakobson e Mathesius, e de presente sobretudo anglo-saxão, com Chomsky, Smith, Ch. Sanders, Voegelin, Hill ou Frye, moda que, como mostrou excelentemente Tullio de Mauro, é apenas uma ressurgência tanto mais brutal e vigorosa quanto os problemas linguísticos haviam sido postos em suspenso pelo silêncio linguístico de Kant e de seus sucessores, mas que, buscando apenas ancestrais recentes como Bopp, Humboldt, Peirce, Bréal ou Saussure, aparece, sobretudo ao entusiasmo dos jovens linguistas, como verdadeiro nascimento.

2. As causas banais dessa invasão da linguística estrutural, que parece reconciliar de repente correntes tão díspares quanto formalismo, marxismo e pragmatismo, pondo lado a lado o príncipe Trubetzkoy e o revolucionário Polivanov e recobrindo as preocupações dos intelectuais de Nova York, Copenhague ou Samarcanda, parecem residir no apoio que as aplicações das teorias da comunicação e da informação trazem aos linguistas, sendo a cibernética e a informática as vanguardas vitoriosas das reflexões linguísticas e estruturais, pois, por um verdadeiro fenômeno de feedback, os computadores modelam ou remodelam os modos de pensar e a máquina impõe sua exigência extrema de constranger o pensamento ao qual deve a existência, de modo que a linguística moderna contribui, queira ou não, para a edificação de um universo cibernético em que a máquina substitui o homem como modelo, assistindo-se paradoxalmente, como pressentia Michel Foucault, à morte do homem no instante mesmo em que as Ciências do homem parecem triunfar aplicando-lhe os procedimentos que prepararam minuciosamente o progresso gigantesco da Ciência e de seus métodos no século passado.

3. Reabrindo todo o processo da Cultura Científica de tipo ocidental, pode-se temer que a universalidade da concepção do homo linguisticus não só se pareça com a programação de uma máquina eletrônica, mas também subentenda a temível desigualdade, fundadora das tecnocracias políticas modernas, entre os engenheiros do saber e o rebanho dos ignorantes, dos inaptos à mecanização matemática, dos poetas não cibernéticos.

4. Pode-se perguntar ainda se, por trás dessas causas banais da inflação linguística, além das maquinarias da cibernética e da informática e da conversão da linguagem em fichas perfuradas, não se escondem causas filosóficas mais profundas que levaram a linguística e a própria concepção da linguagem a assumir no Ocidente, há meio século, a feição que têm, e Tullio de Mauro parece acertar ao atingir, por trás do modernismo cibernético, o velho binarismo aristotélico, quando observa, constatando o fracasso dos projetos de tradução mecânica, que os estudos sobre a possibilidade de mecanizar a tradução foram iniciados por linguistas e sobretudo por engenheiros cibernéticos numa perspectiva aristotélica.

5. Uma reflexão orientada para a subversão de certo estado mental e cultural que no Ocidente parece ser a coisa mais bem partilhada do mundo permite imaginar outro estado, uma série de axiomas do saber diferentes dos que fundam a segurança triunfante e banal da linguística contemporânea, assim como Bachelard lamentava, em seus cursos de Filosofia das ciências, que a ciência ocidental tivesse nascido nos séculos XVI e XVII por meio da mecânica, mostrando os obstáculos epistemológicos que se teriam evitado e as investigações conclusivas que se teriam ganho se a física tivesse começado pelo eletrismo, e cabe lamentar que a antropologia contemporânea tenha querido reduzir-se a um saber eletrônico cujo modelo lhe foi dado precisamente pela linguística estrutural, irmã gêmea absolutamente consanguínea da informática e da teoria da comunicação, reduzindo-se assim a um modelo subjetivo único, hipostasiado em objetividade, aquilo que tem por função exprimir uma subjetividade múltipla.

6. Paradoxalmente, foram os semantismos da civilização ocidental que serviram de obstáculo epistemológico, na linguística como na física, pois, como já se escrevia há vinte anos, numa civilização tecnocrática e analítica o valor de troca mascara e mistifica com demasiada frequência o valor de uso, e pode-se assumir plenamente a máxima de Tullio de Mauro, que inverte completamente uma afirmação de M. Schlick, segundo a qual a história do pensamento ocidental talvez tivesse tomado outro rumo se o pensador grego, Aristóteles, tivesse tido menos fé na existência da linguagem.

7. Contra a objeção do senso comum de que com hipóteses se pode reconstruir de modo fantasioso e inconsequente qualquer história, pôr Paris numa garrafa ou ganhar a batalha de Waterloo, cabe responder que ela não se sustenta epistemologicamente, pois onde se constata progresso no devir, como nas conquistas científicas e técnicas, é o a parte post que permite compreender o a parte ante, é o eletrismo que permite situar e compreender o mecanicismo, e não o inverso, enquanto o próprio do historicismo, a fidelidade cega ao fio da história confundido com seu sentido, é pôr eternamente o carro dos sistemas à frente dos bois da práxis, devendo-se reafirmar com Bachelard, partidário de uma ciência definida como numenotécnica, que a ordem dos conceitos e das explicações deriva do progresso pragmático, e não o inverso, sem com isso cair num cientismo ingênuo como fizeram muitos linguistas e antropólogos estruturalistas, já que recolocar um ponto de partida sui generis para um saber particular, sociológico, psicológico ou semântico, não significa atrelar bois a um automóvel ou a um jato, e confundem-se facilmente demais os progressos locais dos diversos sistemas de saber com a imagem de um progresso generalizado em que, por exemplo, os progressos da cibernética ou da telecomunicação não só iluminariam, mas explicariam e reduziriam totalmente a ordem do saber das ciências humanas e em particular da semântica, quando o eletrismo, que permite compreender melhor o mecanicismo físico, é de pouco socorro para compreender o biológico, o ecológico, o psicológico e o sociológico, não havendo razão para que fosse diferente com a cibernética informática diante do semantismo e dos problemas do homem que constituem a antropologia.

8. Aplicando o conselho epistemológico de Bachelard, trata-se de esboçar uma semântica, ciência do sentido das linguagens, voltando resolutamente as costas aos postulados cibernéticos e informáticos que tantas vezes pervertem a pesquisa semântica e renegando toda a parte de impasse e de fracasso de uma linguística contemporânea tão mal embarcada, depois de inventariar os postulados de base em que ela se apoia, ressalvando a ausência de competência linguística especializada, conforme a crítica de Greimas, que não implica, como Chomsky afirmou muitas vezes, incompetência no uso da língua, ressalva que revela a dificuldade maior da linguística, comum a todas as ciências do homem e que levava A. Comte a excluir a psicologia e todas as tentativas de pôr-se à janela para ver-se passar na rua: dispor apenas da língua para estudar não só a língua, mas a linguagem inteira, paradoxo primeiro e impasse de tentar escrever ou dizer uma teoria universal da linguagem numa língua particular, o que traça desde logo o círculo linguístico, em que a superação teórica da língua e de suas aplicações mais engajadas só se faz com a ajuda dessa mesma língua, círculo cujas consequências aparecem melhor depois da análise dos postulados da linguística estrutural contemporânea.

9. Para R. Jakobson, todos os outros sistemas de símbolos são acessórios ou derivados em relação à linguagem, principal instrumento da comunicação portadora de informação.

10. A primeira questão a colocar para dar conta dos dois postulados maiores, e intrinsecamente contraditórios, em que repousa a teoria linguística é saber que língua fala o linguista contemporâneo e em que epistémê se situa, entendendo-se, contra Foucault, que as epistémês não são fases bem recortadas de visão das coisas através das palavras, mas que sobrevivem nelas, no todo ou em parte, as precedentes, o que Bachelard chamava perfil ou espessura epistemológica e o que explica que, por certa filiação, Saussure se ligue a Aristóteles, embora o velho Estagirita esteja mascarado, na consciência filosófica do fim do século XIX, por estratos epistemológicos mais recentes, o positivismo, o mercantilismo econômico e o neomecanicismo da informática nascente, num campo epistemológico orientado por um duplo medo, o medo do sentido, desse metafísico já denunciado pelo jovem Comte, e o medo pânico do Absoluto, do Transcendente, do teológico, como diria Comte, posto em circulação pelo criticismo kantiano no início do século e tornado quase patológico no fim do XIX pela falência do prometeísmo, de modo que o agnosticismo estruturalista, traduzido em medo pânico do sentido, é apenas o sobressalto desesperado de Prometeu, já que a melhor maneira de fugir do sentido é afirmar que ele está absolutamente na relação, na forma e na troca, e a melhor maneira de exorcizar o absoluto é absolutizar o relativo, evitar todos os trasmundos e ventríloquos metafísicos e venerar o fenômeno, ainda mais fenomenal quando buscado na tenuidade formal mais extrema, como viu Noël Mouloud ao afirmar que os problemas imanentes à forma linguística substituem, de certo modo, a hipótese discutível de um sujeito transcendental suporte das significações universais, sujeito transcendental kantiano que é ele próprio apenas um enfraquecimento fenomenológico do sujeito transcendente da teologia e da metafísica averroísta, e, pressentindo talvez que seu mito fundador já fora substituído na psique coletiva pelos deuses novos, Dioniso e Hermes, a epistémê do fim do século XIX, da belle époque, é deliberada e fanaticamente agnóstica, vagando da forma e das relações formais ao fato e ao preenchimento pela história, expurgando toda iconologia e toda alusão visionária que ultrapassasse a constatação positivista ou fenomenológica dos fatos, daí o louvor da epistémê vulgar pela percepção, ou que ultrapassasse pelo sentido a arquitetura admirável do não-sentido, a sintaxe do vazio, tendendo, parafraseando Bergson, à algebrização e ao elogio existencial como a dois ideais contraditórios que têm em comum liquidar o humanismo e reduzir o homem à physis, seja ao acaso dos fenômenos, seja à necessidade das relações deterministas, seja, virtude suprema das filosofias da história, à fatal historicidade dos encadeamentos de fatos hipostasiados.

11. A esse fundo epistemológico agarra-se o impulso da linguística estrutural nos primeiros vinte anos do século XX, que viram elaborar-se o célebre Curso de linguística geral de Saussure, a Morfologia do conto de Propp e as Teses do Círculo de Praga, obras significativas de uma crispação epistemológica, as duas últimas só recentemente traduzidas em francês, que constituem a base e a bíblia de todos os trabalhos de estruturalismo linguístico, do que de Mauro chama segunda geração linguística, dinastia que se gera a partir de dois postulados fundamentais que convertem em moeda, por assim dizer, a epistémê dos anos 1880 ao longo de toda a primeira parte do século XX, até o limite e o mal-estar da linguística estrutural denunciados enfim por Chomsky por volta dos anos 1950.

12. O primeiro desses postulados, impregnado do mercantilismo econômico triunfante na passagem dos séculos, pode ser chamado Troca hipostasiada ou generalizada, ou Comunicação absoluta, atitude em cujo horizonte de Mauro denuncia com muita propriedade o perfil do aristotelismo linguístico, embora ataque injustamente o subjetivismo aristotélico de uma passagem do tratado Da Expressão, quando o que se deve visar é o objetivismo e o paralelismo implícito, pois o linguista, provavelmente sob a influência da Escola dos lógicos de Viena, confunde a transparência da linguagem artificial da ciência com os procedimentos mais opacos da linguagem natural das línguas, e o primeiro Wittgenstein, o do Tractatus elaborado por volta de 1914, o primeiro Croce, o da Crítica literária e da Estética dos anos 1894-1900, e mesmo o Saussure do primeiro esboço redacional do Curso, sem subscrever diretamente a opinião vulgar da língua como decalque, pintura ou nomenclatura, postulam todos que o sentido é inerente às próprias formas linguísticas, enquanto uma tradição plurissecular quase sempre perdeu de vista que as formas linguísticas não têm nenhuma capacidade intrínseca, sendo instrumentos, expedientes mais ou menos engenhosos, sem vida e sem valor fora das mãos do homem, de modo que o erro, como escreve com justeza de Mauro, está em afirmar e acreditar que as palavras e as frases significam algo, e a famosa arbitrariedade do signo não ilude em Saussure, para quem é sempre o conjunto significante que testemunha o significado.

13. Postula-se assim a troca absoluta e indiscutida e hipostasia-se a comunicação por uma espécie de ditadura da língua ou da linguagem, já que se dá por certo que as frases, senão as palavras, são portadoras de sentido e que o destinatário da linguagem emitida está em comunicação direta e imediata, nesse ato de elocução, com a coisa transmitida, havendo, em lugar de uma subjetividade, uma objetivação e uma transparência totais da linguagem.

14. Essa decisão situa-se em clima aristotélico, pois reconhece apenas dois valores de comunicação linguística, o valor zero, incomunicabilidade em que a troca não se faz, e o valor absoluto positivo, em que há comunicação e no qual residem a finalidade e o ser da linguagem, filiação ao velho logicismo do Estagirita que a Escola de Viena e mesmo a de Copenhague não podem renegar, de modo que a linguagem é comunicação absoluta ou não é, ligação entre a binaridade dos valores lógicos e a comunicação bem destacada por Greimas, para quem a comunicação é um ato e portanto sobretudo escolha, selecionando no universo significante certas significações e excluindo outras, e por Jakobson, para quem a linguagem é o principal instrumento da comunicação portadora de informação e todos os outros sistemas de símbolos são acessórios ou derivados, isto é, a linguagem é a comunicação e o princípio de toda simbolização, o que constitui a Hipóstase da Comunicação e a ditadura da linguagem que certa psicologia lacaniana herdará.

15. Esse ponto de vista oposto ao aqui defendido é retomado por Greimas ao buscar na linguagem as figuras nucleares constitutivas, os semas, espécies de padrões linguísticos portadores exclusivos do sentido, concepção da linguagem como comunicação transparente agravada pelo behaviorismo cibernético denunciado por Chomsky ao afirmar que o sistema de competência linguística é qualitativamente diferente de tudo o que pode ser descrito pelo método taxionômico da linguística estrutural, pelos conceitos da psicologia estímulo-resposta ou pelas noções da teoria matemática da comunicação ou da teoria dos autômatos simples.

16. Os axiomas subjacentes a esse postulado da absolutidade da troca são a bivalência lógica, o mercantilismo econômico com o conceito de moeda-padrão e o igualitarismo das pessoas, pois destinador e destinatário são considerados iguais em competência linguística, incluída apenas na mensagem informática, o que mostra que não só o mecanismo cibernético e das telecomunicações, desenvolvido em paralelo às descobertas de Morse, Edison, Branly e Hertz, envolve a epistémê dos linguistas do início do século, mas também, mais profundamente, as camadas epistemológicas da igualdade dos direitos do homem diante da Igreja ou do Estado e da lógica aristotélica animam em diferentes graus o postulado da troca absoluta, tão pregnante que inspira boa parte, a mais criticável, do estruturalismo lévi-straussiano e impregna As estruturas elementares do parentesco e os artigos a elas ligados, que consideram as regras do casamento e os sistemas de parentesco como uma espécie de linguagem, um conjunto de operações destinadas a assegurar certo tipo de comunicação entre indivíduos e grupos, troquismo linguístico logo generalizado aos outros aspectos da vida social, inclusive a arte e a religião, a ponto de Lévi-Strauss, numa polêmica com Gurvitch, Haudricourt e Granai, reafirmar a possibilidade de uma revolução copernicana que interpretaria a sociedade inteira em função de uma teoria da comunicação, indo muito além do fundador da cibernética, N. Wiener, e revelando o vínculo mercantil subjacente ao declarar que as regras de parentesco e casamento asseguram a comunicação das mulheres entre os grupos, como as regras econômicas a dos bens e serviços e as regras linguísticas a das mensagens, generalização ilegítima da troca linguística, ela própria já extrapolação da troca econômica, contestada com justeza por Chomsky ao afirmar que não se pode esperar da fonologia estrutural um modelo útil à pesquisa de outros sistemas culturais e sociais, de modo que por trás do estruturalismo lévi-straussiano desponta a doutrina epistemologicamente totalitária do fator dominante, contra todo o politeísmo dos valores e as descontinuidades da objetivação bem destacados pelos alemães, de Max Weber e Ernst Cassirer ao pensamento impregnado de germanismo de Georges Gurvitch.

17. O resultado paradoxal desse postulado da troca generalizada ou da comunicação absoluta é, como sublinha de Mauro, o ceticismo, o isolamento em relação a um locutor aniquilado por ser igualado em competência ao destinatário, já que as formas linguísticas não têm capacidade intrínseca de garantir a transmissão de um significado e o simples fato da comunicação não pode ser postulado, como fez a linguística estrutural clássica na esteira das teorias da informática e da tradução mecânica, cujos dissabores, resumidos por Ceccato, mostram que a língua não se define como modelo isolado de comunicação perfeita em si, devendo o dictum referir-se ao dicens, que não é redutível a um conjunto de falantes determinados sociológica e historicamente, mas se diferencia sempre entre destinador e destinatário, havendo entre eles modificação da informação, ruídos e perdas, segundo os cibernéticos, como na tradução de uma língua para outra, de modo que o postulado mecanicista da Comunicação absoluta, desmentido pela experiência constante da própria tradução mecânica, desmorona tão absolutamente quanto se afirmava e conduz diretamente ao ceticismo linguístico pelo desvio do solipsismo, já que nem o Saussure da lição de 30 de novembro de 1908, nem o Wittgenstein do Tractatus, nem o Croce da Estética conseguem estabelecer que o significado do locutor se transmite aos outros, tudo levando a crer, e o dictum entregue a si mesmo e só ao linguista confirma essa crença, que ele não transmite o significado, mas apenas as vibrações sonoras de suas palavras.

18. Paradoxalmente, o postulado da comunicação absoluta, ou da troca generalizada ou hipostasiada, corrobora inteiramente a corrente da epistémê agnóstica que o sustenta, e as conclusões de Heidegger juntam-se às de Croce, para quem todo discurso é um unicum, dissolvendo-se a própria noção de língua e restando uma ciência linguística possível apenas com a condição de consagrar-se à construção de entidades artificiais desprovidas de todo valor cognitivo, ou, como notava Ricœur, de querer ser apenas o admirável e estético edifício sintático de um discurso que nada diz, puramente formal, sentido de um não-sentido fundamental.

19. O segundo postulado da linguística formalista assume então o revezamento do primeiro de modo paradoxal, pois esse Postulado do Fechamento formal, ou, segundo a crítica chomskiana, da homogeneização superficial, liga-se ao primeiro reforçando-o, já que a linearidade dos significantes que afirma e sua suficiência intrínseca para toda significação vêm socorrer o absolutismo linguístico do postulado da comunicação absoluta, ameaçado pelo duplo abismo, palavra cara a Chomsky, do solipsismo e do ceticismo, mas, ao mesmo tempo, numa perspectiva que o esteticismo puro do Croce da Estética e da Poesia não renegaria, os problemas do semantismo são escamoteados em proveito da arquitetura do sistema, deslizando os problemas do sentido do nível hipossêmico em que os situava o paralelismo fonético e lexical do aristotelismo linguístico para o nível do conjunto do sistema linguístico concebido como fechado, como se as insuficiências semânticas denunciadas no nível do dictum fossem recuperadas no nível do dictum estendido, a série dos dicta, conjunto linguisticamente formulado concebido como sistema que absolveria semanticamente a vacuidade dos átomos sêmicos.

20. Essa dialética dos dois postulados opera já no próprio Saussure, cuja separação radical entre a fala, ato individual de falar, e a língua, conjunto ou sistema de entidades linguísticas usadas para falar, revela a precaução primeira tomada contra o declive escorregadio do solipsismo.

21. O objeto da linguística fecha-se então nitidamente sobre o sistema linguístico pela célebre afirmação que encerra o Curso, segundo a qual a linguística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma, frase cuja autenticidade, discutida por de Mauro, importa menos que o fato de ter bastado para definir o dogma ou a vulgata saussuriana, pois, unida à famosa afirmação da arbitrariedade do signo, define a língua, único objeto do linguista, como um sistema formal fechado sobre si mesmo e defendido de toda intrusão extrínseca pela arbitrariedade de suas siglas, fechamento e formalismo reforçados por afirmações saussurianas mais autênticas, segundo as quais todos os signos são solidários, a palavra depende do sistema e não há signo isolado, sendo o sistema fechado e suficiente em si mesmo e por si mesmo que dá valor semântico ao signo, conjunto indissolúvel significante-significado.

22. A noção de sistema, retomada por Saussure de Schlegel, Humboldt ou Pott, constitui a verdadeira revolução copernicana de toda a linguística moderna, mas abre-se em si mesma a dificuldades relativas ao círculo linguístico que implica, pois o termo só se define e o sentido só se encontra graças à relação constituída pelo sistema, mas a relação só pode ser circunscrita, descrita e definida por termos, e a outro paradoxo mais grave, já que uma só mudança, um só acréscimo ou supressão de signo muda todo o sistema, de modo que, introduzida uma única mudança, nada de linguístico permanece e nenhum conjunto de referência é mais possível, daí a reticência saussuriana em abordar os problemas da transformação dos sistemas, da diacronia, relativizando o fechamento do sistema cada uma de suas partes em relação às outras e tornando-o monolítico e intangível sob pena de cair no não-sentido do ceticismo tão temido.

23. Como observa Chomsky, a análise saussuriana não deixa evidentemente nenhum lugar para a estrutura profunda no sentido da gramática filosófica dos cartesianos e de Port-Royal, o que legitima a denominação de homogeneização superficial dada a esse postulado do fechamento sistemático.

24. Combinado ao primeiro, esse segundo postulado, círculo da linearidade do sistema unido ao aristotelismo implícito da lógica dessa linguística, exprime-se pelo binarismo de base caro a toda linguística estrutural, de Jakobson a Greimas, passando, com matizes, por Brøndal, cujas estruturas elementares, presentes em todos os níveis da linguística, são dualistas e repousam na operação binária da conjunção ou da disjunção, correspondendo à linguagem linear, que não tolera a ambiguidade do sentido, uma lógica binária, que Greimas liga à unicidade, à linearidade, do que chama eixo semântico, denominador comum dos dois termos, cortado em dois pelos traços distintivos jakobsonianos, pelos elementos diferenciais saussurianos e pelos semas de Greimas, para quem uma estrutura elementar pode ser apreendida e descrita sob a forma de eixo semântico ou de articulação sêmica, revelando que a lógica subjacente a essa semântica estrutural é a lógica binária aristotélica que define pelo gênero próximo, o eixo, e pela diferença específica, a articulação sêmica, procedimento classificatório aristotélico com que Greimas constrói seu exemplo do sistema sêmico da espacialidade e, comentando Hjelmslev, afirma em termos aristotélicos que as articulações sêmicas de uma língua constituem sua forma e o conjunto dos eixos semânticos sua substância, relação nuclear binária que se identifica no limite com o próprio conceito de estrutura, marcando o autor, com Russell, sua repugnância por uma semântica que pretendesse descrever uma substância psíquica, que escapasse à redução categorial de seus atributos classificatórios e pusesse em questão o princípio de identidade.

25. Esse binarismo de tipo aristotélico, como a troca absoluta, remete filosoficamente a uma objetivação muito próxima do objetivismo ingênuo do senso comum, pois, recusando com repugnância referir-se a uma individuação psicológica ou cultural e a suas ambiguidades embaraçosas, opta ao mesmo tempo pela lógica de Aristóteles e pelo percepcionismo do Estagirita, e Greimas reivindica logicamente tanto o binarismo quanto o percepcionismo de Merleau-Ponty e, no limite, o dos psicólogos da forma, sendo o binarismo lógico a contrapartida sistemática do percepcionismo aristotélico que regula o comportamento de base de todo animal, inclusive o animal racional, e a própria noção de superficialidade recobre, histórica e conceitualmente, a linearidade da dedução binária e a superfície de contato realizada pela percepção na interseção do ato do sujeito vivo com o ambiente, enquanto o profundo, caro a Bergson, se situa do lado do sujeito, da não logicidade e da espessura muitas vezes ambígua e cheia de equívocos do discurso poético.

26. A noção axiomática de superficialidade, expressa pelo linearismo binário da máquina eletrônica e pelo abastecimento perceptivo, no limite behaviorista ou ao menos gestaltista, dos significantes, referência de base de toda empresa formalista, deriva da velha concepção da filosofia ocidental, especialmente cara aos empiristas, da tabula rasa, e Lévi-Strauss, lembrando-se de que é bom filósofo, foi quem mais explicitamente insistiu na vacuidade estatutária do psiquismo humano em que repousa toda a operação estruturalista, o Inconsciente, sempre vazio, tão estranho às imagens quanto o estômago aos alimentos que o atravessam, formalismo absoluto, como diz Ricœur, já criticado longamente num antigo artigo sobre a absolutização do modelo linguístico no ilustre antropólogo, cabendo reter dessa concepção do vazio do sujeito mental, cara ao Ocidente, vazio originário e não evicção conquistada como em certas filosofias do Extremo Oriente, seu aspecto axiomático para os dois postulados da linguística, axioma cultural que, partindo da razão dos aristotélicos e agravando-se através de todos os iconoclasmos racionalistas e empiristas do Ocidente, corre em filigrana do averroísmo latino a Descartes, de Descartes ao igualitarismo abstrato do século XVIII e aos diversos cientismos antropológicos do século XIX, erguendo diante do dictum aristotélico ou positivista um dicens diáfano, sem espessura, vazio como o ser da Metafísica de Aristóteles, como o cogito cartesiano ou como a estátua de Condillac, vazio do ser subjetivo reduzido à cópula gramatical pela lógica do Estagirita que constitui um verdadeiro axioma normativo, quase ético, para a consciência ocidental, oscilando entre o puro formalismo de Monsieur Teste e o preenchimento anárquico e bulímico dos existencialismos, e cujo produto mais puro é a consciência nadificante, a corrosão conscencial que o frenesi das liberdades desenfreadas da ação não consegue preencher.

27. Esse axioma desemboca na constelação aparentemente díspar da epistémê ocidental em que se conjugam a vacuidade do ser, a pureza do cogito, o formalismo do sujeito transcendental, a igualdade ontológica e metodológica das pessoas, a onipotência do fato, o positivismo da história e a diferencial desesperada da existência.

28. O personalismo resume bastante bem, em seus dados filosóficos, o ponto de vista axiológico da epistémê ocidental e refrata-se na linguística, mesmo nas posições que se querem mais abstratas, como no notável ensaio de T. Todorov, Introdução à literatura fantástica, que, apesar da vontade própria a todos os gêneros estruturalistas de elevar-se a um nível de abstração, volta a uma nomenclatura classificatória de tipo personalista, recorrendo largamente à psicologia de Piaget e de Freud e reduzindo de modo buberiano as duas redes temáticas a temas do eu, muito próximos da personalidade autística de Piaget e estranhamente ligados a uma atitude mística que excluiria a sexualidade, e temas do tu, em que se manifesta a personalidade neurótica estudada por Freud, recaída significativa da vontade estrutural nos sistemas classificatórios mais banais da antropologia ocidental, e o mesmo ocorre no grande esforço de rigor purificador da Semântica estrutural de A. J. Greimas, que, tendo excomungado definitivamente psicólogos e psicanalistas da abordagem linguística do sentido, se refere a V. Propp e a E. Souriau, reduzindo o universo semântico não às dramatis personae da psicologia, mas às da dramaturgia, com funções actanciais próximas dos papéis que Propp atribui aos sujeitos do conto popular russo ou dos empregos dramatúrgicos identificados por Souriau nas Duzentas mil situações dramáticas do teatro ocidental, introdução dos actantes que complica o ponto de vista simplesmente predicativo das qualidades, mas revela sua inclinação personalista, e, se a noção de pessoa é inteiramente legítima em psicologia e psicoterapia, em semântica constitui, se não uma regressão, ao menos uma nostalgia, já que toda análise semântica de uma linguagem mostra que a actancialidade distribuída pelas partes do discurso, os pronomes e as formas verbais, se resolve primeiro nas qualidades, no nível dos predicados, e depois no simples nível verbal puro, em que os atos sem suporte actancial contam semanticamente mais que as dramatis personae, críticas que se ligam diretamente ao primeiro postulado de uma nova semântica, pois a actancialização da semântica só é possível se se postula a Comunicação absoluta ou Troca generalizada, como poderia mostrar uma psicanálise, ou socioanálise, do exemplo bem mercantil que Greimas insere para consolidar sua teoria do modelo actancial, a obra de J. Margot-Duclot, Uma pesquisa clínica sobre os comportamentos de investimento, destinada a uma obra coletiva intitulada O Econômico e as Ciências humanas.

29. Assim, quando aborda os problemas do sentido e se pretende semântica, a linguística sofre de um complexo de cultura que a impede, apesar de seus desejos mais culturais, de alcançar o estatuto de ciência objetiva, cabendo perguntar se, mudando os postulados semânticos da linguística estrutural e das antropologias estruturais que dela derivam, não se pode fazer progredir o saber semântico, ainda que seja preciso renunciar ao modelo epistemológico da objetividade física para pilotar a pesquisa e trocá-lo, ou talvez voltar a ele, como diz Chomsky, por um modelo de arte subjetiva, abandono metodológico que a eficácia da compreensão parece legitimar.

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