Alegoria
“Alegorismos e evemerismo”, ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. Pola Civelli. São Paulo: Perspectiva, 2000.
Mais do que uma crítica devastadora do mito, é uma crítica a qualquer mundo imaginário, empreendida em nome de uma psicologia simplista e de um racionalismo elementar. Não obstante, a mitologia de Homero e de Hesíodo continuava interessando as elites de todo o mundo helenístico. Os mitos, entretanto, não eram mais compreendidos literalmente: procurava-se neles agora “significações ocultas”, “subentendidos” (hyponoiai; o termo allegoria foi empregado mais tarde). Teágenes de Rhegium (floruit c. 525) já havia sugerido que, em Homero, os nomes dos deuses representavam quer as faculdades humanas, quer os elementos naturais. Mas foram sobretudo os estóicos que desenvolveram a interpretação alegórica da mitologia homérica e, em geral, de todas as tradições religiosas. Crisipo reduziu os deuses gregos a princípios físicos ou éticos. Nas Quaestiones Homericae de Heráclito (1° século A. D.), encontramos toda uma coleção de interpretações alegóricas: por exemplo, o episódio mítico em que Zeus encadeia Hera significa na realidade que o éter é o limite do ar, etc. O método alegórico foi empregado por Filon para decifrar e ilustrar os “enigmas” do Antigo Testamento.
Como veremos mais adiante, um certo alegorismo, particularmente a tipologia (ou seja, a correspondência entre os dois Testamentos), foi utilizado pelos Padres, sobretudo por Origenes.
Segundo alguns eruditos, a alegoria jamais foi muito popular na Grécia, tendo obtido maior êxito em Alexandria e em Roma. Não resta dúvida de que as diferentes interpretações alegóricas, “salvaram” Homero e Hesíodo aos olhos das elites gregas e permitiram que os deuses homéricos conservassem um alto valor cultural. A salvação do panteão e da mitologia homéricos não se deve únicamente ao método alegórico. Em princípios do século III a. C., Evêmero publicou um romance sob forma de viagem filosófica, História Sacra (Hicra anagraphe), que alcançou um êxito imediato e considerável. Ênio traduziu-o para o latim; foi esse, efetivamente, o primeiro texto grego a ser traduzido para esse idioma. Evêmero acreditava haver descoberto a origem dos deuses: estes eram antigos reis divinizados. Aí estava mais uma possibilidade “racional” de conservar os deuses de Homero. Esses deuses tinham agora uma “realidade”: realidade de ordem histórica (mais exatamente, pré-histórica); seus mitos representavam a reminiscência confusa, ou transfigurada pela imaginação, dos gestos dos reis primitivos.
Esse alegorismo ao inverso teve amplas repercussões, insuspeitadas por Evêmero e Ênio, e mesmo por Lactâncio e outros apologistas cristãos, quando estes últimos se basearam em Evêmero para demonstrar a humanidade e, portanto, a irrealidade, dos deuses gregos. Graças ao alegorismo e ao evemerismo, graças sobretudo ao fato de toda a literatura e todas as artes plásticas se terem desenvolvido em torno dos mitos divinos e heróicos, os deuses e her4is gregos não ficaram relegados ao esquecimento após o longo processo de desmitificação, nem após o triunfo do cristianismo.
Ao contrário, como Jean Seznec demonstrou em seu excelente livro The Survival of the Pagan Gods, os deuses gregos, evemerizados, sobreviveram durante toda a Idade Média, embora tivessem perdido suas formas clássicas e estivessem camuflados sob os mais inesperados disfarces. O “redescobrimento” da Renascença consiste sobretudo na restauração das formas puras, “clássicas”.
E foi efetivamente por volta do fim da Renascença que o mundo ocidental compreendeu que não existia mais a possibilidade de reconciliar o “paganismo” greco-latino com o cristianismo; ao passo que na Idade Média, a Antiguidade não era considerada um “meio histórico distinto, um período encerrado”.
Assim, uma mitologia secularizada e um panteão evemerizado puderam sobreviver e se converteram, a partir da Renascença, em objeto de investigação científica, e isso porque a Antiguidade agonizante não mais acreditava nos deuses de Homero nem no sentido original de seus mitos. Pelo fato de não estar mais carregada de valores religiosos viventes, essa herança mitológica pôde ser aceita e assimilada pelo cristianismo. Ela se convertera num “tesouro Cultural”.
Em última análise, a herança clássica foi “salva” pelos poetas, pelos artistas e filósofos. Desde o fim da Antiguidade,— quando não eram mais tomados ao pé da letra por nenhuma pessoa culta — os deuses e seus mitos foram transmitidos à Renascença e ao século XVII, pelas obras, pelas criações literárias e artísticas.
