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Mito e Tempo
SOUSA, Eudoro de. Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo. Lisboa: Imprensa Nacional, 2002.
- A inverossimilhança mais notável dos três mitos indonésios analisados é a de referirem “homens” que existiram antes de existirem os homens tais como efetivamente são — mortais e capazes de se reproduzir —, condição que só se estabelece ao final dos mitos de Hainuwele e Satene.
- Aristóteles falou de “inverossimilhança verossímil” a propósito do mito trágico; aqui se trata de uma “inverossimilhança inverossímil”.
- A mortalidade e a reprodução biológica não têm sentido razoável uma sem a outra, o que facilita sua entrada nos hábitos de pensamento comum.
- A hipótese de deficiência lexical indígena é admissível, mas improvável: os Cerameses ocidentais sabiam o que diziam, usando uma mesma palavra para entes do in illo tempore e do in hoc tempore.
- Traduzir por “deuses” os homens de outrora desfiguraria completamente a religião daqueles agricultores primitivos.
- O “outrora” (in illo tempore) e o “agora” (in hoc tempore) não se situam na mesma linha temporal percorrível: o “outrora” está a uma distância subitamente impossível de percorrer, sendo outra hora, não esta hora.
- Nas linguagens modernas, “outrora” aponta para distância indefinida, mas ainda supostamente percorrível por regressão e progressão.
- A palavra “hora”, em grego e em latim, significa estação — estado de repouso e imobilidade —, significado que mal se ajusta à metáfora espacial do tempo que “corre” ou aos instrumentos que o medem.
- A areia da ampulheta e as engrenagens do relógio não cessam de mover-se, revelando um tempo que não para, o que impede identificar o “outrora” com qualquer estação de repouso.
- A imagem móvel da eternidade, segundo Platão, é o tempo — mas a tentação platônica deve ser resistida aqui.
- Identificar o “outrora” mítico com a eternidade seria mais obstrutivo do que esclarecedor, pois o acontecer mítico é incompatível com o eterno-indiferenciado em que passado, presente e futuro seriam indistintos.
- Da eternidade só se pode dizer que nela o “foi”, o “é” e o “será” são indiferenciados — e mesmo esse pouco, aplicado aos mitos, conduziria a um vácuo de entre-ideias que não são as de ninguém.
- O “outrora” mítico é o tempo em que as coisas e as palavras acontecem, e o acontecimento fundamenta diferenças: a diferença do que foi e do que é.
- Tudo aconteceu “outrora”, e o que acontece “agora” é apenas repetição do que aconteceu.
- A celebração ritual — como a dança Maro — não é comemoração, que traz o passado ao presente, mas o querer repor o “agora” no “outrora”: o tempo em que nada acontece no outro tempo em que tudo aconteceu.
- A história busca origens e encontra o originado; a religião pretende religar o que, no dia a dia, parece cada vez mais desligado — não o presente do passado, mas o originado da origem.
- O “outrora” é o tempo das origens e o “agora” o tempo do originado, mas esses dois tempos não se encontram na mesma linha em que um começa onde o outro acaba.
- A linha do “outrora” corre paralelamente à linha de todos os “agoras” — passados, presentes e futuros.
- O “outrora” é um ponto de acumulação de todos os acontecimentos e o limite de todos os pontos “agora”, portanto um limite imposto a todo o historiável.
- Foi o tempo em que se deu a Fulguração Ofuscante, criadora de uma cultura.
- O mito começa e termina in illo tempore, decorrendo em tempo indeterminado e indeterminável, o que o impede de ser identificado com o passado historiável sem cair numa cilada.
- A contradição de Satene e Hainuwele falarem de “homens que existiram antes dos homens” é relativa ao fato de que, em outros mitos, deuses ocupariam o lugar que esses homens ocupam.
- O único aceno indiscutível à transcendência teística aparece no início do mito de Satene (B), pela menção de Duniai, criador do mundo, cuja criação nada mais consta além do nome.
- Os personagens que intervêm ativamente nos mitos cerameses são “homens adiados”: só virtualmente humanos, pois no fim se submeterão à morte e à reprodução, convertendo-se em homens plenos por meio de um “deicídio” coletivo.
- A ausência de palavra para “deuses” levou missionários à ilusória conclusão de que existiam povos sem religião alguma.
- O padre Joseph Goetz, professor de História das Religiões, designou essa religião — irreligiosa do ponto de vista teístico — pela palavra “cosmobiologia”.
- O nascimento das plantas tuberosas comestíveis dos membros espalhados de Hainuwele significa que o deicídio primordial deu lugar à existência do mundo, tornando supérfluo o ato criador de Duniai.
- Nas altas civilizações mesopotâmicas, afirma-se expressamente que o mundo nasceu de um deicídio — o despedaçamento do cadáver da deusa Tiamat por Marduk, assistido por outros deuses.
- Em Ceram, Nova Guiné, América do Sul e outros lugares, fala-se de entes humano-divinos — divindades-dema, segundo Jensen — cuja morte outrora perpetrada deu origem a coisas valiosas que existem no mundo desde então, subsistindo agora apenas na e pela existência dessas coisas.
- Numa etapa posterior, o mundo inteiro, composto de Céu e Terra, vive da morte de um Deus, mas os deuses continuam existindo no mundo assim originado, influindo na vida dos homens e dos entes naturais.
- Não é fácil reconhecer uma religião onde se trata apenas do cultivo da mandioca, do coqueiro, do arroz, do milho, do trigo ou de outros frutos comestíveis, e de danças prolongadas e aparentemente desordenadas cuja intenção se ignorava inteiramente.
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