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IMAGINAL

JAMES HILLMAN. PAN AND THE NIGHTMARE. THOMPSON, CONN: SPRING PUBLICATIONS

  • Para apreender Pã como natureza é preciso primeiro ser apreendido pela natureza — tanto “lá fora”, num campo vazio que fala em sons e não em palavras, quanto “aqui dentro”, numa reação de sobressalto — e falar de “personificação” faz injustiça ao deus, pois implica que o homem fabrica os deuses e que a natureza é um campo abstrato e impessoal de forças.
    • D. H. Lawrence foi quem melhor recriou esse Pã.
    • A forma demoníaca de Pã transforma o conceito “natureza” num choque psíquico imediato.
  • A tradição filosófica ocidental, desde seus começos nos Pré-Socráticos e no Antigo Testamento, foi marcada por um preconceito contra as imagens (phantasia) em favor das abstrações do pensamento, e desde Descartes e o Iluminismo a conceituação passou a predominar.
    • A tendência da psique de personificar foi desdenhosamente rebaixada como antropomorfismo — pensar em imagens subjetivas, pessoais e sensuais equivalia a pensar de modo animista, primitivo e pré-lógico.
    • Contudo, a experiência dos deuses, heróis, ninfas, demônios, anjos, poderes, animais sagrados, lugares e coisas como pessoas precede o conceito de personificação — não é o homem que personifica, mas as epifanias que chegam como pessoas.
  • Se fosse possível recuar dos próprios tempos e sair das pretensões do ego temeroso que quer colocar cada átomo da natureza sob seu controle, poderia se perceber que não se é a fonte dos deuses personificados — eles não são inventados, assim como não se inventam os sons ouvidos nos bosques, as pegadas na areia ou o peso do pesadelo sobre o peito.
    • Por milênios e em quase todo lugar, era palpavelmente evidente que figuras divinas e daimônicas apareciam como pessoas.
    • A Weltanschauung científica, com seu corte entre observador e observado, separou o ser humano dessa evidência, e o testemunho das aparições tornou-se pensamento mágico, crença primitiva, superstição, insanidade.
  • A erudição clássica, seduzida pelo método reducionista da ciência, apressou-se a explicar essas aparições como “projeções” e “ilusões” fabricadas “inconscientemente” pelo perceptor — como exemplifica a explicação de Philippe Borgeaud sobre o encontro direto de Fidípides com Pã.
    • Fidípides, ao retornar de Maratona a Atenas em sua terceira jornada de corrida ininterrupta, teria encontrado Pã — e Borgeaud explica o encontro como “apenas uma projeção de seu desejo”.
    • Assim como o pesadelo deve derivar de indigestão ou de um cobertor pesado, Pã deve derivar de uma disfunção física durante uma corrida maratônica — aqui a erudição não apenas falha em relação a seu objeto, como nega a autoridade do próprio texto que pretende explicar.
    • Heródoto afirma que Pã irrompeu sobre Fidípides, gritou seu nome e lhe deu uma mensagem crucial que salvou Atenas; os líderes de Atenas acreditaram em Fidípides, venceram a batalha e instituíram o Culto de Pã em Atenas.
  • Charles Boer, em sua crítica brilhante, exaustiva e devastadora da falsificação reducionista do “que realmente aconteceu”, escreve:
    • “Esse foi um dos maiores momentos da história da civilização ocidental — essa aparição de um deus de pés de bode na véspera de uma batalha que transformou o mundo, sua mensagem de ajuda fazendo uma diferença momentosa no curso dos eventos que levaram à salvação da própria democracia. É apenas que hoje ninguém — especialmente os mitólogos profissionais — tem permissão, pelas crescentes restrições da disciplina, de levar a história a sério.”
    • “Pode-se tomar a presença de Pã na véspera de Maratona 'psicologicamente' (de muitas maneiras), pode-se tomá-la 'simbolicamente', pode-se até tomá-la 'historicamente' de modo tortuoso — mas não se pode tomá-la a sério.”
    • “As pessoas do outro lado da Grécia do século V eram, é claro, privilegiadas — e privilegiavam! — tomar Pã como a esplêndida realidade imaginal que ele era. As figuras imaginais eram 'visíveis' para elas, ouvidas por elas, tocadas por elas. Elas não estavam, pelo menos a seus próprios olhos, 'inventando isso'.”
  • O que se aprende com Roscher, apesar de si mesmo, é que as figuras do pesadelo não são uma remontagem de qualidades aterrorizantes — não são personificações post hoc de sensações das roupas de cama, mas pessoas vividamente reais.
    • Roscher tendia a conceber Pã como uma encarnação composta das qualidades ásperas e aterrorizantes da natureza, tal como suas ninfas encantadoras eram visões da sedução terna e lírica da natureza — mas essa estrutura conceitual, retirada da psicologia associacionista empírica, não se coaduna com o que ele descobriu nos relatos empíricos sobre os demônios do pesadelo.
  • Dilthey insistia que a personificação era essencial para a compreensão humanística — em contraposição à explicação científica, cujo método exige conceituação e definição.
    • Lou Andreas-Salomé, seguindo Dilthey, instou Freud a manter esse método de procedimento essencial para avançar a psicanálise como psicologia humanística e não científica.
    • Jung construiu sua psicologia sobre os arquétipos — que, embora descritíveis conceitualmente, são experienciados e até nomeados como pessoas — e foi contra a corrente de seu tempo ao defender as imagens como dados primários da psique, tomando-as em seu nível sensorial e emocional, como fenômenos empíricos, e não como personificações de ideias abstratas.
    • A linguagem dos sonhos, das alucinações e delírios, e a linguagem popular falam em termos de pessoas — e assim deve falar uma psicologia que queira dialogar com a psique em seu próprio idioma.
    • O monógrafo de Roscher — ao enfatizar a pessoa de Pã — contribui para a redescoberta do imaginal que veio a ser conhecida como psicologia do inconsciente.
  • Um grito percorreu a Antiguidade tardia — “O Grande Pã está morto!” —, relatado por Plutarco em “Sobre o Fracasso dos Oráculos”, e esse dito tornou-se ele mesmo oracular, significando muitas coisas para muitas pessoas em muitas épocas.
    • O que foi anunciado: a natureza havia sido privada de sua voz criativa — ela não era mais uma força vivente e independente de geração; o que tinha alma, a perdeu.
    • Com Pã morto, Echo também morreu — não se podia mais captar a consciência por meio do reflexo dentro dos instintos, que perderam sua luz e cederam facilmente ao ascetismo, seguindo docilmente seu novo pastor, Cristo, com seu novo estilo de cuidado administrado.
    • Quando Pã está vivo, a natureza também está, repleta de deuses — o pio da coruja é Atena e o molusco na praia é Afrodite; esses fragmentos de natureza não são meros atributos ou pertences, mas os próprios deuses em suas formas biológicas.
  • Com Pã morto, a natureza pode ser controlada pela vontade do novo deus — o homem, modelado à imagem de Prometeu ou Hércules —, que dela extrai e nela polui sem uma consciência perturbada.
    • Hércules, que limpou o mundo natural de Pã primeiro — golpeando o instinto com sua força de vontade —, não para para remover as carcaças despedaçadas deixadas para se putrefazer após suas tarefas civilizatórias e criativas; avança para a próxima tarefa e para a loucura final.
    • À medida que o humano perde a conexão pessoal com a natureza personificada e o instinto personificado, a imagem de Pã e a imagem do Diabo se fundem — Pã nunca morreu, dizem muitos comentadores de Plutarco, ele foi reprimido.
  • O pesadelo dá a chave para a reaproximação com a natureza perdida e morta — nele, a natureza reprimida retorna tão próxima e tão real que não se pode deixar de reagir a ela naturalmente, tornando-se completamente físico, possuído por Pã, gritando por luz, conforto e contato.
    • A reação imediata é a emoção demoníaca — o ser é devolvido pelo instinto ao instinto.
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