2.1 Organização consciente das imagens
THOMAS, Joël. Structures de l’imaginaire dans l’Enéide. Paris: Belles Lettres, 1981
Parte II Símbolos da ascese heroica
Capítulo I
Reflexões sobre os princípios fundamentais da organização consciente das imagens
1. A Eneida não se reduz a um universo de ambiguidade e contingência, pois as aventuras de Eneias são orientadas por sinais que revelam a necessidade dos acontecimentos e a inserção de sua história individual em uma continuidade mais ampla, exigindo uma interpretação das imagens que ultrapasse sua dimensão afetiva.
O princípio da integração e da transformação das imagens em símbolos
1. A maioria das imagens da Eneida integra sistemas de valores que se contrapõem à experiência do informe e da descontinuidade, pois os presságios orientam a viagem, os movimentos de ascensão e progressão substituem a queda e o afundamento, e determinadas associações de cores e luz constituem uma harmonia simbólica.
2. Uma mesma imagem pode apresentar significações diferentes ou opostas conforme sua posição no poema, evidenciando que seu sentido depende das relações simbólicas em que se insere.
3. As serpentes negras que atormentam Dido e a serpente de escamas douradas e reflexos semelhantes aos do arco-íris pertencem a universos simbólicos distintos, demonstrando que a imagem da serpente pode receber valores opostos.
4. A caverna iniciática do livro VI se distingue das cavernas anteriormente associadas a forças inquietantes, pois sua obscuridade prepara a revelação em vez de representar as trevas da ignorância.
5. Os animais que funcionam como sinais orientadores da missão de Eneias possuem uma significação diferente daqueles que exprimem o temor da violência e da bestialidade.
6. O círculo pode simbolizar tanto a vertigem que submerge os indivíduos quanto a harmonia e a perfeição atribuídas ao movimento circular pela tradição pitagórica.
7. A água corrente, associada nas torrentes ao desencadeamento das forças instintivas, adquire no Tibre uma função reveladora, tanto pelas palavras dirigidas ao herói quanto pela subida do rio, que inverte simbolicamente o curso natural das coisas.
8. A ambivalência se manifesta com tamanha frequência que praticamente toda imagem importante participa de universos opostos, tornando indispensável considerar suas diferentes inserções simbólicas.
Ampliação à noção de estrutura do imaginário
1. Quanto mais fundamental é um símbolo, maior tende a ser a diversidade de suas significações, como demonstra a noite, cuja participação em três universos simbólicos corresponde ao regime diurno e às modalidades sintética e mística do regime noturno, permitindo reconhecer diferentes relações entre o eu e as imagens que produz.
2. No contexto de um mito diurno, a mulher, a noite, a mãe e a gruta representam tentações que ameaçam a integridade do herói, como no episódio de Dido, em que o vínculo, a mácula e as exalações sombrias se contrapõem à arma que separa, à purificação iniciática e ao ar vivificante acompanhado pela aurora.
3. Quando o mundo noturno exprime uma percepção subjetiva e instintiva, ele adquire uma autonomia frágil e sedutora, tornando-se o centro de um retorno ao ventre materno e recebendo valor como manifestação de uma experiência psicológica efetiva.
4. Integrado a uma busca metafísica, o símbolo noturno se torna parte necessária de uma totalidade que o transcende, de modo que a descida aos Infernos e os encontros com Deífobo e Dido transformam o passado e as tentações de Eneias em condições de regeneração, enquanto Dido e Turno passam a constituir elementos complementares de sua maturação espiritual.
5. Os regimes do imaginário organizam uma oposição entre o esforço heroico e a atração regressiva exercida pelas zonas obscuras da consciência, mas a compreensão dessa oposição exige considerar reciprocamente seus dois polos, sem privilegiar isoladamente a ordem moral ou o universo das trevas.
Limites de tal teoria e proposta de um sistema original
1. A classificação antropológica das imagens oferece uma referência consistente para reconhecer a organização simbólica da Eneida e estabelecer suas principais modalidades.
2. As três séries de imagens distinguidas nessa classificação encontram correspondência no poema virgiliano.
3. As imagens simbólicas se organizam em dois universos antagônicos, relacionados, de um lado, à construção, à firmeza e à progressão e, de outro, à regressão e ao engolfamento.
4. A reunião do noturno sintético e do noturno místico em um único regime se mostra pouco adequada à Eneida, pois as imagens de síntese e progressão pertencem a uma orientação oposta àquela das imagens de abandono e retorno ao ventre materno.
5. Os esquemas diurnos e os esquemas sintéticos apresentam correspondências que permitem reuni-los em uma atitude heroica mais ampla, na qual a ação guerreira e a compreensão iniciática dos mistérios constituem modalidades complementares de uma busca espiritual, contraposta à sedução regressiva do universo noturno.
6. A interpretação dos romances iniciáticos de Jules Verne permite relacionar as três modalidades do imaginário às etapas sucessivas de uma iniciação, reduzindo a importância de uma oposição rígida entre o diurno e o noturno.
7. O regime esquizomorfo corresponde à separação inicial em relação ao mundo profano, estabelecendo a ruptura necessária ao percurso iniciático.
8. O regime místico corresponde à fase em que o iniciado se funde com a Terra-Mãe, experimentando uma integração que suspende a separação anterior.
9. O regime sintético corresponde à superação das tensões e à conquista de uma nova coesão, na qual os estados precedentes se reorganizam.
10. A contribuição essencial dessa interpretação consiste em ultrapassar a divisão entre diurno e noturno em favor de uma dialética capaz de explicar o movimento iniciático.
11. Uma classificação ajustada à Eneida deve distinguir o universo heroico do universo noturno regressivo, reunindo no primeiro as modalidades guerreira e iniciática que a divisão tradicional distribui entre regimes diferentes.
12. A complementaridade e a hierarquia entre a orientação guerreira e a orientação heroica e gnóstica confirmam a necessidade dessa reorganização.
13. As imagens das armas, do combate e do sol reafirmam uma ordem metafísica e social, sustentando a coragem dos personagens quando a revelação ainda é insuficiente ou as dificuldades ameaçam sua perseverança, de modo que sua rigidez ritual assume uma função positiva de conservação dos valores e fortalecimento da fé heroica.
14. As imagens sintéticas integram componentes aparentemente antagônicos em uma realidade que os ultrapassa, correspondendo à busca criadora de Eneias e à tradição pitagórica que distingue a dualidade conflituosa da harmonia, atribuindo ao ritmo ternário uma função de transmutação cuja continuidade histórica torna plausível sua influência sobre a elaboração virgiliana.
15. O ritmo ternário e a síntese constituem, na tradição antiga, fundamentos de representações orientadas pela integração dos antagonismos e pela progressão, oferecendo uma estrutura adequada aos relatos iniciáticos.
16. Uma organização sintética e progressiva corresponde ao percurso da Eneida como emergência do informe e busca do essencial, embora sua presença efetiva deva ser demonstrada na composição do poema.
A arquitetura da Eneida corrobora as hipóteses
1. A estrutura dos doze livros oferece indícios de uma organização ternária dotada de significado iniciático, na qual os livros I–IV correspondem à conquista do domínio de si, os livros V–VIII à revelação do destino de Roma e os livros IX–XII à realização desse conhecimento na ação, transformando a duração em um instrumento da maturação espiritual e conferindo ao ritmo do poema uma harmonia que ultrapassa a divisão numérica convencional.
2. A convergência das interpretações da arquitetura da Eneida permite estender o princípio da complementaridade dos contrários à organização das imagens, concebendo cores, animais, relações entre personagens e outros motivos como componentes de uma rede diversificada de correspondências regida por uma estrutura unificadora.
Daí decorre uma teoria original da imitação
1. Os numerosos empréstimos à Ilíada e à Odisseia não eliminam a originalidade virgiliana, pois as semelhanças pontuais permanecem superficiais diante da diferença entre as estruturas profundas dos respectivos universos.
2. A disposição afetiva de Virgílio se distingue da homérica porque a violência se torna uma obsessão inquietante e a contemplação da natureza recebe uma importância maior do que a adesão à ação por si mesma.
3. A construção simbólica da Eneida pertence a uma cultura filosófica e religiosa transformada pelo pensamento alexandrino e pelas especulações escatológicas orientais, cuja elaboração sistemática exige uma interpretação diferente daquela aplicável aos poemas homéricos, sem que essa diferença implique estabelecer uma superioridade mensurável entre os poetas.
Apresentação e justificação do plano da segunda parte
1. A investigação das estruturas antitéticas e sintéticas permite compreender a transformação das imagens em um conjunto simbólico orientado para dominar o informe e restaurar a harmonia, distribuindo essa análise em cinco categorias que retomam, em outro nível, séries anteriormente consideradas em sua dimensão afetiva.
2. A primeira categoria corresponde à descoberta, pelos personagens, de uma nova leitura do real, na qual sinais e símbolos revelam a orientação do universo e conduzem a atenção para uma ordem significativa.
3. As demais categorias localizam essas estruturas em séries de imagens suficientemente abrangentes para reunir os principais conjuntos simbólicos da criação virgiliana.
4. As relações entre os personagens se organizam em torno de Eneias segundo um princípio de complementaridade, fazendo da psicologia heroica o centro de uma estrutura cuja influência se estende às demais dimensões do universo simbólico.
5. O espaço e o tempo constituem categorias fundamentais do universo heroico, permitindo representar os ritmos essenciais progressivamente reconhecidos pelos personagens.
6. As cores deixam de ser consideradas principalmente como expressões afetivas ou efeitos de contraste e passam a integrar uma harmonia simbólica, particularmente evidente em cenas decisivas da Eneida.
7. A simbologia dos números adquire sua significação mais ampla ao integrar-se a um simbolismo zodiacal, no qual reaparecem os ritmos fundamentais da organização metafísica e heroica do poema.
