2.2 A simbologia da atenção
THOMAS, Joël. Structures de l’imaginaire dans l’Enéide. Paris: Belles Lettres, 1981
Parte II Símbolos da ascese heroica
Capítulo II
Uma atitude preliminar: a simbologia da atenção
1. Eneias desenvolve uma técnica de transformação do olhar que lhe permite ultrapassar as reações afetivas e a descontinuidade angustiante dos acontecimentos, suspendendo momentaneamente a ação para observar, refletir e reconhecer o sentido oculto das coisas, de modo que a espera e a serenidade se tornam condições de acesso à verdade e de recepção da mensagem divina.
2. A busca de unidade e estabilidade constitui uma preparação indispensável à realização heroica, manifestada pela simbologia da espera e da atenção como disciplina destinada a dominar o estado instintivo e a modificar progressivamente o comportamento de Eneias.
3. Essa transformação distingue Eneias de seu comportamento anteriormente dominado pelas reações afetivas, revelando uma mudança na maneira de relacionar-se com o mundo.
4. Essa transformação também distingue Eneias de seus companheiros, evidenciando uma exigência pessoal que não se distribui igualmente entre os integrantes do grupo.
5. A observação das modalidades dessa atitude permite esclarecer tanto a diferença entre Eneias e uma humanidade comum quanto a existência de uma evolução efetiva de sua personalidade.
6. A frequência e o rigor das imagens da atenção afastam a interpretação da fraqueza como característica constante de Eneias, pois revelam uma ascese heroica que prepara o desenvolvimento de sua personalidade.
7. A concentração, a meditação e a reflexão sobre a ação amadurecem ao longo do poema, contrariando a hipótese de que Eneias permanece psicologicamente inalterado entre o desespero inicial e a morte de Turno.
A simbologia da atenção
1. A atenção heroica se desenvolve segundo duas modalidades complementares, relacionadas à percepção do mundo exterior e à organização da vida interior.
2. A escuta do mundo exterior permite interpretar sinais que rompem a banalidade da experiência e manifestam o divino, oferecendo encorajamento e conhecimento, como no auxílio das pombas à descoberta do ramo necessário à revelação do livro VI.
3. A atenção voltada ao exterior depende de uma disciplina interior de concentração que prepara a recepção dos sinais externos e das manifestações psíquicas, como os sonhos, enquanto a meditação confere sentido às imagens recebidas.
A atenção extrovertida
1. A percepção das manifestações divinas no universo profano se organiza em quatro categorias principais de sinais.
2. Os prodígios revelam a presença do sobrenatural e distinguem os indivíduos favorecidos por uma eleição daqueles sobre os quais pesa uma maldição.
3. As aparições divinas exigem reconhecimento por parte dos mortais, como no encontro de Eneias com Vênus sob a aparência de uma jovem cartaginesa.
4. As previsões de curto prazo anunciam, de maneira mais ou menos enigmática, os acontecimentos reservados a Eneias.
5. As previsões de longo prazo revelam o futuro de Roma, inserindo a missão individual do herói em uma continuidade histórica mais ampla.
6. A atenção exige uma consciência permanentemente vigilante, oposta à passividade de quem se abandona ao sono e às tendências naturais, como demonstra a reação imediata de Eneias à observação de Ascânio sobre as mesas consumidas, reconhecida como sinal de uma vontade transcendente.
A atenção introvertida
1. O discernimento entre sagrado e profano pressupõe um trabalho pessoal pelo qual Eneias se prepara para sua missão e procura ativamente o encontro com a divindade, reunindo comportamentos dispersos em uma técnica coerente de concentração mental.
O domínio das paixões e a eliminação do “velho homem”
1. O domínio progressivo das paixões permite a Eneias ultrapassar as zonas instintivas, conter a dor afetiva diante de Dido, submeter a conduta guerreira à justiça e disciplinar os apetites pela frugalidade e pela continência, enquanto sua solidão conjugal assume a significação de uma autonomia espiritual fundada no equilíbrio das tendências masculinas e femininas de seu psiquismo.
2. A resistência de Eneias à dor física constitui uma vitória consciente da vontade, pois o sofrimento permanece intensamente sentido e reconhecível em sua dificuldade de mover-se, sem ser simplesmente apagado pela excitação do combate.
O domínio do tempo
1. A superação do “velho homem” se prolonga na capacidade de transformar o tempo do sono e do relaxamento em preparação para a reflexão e a revelação, distinguindo o repouso comum daquele de Eneias, cujo recolhimento sucede ao cumprimento dos deveres e prepara um despertar espiritual.
2. A meditação, presente desde o início da ação, permite inverter a significação ameaçadora da noite e convertê-la em ocasião de revelação, demonstrando que Eneias pode superar a influência perturbadora da natureza sobre sua afetividade e ultrapassar a mera percepção instintiva.
3. A solidão deixa de significar apenas abandono e se torna uma condição fecunda de maturação espiritual, pois o afastamento das solicitações exteriores favorece a meditação e prepara os encontros noturnos com a força divina.
4. A perseverança constitui a modalidade ativa do domínio do tempo, permitindo vencer o desânimo e transformar a duração em condição da busca heroica, enquanto o afastamento dos combates durante a viagem a Palanteu favorece a preparação estratégica e a recuperação interior em uma atmosfera propícia à meditação.
5. A experiência e a reflexão permitem a Eneias reinterpretar o passado, antecipar as provações futuras e reconhecer sua predestinação, organizando a ação segundo orientações duradouras e evitando a dispersão de energia em empreendimentos condenados.
Os suportes de meditação
1. Os símbolos encontrados no percurso de Eneias orientam a reflexão e tornam inteligível sua missão, fazendo do cenário da ação um espaço de realização no qual reconhecer significa compreender a relação entre os acontecimentos humanos e a arquitetura sagrada do mundo.
2. Certas representações recebem uma atenção particularmente intensa porque funcionam como suportes de meditação, favorecendo a reflexão sobre o significado dos episódios vividos.
3. As imagens da destruição de Troia no templo cartaginês convidam à reconsideração do passado e despertam pela primeira vez uma esperança de salvação, constituindo um acontecimento decisivo no desenvolvimento interior de Eneias.
4. As representações do labirinto no início do livro VI antecipam as dificuldades da iniciação e atraem os troianos a uma contemplação prolongada, interrompida apenas pelo chamado às exigências imediatas.
5. A narrativa de Hércules e Caco oferece a Eneias um exemplo de enfrentamento entre forças positivas e negativas, conferindo ao episódio uma função meditativa que ultrapassa a aparência de digressão.
6. O escudo, com sua geometria e seus círculos concêntricos, funciona como um suporte comparável ao mandala, orientando a meditação sobre o futuro de Roma e oferecendo ao herói um auxílio continuamente presente durante a guerra.
7. Essas atitudes compõem uma ascese destinada a inverter a experiência banalizada e recuperar o verdadeiro valor das coisas, distinguindo deliberadamente Eneias da humanidade comum mediante um esforço constante e difícil de preparação para o despertar revelador.
A progressão da faculdade de atenção do herói
1. A distribuição dessas atitudes pelos doze livros revela um domínio crescente da técnica de atenção, acompanhado pela conquista de autonomia e pela perda sucessiva dos guias terrestres, como Anquises, Palinuro e Caieta.
2. No livro II, Eneias permanece dominado pela cólera, pelo desejo de vingança, pelo horror e pela tentação da morte, oscilando entre violência e renúncia como uma criatura perseguida, de modo que a intervenção reiterada dos deuses impede seus erros irreparáveis.
3. No livro III, a procura de sinais representa um avanço em relação ao desamparo anterior, mas as interpretações equivocadas de Anquises, os oráculos incompletos e a previsão inquietante de Celeno revelam uma maturidade ainda insuficiente, enquanto Eneias recebe a orientação dos Penates sem assumir plenamente sua interpretação.
4. No livro I, posterior ao livro III na cronologia dos acontecimentos, Eneias assume a responsabilidade espiritual após a morte do pai, mas permanece desorientado diante da tempestade e da aparição de Vênus, encontrando nas imagens do templo de Juno o primeiro impulso decisivo para uma esperança renovada.
5. No livro IV, Eneias demonstra maior segurança e supera sua falta após a advertência divina, enquanto os comentários retrospectivos sobre a queda de Troia revelam uma reflexão mais madura, embora a obsessão pela destruição da cidade ainda exija a transformação proporcionada pela descida aos Infernos.
6. No livro V, a oração diante do incêndio das embarcações obtém a intervenção divina que faltara durante a tempestade inicial, exprimindo uma fé mais firme pela disposição de submeter à justiça de Júpiter tanto os méritos adquiridos quanto a possibilidade de sua própria condenação.
7. Após a revelação dos Infernos, Eneias manifesta uma transformação ontológica que lhe permite conduzir ações positivas e interpretar autonomamente os sinais do destino, como no reconhecimento da profecia das mesas consumidas.
8. Nos livros seguintes, o conhecimento se concretiza na organização da ação e culmina na capacidade de orientar espiritualmente o povo, transmitindo a disciplina, a perseverança e a atenção que sustentaram sua própria experiência, de modo que a verdadeira glória se identifica com uma realização espiritual amadurecida.
9. No livro XII, a serenidade de Eneias contrasta com a inquietação de Turno, cuja coragem permanece sem orientação e reproduz o desamparo anteriormente superado pelo troiano, evidenciando a dimensão adicional conquistada por aquele que completou o percurso heroico.
10. A última oração de Eneias manifesta sua experiência íntima de uma harmonia fundada na complementaridade entre Sol e Terra, Céu e Mar, Júpiter e Juno, e sua firmeza serena contrasta simetricamente com as primeiras palavras de desespero pronunciadas em meio à tempestade.
11. A personalidade de Eneias se transforma pela integração hierárquica dos afetos em uma realização espiritual que preserva o amor, a solidariedade e o altruísmo, ultrapassando a simples justaposição entre sensibilidade humana e dever heroico, enquanto Turno e Dido permanecem presos a disposições passionais que limitam sua evolução, inclusive além da morte.
12. A preparação pela atenção conduz à investigação das constantes do universo heroico nas relações psicológicas, no espaço e no tempo, nas cores e nos números, categorias complementares pelas quais se manifestam os esquemas fundamentais que organizam a Eneida.
